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Este é o Gabinete Guerra das Manhãs 360. Esta terça-feira com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia. Obrigado.
Depois de três dias de votações, sem surpresa, o partido Rússia Unida de Vladimir Putin venceu as eleições legislativas russas com 57,86% do total de votos e em primeiro lugar, em 208 dos 225 círculos eleitorais do país. Bruno, num país em economia de guerra total, o resultado destas eleições muda alguma coisa na gestão interna do conflito na Ucrânia ou é apenas o carimbo formal para a continuidade do conflito?
Sim, é isso. Num regime autoritário, de facto, as eleições não têm o grau de incerteza que têm em democracias realmente pluralistas, onde há eleições realmente livres e justas, onde o poder não escolhe os partidos que podem concorrer, como foi, por exemplo, aqui o caso. Vale a pena voltar a recordar isso. Por exemplo, o único partido de uma oposição que já era tolerada, mas o único partido que ainda tinha umas ideias mais liberais, portanto, defendia abertamente o modelo de democracia pluralista do tipo ocidental e que, sobretudo, neste caso, só se opunha abertamente à guerra, defendia o fim da guerra contra a Ucrânia, realmente foi impedido de concorrer. Obviamente, não havia aqui verdadeiras alternativas, são todos partidos que no fundo competem entre si para ver quem é que elogia mais Putin, quem é que apoia mais o esforço de guerra. Desse ponto de vista, realmente não há aqui nenhuma surpresa. O objetivo para o regime é precisamente demonstrar a impotência da oposição, que no fundo eles é que mandam, inclusive nas eleições. E depois também retirar margem de manobra, para quem está mais distraído fora da Rússia, poder dizer: "Nós temos o apoio da população, até fazemos eleições, ao contrário da Ucrânia, por exemplo. Até fazemos eleições nos territórios ocupados".
Exato.
O que obviamente é ilegal também à luz da lei internacional. É uma das coisas que não se pode fazer e que obviamente ainda tem menos valor do que num outro contexto, porque é um contexto de ocupação militar. Realmente não há aqui nenhuma surpresa. No fundo, a grande dúvida é perceber se alguma coisa muda. Por exemplo, uma especulação que se tem feito é se eventualmente Putin, depois das eleições, em que se pode concentrar noutras coisas, poderá pensar numa nova mobilização parcial para tentar compensar as enormes baixas que tem estado a sofrer.
Entretanto, soube-se que Zelensky esteve reunido com o chefe da CIA, John Ratcliffe, no aeroporto de Shannon, na Irlanda. Bruno, como interpretar que o topo da inteligência americana se encontre presencialmente com o presidente ucraniano? É o sinal de que Washington queria passar uma mensagem que é longe dos holofotes do Congresso, ou poderá ter a ver com o encontro desta terça-feira entre Zelensky e Trump em Nova Iorque?
Bem, também há a especulação de que John Ratcliffe poderia passar a ter um papel nas negociações entre a Ucrânia e a Rússia. E aliás, quando ele foi em Moscow, pôs-se essa questão, exatamente. Na altura, e continuo a achar isso, num contexto normal, seria estranho ser o diretor da CIA a ter esse género de funções. À partida, desde logo há o chefe da diplomacia norte-americana, o Marco Rubio. Mesmo quando há negociações mais exigentes, geralmente há um enviado especial, mas neste caso é o Steve Witkoff e o Jared Kushner. Mas tem realmente havido enormes queixas, aparentemente não apenas do lado da Ucrânia e do lado das pessoas que geralmente acompanham estes assuntos, no sentido de dizer, por exemplo, que Steve Witkoff não parece perceber muito do assunto e por vezes não percebe muito bem o que é que lhe está a ser dito, mas que até do lado russo terão começado a aparecer queixas desse tipo. Numa administração que se caracteriza por quebrar todas as regras, isso não é completamente impossível e pode ser isso. Também sabemos, obviamente, que as informações, a inteligência é crucial e tem sido uma forma de apoio à Ucrânia que se tem mantido, embora também aí, à partida, seria de esperar que fosse muito mais as informações militares do que propriamente, necessariamente, a CIA. Teremos de ver. Acho que para já é prematuro chegar a grandes conclusões quanto ao significado desse encontro.
A surpresa do fim de semana foi o anúncio de um acordo de segurança tripartido entre os Estados Unidos, a Dinamarca e a Gronelândia. Bruno, que leitura fazes deste acordo? Quais são os verdadeiros objetivos de Donald Trump?
Bem, os objetivos de Donald Trump com este acordo é, sobretudo, ele poder declarar vitória, apesar de não ter conseguido realmente aquilo que queria. Ou seja, ele insistiu sempre que qualquer acordo, por muito bom que fosse, com a Dinamarca e com a Gronelândia, não valia nada, porque a qualquer momento podia ser alterado, porque continuavam a ser países independentes, só neste caso da Gronelândia, uma região autónoma com grande autonomia em relação à Dinamarca, e portanto, o que valia era a anexação, o controle formal dos Estados Unidos desse território. Isso ele não conseguiu. Teremos de ver o texto do acordo. Aparentemente, o acordo, no fundo, é mais explícito numa série de coisas que a Dinamarca e a Gronelândia sempre disseram Que estavam garantidas, com que estavam comprometidos. Por exemplo, a questão de não haver bases de potências hostis. Obviamente, isso também não interessaria à própria Dinamarca, desde logo, potências como a Rússia ou mesmo a China. Investimentos em setores estratégicos desse tipo também de atores. Aliás, há políticos dinamarqueses a dizer: "Este acordo até é ótimo pra Dinamarca, porque a Dinamarca, no passado, por vezes, o governo autônomo da Gronelândia, quando queria algum investimento, dizia: 'Os chineses vão pagar isto e, portanto, se não quiserem, tem de ser a Dinamarca a fazer'. A Dinamarca, apesar de tudo, é um país com algum dinheiro e fez alguns investimentos desse tipo para impedir isso. Agora isso até fica, à partida, resolvido por via daquilo que está anunciado em relação ao acordo. Eu acho que, à partida, tem algumas vantagens, nomeadamente também tem esta questão que compromete o próprio governo da Gronelândia e terá, aparentemente, expressa esta ideia de que mesmo que venha a haver uma independência futura da Gronelândia, o acordo continuaria a ser válido. Isso não é irrelevante ao explicitar estas questões. Mas realmente, o ponto fundamental, e que tem sido sublinhado também por muitos analistas norte-americanos, é que tudo isto teria sido possível, e foi dito que teria sido possível há anos, sem o tipo de ameaças que o Donald Trump fez, inclusive, eventualmente, uma ação militar, o que obviamente afetou muito a forma como os Estados Unidos são percepcionados, desde logo na Dinamarca e também no resto da Europa, ou a disponibilidade dos aliados europeus para alinharem com o Donald Trump em situações mais complicadas, como por exemplo, a questão agora do Estreito de Ormuz, devido exatamente a essa perda de confiança, pelo menos na atual liderança norte-americana.
Bruno Carlos Reis, muito obrigada pela tua análise no Gabinete de Guerra. Até quinta.
Obrigado.
Até quinta.
Bom dia, até quinta.