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E nesta edição do Explicador das manhãs 360, temos ao telefone o presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livrários, João Alvim. Bom dia, muito obrigada por se juntar a nós na Rádio Observador.
Bom dia.
Obrigada. Hoje é o Dia Mundial do Livro, mas o setor só tem razões para estar preocupado. João Alvim, tem números sobre a quebra de vendas?
Tenho. A quebra de vendas em livrarias vai na casa dos 83%, que é o principal segmento, o principal canal de venda de livros. E, portanto, a situação é extremamente angustiante, não só para os livreiros, como também para os editores e para todos aqueles que colaboram com os editores e com os livreiros, todos aqueles que estão envolvidos na preparação, no desenvolvimento de um livro, desde logo os autores, tradutores, revisores, paginadores, as próprias gráficas, 20% do mundo gráfico trabalha para o livro. Portanto, isto é todo um setor que parou e que está totalmente parado e sem apoios significativos.
Claro. João Alvim, este é um setor que nunca foi muito rico. Já sofreu também durante a última crise, há 10 anos, no período da Troika, mas desta vez é incomparavelmente pior, não?
Olhe, aquilo que eu posso te dizer é o seguinte: quando foi a anterior crise, o setor caiu 25% e nos dois primeiros anos, logo na crise, caiu fortissimamente, e depois durante mais de três anos esteve sempre a cair, mais devagar, mais moderadamente, mas sempre a cair. Em 2016, começou-se a assistir a uma estabilização e a uma ligeira recuperação de então até 2019, mas uma recuperação que recuperou 5%, portanto, longíssimo daquilo que o mercado tinha sido. E a crise foi o que foi então. Se pensarmos na crise atual e no impacto que ela vai ter em toda a economia e também, forçosamente, no setor do livro, a expectativa é que seja não só mais funda do que aquilo que foi da outra vez, como ainda vá durar mais anos a recuperar.
Parece que vai demorar mais tempo, que a recuperação não vai ser mais rápida?
Acho. Não, porque uma coisa é a recuperação em geral, outra coisa é a recuperação de um setor específico como o livro, que da outra vez levou cinco anos. A pergunta é: vamos lá cinco anos ou eventualmente mais?
João Alvim, hoje sabemos, o Ministério da Cultura vai avançar com uma ajuda para o setor, mais de meio milhão de euros para ajudar editoras e livrarias. Que impacto é que isso tem na crise que está a descrever como tão intensa?
Olhe, são € 400 mil, precisamente, foi aquilo que foi anunciado. O resto já é um programa corrente, mas que nem sempre é executado. O impacto que vai ter. Não era nada disto que nós gostaríamos, nem esperávamos, nem nada nestes moldes. Isto pouco ou nada vai resolver, nem, de fato, é um apoio significativo. Antes pelo contrário. Eu tenho ideia daquilo que conheço, que nem pequenas livrarias, nem médios editores, isto lhes vai, de fato, resolver o que seja.
Desculpe, mas, portanto, o que o senhor está a dizer é que neste momento há o sério risco de encerramento de livrarias. Tem conhecimento já de estabelecimentos que estejam nessa situação?
Que estão na situação dificílima, estão. Se já começaram a encerrar ou não, não sei. É uma decisão que ela sempre teve. Não se toma de um dia para outro. Mas não tenho dúvida nenhuma de se admitir que vamos ter uma quebra significativa do mercado livreiro, e portanto, nas vendas em livrarias, muitos deles não terão condição para continuar, assim como nos editores, a mesma coisa. Não tenho qualquer dúvida disso. Portanto, não sei se há capacidade para uma reestruturação do setor. Também tenho muitas dúvidas que tenham sequer capacidade financeira para o fazer.
Mas João Alvim, como é que o Estado podia ajudar de alguma maneira, uma vez que está a haver apoios para uma série de setores? Já deu há pouco a entender que os € 400 mil são manifestamente insuficientes. É uma questão de quantidade de dinheiro, é uma questão de modelo, como é que o Estado podia intervir?
Isto tem muito a ver com o modelo. Tem a ver com questões, eu vou lhe pôr um caso muito simples: uma pequena livraria que tem certamente um ou dois empregados, que tem uma renda para suportar e que está fechada. Todos esses custos estão a cair lá. É muito bonito dizer que paga a renda daqui por uns meses. Pois, mas a verdade é que com o fecho real em que estamos, a que se acrescenta uma expectativa de vendas extraordinariamente baixa para os meses que vêm e uma recuperação muito lenta nos anos que se seguem Ela não vai ter capacidade nem para sustentar futuramente a renda, nem para pagar as rendas que ficaram para trás.
Portanto, ficam mais endividadas e não garantem a sobrevivência.
Ficam mais endividadas e não têm caminho para frente. Depois, como sabemos, as condições de acessibilidade a essas linhas de crédito são muito condicionadas. Não é qualquer um que chega, pede e diz que precisa de dinheiro. Não, depois entra toda uma problemática que tem a ver com as contas, com os balanços de cada uma das entidades, que tem a ver com garantias que se têm que dar. E eu sei que muitos não estarão em condições de o fazer. Portanto, eu vejo enormes dificuldades e aquilo que é mais importante para o setor é que as livrarias, grandes ou pequenas, funcionem. É verdadeiramente a questão. Se as livrarias funcionarem, tudo funciona a seguir. Bem, mas é extremamente difícil. Diga.
Há aqui a possibilidade de se reinventar um pouco este setor, ou seja, essas pequenas livrarias tentarem olhar para outras tecnologias, também passarem com vendas online. Principalmente neste caso, têm alguma expressão as vendas online neste último mês?
Ora bem, vamos pôr a situação do online nas proporções devidas. O online, se bem que não haja número público, estima-se que poderá andar ou andaria, antes da crise, entre os 5% e os 8% da totalidade da atividade. Admite-se que possa ter crescido qualquer coisa como 40% ou 50%. Mas continua a ser um número muito pequenino. Isso não só não resolve o problema das livrarias, como também não resolve o problema dos editores, nem dos leitores, porque na realidade as pessoas gostam de ir à livraria, gostam de ver, gostam de apreender o que está exposto e interessam-se, e é uma compra muitas vezes por impulso, porque está por aquele livro. Não sendo assim, nós propusemos várias ideias que não tiveram propriamente acolhimento.
Está a falar de quais, João Alvin?
Estou a falar de ideias como o cheque livro, que seria uma ideia para relançar a atividade. Estou a falar de uma revisão da lei do preço fixo, basicamente idêntica para aproximar de Espanha e de França, que traz uma maior proteção às livrarias. São medidas cruciais. Um apoio específico para as rendas nas livrarias, uma revisão da situação legislativa desta nova que saiu para os arrendamentos comerciais, que tem alguns clausulados que são para nós muitíssimo discutíveis. Depois poderia ter havido apoios aos editores para novos projetos, que é verdadeiramente aquilo que eles precisam, para pôr as suas pessoas a trabalhar.
João Alvin, mas não houve recetividade. Há temas que são antigos do setor, que não têm a ver diretamente com esta crise. Aqueles que têm diretamente a ver com esta crise, com este momento, qual foi a recetividade? Já puderam apresentar isso ao governo? Houve recetividade para ouvir estas ideias e para avançar com elas?
Não, o governo não se mostrou especialmente, antes pelo contrário, levantou uma série de questões e problemas da dificuldade para rever determinadas matérias. Você está a dizer que a lei do preço fixo é um tema antigo? Não, a lei do preço fixo é um tema que tem vindo a ser trabalhado e tem vindo a progredir ao longo dos anos, com várias revisões que se sucederam. A última foi em 2015, e em boa hora o fizemos, porque senão a situação livreira seria muitíssimo pior do que aquela que é atual, que era até o ano passado. E entendemos que para combater esta crise e viabilizar a situação livreira, é essencial voltar a mexer nessa legislação. Ainda que não seja muita coisa o que se pretende. São basicamente dois pontos e nada mais do que isso. E portanto, são pontos essenciais. Diga.
Sim. João, um dos grandes pontos de promoção do livro, do setor, é a Feira do Livro, as Feiras do Livro em geral, sobretudo a de Lisboa, que teve de ser adiada. Há planos para uma edição da feira ainda este ano? Acha que ainda é possível?
Eu acho, teoricamente, é possível. Não nas datas habituais, mas acho que será possível para final de agosto, setembro. No entanto, está extraordinariamente condicionada àquilo que for a evolução da situação de saúde no país. E portanto, é uma situação que terá que ser as entidades competentes, a Direção-Geral de Saúde e depois os ministérios, a decidir se há lugar a abrir uma Feira do Livro, se há e em que condições.
Ainda está tudo em aberto, portanto.
Mas está tudo em aberto. E a própria Câmara Municipal de Lisboa, com quem temos falado, a doutora Catarina Vasquez Pinto Está empenhada em que venha a acontecer a feira, mas também estamos todos condicionados por aquilo que se vier a passar em termos de saúde.
Estamos todos com esse nível de incerteza, mas a verdade é que o governo já prometeu anunciar para breve um calendário com a reabertura gradual de algumas atividades. Onde é que acha que a atividade livreira e de edição se deve enquadrar? Pode ser das primeiras a reabrir, mesmo com condições?
Há dúvidas. Eu pus essa questão à ministra. Ela disse que as livrarias de rua, exclusivamente as livrarias de rua, poderiam eventualmente abrir nesta primeira leva. No entanto, condicionado ainda a um parecer da Direção Geral de Saúde, que ainda não estava disponível. Não sabemos se as livrarias de rua poderão abrir agora ou será numa segunda fase. Depois, temos as livrarias que se encontram em centros comerciais, que essas dependem do momento em que for autorizada a abertura dos centros comerciais. E a abertura dos centros comerciais não se prevê para o imediato, tanto quanto sei. Mas aguardemos, pode ser que tenhamos alguma indicação de sentido diferente, sendo que o peso da atividade livreira nos centros comerciais é determinante na atividade do livro.
O presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, João Alvino, explicador das manhãs 360. Muito obrigada pela sua disponibilidade e por ter estado conosco na Rádio Observador.
Muito obrigado. Bom dia.
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