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E hoje no Explicador, é nosso convidado o presidente da Associação Portuguesa de Fisioterapeutas, Adérito Seixas. Bom dia, muito obrigada por se juntar a nós na Rádio Observador.
Muito bom dia, obrigado eu pelo convite.
A associação chamou a atenção para a falta de profissionais nos cuidados intensivos para a recuperação de doentes com Covid-19. Adérito Seixas, em que medida é que é importante o trabalho dos fisioterapeutas nessa fase da doença?
É extremamente importante. Temos que entender que um doente com Covid-19 que esteja internado numa unidade de cuidados intensivos é considerado um doente crítico, precisa de cuidados. E o ponto fulcral, aqui, que é preciso frisar, é que um doente crítico não precisa de uma intervenção pontual, precisa da intervenção constante, que não escolhe a hora para ter complicações respiratórias. É preciso que o fisioterapeuta esteja não só pontualmente, mas como 10, 20 minutos não será suficiente, é preciso uma presença constante. E é isso que a ciência e as orientações clínicas nos dizem. O importante é maximizar a funcionalidade e a atenção ao doente crítico durante 24 horas. E é por isso que nós defendemos que é fundamental a presença constante do fisioterapeuta nas unidades de cuidados intensivos, porque todos os ganhos funcionais que se possam potenciar, têm que ser trabalhados durante todo o dia, não apenas pontualmente. Numa fase aguda, e é preciso perceber que neste contexto, estamos a falar de uma fase aguda, os cuidados que o fisioterapeuta pode prestar, vão se centrar no controle e na otimização da respiração, da dor, porque a prevalência de dor nesses utentes é muito elevada também, na desobstrução das vias aéreas, na prevenção de complicações musculoesqueléticas e disfunções musculares que surgem por estes doentes estarem acamados, estarem internados. É extremamente importante a mobilização precoce das pessoas e o início do treino das capacidades físicas, ajustando sempre, como é lógico, à condição que a pessoa tenha. Nesta fase, é muito importante que as sessões sejam curtas e espaçadas no tempo. Por isso é que é importante lá estar presente durante muito tempo.
Sempre. O que o Adérito Seixas está a dizer é que é importante ter o acompanhamento permanente de fisioterapeutas junto destes doentes. E a pergunta que lhe fazemos é: em que ponto é que estamos, então? Isto é, se faltam profissionais, consegue ter uma ideia do número de horas que os doentes, no caso concreto, doentes Covid, não têm o acompanhamento de fisioterapia permanente?
Não, infelizmente, não lhe consigo avançar com estes-
Ou quantas equipas não têm e deviam ter, eventualmente.
Nós não temos este dado. O que é que acontece? Nós sabemos que os fisioterapeutas são chamados pontualmente a intervir na unidade de cuidados intensivos. Pontualmente, ou seja, é identificada a necessidade em um ou outro doente e o fisioterapeuta pode ser chamado para intervir. Temos casos em Portugal, bons exemplos, muito bons exemplos, e é importante enaltecer estas situações. Há bons exemplos em Portugal em que temos fisioterapeutas que estão na maior parte do seu tempo de trabalho nas unidades de cuidados intensivos. Mas infelizmente, esta não é a realidade geral no nosso país. E também temos, infelizmente, situações em que os fisioterapeutas não são chamados para intervir nas unidades de cuidados intensivos. Aquilo que nós acabamos por defender é que nos hospitais em que o fisioterapeuta já passa uma boa parte do tempo a intervir na unidade de cuidados intensivos, o que nós defendemos é que passe mais tempo ainda. Nas situações em que os fisioterapeutas são chamados pontualmente a intervir, aquilo que nós defendemos é que eles sejam chamados e que fiquem mais tempo, uma boa parte do tempo do seu trabalho nesses locais. E naquelas situações em que o fisioterapeuta não é chamado a intervir, nós defendemos que eles devem ser chamados a intervir nestas unidades.
Nesta situação de pandemia e da Covid-19, sabe se podemos ter sequelas a nível motor em doentes com Covid-19? E como é que é a recuperação nesse aspecto?
Sim, há sequelas, certeza. Repare, ao fim de sete dias de internamento, e é preciso perceber que estes utentes muitas vezes não estão internados sete dias, estão mais, o período de internamento é superior. Mas em sete dias pode haver perda de massa muscular, que pode chegar aos 20% em algumas situações. 20% de perda de massa muscular.
Só em sete dias.
Só em sete dias. É claro que depois, quanto mais tempo for passando, maior vai ser esta perda. O que é que acontece? Vai haver uma disfunção muscular enorme. Aliás, há um problema que é extremamente importante frisarmos aqui, que é a fraqueza adquirida na unidade de cuidados intensivos. E é importante referir que cerca de 50% dos doentes que passam nas unidades de cuidados intensivos, e aqui podemos falar do contexto Covid e não Covid, porque agora fala-se muito do contexto Covid, mas é importante pensarmos que os doentes críticos estão lá o ano todo e antes da Covid também já existiam. Portanto, 50% dos doentes que passam nas unidades de cuidados intensivos sofrem de fraqueza adquirida nessa unidade. Estamos a falar de algo que acontece e que não está relacionado com o problema que levou as pessoas a estarem internadas. É algo que se desenvolve apenas por lá estarem. E esta fraqueza está associada à mortalidade destes doentes e ao nível de funcionalidade ao fim de um ano. O que isto representa? Quanto maior for a fraqueza na altura em que as pessoas estão nos cuidados intensivos e quando saem, menor vai ser a funcionalidade ao fim de um ano e maior vai ser a taxa de mortalidade. Portanto Se pensarmos numa situação aguda, temos estes dados já presentes. Mas depois temos que pensar que estas pessoas que saem dos cuidados intensivos vão continuar ainda no hospital, se calhar noutra realidade, com menos necessidade de atenção, mas vão continuar lá, vão continuar a perder capacidades funcionais e depois vão para as suas casas, vão para a comunidade. E é importante que essas pessoas sejam integradas. O facto de as pessoas saírem do hospital com um nível de incapacidade funcional superior, vai aumentar o tempo necessário para que estas pessoas sejam integradas normalmente na vida ativa. Há aqui um conjunto de consequências negativas para a pessoa, para as famílias, para a sociedade, inclusive em termos financeiros, porque se pensarmos que quanto mais tempo esta pessoa demorar a ser integrada na vida ativa, mais tempo vai estar dependente de cuidados de saúde, de subsídios. Há aqui um conjunto de consequências negativas que seria possível minimizar com a integração de profissionais nas equipes.
Então, Aderito Seixas, a questão é: há profissionais em Portugal em número suficiente que possam reforçar todas as unidades de saúde e dar resposta à forma como está a explicar que é necessário dar?
Há profissionais suficientes. Em Portugal, não tenho dados concretos, porque todos os anos se formam fisioterapeutas, mas haverá cerca de 13 mil fisioterapeutas. O problema é que a nível do Sistema Nacional de Saúde, no serviço público, e repare, eu vou lhe dar o número que é o último número que nós temos, relativamente ao número de fisioterapeutas, que é 1400. Temos 1400 profissionais a trabalhar no sistema público. Eu quase que posso garantir que são menos, porque segundo os dados do INE de 2018, há apenas 906 fisioterapeutas a trabalhar nos hospitais públicos, e estes 1400 partem do pressuposto que existem 1250 fisioterapeutas no serviço hospitalar, o que não é real, tendo em conta estes números do INE. Portanto, o problema aqui não será o número de fisioterapeutas em Portugal, mas sim o número de fisioterapeutas a atuar no serviço público. É aqui que é preciso atuar. É preciso distribuir melhor os fisioterapeutas nestes cuidados.
Mas por que eles não estão mais no serviço público? Desculpe, não consegui. Ia perguntar por que eles não estão a trabalhar mais no serviço público.
Porque não há contratação de fisioterapeutas para o serviço público. Não há esse cuidado por parte dos nossos governantes, e é algo que nós temos vindo a alertar há já bastante tempo. Aliás, em 2018 enviámos vários documentos para o Ministério da Saúde a dar a nossa visão sobre aquilo que seria o ideal e recomendando a contratação de fisioterapeutas, não só para os cuidados hospitalares, mas também para os cuidados de saúde primários.
Sente que a situação epidémica veio alterar um pouco esse paradigma e que começou a existir mais preocupação sobre a contratação de fisioterapeutas para o serviço nacional?
Sim. No fundo, a situação epidémica veio agravar um problema que já existia. Porque o fisioterapeuta é um profissional fundamental que pode atuar ao nível de um indicador que é muito importante, que acaba por ser o número de anos de vida que as pessoas têm sem incapacidade. Porque nós vivemos muito tempo. A esperança média de vida está a aumentar. Mas se vivermos muito tempo com incapacidades, isso acaba por perder um bocadinho a beleza. Agora, o fisioterapeuta pode atuar a nível dos cuidados de saúde primários, por exemplo, para trabalhar e prevenir o aparecimento de incapacidade ao longo do tempo. E deixe-me dizer-lhe que nos cuidados de saúde primários, mais uma vez os últimos números que nós temos, é que existem apenas 150 fisioterapeutas a trabalhar nos cuidados de saúde primários. Isto é claramente insuficiente para as necessidades do país. E é aqui que temos que fazer valer a importância e a necessidade dos fisioterapeutas atuarem. Um outro apontamento, antes da pandemia, menos de 2% dos doentes com doença respiratória crônica, e vou estar a falar apenas dos doentes com doença respiratória crônica, tinham acesso a programas de reabilitação respiratória, seja em contexto hospitalar, cuidados de saúde primários ou na comunidade. É lógico, não vou aqui dizer que é só o problema dos fisioterapeutas, da falta de fisioterapeutas, porque não é. Mas a insuficiência de recursos humanos de fisioterapia, principalmente no SNS, é uma das causas. E é urgente reforçar o número de fisioterapeutas nestes contextos.
A associação, aliás, disponibilizou às autoridades de saúde uma bolsa de voluntários. Eram 170 profissionais para colaborar nos cuidados destes doentes. Como é que tem corrido esse trabalho, essa experiência?
Na realidade, não eram 170. Vou tratar de explicar. Nós tínhamos praticamente 300, eram quase 300 profissionais, 63 com experiência de atuação a nível dos cuidados intensivos, e depois tínhamos cerca de 210 profissionais com experiência em cuidados respiratórios, mas que não tinham experiência em cuidados intensivos. Organizamos, em parceria com outras entidades, uma formação, que demos gratuitamente aos profissionais e desta bolsa, total, 170 fisioterapeutas fizeram essa formação. Mas mais do que isso, esta formação foi até disponibilizada aos fisioterapeutas que já estão a atuar em contexto hospitalar e em cuidados respiratórios domiciliares. Ao todo foram 540 fisioterapeutas que estavam inscritos E curiosamente, nem eram todos portugueses. Nós tivemos também uma parceria com a Associação de Fisioterapeutas Cabo-Verdiana, que achou esta iniciativa muito interessante e tivemos também 50 fisioterapeutas de Cabo Verde a fazer esta formação. Nós formamos os profissionais, demos esta formação que era importante, não só para atuar nos cuidados intensivos, mas depois também a nível da comunidade. Acabava por cobrir todas as necessidades. E infelizmente não houve um aproveitamento efetivo desta bolsa. Repare que nós disponibilizamos a bolsa em março. E recebemos uma resposta já no fim de maio para que os profissionais se inscrevessem nas plataformas de voluntariado que o governo disponibilizou. Eu não queria estar aqui a dizer, mas como é lógico, a bolsa de voluntariado não foi bem aproveitada.
Aderito Seixas, estamos a chegar ao fim. Uma última questão: queria perceber se há algum risco de infecção especial para estes profissionais, se há alguma preocupação que tiveram de ter nos últimos meses por causa desta situação de pandemia e se tem conhecimento de algum fisioterapeuta que tenha ficado infetado nestes últimos meses.
Como sabe, o número de profissionais de saúde infetados é enorme. Penso que há três ou quatro dias saiu uma notícia que perto de 3800 profissionais de saúde. E sim, há fisioterapeutas também infetados. Apesar dos cuidados que se implementaram, que toda a gente sabe, os cuidados de proteção individual, os cuidados de higienização das mãos. Apesar de tudo, houve fisioterapeutas infetados, como houve de outras classes profissionais também. Houve medidas de segurança que tiveram que se implementar. É preciso também referir que muitos dos cuidados de fisioterapia, principalmente no setor privado, ficaram muito condicionados. Porque apesar de nunca ter saído uma diretiva do governo para que as clínicas tivessem que fechar, etc, pesando os riscos e os benefícios, o que acontece é que as pessoas responsáveis optaram por fechar as clínicas e os cuidados de fisioterapia ficaram condicionados em número, inclusive, isso de certeza que trouxe também consequências negativas para alguns doentes, mas era preciso pensar aqui em termos de saúde pública, é preciso pensar no panorama mais amplo e foi sem dúvida, o passo necessário. Houve cuidados e há cuidados especiais que neste momento estão a ser implementados. Os fisioterapeutas, para trabalharem e neste momento para estarem a trabalhar com utentes, trabalham com as medidas de proteção individual que a Direção-Geral de Saúde preconiza. Temos que respeitar essas diretivas.
Aderito Seixas, muito obrigada por se ter juntado a nós, o presidente da Associação Portuguesa de Fisioterapeutas. Obrigada pelo seu tempo e esclarecimentos.
De nada, obrigado eu.
Um bom dia, muito obrigada.
Bom dia.
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