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Espetador da Rádio Observador. Damos agora as boas-vindas a Paulo Vicente, presidente da Câmara Municipal da Marinha Grande. A Marinha Grande foi um dos concelhos na região de Leiria muito afetado pela intempérie, pela Depressão Kristin. O município tem uma grande parte da população ainda sem eletricidade e tem também um tecido empresarial muito forte, muito importante não só pra região, mas também para o país, que foi gravemente afetado por este mau tempo e está ainda a tentar recuperar. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite França pra esta conversa com o autarca da Marinha Grande.

Paulo Vicente, bem-vindo. Obrigada por ter aceitado o nosso convite. Ajude-nos aqui a fazer uma leitura sobre as eleições que ocorreram ontem. A Marinha Grande é um município que tem uma freguesia, como dizia o Ricardo, com a maior parte da população sem eletricidade, viu várias empresas atingidas. O cenário eleitoral foi muito acentuado. André Ventura cresceu apenas 13% nesta segunda volta e António José Seguro subiu 90%. Uma diferença destas pode ler-se como?

Pela confiança que o candidato e presidente eleito infundiu nos eleitores. Eu sou suspeito, sou suspeito, porque fui apoiante e sou amigo pessoal do senhor presidente da República eleito.

Já lhe ligou ou não? Desde que foi eleito. Já falou com António José Seguro desde ontem?

Falei com o senhor presidente da República eleito. Estiveram ontem no Centro Cultural das Caldas da Rainha.

Não estiveu, mas estivemos lá.

Pronto. Viram o abraço forte que ele me deu e o encorajamento para enfrentarmos a situação em que estamos a viver. E quero referir que o presidente eleito, em plena campanha eleitoral, me telefonou muito de manhã num dia, que queria vir aqui dar-me um abraço de solidariedade e esteve anonimamente aqui durante uma hora a encorajar-nos. Inclusivamente até nos proibiu tirar uma fotografia porque não quis confundir uma campanha eleitoral, que o acusassem de um aproveitamento eleitoral. Portanto, isto só por si revela o presidente que os portugueses escolheram.

De alguma forma, André Ventura, por ter utilizado outra forma de visitar o terreno, acha que foi penalizado?

Não sei. O senhor candidato André Ventura, deputado André Ventura, não tive notícia que tivesse visitado o Conselho da Marinha Grande. De qualquer maneira, se o tivesse visitado, seria recebido por mim, como recebi todos. Recebi o José Luís Carneiro, recebi o Paulo Raimundo, recebi a deputada Inês Corte-Real, recebi o doutor José Manuel Pureza, do Bloco de Esquerda, o Paulo Raimundo. Recebi o grupo de deputados do PSD aqui na Marinha Grande, recebi toda a gente e agradeci a solidariedade que me manifestaram e solicitei a influência deles junto do poder, junto do governo, para serem céleres nos apoios que necessitamos para recuperar a Marinha Grande.

Ajude-nos a perceber qual é o ponto de situação agora no conselho, Paulo Vicente.

A situação mais grave e que está a descontrolar a população tem a ver com a falta de energia elétrica. Portanto, nós em vez de progredirmos, isto é, reduzirmos os agregados familiares que ainda não têm eletricidade, estamos a regredir. Está a aumentar.

Que resposta que tem tido sobre a rede da parte da redes?

A resposta que temos tido é a insistência junto da empresa E-Redes, mas no terreno nós não vimos nada. Vimos esta tarde algumas ruas, algumas zonas da freguesia da Vieira, que foi a que mais fustigada foi, a terem energia elétrica. Já imaginou o que é há 12 dias consecutivos sem energia elétrica, sem comunicações? As pessoas estão a entrar em estresse bastante acentuado.

E quando o senhor telefona, alguém o atende ou não, Paulo Vicente?

Sim, eu tenho uma linha direta com uma responsável da E-Redes, mas os resultados no terreno, muitas vezes põem os geradores, trabalham meia hora e depois acabam.

Nós há 20 minutos estivemos a falar com o presidente da Câmara de Ourém, que deixou aqui na Rádio Observador a ideia de que há Milhares de pessoas no terreno colocadas pela ERREDES, há até pessoal internacional, mas fica um bocadinho a ideia de uma certa descoordenação ou mesmo de falta de coordenação. Que ideia é que o Paulo Vicente tem sobre a forma como estes trabalhos estão a ser feitos e a ser coordenados aí no terreno?

Eu só sei o resultado, que é ter 6.800 habitações sem energia elétrica. A freguesia de Vieira de Leiria, os lugares mais periféricos da freguesia da Marinha Grande continuam sem energia elétrica.

Mas vê profissionais no terreno?

Repare, as pessoas veem-nos como tendo uma ligação direta com a empresa. Coisa que depois nós insistimos, nós reivindicamos, nós reportamos e não temos do outro lado a resposta no terreno que se impõe. Isto é inadmissível.

Deixe-me perguntar-lhe se vê profissionais da ERREDES no terreno a trabalhar.

Não vejo, mas eles também podem andar em sítios onde eu não passo. Isto ao benefício da dúvida. Mas de qualquer maneira, o resultado está à vista. As pessoas continuam sem energia, isto não pode continuar assim.

A Marinha Grande tem um polo industrial muito importante para a região e também para o país. Acha que as contas já estão feitas, por exemplo, sobre o impacto que tudo isto pode ter também nas contas nacionais deste ano, esse tipo de contas já foram feitas?

Obviamente. Nós não fizemos essas contas, mas ouvimos o tecido empresarial e as preocupações que têm. A zona industrial já há uns dias que foi ligada à energia. Mas, como sabe, na Marinha Grande há muitas empresas que não se situam na zona industrial e há muitas empresas nesses lugares onde ainda não têm energia elétrica, que estão sem energia elétrica da rede. Há empresas de moldes que têm contratos com empresas até internacionais, com os contratos de datas precisas de entrega das encomendas e não estão a ser entregues e que têm as penalizações contratuais. Isto é muito grave, não só para as empresas, mas também e sobretudo para a economia da região e para a economia do país.

Deixe-me só perguntar-lhe como é que estas famílias que ainda não têm eletricidade fazem o seu dia a dia? Não têm o frigorífico a funcionar, como é que cozinham?

Comidas estragadas. Não sei. As pessoas vão se movimentando, vão entrando quase em pânico quando nos encontram. Por exemplo, ontem eu percorri todas as mesas eleitorais, cerca de 40 mesas eleitorais, percorri todas uma a uma. As pessoas estavam a aderir à eleição, mas o que nos referiam mais até que os aspetos da destruição de parte das suas habitações, era a falta de energia elétrica, porque as pessoas estão isoladas, as pessoas não têm comunicação, as pessoas não têm notícias de coisa nenhuma.

E o senhor também não tem uma resposta para lhes dar, não é?

Eu não tenho, é muito frustrante. Porque eu por temperamento e talvez pela minha maneira de estar nestas coisas, porque fui presidente de junta durante muitos anos, eu vivo muito os problemas das pessoas. Os problemas das pessoas também são os meus próprios problemas. Isto custa mesmo dar uma resposta às pessoas. É frustrante. E manifestar às pessoas a impotência que nós temos para resolver os seus problemas. É que são problemas que nos ultrapassam, que ultrapassam a Câmara Municipal. Nós somos o veículo de transmissão para, até lhe diria, uma parede. Estou?

Estou, estávamos a ouvi-lo e estávamos a refletir sobre a imagem que acaba de criar. Paulo Vicente, muito obrigado pelo seu testemunho. Obrigado também por ter estado aqui em direto na Rádio Observador. Estamos a tentar, ao longo destes dias, acompanhar como está a situação no terreno, sobretudo na zona centro, na zona da Grande Leiria, vamos dizer assim, porque é importante percebermos como é que as pessoas estão a viver e a trabalhar nestes dias. Obrigado, Paulo Vicente.

E Leiria, o distrito de Leiria não é só Leiria.

Sim, exatamente.

Também é a Marinha Grande.

É por isso mesmo que estamos a falar consigo.

De qualquer maneira, quero agradecer à comunicação social que tem tido um papel muito importante de nos pôr em contacto com o exterior e contacto com o mundo, porque se não fossem vocês, nós estaríamos muito mais isolados desde a primeira hora. Nós estivemos 12 horas sem que ninguém nos perguntasse nada, sem que o país soubesse a situação em que nós estávamos. Não tínhamos energia, não tínhamos comunicações, inclusivamente, sem energia, não tínhamos abastecimento de água, isso foi muito dramático. E foram vocês, a comunicação social, que nos puseram em contacto com o mundo e daí os nossos agradecimentos e o nosso reconhecimento.

Muito obrigado, Paulo Vicente, presidente da Câmara Municipal da Marinha Grande, aqui neste testemunho muito pessoal também a dar conta de como está a situação naquele município do distrito de Leiria. As presidenciais foram ontem, António José Seguro venceu com 66% dos votos. Temos também de fazer um balanço sobre a forma como decorreu o dia de ontem e os resultados. É isso que vamos fazer já a seguir.