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Começa agora o Explicador das manhãs 360 desta segunda-feira sobre o movimento 2031, anunciado na sexta-feira por João Cotrim Figueiredo. É nosso convidado Mário Amorim Lopes, líder da bancada parlamentar da Iniciativa Liberal. A moderação é da Carla Jorge Carvalho e do Bruno Vieira Amaral.
E depois da primeira volta das presidenciais, onde ficou em terceiro lugar, João Cotrim Figueiredo anunciou a criação de um movimento cívico apartidário para promover eventos e influenciar a agenda pública e política. Mário Amorim Lopes, bem-vindo. Bom dia. Bem-vindo a este Explicador. Este movimento é conciliável com a Iniciativa Liberal? Pode representar uma sombra para o partido e para a sua liderança?
Novamente, muito bom dia. Bom dia a todos os ouvintes e telespectadores. Não é de todo uma sombra, muito pelo contrário. Uma candidatura às eleições presidenciais é uma plataforma completamente diferente de uma plataforma de umas legislativas. E o que a candidatura de João Cotrim Figueiredo demonstrou é que existe aqui em Portugal um amplo espaço entre um centro representado pelo PSD e pelo PS, que é de muito imobilismo. Por muito que o discurso do PSD seja de reformas, a verdade é que na prática não temos observado isso. E, por outro lado, mais à direita, temos uma visão mais destrutiva daquilo que deve ser a abordagem política. O Chega não fala de reformas, fala de uma Quarta República, três Salazares, um discurso muito divisivo, a apelar ao ódio e à segregação dos portugueses. E o que se percebe aqui é que existe muita gente entre estes dois que querem uma abordagem de mudança, não estão satisfeitos com o país que têm, e bem, exigem mais, ambicionam mais, mas também não concordam nem com a abordagem imobilista, nem com a abordagem da destruição. E eu acho que João Cotrim Figueiredo corporiza isso.
Mas não é por isso que existe a Iniciativa Liberal? É exatamente porque há um espaço entre essas duas visões.
Certamente que sim. Por isso é que aquilo que o João Cotrim Figueiredo fez foi, no fundo, desbravar este caminho e mostrar qual é a meta, mostrar que existe aqui gente, incluindo da própria AD, e não só, até do Partido Socialista e de outros partidos, que se revê nesta ideia de mudança e de reformismo. E de facto, a Iniciativa Liberal corporiza, do ponto de vista partidário, esta sede de mudança. E portanto, são movimentos perfeitamente compatíveis e concertados com aquilo que é a ação da Iniciativa Liberal. Um aproveita a plataforma partidária e a amplitude que teve de conseguir ir buscar votos a outros partidos. A Iniciativa Liberal vai continuar a fazer esse trabalho de sinalizar um partido de mudança num país que durante muitos anos sempre rejeitou uma visão muito liberal. E eu creio que esse caminho está a ser feito e que essa mudança cultural também está a vir. As pessoas têm uma sede de mudança grande e nós temos que conseguir capitalizar essa sede de mudança.
Mas então a Iniciativa Liberal não tem conseguido capitalizar essa mudança. Não tem conseguido convencer, por exemplo, este eleitorado, esses eleitores, cerca de 900 mil, que votaram em Cotrim Figueiredo.
Não, temos feito o nosso caminho e temos crescido de eleição para eleição. Agora, se o Bruno perguntar se gostaríamos de crescer ainda mais, com certeza que sim, esse é o objetivo, mas nós não estamos aqui a fazer uma corrida de 100 metros. Nós viemos para ficar e portanto este caminho faz-se caminhando. Há abordagens mais rápidas. A abordagem do Chega é uma abordagem mais rápida, mas no nosso entender não é nem correta nem é sustentável. Nós queremos de facto convencer os portugueses, e eu acho que estas presidenciais começaram a demonstrar isso, que há aqui um caminho, uma via das reformas e da mudança, que permite trazer a mudança que o país precisa. Portanto, este é o caminho a percorrer e é isso que nós iremos fazer.
Mário Amorim Lopes, é justo que se possa fazer a comparação de que João Cotrim Figueiredo tem mais capacidade de convencer os eleitores do que Mariana Leitão, porque a comparação entre os resultados das legislativas e das presidenciais pode levar-nos a pensar que é apenas uma questão de liderança que está aqui a impedir que a Iniciativa Liberal cresça mais.
Não creio que seja justo por vários motivos. Primeiro, porque nas últimas legislativas a Mariana Leitão ainda não era a presidente do partido. Em segundo lugar, nas próprias autárquicas, estava na liderança há pouco mais de um mês, ou dois, creio que foi mais ou menos assim. E portanto as suas escolhas nem foram as escolhas da própria presidente. Em terceiro lugar, porque é perfeitamente desadequado compararmos o fim de uma liderança com o início de outra. O João Cotrim Figueiredo já foi líder da Iniciativa Liberal, deixou de o ser por opção própria, foi uma decisão que ele próprio tomou e teve o tempo necessário para se afirmar e para adquirir capital político. Mariana Leitão é líder da Iniciativa Liberal há um par de meses. E finalmente, em quarto lugar, eu acho que aquilo que são os valores Que eu revejo na política em João Cotrim Figueiredo são exatamente os mesmos que eu revejo também na Mariana Leitão, na sua liderança, nomeadamente a ambição, o rasgo, a assertividade, a determinação, esta vontade de jornamento, de querer fazer algo pelo país e não se acomodar, é exatamente o que eu revejo na liderança de Mariana Leitão. E não faz qualquer sentido estarmos a comparar essas lideranças. E finalmente, eu devo dizer que eu bem sei que Portugal é um país muito sebastiânico. Andamos há séculos a chorar o retorno de D. Sebastião, mas o país tem que seguir em frente. Nós temos uma liderança legitimada, assumida. O João é um grande quadro da Iniciativa Liberal, fez um excelente trabalho nas presidenciais e nós podemos caminhar em paralelo. Nós não temos que estar sempre aqui a equacionar cenários em que existem sempre vontades de voltar à liderança.
Mas este movimento, Mário Morinho Lopes, não vem confirmar precisamente essa aura sebastiânica de João Cotrim Figueiredo? É que não estamos a falar de uma figura qualquer da Iniciativa Liberal. Estamos a falar, provavelmente, da figura da Iniciativa Liberal com maior notoriedade no país.
Certo. E de que forma é que isso colide com aquilo que é os objetivos do partido?
Acaba por haver quase como uma liderança bicéfala, uma dentro do partido e outra fora.
Não, porque são plataformas completamente distintas. A plataforma deste movimento, que é um movimento que vai para lá dos partidos, é um movimento também cívico e é importante que assim seja, porque há muita gente que, pese embora até estar alinhada com uma visão liberal, uma visão que comungue conosco os mesmos princípios políticos, tem algum distanciamento dos partidos, o que é perfeitamente legítimo. Aliás, existem outros movimentos e outras plataformas, como por exemplo, o Mais Liberdade, em que muita gente gosta, sobretudo a esquerda, de dizer que é da Iniciativa Liberal. Não é nada da Iniciativa Liberal, embora partilhe, no caso, Carlos Guimarães Pinto, que foi de fato fundador do Mais Liberdade e é membro e foi presidente da Iniciativa Liberal. A verdade é que há muita gente que está no Mais Liberdade porque se revê nesses valores, mas que não procura essa proximidade partidária e isso é perfeitamente legítimo. Nem toda gente que se quer envolver na política tem que estar associada a um partido. E este movimento e esta plataforma do João Cotrim Figueiredo permite precisamente isso, ir buscar à sociedade civil gente que poderá não estar interessada em pertencer a um partido, mas que comunga desta visão que nós todos partilhamos.
E também poderá servir, Mário Morinho Lopes, este movimento, uma espécie de câmara de descompressão para dirigentes e militantes de outros partidos como o PSD e o CDS. Na semana passada, Bernardo Blanc, ainda antes do anúncio da criação deste movimento, referiu, por exemplo, os nomes de Miguel Morgado, Adolfo Mesquita Nunes e Cecília Meireles, dizendo que pertencem a um campo grande do centro à direita moderna, que precisa de uma liderança. Esses nomes ou nomes como esses seriam bem-vindos a este movimento?
Com certeza que sim. Este movimento, este espaço, no fundo, é o espaço que está entre o imobilismo de algum PSD e do Partido Socialista e a tal visão destrutiva do Chega. Cabe aí muita gente. É um movimento amplo, sim, e a pergunta, de fato, faz sentido. Isto permite, sendo um movimento que tem aqui uma dimensão suprapartidária, também civil, do arco da sociedade civil, não hostiliza alguém que pertença a um partido, mas que ainda assim se reveja nestas ideias. É uma forma de ir colher esses apoios e de ir sedimentando esta força, esta terceira via.
Seria um espaço intermédio antes de uma transferência definitiva para a Iniciativa Liberal desse elemento?
Não, repare, o que eu acredito convictamente é que a Iniciativa Liberal é o partido que melhor representa esta, chamemos de terceira via, para ir buscar aqui a badulgarada expressão do Tony Blair. Ou seja, é o que está entre uma direita destrutiva e liberal e um centro político imobilista, que não está mal com o status quo. Há muito espaço aqui no meio, desejo estas reformas para o país, e eu acho, é o meu entendimento, que a Iniciativa Liberal é o melhor partido, é o partido que corporiza isso. Mas nós não podemos estar limitados apenas àquilo que é o crescimento partidário. Faz sentido ir buscar este apoio amplo e depois as pessoas, com o tempo, irão se rever, certamente, no partido Iniciativa Liberal enquanto o partido capaz de fazer e implementar esta mudança.
Falando em apoio amplo, Mário Morinho Lopes, temo-lo visto num certo sentido com uma série de dirigentes, figuras da direita, em que se inclui o próprio Mário Morinho Lopes, no apoio a António José Seguro agora para a segunda volta das presidenciais. Este movimento não daria um passo se também dessa indicação de voto?
Não. Vamos lá ver. Eu não acho que o movimento tenha de ter uma posição, da mesma forma que não acho que a Iniciativa Liberal tenha que ter uma posição. Pese embora eu ter assumido o meu sentido de voto, eu não lhe chamaria apoio. Apoiar alguém que vem do Partido Socialista parece-me manifestamente exagerado. Sinalizei apenas um voto e uma tomada de posição. Não é escolher, é eliminar alternativas.
É o mal menor.
Eu tinha de eliminar uma alternativa que representa uma direita iliberal na qual eu não posso rever. Não significa que eu subscreva aquilo que António José Seguro representa, apesar de ter sido contra a geringonça e ter, por exemplo, negociado com o PSD a redução de IRC. Ou seja, não será propriamente a figura mais à esquerda dentro do Partido Socialista. Ainda assim, chamar de apoio parece-me que seria francamente exagerado, diria apenas um voto. Mas seja como for, tanto o movimento como os partidos não têm de tomar uma posição, até porque eles próprios não votam. São umas eleições uninominais, o voto é pessoal, é uma questão de consciência. Eu acho que, em primeiro lugar, não têm de tomar nenhuma posição e, em segundo lugar, até se criar este clima de intimidação de que as pessoas são obrigadas a revelar o seu sentido de voto, parece-me errado e, mais do que errado, é até contraproducente. E nem sempre surte o efeito que se pretende. Muita gente quer fazer isso, sobretudo à esquerda Quase como uma forma de sinalizar virtude. Não, é este candidato que temos de apoiar contra o mal.
Acha então que estes apoios a António José Seguro divulgados por uma parte da direita podem acabar por prejudicar o candidato?
Não, repare, se esses apoios forem divulgados da forma como alguns estão a ser divulgados, como alimentando a retórica da esquerda de que o Chega é um partido fascista e, portanto, isto é uma luta do bem contra o mal, eu acho que isso é contraproducente, porque num país onde na altura a esquerda chamava Sá Carneiro de fascista ou Freitas do Amaral de fascista, a palavra fascista hoje diz muito pouco. Mas a verdade é que não precisa de ser um partido fascista para ser uma ameaça ao Estado de direito, esse é o ponto. E aliás, as ameaças ao Estado de direito não vêm desde que o Chega nasceu. José Sócrates foi uma grande ameaça ao Estado de direito e vem do Partido Socialista. Portanto, estas ameaças ao Estado de direito podem vir de todas as origens. No passado, a mais recente foi, de facto, José Sócrates, que atentou contra o Estado de direito. Neste momento, a minha convicção é que, de facto, vem do partido Chega, mas estar a demonizar quem vota no Chega parece uma má estratégia, porque são pessoas que têm naturalmente os seus lamentos e que querem um país melhor e que veem naquela retórica um sinal de mudança. Na minha opinião, é uma mudança para pior. Não é essa a solução, mas creio que usar esses discursos muito moralistas do bem contra o mal, sinceramente, acho que é contraproducente.
Mário Mourinho Lopes, deixe-nos colocar-lhe uma última questão, até na qualidade de líder parlamentar da Iniciativa Liberal. O partido já tomou alguma decisão sobre a apresentação de uma queixa contra Inês Bichão? Já discutiu o assunto? Já tem uma posição própria?
Essas questões não vou eu, muito menos na qualidade de líder parlamentar, até porque esta é uma questão mais partidária, não vou eu fazer qualquer tipo de anúncio. Isso será no meio próprio, no tempo próprio.
Então isso será quando? Deixe-me insistir só porque, como sabe, até mesmo na noite das eleições, o partido assumiu que iria discutir o assunto e ia perceber o que se tinha passado internamente. Quando é que o assunto vai ser discutido?
Estamos a fazê-lo. Não há um momento apenas, estamos a fazer isso e isso será anunciado a bom tempo e boa hora. É o que eu posso anunciar.
Não tem uma meta, um prazo para que o assunto fique fechado?
Não temos um calendário. Neste momento ainda não temos um dia, isso será devidamente anunciado e, portanto, com a solenidade que isto exige.
Que exige e merece. Então, uma última questão, mesmo no último minuto. Se este movimento 2031 ficar conhecido como movimento João Cotrim Figueiredo, há aqui um problema de uma pessoalização em demasia do projeto?
Não creio. Aliás, é por isso mesmo que o movimento se chama movimento 2031 e não se chama movimento João Cotrim Figueiredo.
Pois, mas eu o que lhe digo é se ficar conhecido como o movimento João Cotrim Figueiredo, se haverá um problema até para os ideais que pretende discutir.
Nós sempre dissemos que a Iniciativa Liberal é um partido de ideias, mas a política é feita por pessoas e as pessoas votam em pessoas. Portanto, não tem mal nenhum que haja pessoas que corporizam estas ideias, são as pessoas que criam a empatia e que fazem a ligação ao eleitorado e que explicam a sua visão do país ao eleitorado. Isso não tem mal nenhum e o João fez um trabalho extraordinário. Eu não creio que seja isso que esteja em causa. Eu percebo que haja uma curiosidade jornalística em perceber se isto aqui é uma tentativa de uma criação de um novo partido, como eu já ouvi por aí. Enfim, eu acho que não é de todo o caso. Não acho que é isso que esteja aqui em causa. O que as pessoas pretendem é uma visão clara do que se pretende para o país. E este movimento vai corporizar isso e, portanto, vamos andar certamente de mãos dadas, porque estamos numa dinâmica diferente e é de louvar que o movimento exista.
Mário Murilo Lopes, muito obrigada por ter estado conosco. Uma boa semana, um bom dia.
Obrigado igualmente.