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Bem-vindos ao "Realpolitik", uma conversa sobre política e atualidade todas as semanas aqui na Rádio Observador e em podcast. Eu sou o Miguel Pinheiro.
Eu sou o Sérgio José Pinto.
E hoje eu e o Sérgio vamos falar sobre os 10 anos de António Guterres à frente da ONU. Está a acabar, tudo que é bom acaba. E sobre a polêmica com o programa Volta, de reciclagem de plásticos. Vamos ver se temos tempo pra isso tudo, porque antes, Sérgio, temos a carestia de vida. As pessoas estão a sentir tudo isto apertar cada vez mais. Os partidos têm diferentes propostas políticas, o governo nos combustíveis tem a redução não do IVA, mas do imposto que a União Europeia permite que se baixe e teve uma redução do IRS. O Chega quer uma redução do IVA dos combustíveis, o PS mais ou menos quer, mas sabe que não é possível. O PCP quer fixar preços. Se fixar preços, está tudo resolvido. Sendo que as pessoas vão sempre sofrer, não é, Sérgio? Não há maneira.
Sim, vão sofrer, estão a sofrer e já sofrem há muito tempo, porque a ausência de crescimento econômico na Europa, há mais de uma década desta parte, tem vindo a criar uma tensão, uma revolta e um desespero. A falta da escassez de oportunidades, a estagnação dos salários, as sucessivas crises, a inflação põe em causa o custo de vida sustentável pelos rendimentos que as pessoas auferem. Enfim, há um ambiente que está a deslaçar social e politicamente a Europa. Nós observamos as eleições, o impacto político direto deste longo ciclo de ausência de crescimento.
No domingo tivemos mais duas eleições regionais na Alemanha. Numa ficou à frente a AFD, de extrema-direita, no outro, o Die Linke, de extrema-esquerda, por isso as pessoas acham que as soluções vêm da magia política.
Sim, no caso do Die Linke, a situação da extrema-direita é assustadora na Alemanha. O Die Linke até tem um aspecto cômico, que é o partido herdeiro do Partido Comunista da República Democrática Alemã, ou seja, da Alemanha de Leste, agora está à frente dos destinos de Berlim, portanto, incluindo Berlim Oeste, que fazia parte da Alemanha Federal. Estamos aqui a rir, mas não tem graça nenhuma. Seja como for, o pano de fundo é um cenário de grande frustração coletiva, com implicações políticas. E agora, com a situação internacional e em particular no Médio Oriente, mas também no leste da Europa, assistimos a esta escalada dos preços. A escalada dos preços dos combustíveis é incomportável para um país pobre como o nosso. Ou seja, as pequenas empresas, as famílias, são particularmente fustigadas pelo preço dos combustíveis. Agora temos sobretudo a subida, a gasolina também é estratosférica, mas a do diesel ainda é mais elevada. O diesel é indispensável ao funcionamento da economia, é um combustível mais associado à atividade produtiva. A subida dos preços dos combustíveis depois traduz-se em tudo, não é só na competitividade da economia, é também no supermercado. Todos os produtos que nós sabemos, no supermercado, o mesmo dinheiro já não compra o que comprava ainda há pouco tempo atrás. Toda gente sente isto. E a questão que se coloca é de saber até que ponto o governo pode e deve ir no sentido de contrariar esta tendência da subida dos preços. O governo português alega ter optado por uma posição de neutralidade. Neutralidade é o quê? Nós sabemos que o IVA incide sobre o preço dos bens. O bem em questão é o gasóleo e a gasolina. E como é evidente, como os preços estão a subir, o IVA é proporcional aos preços, o governo estava a arrecadar uma fortuna que acrescentava o sacrifício de quem vai à bomba de gasolina encher o depósito. Então o governo decidiu: "Não, nós vamos devolver esta parte excedentária que nós temos a ganhar em resultado da escalada dos preços e vamos, através do ISP, devolvê-la aos consumidores, por essa via, moderar o crescimento dos preços." É uma solução muito diferente da solução adotada em Espanha e na Alemanha, por exemplo, onde o governo usa um mecanismo de descida dos preços que vai além da neutralização. E depois também podemos discutir se realmente o governo está a neutralizar os preços. Ou se há aqui uma manobra.
Se fica ali.
Uma habilidade sempre em nome do sacrossanto tesouro. E portanto, por essa razão é que o combustível é tão caro em Portugal, comparado desde logo com a Espanha, porque as medidas são menos contundentes no sentido do alívio fiscal. Uma parte substancial do preço dos combustíveis são impostos E a Espanha foi mais longe na redução dos impostos. Não procurou apenas devolver o ganho a mais, mas aceitar viver com menos recursos, porque baixou a tributação sobre os combustíveis. A oposição em Portugal vem reclamando uma redução dos impostos, alega que o governo fez subidas de imposto sobre os combustíveis em 2024 e 2025. Isso é factual. Esses aumentos de combustíveis constituíam uma reposição gradual da normalidade fiscal sobre os combustíveis em Portugal, depois de terem sido reduzidos na última grande crise energética. E depois pensou-se: agora na taxa de carbono e também no ISP, nós vamos paulatinamente aumentar a carga fiscal no sentido de retomar os níveis normais de tributação, de acordo com as escolhas políticas que Portugal fez. O problema é que, de facto, nós não regressámos à normalidade. Nós estamos numa situação de anormalidade extrema e esses aumentos que estavam previstos e que foram começados até, julgo eu, ainda no governo de António Costa, e que este governo prosseguiu em 2024 e 2025, ocorrem num período absolutamente excepcional e extraordinariamente grave de combustíveis a preços altíssimos. Isto no fundo, é o contexto do debate político em Portugal. O governo tem que fazer uma escolha política, porque o preço dos combustíveis afeta a competitividade da economia, está a tornar o custo de vida insustentável pela capacidade de se refletirem no preço geral dos bens de primeira necessidade. Essa é uma decisão política do governo. O governo tem dois grandes travões a uma política de redução de impostos significativa. Nós já vimos agora recentemente esta ridícula rebaixada de impostos, que de acordo com o Expresso, permitirá a um contribuinte sem filhos e que aufira € 1500, vai poupar menos que um maço de tabaco. Veja se bem a extraordinária generosidade do governo. Sinal de uma grande reversão da direção da orientação económica do país. Até aqui podíamos comprar menos um maço de tabaco e agora por mês, mais um. Cá está um país que aposta na redução de impostos. O governo tem, por um lado, um desempenho medíocre nas sondagens, precisa de fazer estes efeitos. Parece que o primeiro-ministro reddenta quinta baixa consecutiva de impostos. Deve ser já o quinto maço de tabaco que o governo devolve aos portugueses. Mais o bolo aos pensionistas, habitual, já faz parte do calendário político. Portanto, o governo sente pressão de fazer qualquer coisa, mesmo que seja propaganda, para contrariar a sua descida aos infernos nas sondagens. Parece que aparece continuamente abaixo do PS e às vezes abaixo do Chega, outras vezes acima do Chega. E, por outro lado, o problema das contas públicas. Ou seja, nós não podemos deixar as contas públicas descontroladas. E depois temos os combustíveis que estão a destruir a vida das pessoas, das famílias e das empresas.
Sendo que aqui o ponto acaba por ser sempre o mesmo, mas do qual ninguém fala ou ninguém gosta de falar muito. Já parece aqueles tipos das teorias de conspiração, disto ninguém fala, que é: para tu baixares impostos, o Estado tem que gastar menos dinheiro. Ponto. Sem isso, não há maneira. E por isso, todas as pessoas que são a favor de uma redução de impostos, têm que explicar onde é que acham que o Estado poderia gastar menos dinheiro. E não me basta vir dizer que é nas fotocópias e nos papéis e nos clipes.
Essa era aquela ilusão do Pedro Passos Coelho, que falava das gorduras do Estado, chegou lá e não encontrou nenhuma gordura.
E também não é com as reformas vitalícias dos políticos, como acha a Alexandra Ventura. Além disso, nós de facto andámos anos e anos, o Estado andou a dizer-nos e a doutrinar-nos para o facto de que usar combustíveis fósseis era matar o planeta e, portanto, houve uma tributação no sentido de provocar uma mudança de comportamentos das pessoas, que era tributar automóveis, tributar combustíveis. E de facto, depois quando chegamos a um momento de crise, em que sobre isso, sobre essa tributação virtuosa, que procura uma virtude em que vamos todos salvar o mundo, temos este problema de escassez, a coisa torna-se difícil. Eu só queria chamar a atenção para uma coisa que aconteceu em França. Nós ontem aqui no Observador tivemos um artigo sobre isto, porque uma das tentações nestes momentos é dizer que a culpa, e vemos isso muito à esquerda, é das grandes empresas. E portanto, as grandes empresas é que estão aqui a tentar aumentar os seus lucros, aproveitar-se dos males do mundo para espremer ainda mais a cidadania e para ter os seus acionistas a comprarem mais uma ilha ali algures no Pacífico. Está tudo muito bem. Em França, o que aconteceu? A Total, que é uma distribuidora de combustíveis, queria evitar ficar na mira do governo e levar com um imposto especial sobre os lucros. E então o que fez? Decretou um preço fixo para os combustíveis. Muito bem, então para não nos virem cá taxar lucros, não vamos ter lucros. Vamos fixar um preço dos combustíveis, como quer o PCP. Preço fixo, daqui não sobe. O que é que aconteceu? Escassez. Houve um dia em que um quinto das bombas de gasolina em França estavam sem combustível. E portanto, eu só digo isto Para aquelas pessoas que se iludem achar que é muito fácil resolver estes problemas.
Isso é igual ao discurso do Chega: se acabarmos com a corrupção, há dinheiro para a pensão. Se acabarmos com a corrupção, há dinheiro para alimentação. Se acabarmos com a corrupção, há dinheiro para o foguetão. Pronto, é o discurso mágico primário dirigido a um setor do eleitorado cujas competências cognitivas sejam baixas, e o Chega estima que uma parte significativa do país seja composta por debiloides, é a única explicação.
Ou pessoas que estejam tão legitimamente desesperadas que realmente só querem ver uma solução, mas é difícil haver uma solução a longo prazo, seja do que for. O problema é que nós estamos sempre no limite. Nós estamos sempre no limite, a pagar ao Estado o limite daquilo que é possível. As pessoas estão sempre esmagadas. O tributo vai sempre até o limite. E quando vem algo de fora que força uma subida, já não há para onde comer. Não é possível.
É sim. Nós vivemos há muitos anos nesta situação de ausência de crescimento. E por mais que se tente falar do problema do crescimento, ninguém quer saber do crescimento. Não se fala do crescimento. Quais são as condições do crescimento? O crescimento é difícil. É até mais fácil fazer promessas que dependem do tesouro público. Abre-se a saca dos recursos nacionais e distribuem-se uns espetáculos com grande espetáculo de luz e cor para enganar as pessoas menos precavidas. O problema nacional, que já não é só nacional, mas no nosso caso é pior, porque estamos numa fase de desenvolvimento mais atrasada em termos de produtividade, modernização, inovação, o nosso lugar na cadeia de valor, o que nós ganhamos com aquilo que produzimos, o valor daquilo que produzimos ao fim de oito horas de trabalho por dia. Esses são os problemas. São fáceis de resolver? Não, são difíceis. Portanto, melhor é não falar deles. Andar mexer para a roda o que fazer com o dinheiro que o Estado arrecadou e o Estado ter como preocupação fundamental arrecadar. Como é que se sai disto? Tu falaste de duas questões fundamentais. A ludista da desigualdade. A desigualdade é um problema gravíssimo, que preocupa não só a esquerda, mas também os liberais. Os liberais percebem que esta dinâmica das economias de mercado, quer dizer, Adam Smith, se visse as condições de funcionamento do capitalismo hoje, provavelmente ficaria horrorizado. Não era nada disto que ele queria. E, portanto, há o problema da desigualdade, problema que muito tempo foi pensado como a dificuldade de tributação das grandes fortunas. Mas que hoje se percebe que tem uma dimensão muito mais vasta e profunda. Que há aqui, de facto, uma dinâmica sistémica no sentido da acumulação da riqueza, que não se sabe como é que ela pode ser contrariada. O que se sabe é que é impossível continuar a destruir a classe média como se tem vindo a destruir a classe média na Europa, nos Estados Unidos. É impossível, porque a classe média é o espetáculo dos nossos sistemas democráticos liberais. Se não houver uma solução para que o sistema funcione e que corresponda minimamente à expectativa legítima das pessoas, as pessoas vão substituí-lo pelas soluções mágicas que tu elencaste, seja num extremo, ou seja no outro. Há um problema de crescimento, há um problema de desigualdade no mundo, que se agrava. As classes médias, de uma maneira geral, sentem-se esmifradas até ao osso. E agora, ainda por cima, ocorre este admirável mundo novo, que vamos debater a seguir, de guerra, de constrangimentos ao abastecimento da economia de componentes, matérias-primas fundamentais, combustíveis, fertilizantes. Tudo isso veio agravar o que já estava muito mal, não é verdade?
Vamos já falar disso. Ou seja, isto vai de mal a pior. Isto foi o mal, o pior vem a seguir.
Eu se fosse ouvido, já não vinha para a segunda parte.
Fiquem conosco para mais alegria na segunda parte.
Com o Dr. Dunno.
Bem-vindos de volta ao "Realpolitik". Se achavam que isto estava deprimente, agora ainda vai ficar mais, porque vamos falar de António Guterres. Sérgio, vamos falar dos 10 anos de António Guterres à frente da ONU. Não sei se achas que foi um mandato glorioso. Só para situar as pessoas. Estamos agora a assistir a estes discursos no âmbito da Assembleia Geral. António Guterres discursou ontem, fez o seu último discurso. Virá agora uma nova luminária liderar os destinos desta organização. Não sei se tu achas que António Guterres tem alguma culpa no mundo em que vivemos ou se simplesmente foi uma vítima das circunstâncias.
Eu acho que António Guterres enfrentou circunstâncias terríveis.
Coitadinho, sim.
Eu sei que tu gemes de dor cada vez que a vida de António Guterres se torna mais difícil e penosa, mas a verdade é esta: o secretário-geral das Nações Unidas é alguém que está à frente de uma organização que é a mais importante expressão de um mundo organizado por normas. É uma construção jurídica e nós sabemos que essa construção jurídica, essa organização e todas aquelas múltiplas agências que desempenham um papel muito importante no mundo, nos sítios mais remotos, às vezes com grande sacrifício, está a ser lentamente posta em causa pela substituição do paradigma do direito pelo paradigma da força. Nós, neste momento, lidamos com duas guerras ilegais: a invasão da Ucrânia, uma guerra ilegal, e a guerra do Irão, que foi desencadeada pelos Estados Unidos, nós não chamamos ilegal, chamamos guerra de escolha. É o nome que temos para as guerras que nós iniciamos.
Mas estás só a falar das guerras que por acaso fazem manchetes em jornais. Porque por esse mundo fora o que não falta são conflitos, massacres.
Parece que estamos a viver o período com mais guerras desde 1946, ouvi algures.
Que, aliás, é uma das críticas que é feita a António Guterres. De facto, a sua grande preocupação é com alguns países selecionados, nomeadamente Estados Unidos e Israel, mas depois todo o resto do mundo, tudo lhe passa ao lado. Todos os outros conflitos têm umas referências vagas no discurso de ontem ao Sudão, que remédio. Mas está longe de ser pelo menos uma das preocupações mediáticas.
Sim, mas não acho que essa crítica seja justa. Teve um papel importante na denúncia das atrocidades em Gaza e na Cisjordânia. Fez o que lhe competia enquanto representante da comunidade internacional organizada, se é que esta entidade ainda existe, comunidade internacional organizada.
Há quem diga que foi menos vigoroso na condenação do ataque do Hamas de 7 de outubro, quando disse que estas coisas não acontecem no vácuo.
Sim, mas alguém acha que António Guterres não ficou tão horrorizado como nós com os acontecimentos que se produziram nesse dia?
Acho que ficou, Sérgio, mas os horrores privados de António Guterres são com eles. A mim preocupa-me os horrores públicos e a capacidade dele de emitir o seu horror publicamente. Porque nós podemos dizer também que a invasão da Ucrânia não aconteceu no vácuo.
É verdade que a invasão da Ucrânia não aconteceu no vácuo, mas também é verdade que os acontecimentos trágicos não aconteceram no vácuo. Nós temos ali um membro da comunidade mundial a gangrenar há décadas. É preciso reconhecer a complexidade dos problemas. Se nós fugirmos da complexidade dos problemas, então entramos no trumpismo. "Vou aí liquidar aquela civilização."
E que bem que corre.
Está quase acabada. Então e o projeto imobiliário para Gaza? Quer dizer, isto são coisas que desafiam a racionalidade. Imagina que o Sérgio Aulas, Nações Unidas, é confrontado: "O que acha deste projeto imobiliário para Gaza, resort, campos de golfe em cima das ossadas dos palestinianos? Não acha a ideia um bocado sombria?" "Não, isto oferece uma perspectiva extraordinária do futuro. Bombardeamos, matamos, destroçamos e em cima pomos o Brako 8." Quer dizer, isto é um mundo amoral, indecente e sujo. E calhou a António Guterres conviver com isto. E as Nações Unidas, sobretudo com o permanente esforço dos Estados Unidos de comprometerem o trabalho das Nações Unidas, com o financiamento, com as ameaças, intimidarem as Nações Unidas. Intimidam toda a gente, por que não hão de intimidar as Nações Unidas? Agora, o senhor Trump entrou numa nova fase do processo de luta, que também é espantosa, que é obrigar os aliados e parceiros a comprarem os produtos que os Estados Unidos produzem e que ninguém propriamente quer. É uma maravilha. Não há nada que me equilibre a balança de pagamentos com a pistola, qualquer um compra, seja lá o que for que venha no cabaz do senhor Trump. E portanto, as tarifas não estão a servir para grande coisa, além de acelerarem a transição do mundo para o protecionismo. Tu lembras-te quando foi a última vez que o mundo experimentou o protecionismo como solução? O fechamento sobre si próprio. Pensa num país como o nosso. Há pouco bravastavas, com toda a razão, com a despesa pública. O grande problema da despesa pública é a sua notória ineficiência. Ou seja, dinheiro mal aplicado e são precisas reformas. Que também é algo de que não se ouve muito falar. O país é avesso a reformas, toda a gente não gosta nada de reformas. Se eu falar em reformas, vamos todos achar que ou é uma grande investida da direita para destruir a nossa invejável qualidade de vida, ou é mais um aumento de despesa patrocinado pela esquerda que nos vai arruinar fiscalmente. A ideia de fazer o que quer que seja é sempre mal vista por um amplo setor do país. Mas, de facto, a eficiência é fundamental, ou seja, a alocação de recursos racional.
Sim. Mais uma crítica à ONU.
Sei que aparecem os rentistas todos. Quando a economia é irracional, uma das razões é porque há uma parte importante da economia nacional que é rentista, que é beneficiária desses equilíbrios. Eu despistei-me, não me lembro onde é que estava. Leva-me outra vez para a estrada.
Vou te levar outra vez para a estrada. Foca-te em António Guterres. Portanto, António Guterres Ouvindo o discurso de ontem, fiquei com a sensação de que ele não quer perceber o mundo onde vive. Ele percebe, claro, toda mundo sabe que António Guterres é um homem espertíssimo, inteligentíssimo e, portanto, com certeza que ele percebe. Mas é alguém que se deixa aprisionar pelos interesses que o rodeiam. Já foi assim em Portugal quando era primeiro-ministro. E a maneira como ele ontem falou das superpotências, que as superpotências não são tão super como pensam. A grande reforma da ONU, aquilo que é mesmo preciso para o século XXI, segundo ele, é acrescentar mais um membro ao Conselho de Segurança, um membro permanente do Conselho de Segurança, que venha da África. Portanto, ele não percebe, ou melhor, percebe, ele percebe tudo. Ele não quer perceber porque o Conselho de Segurança é como é, não quer perceber que o facto de o Conselho de Segurança ser constituído por membros permanentes com direito de veto, é uma coisa que faz da ONU uma organização particular, quer acrescentar um outro país com direito de veto e não por esse país ter a força militar e económica que indubitavelmente os outros países com assento permanente têm, mas apenas por ser de um determinado continente, acha que isso é que é uma boa solução contra o colonialismo e imagino, contra o heteropatriarcado e contra todas essas coisas que o movem muito. A mim o que me mete impressão em António Guterres é isto, é recusar-se a compreender o mundo e querer sair mais uma vez de um cargo como um santo. Acho que o que António Guterres queria ser na vida, e eu acho que ainda vamos descobrir uma redação da quarta classe. António Guterres que lhe perguntam: "O que é que queres ser quando fores grande?" E ele terá respondido: "Santo, quero ser um santo." Mas está no sítio de erratos. Devia ter seguido aquele grande amigo dele, Vítor Melinas.
Percebo a tua crítica. Há ali uma inclinação para uma espécie de bondade que não é deste mundo. Toda a gente percebe que o Conselho de Segurança está completamente desatualizado e não reflete a relação de forças que hoje existe no mundo. Solução para o problema: ir buscar um membro africano. Mas não me parece que seja por aí que nós vamos propriamente resolver o problema da necessidade de atualização da ONU, que é premente, mas é algo que vem a ocorrer sempre em circunstâncias extremamente difíceis. Como é que a França vai abdicar? Quer dizer, algum país vai abdicar do seu lugar no Conselho de Segurança? Depois o resto do mundo começa a convencer-se que o direito internacional, como está espelhado nas instituições das Nações Unidas, é uma arma de soft power, como se costuma dizer, do Ocidente. Ou seja, qual direito internacional? O Ocidente faz o que quer e que lhe apetece, e quando nós queremos fazer alguma coisa contrária aos seus interesses, invoca o direito internacional. O direito internacional está weaponizado, está convertido numa arma contra a liberdade do resto do mundo resolver os seus problemas à margem do direito.
Mas há outras weaponizações. Já reparaste que além da Europa, que também tem o seu lado, António Guterres também insiste, e com toda a razão, espero que assim continue. Mas a Europa defende uma ordem internacional assente em normas, assente em compromissos, respeito pelas proclamações, pelos tratados assinados, pelas convenções internacionais, um sistema que garanta a segurança coletiva sem este tipo de guerras ilegais. E agora apareceu outro país defensor de uma ordem regional assente no direito e no respeito mútuo: a China. É uma coisa extraordinária. Enquanto Trump organiza a libertação dos Estados Unidos dos constrangimentos ditados pelo direito, aparece a China a dizer: "Um mundo sem direito não é um mundo possível."
Claro, mas temos sempre que ter noção de que quando países como a China dizem coisas dessas, na realidade estão a proclamar uma coisa que não praticam e aquela outra weaponização de que eu falava e a que temos assistido na ONU, tem a ver precisamente com estes valores. Porque aquilo a que nós assistimos na ONU foi a coisas como a Arábia Saudita estar à frente do Comitê dos Direitos das Mulheres. Aí está algo que não pode deixar de ser lembrado como momento alto da história das Nações Unidas.
Ou o Irão e Cuba terem promovido a criação de um alto representante. A ONU gosta muito de altos representantes. E acho que já nem começarmos a falar da Francesca Albanese, mas criar um alto representante, para quê? Para que é que Cuba e o Irão quiseram que houvesse um alto representante? Para as medidas coercivas unilaterais, que são o quê? São as sanções ocidentais a ditaduras. E portanto, de repente, na ONU, estamos contra as medidas coercivas unilaterais. Claro, estamos contra porque temos que defender.
O problema dessa coisa é realmente o representante, independentemente da sua altura, ser alto ou baixo representante, não vai mudar nada no mundo. Portanto, mais vale não escolher.
Não sei se é bem assim.
Não vai mudar nada no mundo. Aliás, as sanções também não mudam grande coisa no mundo. Há uma experiência nesse sentido.
Porque os baixos representantes usam o selo de credibilidade da ONU Para dizerem as maiores atrocidades, como vemos com a albanesa regularmente, e a ONU permite isso.
Principalmente são emanações da Assembleia Geral. A Assembleia Geral exprime o sentimento da maior parte dos países do mundo.
É evidente que há aqui um ponto que é: se tu queres ter todos os países do mundo falarem e se o Ocidente, por assim dizer, está em minoria, o Ocidente no sentido dos valores que nós no Ocidente consideramos: Estado de direito, separação de poderes, voto.
André, como é que tu explicas que todos os países do mundo condenem o comportamento de Israel, à exceção de Israel, dos Estados Unidos, de Vanatu e da Polinésia de cima, ou quer que seja. Isto será possível? O mundo todo esteja enganado e Israel e os Estados Unidos embaraçados pela existência da ONU e da Assembleia Geral e daqueles representantes altos, baixos e de média estatura, todos a encerrarem o caminho do progresso, assim como Netanyahu e Trump veem.
Não tenho a menor dúvida de que a ONU tem um olhar enviesado sobre Israel, tem um olhar ativista sobre Israel e tem um olhar turvo sobre todo o resto.
Sabes o que me fazes lembrar com esse teu ceticismo? O orgulhosamente sós. Estão lá aqueles tipos todos a representar o mundo inteiro e aprovam resoluções sobre resoluções sobre a guerra do Ultramar.
Parece o Franco Nogueira.
De repente, aparece Franco Nogueira Pinheiro e pumba, estamos aqui firmes na defesa da África portuguesa. Pronto, vamos embora.
Muito bem. Olha, ainda queres ir ao Volta um bocadinho?
Vamos agora. Vamos ao Volta.
Então.
Só para desanuviar um bocadinho.
Estou a acabar assim. Eu tenho que me vestir à Franco Nogueira para a próxima.
Este programa anda demasiado bem-disposto com a vida. Vá ver o Realpolitik.
Exato. Vamos a isto.
Depressão mínima garantida.
Por falar em querer salvar o mundo: queremos salvar o planeta, queremos reciclar.
É verdade.
Os organismos centrais em Bruxelas determinaram que o império, as várias províncias do império, têm que reciclar um determinado número de toneladas por ano. Se não o fizerem, claro, tributo, que é o que se faz às províncias nos impérios, têm de pagar um tributo. E Portugal, na tentativa desesperada de não pagar um tributo, adotou este Volta e o que nós vemos é um sistema que tem um objetivo político e que para cumprir esse objetivo político, pelos vistos, considera aceitável que haja uma mobilização dos mais pobres para andarem a percorrer as ruas e vasculhar o lixo à procura dos plásticos para conseguirem 10 cêntimos, que para eles é muito dinheiro e faz a diferença, mas temos aqui toda uma camada dos mais pobres da sociedade a trabalharem, entre aspas, para que o Estado português possa dizer a Bruxelas que está a cumprir as metas de reciclagem.
Bem, primeiro tenho que começar por fazer uma confissão, que é: não percebia nada disto do Volta e socorri-me da inteligência artificial.
Oh, diabo.
Pronto, isto é só para saber com quem te estás a meter. Como sabes, a inteligência artificial já representa ou em breve representará, a distância entre ela e os seres humanos será equivalente entre um adulto e uma criança de dois anos.
Portanto, eu tenho dois anos, vem um adulto.
Prepara-te aí no teu fraldário para enfrentar a minha sabedoria adquirida com a inteligência artificial. Fora de brincadeiras, me parece que no norte da Europa a experiência está a correr muito bem. Como seria de esperar, alemães, suecos e não sei quê vão todos pôr as garrafas lá no Volta deles.
Disciplinadamente.
Na Irlanda, acho que é uma calamidade de tipo luso-português. Ou seja, é bagunça, caixotes virados, enfim, um regresso quase àquelas ruas medievais.
Sim.
Qual é a razão pela qual numas geografias corre tão bem e noutras corre tão mal? Nem a inteligência artificial me amparou neste aspeto. Entretanto, fiquei preocupado com a possibilidade desta introdução deste Volta, que eu nunca vi ainda, confesso, nunca enfiei uma única garrafa no Volta.
Ainda não foste pôr nenhuma garrafinha.
Nenhuma, zero. Mas quando eu, paciente, com uma garrafa vazia, me cruzar com ele, não deixarei de tentar. Parece que não é fácil, porque as garrafas têm que ter o código de barras.
Certo.
O Volta é inteligente, também já está digitalizado.
Sim.
E não quer que metam lá coisas que parecem garrafas, mas não são, por falta de código de barras.
Ainda vai um tanque em vez de uma pexinha.
Mas já reparaste, até o lixo tem que ter código de barras. Isto é uma coisa absolutamente extraordinária. O lixo, se não tiver código de barras, não pode ir para o lixo. Pronto, olha, lá vai ele para outro sítio qualquer. Parece que os caixotes amarelos continuam.
Sim.
Graças a Deus. Aquilo que nós, enfim, ultrapassados sempre pela dinâmica do aperfeiçoamento da humanidade, nós fomos do tempo em que púnhamos as garrafas no caixote amarelo.
Mas parece que não resultou.
Não resultou, porque há uns meliantes que também põem para lá beatas e não sei o quê. Agora imagina, com o Volta e os seus códigos de barras, o lixo vai todo para o sítio certo. Eu gostava que isto funcionasse. Eu não sei como é que isto vai funcionar, sinceramente. Não estou a ver como é que as pessoas vão organizar a vida para levarem aqueles sacos Quando imagino um saco de garrafas, imagino o menir do Obélix.
Exato. Pois é.
Só que não pesa nada. E levar aquilo e depois estar ali a enfiá-las naquele gargalo. Depois a maquineta a chatear que não é legível o código de barras do lixo. Sinceramente, se não me dissessem que isto funciona na Alemanha e noutros países, e na Suécia, agora vou pôr com qualificações despropositadas. Mas realmente, que tipo de vida é compatível com mais este constrangimento? As nossas vidas já são difíceis, já é este o constrangimento de toda a espécie. Nós temos as coisas sérias para fazer. Depois temos uma miríade de coisas cada vez mais complicadas. Toda a gente acha que o mundo digital nos facilitou a vida. Eu, como analógico, já nem sempre consigo dar meio de virar com os obstáculos e armadilhas que o mundo digital está sempre a plantar no meu caminho.
E agora tens o código de barras.
Agora o lixo tem código de barras. Agora tem que enfiar o lixo de acordo com tamanhos.
Mas não te preocupes, nunca foste a nenhuma daquelas maquinetas do Volta, mas está descansado porque os 10 cêntimos por garrafa que consomes, isso tu pagas. Portanto, tens aqui mais uma taxinha, mais um tributo para pagar.
Aquilo funciona como é? Como as máquinas de jackpot, aquilo vai largando 10 cêntimos assim pau, pau, pau?
É possível, não sei.
Também não sabes.
Saímos daqui e vamos ali diretos.
Shame on you.
Vamos já experimentar isso. Quem estiver aqui ao pé de Alvalade, encontre-se conosco aqui na máquina mais próxima e veja o Sérgio a experimentar. Quem não estiver, volte para a semana. Já sabe, todas as quartas-feiras, em direto, ao meio-dia, Rádio Observador. Se estiver ocupado nessa altura, põe sempre podcast, por amor de Deus. Não tem motivos para não fazer isso. Sérgio, um abraço.
Um abraço pra ti e pra todos.