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Explicador com a análise ao debate entre João Cotrim de Figueiredo e Luís Marques Mendes. São convidados Liliana Reis, apoiante de Cotrim de Figueiredo, e Duarte Marques, diretor de campanha de Luís Marques Mendes. A moderação deste Explicador é da jornalista Vanessa Cruz.

Muito bem-vindos, Duarte Marques, Liliana Reis. Vamos começar por si, Liliana, logo pelo início do debate. Marques Mendes ignorou a primeira pergunta e perguntou diretamente a Cotrim Figueiredo se e quando tinha falado com ele para o pressionar a desistir e quais as pessoas que o tinham feito a pedido do candidato apoiado por PSD e CDS. Mais uma vez, João Cotrim de Figueiredo não concretizou, não disse nomes. É caso para dizer, Liliana Reis, que o feitiço se virou contra o feiticeiro?

Bom dia a todos. Aliás, bom dia, Vanessa. Bom dia, Duarte. Aquele ataque logo no início, pelo menos do meu ponto de vista, não revelou uma defesa de honra, mas sim uma percepção de ameaça clara. A grande dificuldade de Marques Mendes é que não representa todo o PSD. Aliás, como eu própria sou exemplo disso. E aquilo que o João tem vindo a dizer, que Marques Mendes apenas tem metade do PSD, foi notório logo nessa forma inicial do debate.

Mas não era importante Cotrim Figueiredo esclarecer?

Claro, e eu já vou a esse ponto. Ficaram duas formas cristalinas de fazer política, pelo menos evidenciadas. Uma forma do passado de fazer política que não galvaniza, e uma segunda com clareza e coragem, confrontado com os assuntos. O João disse sempre aquilo que pensava. Relativamente à divulgação dos nomes, a pressão que o João destacou, e aliás destapou logo no início, relativamente a uma possível desistência, nunca foi por parte de Marques Mendes. Agora, o João nunca, em nenhum momento, quis fragilizar também o Partido Social-Democrata. E creio que apenas por isso, e pela educação e correção, nunca poderia expor os respectivos nomes daquela forma. E por isso, parece-me que aquela entrada por parte de Luís Marques Mendes foi uma forma, como eu referi há pouco, que apenas representa a forma antiga de fazer política. Mas essa forma está esgotada hoje e não apenas os jovens, como também as pessoas mais experientes, como o João tem dito, já não se reveem neste tipo de fazer política.

Já vamos ao contra-ataque de Cotrim Figueiredo, mas antes disso, Duarte Marques, gostava de ouvi-lo também sobre esta não resposta de João Cotrim Figueiredo.

Bom dia a todos. O próprio comentário revela falta de noção. Vamos lá ver. Aquilo que Cotrim de Figueiredo fez no jornal Expresso revela que há gente que tenta, no discurso, dizer que quer trazer novos valores para a política e depois recorre às táticas de antigamente, uma clara sonsice. Quando se acusa alguém com esta gravidade, há duas opções: ou não se acusa, ou se apresentam provas e nomes. E o que todos já percebemos é que não houve pressões nenhumas, é uma tontice pegada. Mas também é um tema que eu quero dizer que ficou encerrado no debate. Cotrim de Figueiredo foi desmascarado nessa sua iniciativa, percebeu-se claramente que não tinha nomes absolutamente nenhuns, porque não existem. Foi um truque que ele usou nesta entrevista. Se foi mal interpretado, pode ter acontecido também. O que acontece é que Luís Marques Mendes, como qualquer pessoa com brio, com ética, com valores, tem que, na primeira oportunidade pessoal que tem, confrontar a pessoa com aquela acusação. E ficou esclarecido, toda a gente percebeu. Quem não sente, não é filho de boa gente.

Mas Duarte Marques, por outro lado, Cotrim Figueiredo disse que vai ser lançado um livro na próxima semana sobre Marques Mendes, em que se resume a vida profissional dos 18 anos a seguir a ter estado no governo. Há poucas informações sobre a vida profissional a seguir ter saído do governo, sendo que este livro é do jornalista do Observador, Luís Rosa, e é "Marques Mendes: Uma Vida Política". É um livro centrado mais na parte política da vida de Marques Mendes, do candidato. De qualquer modo, não pode ser aqui apontada uma falha em termos de transparência, tendo em conta que é um livro sobre este candidato que quer ir para Belém.

Não, vocês têm que fazer o vosso trabalho de casa mais bem feito, até porque quem fez o livro é alguém da vossa casa. O Polígrafo da SIC logo ontem desmentiu isso. Foi mais um truque de Cotrim de Figueiredo, à moda antiga, dos tais velhos, das práticas antigas da política, perpetrada por aqueles que querem ser modernos e mais transparentes. Primeiro, aquilo que ele disse não é verdade, não são cinco páginas. Errou. Pior do que isso, revelou um livro que ainda não foi revelado o seu conteúdo, o que também levanta as nossas dúvidas, como é que teve acesso. E quarto, não é todo verdade. Quinto lugar, é um livro sobre a vida política feita por um jornalista, com base em entrevistas, não é uma autobiografia. E para já, é sobre a sua vida, o seu percurso político enquanto ministro, enquanto secretário de Estado, enquanto autarca, enquanto tudo isso. A vida política de Marques Mendes, do ponto de vista de cargos executivos, há 18 anos dessa parte, não existe, a não ser se é conselheiro de Estado, e isso não se pode revelar. Portanto, mais uma vez, lamento, mas não tem razão. O próprio Polígrafo desmentiu, o próprio autor, que é jornalista dessa casa, também já veio desmentir

Daí a minha referência ao título do livro, que é "Luís Marques Mendes: Uma Vida Política". Quanto a decisões que um presidente pode ter de tomar, João Cotrim Figueiredo foi aqui mais claro do que Marques Mendes. Promulgaria a lei laboral na versão mais recente, apesar de não concordar com algumas posições, como as posições relativas à natalidade. Liliana Reis, com uma greve geral à porta, precisamente contra este pacote laboral, esperava-se uma posição mais clara por parte de Marques Mendes.

Naturalmente. Aliás, relativamente aos temas que importavam, desde a legislação laboral à economia, à própria retenção de jovens, o João revelou desde o primeiro minuto coragem para defender aquilo que são as suas convicções. E não foi apenas neste debate, tem vindo a fazê-lo ao longo dos debates, que nós podemos ou não concordar com as suas posições, mas ele não teme expô-las a todos os eleitores. E Luís Marques Mendes não conseguiu revelar. Relativamente ao livro que sai sobre a liderança de Luís Marques Mendes, o fact-check da SIC revelou que não era apenas cinco páginas. Mas eu convido todos os ouvintes a fazerem o desafio de na próxima quarta-feira, no dia do lançamento do livro, verem e comprovarem por eles próprios aquilo que são as 18 ou 19 páginas desde que Luís Marques Mendes sai do partido e as cinco páginas do seu percurso profissional. Relativamente à experiência política, claro, muito mais extensa por parte de Luís Marques Mendes do que de João Cotrim Figueiredo. João Cotrim Figueiredo, todos os cargos que exerceu políticos foram de eleição, não foram de nomeação, o que revela também, e o Duarte Marques concordará, muito mais coragem do que propriamente cargos de nomeação, que apenas revelam, de certa forma, uma elasticidade de se adaptar às várias presidências do Partido Social Democrata. Aliás, os dois últimos primeiros-ministros do Partido Social Democrata não apoiam Luís Marques Mendes também por algum motivo.

Este livro tem 240 páginas e as páginas dedicadas à vida profissional quando saiu do governo são 19, de acordo com o Polígrafo. Só para ficar aqui clara também essa informação.

Exatamente.

Exatamente. Duarte Marques, a indefinição de Marques Mendes no que toca à promulgação ou não da lei laboral não pode jogar aqui contra o candidato. Ainda por cima, estamos em semana de greve geral, precisamente contra este pacote laboral.

Sim, só uma coisa. Primeiro, os últimos dois primeiros ministros do PSD, um deles apoia Marques Mendes e o outro ainda não declarou quem é que apoia. Convém não esquecer que o último líder do PSD chama-se Luís Montenegro. Segundo ponto, ninguém é dono dos votos do PSD nem de ninguém.

Exatamente.

O que a Liliana falava que tinha os votos, uma grande metade do PSD em que ela se incluía, mas é uma minoria. Marques Mendes tem o ex-líder da IL na sua comissão de honra, uma ex-candidata. Não há aqui donos de eleitorados, as pessoas são livres, têm é que ser livres sempre. Só mais um detalhe, sobre o pacote laboral. Luís Marques Mendes já disse várias coisas que são relevantes. A primeira é que apelou desde logo, fosse qual fosse a decisão final, a proposta final, devia ter um consenso na concertação social. É um princípio basilar. Não podemos entender o contrário só agora é que pode dar jeito. Marques Mendes, desde o início, até criticou o governo pela forma abrupta como parece que apresentou as propostas e veio à luta com a UGT e com a CGTP. Luís Marques Mendes desde o início disse que é muito importante para qualquer reforma no campo laboral, tenha ela o conteúdo que tiver, é muito importante ter o apoio pelo menos de uma central sindical. Conseguir negociar isso com a UGT era fundamental. E fez-se sempre essa pressão. Depois há outro ponto que me parece relevante para quem corre o risco de vir a ser presidente da República. Todos nós sabemos que João Cotrim Figueiredo nunca será eleito presidente da República e, portanto, tem mais liberdade para se condicionar ou para condicionar a sua ação no futuro. Já viu o que é um candidato em campanha eleitoral, que pode vir a ser presidente daqui a dois meses ou daqui a três meses, ter de decidir sobre essa matéria e estar-se já a pronunciar antes sequer da sua versão final. A Liliana foi deputada há alguns anos e deve ter percebido que o pacote laboral é extensíssimo do ponto de vista da sua aprovação na Assembleia da República.

E está a ser negociado.

Muitas vezes. A versão inicial nunca foi igual à versão final. E portanto, um futuro presidente comprometer-se desta forma, claro, nós percebemos que isso possa ser feito pelo PCP, até pelo Chega. Agora, por um candidato que pode ser presidente, era uma irresponsabilidade total dizer já que é contra ou é a favor. Até porque há uma razão muito simples e tem a ver com as diferenças das características da experiência das pessoas. Porque o facto de ter muita experiência política e ter estado nas várias posições do nosso sistema político, permite-lhe avaliar de outra forma aquilo que são as consequências de um pacote desta natureza e de outros. Portanto, um presidente da República nunca se deve pronunciar sobre as matérias até elas estarem aprovadas e apresentadas na sua versão final. Do outro ponto de vista, estão a condicionar a aprovação ou, por outro lado, a condicionar a sua liberdade para decidir mais à frente. E este parece-me um princípio fundamental. Quando nós estamos numa campanha eleitoral, devemos ter uma postura, e isso está escrito nos livros, e é isso que as pessoas percebem, do que eu faria se fosse presidente, ou o que eu faria se eu fosse primeiro-ministro, o que eu faria se eu fosse autarca.

Sim, a ideia fica clara, Duarte Marques. Nesta altura e sobre quem tem mais hipóteses ou não de ser presidente da República. Sim, Liliana?

Não, eu queria rebater. Isso é uma fuga por parte de um candidato a não se querer comprometer com algumas decisões. O João, para além de dizer que promulgaria, disse quais eram os aspetos, nomeadamente no quadro da natalidade, que era uma das questões que foi formulada pelo moderador, quais é que eram aquelas que efetivamente tinha ainda algumas reservas, nomeadamente no domínio da natalidade, como ele apontava. Ora, nós furtarmo-nos exatamente a apresentar aquilo que são as nossas

Líliana parte de um princípio errado, que é querer meter o dedo em tudo. Mas há posições, há funções na nossa democracia.

O João não é comentador, por isso não mete o dedo em tudo. Quem mete o dedo em tudo é quem normalmente está habituado ao comentariado político.

A Líliana agora vem dizer que o comentariado é algum problema da nossa sociedade?

Não é, porque eu também o faço.

Pronto, é só para saber isso. É só para ter a noção disso.

Até sou política nacional.

É que passa a vida a dizer mal do candidato quando nós estávamos a discutir as ideias e de repente já o acusou de várias coisas. Isso revela alguma falta de noção e de coerência.

Não, aquilo que eu faço, aquilo que eu estou a tentar fazer é exatamente repostar aquilo que se está a tentar dizer.

Mas vamos agora discutir a questão das sondagens e peço-vos alguma brevidade nas respostas, porque já estamos a ficar sem tempo, até porque temos o radar das sondagens publicado pelo Observador com os dados mais recentes. Agrega aqui o histórico de todas as sondagens publicadas que incluem o nome dos oito principais candidatos nesta corrida a Belém. E este radar das sondagens coloca Marques Mendes à frente com 21,9%, seguido de Gouveia e Melo com cerca de 18,5, Ventura com 17,6, Seguro com 17,1 e Cotrim Figueiredo não chega aos 13,8%. Duarte Marques, a estratégia de campanha é para manter, tendo em conta que Marques Mendes aparece à frente ou a margem ainda é curta e pode implicar aqui alguns ajustes? E pergunto-lhe isto porque é a melhor pessoa para responder, é diretor de campanha.

Em primeiro lugar, as sondagens não nos devem excitar demasiado quando são boas e desanimar quando são más. Portanto, devemos olhar para as sondagens como uma fotografia do momento. O que vocês têm feito, e essa espécie não é bem um barómetro, mas é um resumo de tudo, demonstra uma tendência. Claro que para nós é simpática e é positiva, porque no início do ano estávamos a 20 e tal por cento de Gouveia e Melo. As coisas têm mudado. Nós não podemos mudar de estratégia em função das sondagens, não somos um cata vento. Nós temos candidatos que já foram à esquerda, já foram à direita e as pessoas querem coerência. Luís Marques Mendes é uma pessoa com muita experiência política, para o bem e para o mal, na opinião das pessoas e portanto, aquilo que ele tem para dar ao país é experiência. E portanto, esse vai ser o tom da sua candidatura. Não vamos mudar só porque as pessoas acham que a experiência, entretanto, não é boa. Não, ele está disposto a ajudar o país desta circunstância. O João Cotrim de Figueiredo terá a sua outra mais-valia e outros terão as suas mais-valias. O importante é sermos coerentes. Portanto, eu diria, se estivéssemos atrasados nas sondagens, a cair, temos que mudar o rumo, que alguma coisa está a ser mal feita. Neste caso, como estamos no bom caminho, acho que se deve manter a coerência do discurso e a coerência das posições, até porque aquilo que nós temos a apresentar é uma longa vida de experiência política. Nós não podemos de um momento para o outro mudar isso só porque uma sondagem fica mais favorável ou menos favorável. Nós não queremos nada disso.

A Liliana Reis, João Cotrim Figueiredo questionou a credibilidade de algumas sondagens. Isso não pode ser encarado como mau perder, ainda sem o jogo ter começado oficialmente?

Não, eu esta questão das sondagens concordo, e permita-me fazer esta ressalva em absoluto com o Duarte. O que as sondagens têm vindo a mostrar é que as amostras são muito diferentes. E como as amostras são muito diferentes, naturalmente espelham resultados completamente díspares. E o João tem vindo a apontar para essa matéria porque há uma diferença enorme nas sondagens, algo que não acontece com o candidato Marques Mendes, que em todas as sondagens apresenta valores muito próximos. Ora, se estas amostras são diferentes, naturalmente que o João tem que destapar a forma como os resultados depois também são apresentados, até porque isso condiciona naturalmente a fotografia do momento. Relativamente à questão da experiência, e permita-me que recupere novamente, a última experiência, aliás, dos últimos anos de Luís Marques Mendes, foi no Conselho de Estado. Ora, o Conselho de Estado não pode ser uma alcâmara para futuros presidentes da República, porque caso contrário, o nosso regime, e estamos aqui a discutir umas eleições presidenciais, apesar de ser republicano, a sua conceção dinástica assemelha-o a uma monarquia. E isto não pode acontecer em nenhum momento num quadro democrático como nós temos.

Liliana Reis, Duarte Marques, muito obrigada aos dois por terem estado neste Explicador da Rádio Observador. Bom dia.

Muito obrigada. Bom dia.