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Nesse sentido, temos também já nesta emissão especial a Rita Carmo, que é a autora do livro de fotografias de Jorge Palma, o livro que saiu em 2023. Rita Carmo, bom dia, bem-vinda e obrigada.
Olá, bom dia.
Jorge Palma é, de facto, mais do que as canções. É também esta figura icónica que se presta a fotografias profundamente marcantes.
Sim, eu diria que Jorge Palma é mais do que canções pra quem o conheceu mais proximamente, mas obviamente as canções, que ainda por cima têm todas elas uma mensagem muito forte e muito bonita e bem pensada, são o que nos fica, felizmente, e que vai deixar o caro conosco a mesma.
Alguém que consegue, como ouvimos aqui o Tiago dizer, que consegue também, com uma carreira tão longa, só assim seria possível, agregar várias gerações e ouvintes de várias idades.
É verdade. Eu conheci e fotografava o Jorge em 92. E eu o apanhei numa fase, eu acho, ainda não ascendendo. Ou seja, ele tinha tido, obviamente, toda uma fase anterior com muito sucesso. Teve ali uma altura não tão incrível, acho eu, e pra ele até difícil. E depois, a partir do início dos anos 2000, retoma com sucesso, com concertos, com muito trabalho e com muita vontade de continuar a fazer músicas. Eu apanhei-o um bocadinho nessa paragem e depois no recomeço. Eu estava a ouvir, agora um bocadinho antes, o que estavam a falar sobre os concertos dessa fase, e confesso que eu assisti a um ou dois em que nem sempre o público foi muito simpático pro Jorge nessa altura. Eu penso que o Jorge também não queria muito lembrar-se dessa fase, mas às vezes o público gracejava. Lá está, o público mais jovem, sem pensarem que o artista também sofre. Mas ele, em muitas situações, acabava por se sentir inseguro, porque precisamente a validação do público é importante também pra um artista. E depois eu acho que ele, a partir dos anos 2004, 2005 pra diante, retoma bastante autoestima e ele próprio mais seguro do seu talento, que eu acho que o Jorge tem um talento inato pra fazer músicas e até em termos vocais. Portanto, acho que é um daqueles nossos casos que não podemos deixar ficar pra trás.
Rita Carmo, e qual é que era a reação e a relação dele com a representação visual, com as imagens dele próprio, da sua figura? Era alguém que se preocupava com isso, comentava?
Não.
Porque não parece muito.
Era extremamente desligado de tudo isso. Aliás, uma das coisas que eu fiquei extremamente admirada: logo no início da pandemia, fiquei sem nada que fazer e propus ali pra em maio, se não me engano, nós paramos em março, em maio, propus a alguns músicos fotografá-los em casa, longe. Eu estava sempre longe deles. Às vezes estava eu à porta, toda quitada, com pantufas, como nós andamos durante tanto tempo.
Aquelas meias.
E ele, que já nessa altura tinha problemas respiratórios e tinha tido uma pneumonia. Portanto, ele tinha de ter muitos cuidados com questões respiratórias e a Covid foi uma altura muito sensível. E por acaso, quer dizer, houve muitos artistas a quem eu telefonei. Alguns, bastantes também, não posso queixar, aceitaram. Alguns não aceitaram e eu compreendi. Era uma altura em que ninguém sabia o que ia acontecer. O Jorge, incrivelmente, e aqueles também que estavam próximos, atenção, porque, por exemplo, o Sérgio Godinho nem sequer lhe propus, porque ele não estava aqui na zona de Lisboa, portanto, seria impossível fazer. Mas o Jorge, eu sabia onde ele estava e eu liguei, mandei uma mensagem e ele: "Sim, aparece aí". E eu disse: "Ô Jorge, pera lá, tem calma, tens a noção de que isto..." "Não, não tem problema nenhum, aparece aí, estás longe, não vamos fazer nada de mal. Vens cá." Ele estava em casa, portanto, completamente à vontade. Sempre foi muito desligado, ao mesmo tempo, é uma contradição daquilo que eu tinha acabado de dizer em relação à fragilidade dele, em relação à reação do público. Mas em relação àquilo que as pessoas pensam, de como é que ele está ou como é que não está, ele não se preocupava com isso e às vezes até tínhamos que ser nós à volta: "Jorge, estás despenteado". E ele não ligava nada, era muito pouco ligado ao que estava a aparecer.