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Começa agora mais um Explicador da Rádio Observador, esta manhã sobre o impacto da mudança da hora que acontece este fim de semana, de sábado para domingo. É a altura de atrasar o relógio uma hora. Para isso, são nossos convidados Teresa Paiva, neurologista e especialista em medicina do sono, e José Monteiro Ferreira, pneumologista e especialista também em medicina do sono.

É uma discussão política antiga a nível europeu e que agora a Espanha quer trazer de volta: a mudança da hora. O governo espanhol quer acabar com a mudança da hora na União Europeia e vamos procurar perceber aqui quais são as vantagens e desvantagens, até de uma perspectiva da saúde das pessoas, para esta mudança. E por isso dou as boas-vindas à Teresa Paiva, que é neurologista, especialista em medicina do sono, e começar por perguntar, afinal, quais são os efeitos que a mudança da hora tem nos nossos ritmos?

Há dois aspectos: a mudança da hora de inverno e a mudança da hora do verão. Nós vamos passar agora para a hora de inverno e esta mudança não parece trazer grandes problemas. O grande problema é a mudança anual da mudança da hora. Com a mudança da primavera, essa sim, a trazer muitos problemas e riscos para a saúde de vária ordem, que eu poderei dizer a seguir. O marcado problema é que nós devemos estar tão perto quanto possível da hora natural e com estas mudanças da hora, afastamo-nos bastante da hora natural, isto é, a hora que está relacionada com a exposição solar e, portanto, a rotação da Terra e a exposição solar no nosso país.

Teresa Paiva, e essa hora natural, dita natural, está mais próxima do horário que nós praticamos no inverno ou no verão?

Está mais próxima do horário no inverno.

Daquele que vamos ter daqui a uma semana, daqui a uns dias.

Sim, era bom ficarmos nessa hora.

E depois não mudar.

E depois não mudar. Isso é uma coisa que nós estamos a tentar, um grupo de investigadores portugueses está a tentar trabalhar para isso também junto das entidades oficiais e seria muito importante que efetivamente não se mudasse. Fizemos recentemente um encontro com uma discussão sobre a mudança da hora, onde também esteve o doutor Monteiro Ferreira, que eu gostaria de cumprimentar logo de manhã. Mas os riscos da mudança da hora são muito importantes, principalmente para quem tem maiores fragilidades e têm determinado tipo de doenças. Por exemplo, doenças cardiovasculares. Por exemplo, crianças pequenas até aos quatro anos, aumento do risco da diabetes, aumento do risco do erro médico, que é uma coisa muito importante, haver erro médico, aumentos dos erros médicos nas transições, as pessoas, principalmente na mudança para a primavera têm uma redução do tempo de sono, portanto, têm uma privação de sono.

Portanto, poderá haver aqui uma série de riscos e de consequências devido a essa alteração. Deixe-me trazer também à conversa José Monteiro Ferreira, pneumologista, também especialista em medicina do sono, e perguntar se existe, de facto, um consenso quanto à melhor solução e, nesse caso, por que ainda não se aplicou essa solução.

Muito bom dia, deixe-me cumprimentá-lo e, em primeiro lugar, também cumprimentar a professora Teresa Paiva, que é a pessoa de maior dimensão a nível nacional e também com projeção internacional em termos da medicina do sono e que disse já praticamente tudo aquilo que havia para dizer em relação a esta questão. Relativamente à sua pergunta, a questão que se coloca é que há, de facto, aqui um aspecto que tem a ver com a mudança da hora e que começou por ser algo que tinha a ver com interesses de ordem económica e depois com interesses de ordem política, e as coisas começam a se misturar um bocadinho e é preciso perceber e não esquecer que a economia faz-se com as pessoas. E evidentemente que as pessoas, quando são sujeitas a situações que lhes aumentam os riscos para a sua saúde e podem criar imensos problemas da mais diversa ordem, as pessoas têm que também ser alertadas para que possa existir algo que entretanto se faça para corrigir determinado tipo de coisas. Portanto, a questão relacionada com a mudança da hora, nomeadamente da mudança da hora para a hora de verão, é qualquer coisa que tem a ver com aquilo que é muito contra aquilo que é a nossa natureza, porque o nosso organismo tem muito mais dificuldade em atrasar as horas do que em adiantar as horas. E, portanto, numa situação destas, todos aqueles problemas que a professora Teresa Paiva referiu na fase de transição e depois também, muitas vezes, a continuação que existe pelo fato de a partir de determinada altura haver horários que são completamente antinatura, por exemplo, não é normal ter um dia com luz do sol até quase às 21:30. Isto interfere, naturalmente, com muitos aspectos da nossa saúde.

Teresa Paiva, já se fez em Portugal essa experiência na década de 90. E, entretanto, o governo seguinte acabou por recuar. Mas foi uma experiência que não correu bem também por causa do horário escolhido, não?

Na década de 90, nós estávamos com a hora da Europa Central e isso foi uma catástrofe. Há dois aspectos: nessa altura nós ficamos com a hora da Europa Central e era terrível. Eu lembro-me que tinha as crianças pequenas, as minhas filhas eram pequenas, e quem é que põe as crianças na cama quando às 22h há luz?

Há luz e ainda luz intensa, o sol.

Isso aí foi catastrófico, mas há uma outra experiência em redor de 1966, em que nós estivemos permanentemente, durante quase 10 anos, com a hora de verão. Que é a hora que as pessoas gostam mais, porque tem mais luz. E, portanto, é a hora que gostam mais. E nessa altura, houve um aumento muito significativo da mortalidade infantil, principalmente no sexo masculino, mas também nas meninas, de um até aos quatro anos de idade.

E há alguma razão para isso? Qual é o racional?

O racional é estarmos completamente desfasados. Repare que em 1966 não havia telemóveis, não havia praticamente televisão, nem toda a gente tinha eletricidade. Portanto, aquilo mostra mesmo a gravidade natural do problema. Nós não podemos ficar com a hora de verão. Isso seria uma perfeita loucura. As crianças pequenas são muito mais sensíveis à organização circadiana. E as pessoas têm que perceber que a organização circadiana da vida na Terra é mais antiga ainda que o sono. O sono é uma coisa antiquíssima. Existe sono na Terra antes de haver coração e antes de haver cérebro. Portanto, é uma coisa antiquíssima com a qual não se pode brincar. Mas os ritmos circadianos ainda são mais antigos. Eles começam logo, praticamente, na origem da Terra, quando ainda sequer não havia oxigênio na atmosfera terrestre. A antiguidade daquilo e a continuação de uma coisa que é muito importante, que é um mecanismo adaptativo a um movimento de rotação da Terra que existe todos os dias. Toda a vida biológica está adaptada àquilo. E nós tentarmos desadaptar daquilo é catastrófico. Um dos riscos é o câncer e o outro é a demência. E as crianças pequenas, obviamente, são muito mais sensíveis, porque são muito mais pequenas, são mais sensíveis. A mortalidade infantil é sempre um enorme problema.

Acaba por aumentar. Dr. Monteiro Ferreira, há pouco falava nas razões para ter sido instaurada essa mudança de hora ainda na Primeira Guerra Mundial e também devido a razões econômicas. Neste momento, nesta fase do campeonato, justifica-se ainda ter esta mudança de hora, quando os benefícios que se poderiam retirar na altura já estarão completamente atenuados, já não haverá grandes benefícios econômicos dessa mudança?

Eu penso que o primeiro-ministro espanhol conseguiu esclarecer publicamente precisamente essa questão. Ou seja, ele próprio, como político, considera que os critérios para poder existir mudança de hora para hora de verão, por questões de ordem política ou econômica, não têm já, neste momento, sustentação. E portanto, a questão que se coloca aqui tem que ver com o fato de que tem que se dar a dimensão necessária para os problemas relacionados com a saúde pública, na medida em que, a partir de determinado horário, há o esvaziamento das outras razões que fizeram com que houvesse a mudança de hora. Portanto, neste momento aquilo que há a fazer é aquilo que entretanto, ao nível dos vários países, também está a ser feito, que é naturalmente haver grupos de médicos que possam realmente, com representatividade junto das entidades oficiais, transmitir os problemas de saúde pública e dar a conhecer ao público, o que aliás foi algo que uma professora Teresa Paiva há bocadinho disse, algo que aconteceu, digamos, há umas semanas em Lisboa, um encontro em que um dos assuntos foi precisamente este. E que isto tem que começar a ser transmitido ao nível da comunicação social, o que naturalmente faz com que eu, em relação à Rádio Observador, possa sublinhar esta ótima iniciativa.

Temos aqui ambos. Já agora, esclareça só aqui um ponto, José Monteiro Ferreira. Nós estamos a falar, obviamente, da mudança de hora, da alternância entre horário de inverno e horário de verão, como vai acontecer já este fim de semana. Outra coisa diferente é saber se depois estamos ou não alinhados com o mesmo horário, como aconteceu nos anos 90, de Espanha e de França, por exemplo, e de Itália, que têm mais uma hora do que nós. Uma coisa não implica a outra, José Monteiro Ferreira.

Uma coisa não tem necessariamente que implicar a outra, até porque em termos de longitude, o nosso país, digamos assim, tem uma colocação um pouco diferente. Não podemos esquecer, por exemplo, que historicamente o acerto da hora de Espanha para a hora central europeia também teve que ver as suas razões políticas no tempo do regime de Franco. Portanto, a questão que se coloca neste momento é de que a nossa hora é uma hora que muito provavelmente estará muito bem alinhada para o nosso fuso horário, em termos da nossa colocação na Europa. E portanto, pode-se já justificar que a nossa hora agora possa realmente ter algum tipo de diferença relativamente àquilo que é a hora da Europa Central, com a questão de que os nossos vizinhos espanhóis têm uma hora artificialmente Mais adiantada do que nós, mas isso foi uma questão que se colocou em termos da guerra civil espanhola.

Muito bem, José Monteiro Ferreira, Teresa Paiva, obrigado a ambos pela presença. Sim, Teresa Paiva.

Posso só acrescentar uma coisa?

Claro.

Do ponto de vista biológico e da cronobiologia, devia haver quatro horas na Europa. Uma seria a Europa do Leste, outra seria a Europa Central e outra seria nós, a Espanha, a França, a Inglaterra, a Holanda.

A Itália, talvez?

Não, a Itália já está mais na Europa Central. A esse nível. Devíamos ter outra hora e, eventualmente, a Islândia e os Açores, outra. Está a perceber? Do ponto de vista biológico da cronobiologia, isto era o que deveria ser. Se vai ser assim ou não... Nós devíamos ter a mesma hora de Espanha ou antes, a Espanha devia ter a nossa hora.

A nossa hora e sem mudá-la.

E sem mudá-la. A Galiza fica naquela situação que eu disse há bocado, está com a hora da Europa Central e tem a nossa latitude.

É verdade.

Para a Galiza é terrível. A Espanha, que tem uma grande latitude, de Barcelona à Galiza vai uma grande latitude, mas efectivamente nós deveríamos estar todos alinhados no mesmo fuso horário. Nós, Espanha, França, Inglaterra, por aí fora. Holanda, Bélgica, devíamos estar todos no mesmo fuso.

Vamos ver agora.

Na mesma hora.

Isso é o que defendem os especialistas como a Teresa Paiva e o José Monteiro Ferreira. Vamos ver agora, obviamente, o que decidem os políticos e o assunto está em discussão, já sabemos, novamente na União Europeia. Este Explicador fica por aqui. Agradeço a ambos. O Explicador volta à antena da Rádio Observador quando for 17h30.