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A depressão Martinho já está a afetar muitas regiões do país. Vento muito forte, chuva intensa. Este pode ser o março mais chuvoso dos últimos 20 anos. E por quê? É o que tentamos perceber com a ajuda do climatologista Mário Marques, uma conversa que tem moderação da Judite França e também do Luís Soares. Bem-vindo a este explicador, Mário Marques. Começava, se calhar, por lhe fazer a pergunta pra qual muitos procuram a resposta: quando é que termina este longo período chuvoso que estamos a viver?

Brevemente. Obviamente que é mais chuvoso, e está a ser chuvoso, para a metade sul do território, a sul do Tejo. Desde o início de fevereiro, por exemplo, desde o dia 1 de fevereiro, já choveu, na maior parte das estações oficiais registradas, mais de 80% do que aquilo que é normal para esta altura do ano. O que são boas notícias. Contudo, este padrão irá terminar brevemente, uma vez que o anticiclone dos Açores, que se tem ausentado, está bem localizado, longe da área geográfica da qual tem o nome, e permite que estes fluxos agregados à corrente de jato percorram o Atlântico à saída dos Estados Unidos, inclusive até mergulhem mais um pouco da costa leste do Canadá, como é esta situação que temos da tempestade Martinho, que é uma depressão associada a ar frio, mas na sua parte traseira, e vai encontrar ar quente, ou encontrou já ar quente, e neste momento até estão 19 °C aqui no Porto. E daí temos esta situação. Mas eu penso que a partir do dia 24, sensivelmente, teremos o anticiclone dos Açores a querer impor-se e já a bloquear e a desviar todos esses fluxos para o norte do Atlântico e o norte da Europa.

E qual é a perspectiva para as próximas horas, ou seja, quando é que será o pico desta depressão Martinho?

Muito bem. Eu penso que o pico tem duas fases. A primeira fase será na região Sul e eu penso que a partir da hora ponta, sensivelmente a partir das 18h30, 19h, começará a ocorrer. Já começará a chover de uma forma cadenciada, o fluxo é de sul para norte, mas à medida que a linha de instabilidade começar a atravessar, vinda do Atlântico, irá afetar, sobretudo, a parte sul, de Figueira da Foz até ao Algarve, cerca de 50 ou 100 km para o interior, portanto, toda essa faixa, incluindo Lisboa, Distrito de Setúbal, Distrito de Leiria. E depois, a partir das 19h, começará a aumentar a intensidade desta chuva e eu penso que atingirá o pico entre as 20h e as 22h30, sensivelmente, mas já poderá ser uma situação com acumulações importantes.

E a noite, madrugada, qual é que é a perspectiva também?

A noite, madrugada, eu penso que poderá, a partir da meia-noite, sensivelmente uma hora, aliviar. Teremos o pós-frontal, isto na região Sul, e depois uma situação de aguaceiros e a depressão tende a situar-se na costa oeste, mais a norte, o seu núcleo, e a partir de amanhã à tarde começará a afetar o território nacional, a região Sul com menos intensidade, mas a norte do Mondego, sobretudo a norte do Mondego, teremos uma situação de noite de amanhã, dia 20, quinta-feira, para sexta-feira, e sobretudo sexta-feira será um dia com muita precipitação associada a esta depressão, com acumulações durante o dia que poderão chegar aos 60, 80 litros. Portanto, numa questão de 12 horas. E nas áreas montanhosas, obviamente, que este tipo de situações chove sempre pelo menos 30% a 40% mais, se não for mais. Quanto ao vento, eu penso que será hoje só mais intenso. À tarde já começará a soprar com mais intensidade e terá os seus efeitos no pico máximo também a coincidir com a passagem do pico de precipitação hoje. Porque depois ele irá diminuir a intensidade e não será o fator de risco principal nos dias seguintes. Agora, 21 e 22 serão dias muito chuvosos, portanto, instáveis, mas, sobretudo, a norte do Mondego, essencialmente.

E esta é uma situação que vai levar à possibilidade de cheias em algumas regiões do país também.

Penso que sim, penso que poderá, se não fizerem as descargas ou uma gestão boa das bacias hidrográficas, levar a isso, sobretudo a sul, mesmo o Tejo. Poderemos também indicar pequenos cursos da bacia hidrográfica do Alto Alentejo e também do Algarve, eventualmente, sobretudo do Barlavento. Mas qualquer das formas, os solos já começam a estar saturados, mas, felizmente, penso que não será por muitas horas, e cheia de caudal, existe essa probabilidade, caso não tenha sido feita uma gestão das bacias hidrográficas, das albufeiras, mas penso que será mais o risco de inundações rápidas, ou de meio urbano, naquelas áreas historicamente mais vulneráveis, sobretudo nesse período entre as 19h, 19h30 e as 22h30, 23h.

Em algumas regiões do país, vamos deixar de estar em situação de seca, aquela que se tem registado ao longo dos últimos anos, nomeadamente no Algarve. A chuva que caiu e que vai continuar a cair, vai conseguir mitigar essa situação durante quanto tempo? É possível fazer essa conta?

Eu não sou daqueles que ficou contente. Temos água até 2027. Eu penso que não, penso que não será esse o caso Temos que fazer uma gestão contínua da água, independentemente de termos uma abundância ou não. Penso que esse é o processo e temos uma disciplina nesse sentido. E um plano a médio e longo prazo, não um plano de corta, agora alivia, corta, alivia, isso não faz qualquer sentido, mas é o que temos. Qualquer das formas, esta situação poderá mitigar e, sobretudo, a água mais importante em termos agro meteorológicos pra agricultura, portanto, é aquela que cai na primavera e no final do inverno. Fevereiro, março e mesmo abril são muito importantes, porque aquele velho adágio "abril águas de mil", muitas vezes está desmistificado, que é abril, as águas valem por mil. Era assim dantes o adágio há mais de uns séculos atrás. Portanto, que eram muito importantes em termos agro meteorológicos para dotar as terras e abastecê-las, os lençóis freáticos, e terem umidade suficiente para as suas culturas. Qualquer das formas, vamos ver como é que corre porque este ano temos aqui duas ou três telecomunicações que irão ser importantes, irão ditar em termos da atmosfera, sobretudo no que toca a nós, que é temos um ciclo solar que irá atingir o pico durante este ano, poderá aquecer mais a atmosfera, o que é normal. Temos um ENSA, um El Niño, isto é, nem El Niño, nem La Niña, neutral, portanto, uma oscilação do Atlântico Sul neutral. E temos também outra questão, as águas do mar na costa leste toda do Atlântico, desde o Golfo até praticamente ao nordeste, estão acima do normal. Outro fator que pode também induzir o verão e como é que poderá ser o comportamento ao longo deste ano, é que nós iremos bater este ano um novo mínimo de gelo no Ártico. Desde que houve o resfriamento, em 15, 16 de setembro, até agora, o gelo no Ártico está sempre abaixo da média e nas próximas duas, três semanas irá atingir o pico. Normalmente, é o pico de concentração de gelo e está muito abaixo da média, quase um milhão e meio de quilômetros quadrados. E isso é outra situação que poderá influenciar depois negativamente os processos e padrões em termos climatológicos nos meses que se seguiriam.

E precisamente, Mário Marcos, pegando nisso que estava a explicar, é isso que também explica que o país esteja a ser afetado por tantas depressões em poucos dias. Isso é normal, não é normal? A que se deve exatamente este fenômeno?

Antes era mais normal. Nos últimos 20 anos, deixou de ser mais normal, porque março podia ser um mês complicado. Março, queimada ama do parco, podia ser um mês muito quente, mas também pode ser um mês onde poderá ser muito úmido. E tivemos algumas situações no passado. Recordemos o inverno e o outono, neste caso, inverno e o início da primavera 2001, também o 2013 e também o 2018, ultimamente. Mas o março, ultimamente, tem sido um mês muito mais seco, o ano passado foi muito chuvoso, e as primaveras têm sido tendencialmente, em maioria, muito mais secas. E daí estamos a estranhar esta situação. Agora, o que está acontecendo? Está acontecendo é que o anticiclone do sul está completamente afastado. A corrente dos Estados Unidos está com muita potência e com liberdade pra perseguir seu fluxo sazonal, isto é, o fluxo do oeste para leste, através do Atlântico em direção à Europa. E temos uma situação aqui que também ajuda ainda mais a termos essas depressões que chegam perto da costa portuguesa ou ao largo da costa, e que não se mexem para o continente europeu, porque temos tido áreas de alta pressão sobre o continente europeu e que impedem a propagação, a evolução dessas depressões. E aí, repare que a variabilidade atmosférica que nós temos que esse anticiclone está a proporcionar à Europa, no sábado passado, Bucareste registrou 27 graus e na segunda-feira estava praticamente, segunda pra terça, estava com oito graus. Essa oscilação, mas sempre sem precipitação. E toda a Europa Central está já sem precipitação, há quase uma, duas semanas, e devido a esse bloqueio. Daí que, lá está, onde existe uma maior situação de depressões, como é o caso do território português, noutra parte, neste caso, do continente, é o oposto. E daí que não se está a passar o fluxo normal, que é aquele Atlântico, Europa, e isso está a ser bloqueado por esse anticiclone, portanto, ficam aqui praticamente no Atlântico a marinar e a influenciar todo o nosso estado do tempo em Portugal continental e nos Açores.

Mário Marcos, olhando também pra aquilo que pode ser o futuro e aquilo que temos vivido a nível meteorológico, estas alternâncias, se é que lhe podemos chamar assim, de tempo muito seco e depois de chuva mais intensa, vai passar a ser uma normalidade ou é aquilo que sempre vivemos e que às vezes nos esquecemos, porque nunca nos lembramos exatamente como é que foi o tempo no ano passado?

Às vezes acontece isso, a memória é curta ou temos essa percepção, mas eu penso que aquilo que estamos a registrar e a constatar, não só em Portugal, mas no Hemisfério Norte, mesmo no Hemisfério Sul, recorde-se as grandes secas nunca antes vistas na Amazônia, em toda a América do Sul e também em África, que afetaram há dois anos e três todas as colheitas de café, de cacau, daí o preço bater recordes constantemente nas bolsas. O que acontece é que, de fato, está a haver uma maior variabilidade climática num curto espaço de tempo e em termos climáticos, padrões, aí já mais a longo prazo, está a haver cada vez um maior antagonismo daquilo que estávamos habituados ou aquilo que era uma constatação. As estações mais certinhas e mesmo em termos das estações chuvas, na zona intertropical de convergência, quase no Trópico de Câncer a Capricórnio, e com a oscilação do movimento da Terra no outono, verão, inverno e primavera, essa oscilação antes trazia uma maior Uma maior sazonalidade e padrão mais certo. Agora não, agora, de fato, está tudo muito mais dinâmico. A atmosfera tem muito mais energia, porque está mais quente, os oceanos estão mais quentes, as correntes marinhas estão a alterar, o regime de ventos e mesmo a posição e localização das altas pressões está a mudar um pouco. Cada vez temos mais altas pressões continentais, na superfície terrestre, porque essas normalmente surgem mais no inverno, sobretudo no hemisfério norte, mas elas estão a aparecer cada vez mais em outras alturas do ano e quando acontece esse processo, demora mais a estabelecerem-se, mas também demora mais a desaparecer essa alta pressão na superfície terrestre. Sobretudo no continente europeu. Recordo que há dois ou três anos tivemos secas, o Reno nos mínimos, o Danúbio nos mínimos, Itália também, sucessivamente, a Grécia também, e mesmo nós. Acontece mesmo nos Estados Unidos, e a zona da Califórnia, e também toda a parte do sudeste asiático. Recordo que há três ou quatro anos, a Tailândia, pela primeira vez, não fez o Festival da Água, porque as chuvas foram muito fracas. Portanto, há todo um regime, que poderia eventualmente acontecer X em X anos, mas que está a acontecer cada vez mais. Essa alternância e essa variabilidade em termos de padrões climáticos está cada vez mais instável e não é dado como certo, como acontecia no século XX, mesmo no século XVIII. Isto de uma forma mais rápida, porque o clima muda e vai-se ajustando, mas tudo tem o seu tempo. Levava muito mais tempo a ter essas diferenciações, mas agora não, agora a atmosfera está mais desequilibrada e, portanto, quando assim é, tende a se ajustar de uma forma também muito mais rápida.

Mário Marques, muito obrigado por ter vindo a este explicador. Até à próxima. Obrigado. Boa tarde.

Ora essa, até à próxima. Boa tarde.