Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a Rádio Observador, o explicador da Rádio Observador também a olhar para os resultados eleitorais de ontem. Contamos com o diretor executivo do Observador, Miguel Pinheiro. Miguel, o que aprendeste ontem?

Tanta coisa, Ricardo.

Queres partilhar algumas?

Acho que uma das coisas que aprendemos ontem é que nem tudo aquilo que acontece em Portugal beneficia André Ventura, porque na política portuguesa e na conversa em Portugal, uma lâmpada funde-se e depois queixam-se que André Ventura ganha votos. Uma bica é mal tirada, depois queixam-se que André Ventura ganha.

E como é difícil apanhar uma boa bica nesses casos.

Certo. E com o que aconteceu nesta segunda volta, havia uma convicção/receio generalizado de que a terrível tragédia focada pela tempestade Kristen iria inevitavelmente beneficiar André Ventura, porque obviamente há muita gente a passar por muitas dificuldades. Acabamos de ouvir agora nesta conversa, em que realmente são relatos muito angustiantes.

Sim, tivemos aqui testemunhos muito francos do presidente da Câmara da Marinha Grande e também de Ourém, que nos desarmam, porque realmente as pessoas não têm eletricidade, não se percebe bem como é que estão a viver.

Além de tudo o que aconteceu no dia e de todos os prejuízos do dia, há este pós que coloca as pessoas numa espécie de impasse, situação pantanosa em que nem sequer conseguem começar a tratar da reconstrução decentemente, porque lhes faltam coisas básicas como eletricidade e comunicações. E infelizmente, a tragédia afetou muita gente. Estávamos a falar de um universo de 1,5 milhões de eleitores, e havia uma de duas conclusões inevitáveis, ou até ambas. Primeira conclusão inevitável: a abstenção ia aumentar enormemente, até porque era uma eleição que supostamente estaria decidida, e por isso a motivação para ir votar era baixa. Portanto, a primeira conclusão óbvia era que as pessoas não vão votar. E a segunda conclusão óbvia era que isto vai beneficiar André Ventura, porque se problemas mínimos beneficiam André Ventura, o que dizer de uma tragédia desta dimensão, em que o Estado falhou numa série de momentos, em que o governo falhou numa série de momentos, em que a classe política falhou numa série de momentos, naturalmente que isto iria beneficiar André Ventura. E o que nós vimos é que não beneficiou. A abstenção não baixou, ou melhor, baixou residualmente e, portanto, logo à partida não teve esse efeito. E quando vamos olhar para os resultados, enfim, António José Seguro tornou-se no presidente eleito com mais votos de sempre. E quando vamos olhar mesmo para as regiões diretamente afetadas, nós não vemos, muito pelo contrário, um bom resultado de André Ventura. E por isso acho que nós de vez em quando devemos uma das lições que fica é esta: não, nem tudo beneficia André Ventura. Não, a ascensão de André Ventura não é uma inevitabilidade. Não, não estamos aqui só à espera do dia, que chegará mais cedo do que tarde, em que André Ventura é o dono disto tudo, manda nisto tudo. Não é assim. Devemos olhar para as coisas com um pouco mais de nuance e de cautela.

Ricardo Antunes, fala-se muito do teto do Chega. O Chega chegou ao teto?

Ao teto atual, sem dúvida. Ao teto atual, sem dúvida, ou em francês, plafond.

É, o plafond.

Mas, na verdade, sim, porque ainda para mais este teto pode ser um teto fictício em boa medida, porque estávamos perante a hipótese de escolha de duas pessoas e, portanto, mesmo esse crescimento em votos absolutos de André Ventura pode não significar que perante outras escolhas e com eleitorados de partidos bastante fragmentados, que podem ter votado em André Ventura. Só para falar de dois, que é normal que alguns deles tenham votado em André Ventura, o eleitorado do PSD e o eleitorado da Iniciativa Liberal. Se calhar, se tiverem outros dois candidatos legislativos, não fazem a transferência que agora fizeram de voto para André Ventura. E portanto, acaba que mesmo essa subida é um pouco artificial, como seria sempre numa segunda volta, da mesma forma que também não tenho problemas em admitir que António José Seguro está aqui altamente inflacionado face àquilo que seria verdadeiramente o voto espontâneo, que aliás, na primeira volta foi bastante abaixo desta segunda volta. Claro. Aliás, vamos aplicar os mesmos critérios aos dois candidatos. Então o PS Atingiu um teto, 3.482.000 votantes. É o novo teto do PS. Então o PS conseguiu 66,8% dos votos. Já viram que extraordinário este novo teto do PS? Por que em André Ventura os votos são todos de convicção e em António José Seguro são emprestados? O que nos leva a pensar isso? Por que não há pessoas que foram votar, da mesma forma que há pessoas que votaram em António José Seguro só para não ter em Ventura, se calhar houve pessoas que votaram em Ventura só para não ter António José Seguro.

Mas não serão menos do que os que votaram em Seguro?

O voto de rejeição não é maior em André Ventura do que em António José Seguro?

Não sei.

Não sabe ninguém.

Não sei, não faço ideia. Eu só estou a aplicar. Mas se é assim, então mais me ajudas. Então é um voto que pode ficar no PS.

Ou seja, é um voto que não tem dono.

O ponto é: a mecânica de uma segunda volta de uma eleição presidencial é totalmente diferente de qualquer outra. Eu só estou a contestar esta ideia. Nós dizemos: o centro-direita votou pela primeira vez num candidato do Chega e agora já custa menos da próxima. Certo? O eleitorado de centro-direita votou pela primeira vez num candidato do PS, custa menos da próxima vez. Poderão votar também PS da próxima vez. Temos de aplicar, mais uma vez, é aquela síndrome de tudo beneficia André Ventura. Então aquilo que beneficia André Ventura também tem que beneficiar o Partido Socialista. Temos que aplicar a mesma lógica. Não entendo porque é que temos sempre uma lógica que beneficia André Ventura na análise e que depois prejudica os outros.

Porque canto o fado neste tomo aguado, dor e pranto. Era o que quis dizer a seguir.

Era, mas sabes que-

O nosso fado é este, é ter sempre análises. O Ricardo há bocado lançou a escada e como ninguém tinha, eu sendo o observador da Rádio Amália, senti-me na-

Obrigado se estás aqui, Rui Pedro.

Mas o que eu queria dizer sobre isto é: se André Ventura se gabava muito também de ser uma espécie de ajuda, de empurrar o espaço socialista e de reduzi-lo e "eu dizimei o Bloco, eu dizimei isto, eu dizimei aquilo", agora, no contrário, o fato de ter sido ele a passar à segunda volta permitiu que crescesse o espaço de um socialista, não é do PS, é um socialista. Isto podemos dizer, o voto daquele socialista. E deu margem a António José Seguro para ter capital político e força para aplicar as suas ideias de alguém que tem na sua formação política, mesmo que não seja igual a António Costa, Pedro Nuno Santos, tem outras nuances, mas é um socialista e é um ex-líder do Partido Socialista. E André Ventura contribuiu, pela maneira de fação como olha para a política, e que um dia lhe pode dar ganhos, mas que ainda não dá, contribuiu para isso, para que o PS tivesse aqui uma lufada de ar fresco e para que votos não podem ser correspondidos com o PS, acho que só num sonho de José Luís Carneiro é que isso pode acontecer, mas é óbvio que não foi para o PS, mas foram para um socialista. E, portanto, essa ideia de que André Ventura ia com uma vassoura limpar o país de socialistas, olha, pelo menos há um que teve quase 3,5 milhões de votos e que já está a trabalhar. Me faz lembrar um bocadinho aquele anúncio do BES que era a dona Inércia. Depois não correu muito bem, porque as pessoas ali de baixo terem ficado inertes noutro banco. Não sei se se recordam desse anúncio. Sim.

Sim, dona Inércia.

A dona Inércia, porque as pessoas não mudavam de banco, que era a Rita Blanco. Era sim. As pessoas devem estar a pensar neste momento: por que eu fui atrás da Rita Blanco? Mas o ponto era-

Deixa-me defender a Rita Blanco.

Não, ela estava a fazer o seu trabalho, obviamente, mas era o BES que pagava-lhe. Só para dizer o seguinte.

Por falar em anúncios.

Exato. É que o António José Seguro começou hoje de manhã a fazer chamadas. Eu ontem disse: "Hoje celebramos, amanhã trabalhamos". E começou a ligar para os autarcas, não deixou que Marcelo Rebelo de Sousa, que já estava a tentar também metê-lo no bolso, e pelos vistos se custrou, porque está há duas horas a tentar.

Já vamos saber o que é que ele falou.

E quis impor a sua própria agenda e divulgou uma nota a dizer que tinha ligado a autarcas.

Deixa-me só muito rapidamente. Mais uma vez, vamos usar os mesmos argumentos. Nos debates, muitas vezes os adversários diziam a André Ventura: "O senhor está na eleição errada". E ele dizia: "Olhe, já viu? Se eu estou na eleição errada e estou à sua frente." Aqui é a mesma coisa, André Ventura disse que António José Seguro era conversa de chacha, não sabia nada de nada. Já viram? Se ele que não sabe nada de nada e é só conversa de chacha, consegue ter 66,8%, imagina se fosse um socialista que não dissesse só conversa de chacha.

Obrigado, Miguel Pinheiro e Rui Pedro Antunes. Estivemos aqui a fazer contas às eleições de ontem.