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É sempre assim às segundas-feiras. Recebemos o Martim de Sousa Tavares na tarde em directo para um "Encontro com a Beleza". Olá, Martim.
É verdade, grandes malucos da música clássica.
É verdade. Cada vez gosto mais do genérico do "Encontro com a Beleza".
A sério?
Sim, não gostas? Sim, eu também. Dá uma boa sensação. Estou mais bem vestido sempre que ouço aquilo. Tenho uma bengala e uma coisa na cabeça que eu não sei muito bem o que é, mas é esse o ar que me dá sempre que ouço aquela música.
Tomo boa nota, como se diz. Pode ser que um dia eu traga aqui.
Fiquei muito curioso com a tua proposta para o "Encontro com a Beleza" de hoje: música para golfinhos.
É verdade.
Porquê?
Porque tive muito bom feedback quando fizemos o episódio sobre a viola, que eu disse que era serviço público, e as pessoas disseram: "Dá-nos mais, queremos fazer boa figura com essas coisas". E eu disse: "Bom, então está bem, vou dar-vos mais".
Em jantares de amigos que precisamos de desenvencilhar de conversa. Sim, quero saber o que é uma viola de arco.
Exatamente. Para os vossos cocktails, agarrem agora num bloco de notas. Vou vos falar de uma coisa que vos vai fazer passar por verdadeiros entendidos, sem ser, na verdade, difícil, que é a arte da orquestração ou a arte da instrumentação, que é um campo fascinante da música e que está presente em toda a música, nem sequer só na música clássica, mas que nós não costumamos dar por ela. E para fazer aqui uma metáfora, para isto ser mais claro, digamos que a música tem dois ingredientes, no fundo, que é a melodia e a harmonia. A melodia é aquilo que fica no ouvido, a harmonia é aquilo que está na base. Isto é como se fosse o contorno de um desenho. Tu dizes: "Isto é uma paisagem", tu identificas o objecto, mas as cores com que tu vais depois colorir aquele desenho são a instrumentação, é quando tu escolhes os timbres, as sonoridades. A mesma canção pode ser piano e voz, pode ser guitarra e voz, pode ser harpa e voz.
Bela analogia. Obrigado.
De nada. E portanto, isto chama-se a orquestração, visto como escrever para orquestra, mas pode ser instrumentação, no caso de não haver uma orquestra, e é escolher os timbres, as sonoridades. Tal como na pintura, isto é riquíssimo, porque a pessoa escolhe não só as cores, mas escolhe o pincel, a textura, se vai óleo, se vai aguarela, se vai pastel, enfim, o que for. E é das minhas coisas preferidas, porque sinto que é onde os artistas verdadeiramente se revelam é nas sonoridades da sua própria música. E eu, pessoalmente, sempre adorei, quando estava a estudar, as disciplinas de orquestração. Agora, para chegarmos aos golfinhos. Onde eu gosto muito de ver a orquestração em ação é na música para cinema, normalmente, porque aí é que se vê a verdadeira sabedoria de quem tem uma orquestra à disposição e sabe exatamente quais são as sonoridades certas para cada tipo de situação. Desculpa, Martim. Força. E quem é que é responsável por esse departamento? É o próprio compositor? É o compositor. Exatamente. Tu podes até, e falo até por experiência própria, eu quando vou escrever qualquer coisa, vou para o piano e é lá que eu tenho as minhas ideias, é lá que eu faço o meu esboço, o meu desenhozinho. Quando vou depois colorir, aí já é uma coisa em que tens que usar aquilo que é o ouvido interior, que é tu conseguires imaginar as sonoridades daqueles instrumentos todos combinados.
Não dá para ligar aos amigos e dizer: "Toca aí".
Dizer: "Olha, tragam aqui, se faz favor, uma pandeireta, uma harpa e um órgão de tubos". Portanto, é um trabalho de imaginação. Exatamente. É uma coisa fascinante. E eu acho que no cinema, na animação, até na animação para crianças mesmo, estou a pensar no "Tom and Jerry", uma data de efeitos cómicos e coisas vêm de um bom uso da orquestração, saber que aquele instrumento tem aquelas possibilidades, mais elástico, mais colorido, mais tudo. E lembrei-me, para trazer aqui uma excentricidade, que uma das coisas onde eu mais adoro a banda sonora é nos documentários de vida selvagem, porque os compositores têm ali um desafio dificilíssimo, que é escrever a música para os caracóis, para as águias, para os macacos e para aquela bicharada toda, e aquilo tem que fazer sentido de alguma forma. E sabemos que as imagens em si são bonitas, mas depois hão de ter uma voz a narrar e tem que haver ali uma música para encher aquilo. E aqui eu acho que, de facto, os compositores revelam o seu génio. E por isso, hoje vamos ouvir a música de George Fenton, que é inglês, que escreveu a banda sonora do "Blue Planet" da BBC, que tem a voz do Sir David Attenborough, e que tem uma música incrível. E se calhar ouvímo-la, é a música para os golfinhos rotadores, e já cá voltamos.
"Spinning Dolphins" de George Fenton, para uma série da BBC, Blue Planet.
Não é melhor do que ir ao submarino?
Muito melhor, até porque estão em liberdade.
Exatamente.
O que eu achei muito curioso nesta música é que determinada altura, sim, claro, faz sentido com golfinhos chapinando as ondas, mas também podia ser o rei a receber a rainha na viagem medieval em Santa Maria da Feira.
De certa forma. Claro, eu disse que isto era sobre os golfinhos.
Uns sons quase que um bocadinho medievais.
Claro, se eu dissesse que isto era sobre os búzios, nós imaginávamos outra coisa. Seria até curioso, se quiserem, ouçam o disco todo que está no Spotify, podem escolher búzios, corais, raia, tartarugas, alforrecas, ver que tipos de música ele escreve para cada uma.
Super premiado ele também, com muita música para cinema.
Eu vi o das raias. Eu adoro. Eu já passei alguma música desta banda sonora na Antena 2, portanto sou suspeito aqui. Mas o que eu acho engraçado é que, por acaso, estes golfinhos específicos no Blue Planet estão na zona do Brasil, zona de Fernando de Noronha, e esta música tem mais um groove mediterrânico, com aqueles mandolins e as guitarras. Depois vem a orquestra toda, mas dá a ideia que estamos mais, se calhar, na zona da Grécia ou da Croácia, uma coisa assim. Eu diria isso logo de início. Dá essa ideia. Por causa de Zorba. Exatamente. O Zorba the Greek. E o engraçado é que desta vez quis fazer uma investigação mesmo a sério sobre esta música e descobri a própria partitura, que está publicada pela Chester, que é uma das grandes casas editoriais de música clássica, e foi incrível ouvi-la e segui-la na partitura e ver, de facto, a intricada arte da orquestração deste compositor. É riquíssimo. A quantidade de instrumentos que ali estão, uns mal se ouvem, outros com papel muito proeminente, as flautas. Muita flauta. Sim, exatamente. E isto, no fundo, é a maravilha da orquestração ou da instrumentação. Portanto, da próxima vez que quiserem dizer porque é que gostam mais do Sgt. Peppers e menos do Help!, digam que a instrumentação do Sgt. Peppers é muito mais rica e variada. E as pessoas vão dizer: "É tão verdade".
Bruno, eu estava aqui a recuperar a Wikipedia do senhor que fez esta orquestração, o George Fenton. Tem nomeações nos Oscars várias para " ligações perigosas", por exemplo. E pelo Gandhi também, em colaboração com Ravi Shankar. Sim, a banda sonora do Gandhi.
E com o irmão do David Attenborough, o Richard.
Sim.
Que era o realizador do filme do Gandhi.
Uau, está tudo ligado.
E tem muitos cineastas britânicos, o Ken Loach, o Terry Gilliam e o Neil Jordan. O mais engraçado sobre este compositor é que ele até é um autodidata. Ele estudou em Oxford, mas nunca fez lições formais, portanto eu nem sei como é que ele aprendeu a escrever música tão bem.
Predestinado.
Tem que ser.
Martim Sousa Tavares, todas as segundas-feiras conosco no "Encontro com a Beleza". Hoje falamos de orquestração e aproveitamos aqui esta música para golfinhos de George Fenton numa série da BBC. Muito obrigado por estes desbloqueadores de conversa.
Vou voltar para o fundo do mar agora.
Para a semana voltamos a estar juntos com o Martim Sousa Tavares. Um abraço. Obrigado.
Até para a semana.