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Nesta semana marcada pela apresentação das listas do PSD às legislativas e por mais uma sondagem rumo às eleições de 18 de maio, contamos neste explicador com o antigo líder do partido, Luís Filipe Menezes. Entrevista conduzida pela Judite França e pela Vanessa Cruz.

Luís Filipe Menezes, muito bem-vindo. Obrigada por ter aceitado o nosso convite. A sondagem da Intercampos para o Correio da Manhã, conhecida hoje, dá à AD subir para os 26,5% das intenções de voto, mas sem conseguir uma maioria que garanta estabilidade. A direita não pode desperdiçar a oportunidade, desta vez, de se entender no pós-eleições. Eu pergunto-lhe: a direita e que direita em concreto, já que ontem aqui mesmo no Explicador, Miguel Relvas não fechava a porta a entendimentos com o Chega.

Muito obrigado pelo vosso convite também. Eu penso que essa é uma pergunta que está previamente respondida, pelo menos pelo primeiro-ministro e pela direção atual do PSD. Portanto, aquele não é não, relativamente à questão de uma eventualidade com um dos partidos da direita, que é o Chega, parece que está, com esta direção do PSD, afastada. E penso também, isto sem tomar partido, mas como uma observação relativamente neutral, penso que os acontecimentos dentro do Chega, acontecimentos quer de negligência político-jurídica, quer mesmo políticos dos últimos tempos, também não vêm embrenhar muito essa possibilidade, até porque há uma expectativa, eu penso que é uma expectativa com alguma fundamentação, de que o Chega vai ter um resultado eleitoral que o vai fragilizar nestas próximas eleições. Agora, admito, sim, como possibilidade, haver uma outra maioria possível, que é uma maioria entre o PSD e a Iniciativa Liberal. Aliás, até admito uma maioria que até será complexa de gerir pela atual direção do PSD, que é uma maioria um pouco à moda daquilo que utilizou como fórmula do doutor António Costa. Ou seja, porventura até poder nem haver uma maioria relativa do PSD, mas o PSD com a Iniciativa Liberal terem uma maioria de deputados no Parlamento, algo de que ainda ninguém especulou, mas à volta de um pouco deste clima de simpatia à forma como a direção da Iniciativa Liberal se comportou no seio de uma crise em que quase toda a gente se comportou menos bem, é uma possibilidade.

Estava a referir-se que podia ser difícil de gerir uma maioria entre AD e Iniciativa Liberal, por quê?

Não, ao contrário. Sim, por uma razão, porque eu estava a perspetivar essa maioria, não numa perspetiva de uma maioria com o PSD, com uma vitória robusta, com mais votos que o Partido Socialista, isso era o que eu desejo como militante, e é isso que deseja a direção nacional do PSD. Mas imagino, por exemplo, que pode haver, dada a subida da Iniciativa Liberal, pode haver uma maioria entre o PSD e a Iniciativa Liberal sem que o PSD seja o partido majoritário. Um bocado o fenômeno da geringonça. Isso não é um cenário que, no meu entender, seja completamente afastado neste momento.

E já agora, ganhariam AD e IL se sinalizassem desde já que se podem entender no pós-eleições?

Eu penso que é um sinal que não convém a nenhuma das partes. Não convém ao PSD e ao CDS, porque o PSD e o CDS estão neste momento a querer, ao máximo, e eu penso que faz bem, bipolarizar as eleições no sentido que só há uma possibilidade de haver um primeiro-ministro. O primeiro-ministro ou é Montenegro, ou é Pedro Nuno Santos. Não há mais nenhum primeiro-ministro que possa sair destas eleições. E portanto, se o PSD abrisse esse flanco, estaria a dizer que não valia a pena votar no PSD, porque noutras circunstâncias, com uma outra construção aritmética, poderia construir uma maioria. E também penso que não convém à Iniciativa Liberal, porque penso que a Iniciativa Liberal face, digamos, nomeadamente à forma como saiu da crise parlamentar que levou à queda do governo, terá algumas expectativas de melhorar o seu score eleitoral. E portanto, abdicar delas seria, porventura, também mais negra. Portanto, penso que não há condições para que haja uma coligação pré-eleitoral. Agora, estou convencido que há condições para uma coligação pós-eleitoral.

Esta sondagem também mostra PS e Chega em queda para 23% e pouco mais de 12%. De resto, há pouco também falava dessa possibilidade. Aparentemente, a oposição acaba por ser mais castigada pela crise política do que o governo. Surpreendeu de algum modo que o eleitorado pareça não querer responsabilizar Luís Montenegro pela queda do Executivo?

Não me surpreende. Sabe que eu tenho uma costela um pouco francófona, até pelos anos que trabalhei em França, e há uma expressão francesa que eu acho muito interessante Muitas dessas expressões que às vezes quando estamos no estrangeiro utilizamos e depois não temos uma tradução na nossa língua que corresponda à força que elas têm. A explicação haut couture, que é o conjunto de duas palavras que significam muito em contexto diferente. É um bocado haut couture. Ou seja, a campanha contra o doutor Montenegro, independentemente dos erros do doutor Montenegro. Erros, estamos a falar erros, e eu não estou a falar de ilegalidades, porque ilegalidades, francamente, não perspetivei muitas ou sequer alguma.

Mas geriu mal o caso Pinum Viva, pelo menos do ponto de vista ético?

Sim, algumas questões podem ser obviamente criticadas, alguma imprudência, admito que sim. Mas acho que o tal haut couture, ou seja, o excesso. Houve alguns órgãos de comunicação social que fizeram 10 ou 12 primeiras páginas seguidas com coisas absurdas, que eram até completamente colaterais àquilo que se estava a discutir. E quando há esse excesso, sabemos muito bem que o processo de vitimização junto do eleitorado é muito frequente. E eu penso que é disso que também o PSD está a beneficiar. Por outro lado, ao contrário, acontece que o Chega foi, mais ou menos em simultâneo, inundado por um tsunami de situações em que demonstra que os militantes e os dirigentes do Chega, afinal, também são de carne e osso, também têm sangue, também têm pele, músculos, ossos como as outras pessoas e também fazem as suas asneiras na mesma proporção estatística que se fazem outros grupos institucionais da vida pública portuguesa. Portanto, não me surpreende. Há uma terceira razão, eu diria até mais duas razões. A terceira razão é que eu não tenho rigorosamente nada pessoal contra o doutor Pedro Nuno Santos, até tenho alguma simpatia pessoal pelo líder do Partido Socialista. Mas com toda a franqueza, isto é vox populi, é o que a gente ouve na rua, as pessoas dizem: "Pois, a gente até mudava, mas esse não tem mesmo jeitinho nenhum para primeiro-ministro." Isto é um bocadinho a chamada à política da vulgaridade do café, mas é isso que se ouve um pouco por todo lado. Ou seja, o doutor Montenegro tem condições para ganhar, mas eu acho que o doutor Pedro Nuno Santos, infelizmente para ele, tem muitas condições para perder. Pela desunião no PS e pelo seu próprio perfil pouco arrebatador. O PS está habituado, quando ganha, a líderes que põe o peito para fora, como a Costa, a Sócrates. Não é o perfil do doutor Pedro Nuno Santos. Por outro lado, o PSD geriu bem esta escolha de deputados. Foi muito rápida, com muito pouca beligerância interna, muito reduzida, e imediatamente utilizando para passar quase uns sinais políticos daquilo que vai ser o essencial da campanha eleitoral. Ao colocar os ministros, com maioria grande ministros como cabeças de lista, está na calha que aquilo que vai ser a campanha eleitoral do PSD vai ser a nossa obra deste último ano. Portanto, por tudo isto não me espanta muito os resultados destas sondagens que têm saído.

Vamos agora às listas apresentadas pelo PSD esta semana, mais concretamente à provocação feita por Pedro Nuno Santos esta tarde. Diz o líder socialista que o PS tem Fernando Araújo nas listas e eles, o PSD, têm Ana Paula Martins. É uma opção arriscada de Luís Montenegro apostar numa ministra que está debaixo de fogo e, já agora, no ex-secretário de Estado Arani Dias, que se demitiu do governo.

Esses são os detalhes. Eu fiz uma análise geral à lista de deputados, achei que foi rapidamente escolhida, com beligerância curta, pequena ao nível dos distritos, com a maioria dos membros do governo colocados em lugares proeminentes. Repare que o que seria se o doutor Montenegro chegasse a um ou dois ministros que sabemos nós, e até um militante do PSD como eu, mas que faz um esforço de ser o mais sincero possível nas suas apreciações, e pegasse em alguns ministros que sabemos, manifestamente, que têm sido menos brilhantes, que estão mais fragilizados, e que os retirasse das listas ou os pusesse numa posição secundária, estava imediatamente a atirar uma lança ao coração de algumas das suas políticas e a abrir uma porta para que a oposição utilizasse um discurso muito forte e dirigido para essa problemáticas.

Mas Margarida Blanco, a ministra da Administração Interna, e Dalila Rodrigues, a ministra da Cultura, não estão nas listas.

Algumas não estão, mas também há uma questão que tem a ver com a própria ligação desse tipo de pessoas ao partido, ou seja, são pessoas que têm menos militância partidária. Penso que até alguma delas nem são militante do partido. Porque em relação àqueles que são militantes do partido, a coerência foi de os manter nas listas. Isso é habitual desde há muitos anos no PSD. Agora, aquilo que eu poderia acrescentar em relação ao PSD e ao CDS, é que se olharmos, e eu penso que isso era muito importante, particularmente a Rádio Observador, porque a Rádio Observador é algo de muito especial, em meu entender, na vida jornalística e comunicacional portuguesa, em que aborda os assuntos de fundo Os programas da manhã que eu ouço muitas vezes deviam, se calhar, pegar nestas matérias. Há 20, 25 anos, as listas de deputados do PSD e do CDS tinham grandes figuras, muitas delas membros do governo, e depois tinham uma grande capacidade de somar personalidades da sociedade civil de grande renome e de qualidade superior. O PSD e o CDS hoje não conseguem isso. O PSD mete os seus ministros, alguns prestigiados, alguns qualificados, o CDS mete os seus ex-ministros, que não vão ser candidatos autarcas, mas grande parte deles que também não foram brilhantes antes, pelo contrário, e depois tem uma incapacidade total de ir à sociedade civil buscar novidade. Era sobre isso que era preciso refletir, porque isso está a fazer definhar a qualidade da democracia portuguesa. Aquela incapacidade dos partidos políticos irem à sociedade buscar novidade. Até lhe dou um exemplo das autárquicas. Um autarca, um médico com 56, 57 anos, que se reformou quando atingiu os 35 anos de serviço, que era o que a lei permitia, tem X de reforma. Se for candidato a uma câmara, e com essa idade tem perfeitamente capacidade pra ser candidato a uma câmara, não pode receber a sua reforma, tem que prescindir dela, não pode optar entre a reforma e o vencimento, e o vencimento é inferior ao da reforma. O país enlouqueceu. Para além de toda a confusão das leis sobre incompatibilidades, como ainda agora se viu na discussão do processo do primeiro-ministro e de um conjunto de matérias que têm a ver com a transparência, não se quer discutir esses assuntos. Como não se quer discutir, cada vez vamos ter piores políticos nas autarquias, no Parlamento, porque o pool de escolha é muito limitado.

Mas é essa incapacidade que leva, por exemplo, também o Bloco de Esquerda a ir buscar três fundadores do partido para este combate eleitoral?

Eu julgo que não. Eu julgo que a questão do Bloco de Esquerda é diferente. Eu julgo que o Bloco de Esquerda esgotou, durante aquele período da geringonça, aquelas bandeiras que eram bandeiras quase todas ligadas à política de costumes, muito mobilizadoras da juventude, com rostos jovens, de mulheres. Aquilo esgotou, a garrafa ficou vazia, não dava mais nada. E o que é que ficou? Ficou o velho FEC ML e o DP, que vale uns 3% e não sai dali. Eu penso que é uma tentativa de ressuscitar um partido com ideologia, com política, com credibilidade e experiência que as atuais últimas lideranças do Bloco de Esquerda não tinham.

Luís Montenegro fez bem em processar o Chega na Justiça por causa dos cartazes em que aparece ao lado de José Sócrates?

A questão da liberdade de expressão, pra mim, é muito querida, mas penso que o Chega ultrapassou uma linha vermelha que não devia ter ultrapassado. Eu, como militante do PSD, acho que quem pagou aquela campanha foi o doutor Montenegro, porque nada faria melhor ao doutor Montenegro que aquela campanha, por aquilo que nós ouvimos na rua e ouvimos um pouco por todo lado. Portanto, aquilo é um erro de casting brutal. Mas eu acho que o Chega está a cometer erros de casting uns em cima dos outros. Foi mais um.

Depois das legislativas, Luís Filipe Menezes, há autárquicas. É mesmo uma carta fora do baralho eleitoral ou ser candidato do PSD por Gaia ainda é uma hipótese?

Como disse, eu podia ser candidato por Gaia, posso ser candidato pelo Porto, posso ser candidato por Sintra, posso ser candidato por Lisboa, posso ser candidato em qualquer lado, tenho idade e experiência para isso. Agora, como eu já disse várias vezes, mudar de opinião em relação àquilo que eram até há pouco tempo intenções convictas, profundas, não é nada fácil. E portanto, só numas circunstâncias absolutamente limites é que eu poderia encarar uma coisa dessas. Eu neste momento estou a trabalhar num projeto que me agrada muito, ligação de Portugal ao mundo árabe. Eu sou um dos tais médicos que teria que prescindir de metade da reforma para ser presidente da Câmara. Tenho um filho ainda de oito anos no colégio, tenho um enteado a estudar, tenho um pai com 99 anos em casa de que trato. E vivemos neste país de malucos que querem pagar €10 para alguém se desprender disto e ocupar um lugar público. Portanto, esta é uma das razões. Outras razões é porque não convivo muito bem com este excesso de beligerância atual do combate político. Eu combati muito. Combati dentro do meu partido, ganhei eleições com o meu amigo Marques Mendes, perdi eleições com Marques Mendes, fui contra Durão Barroso, fui a favor de Fernando Nogueira, tive lutas contra o Partido Socialista, fui candidato a deputado enfrentando Seguro em Braga. Mas era com educação, elevação, ideias, propostas. E no fim ficávamos todos Amigos éramos capazes de ir a um café, tomar café e falar do mundo e da vida. Agora entramos numa fase que é só comparável àquilo que vemos na televisão, na loucura de Gaza ou na loucura da Ucrânia com a Rússia. Quando temos um presidente da maior potência do mundo tão desnorteado como o senhor Trump, também se calhar não nos podemos queixar muito, mas eu não me dou muito bem com este mundo.

Já ultrapassamos aqui o nosso tempo, mas só muito rapidamente e porque falou em Marques Mendes. Dizia aqui na Rádio Observador em fevereiro que o almirante tinha chegado ao teto possível, o almirante Cova e Melo, mas agora não poderá ganhar embalo, tendo em conta que há vários social-democratas que agora o apoiam?

Sim, é verdade que desde então, as condições do almirante, do ponto de vista das suas possibilidades eleitorais, pareceram melhorar. Não tanto só por haver pessoas a apoiá-lo, porque isso é normal, essa transição de pessoas de um lado para o outro é normal em eleições presidenciais, mas porque também o facto de ele estar a ter uma postura relativamente serena e tal como falámos nessa altura, ainda não ter falado o suficiente para nós apurarmos em absoluto qual é a força do seu discurso político eleitoral. Acho que ainda é cedo. Acho que ele hoje está em melhores condições do que estava há dois meses atrás.

Luís Filipe Menezes, muito obrigada por ter vindo ao Explicador da Rádio Observador e bom fim de semana.

Igualmente, obrigado.