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A caminho de Belém, na Rádio Observador. Oficialmente a campanha eleitoral arranca mais logo, à meia-noite, mas os candidatos já estão na estrada em várias ações públicas. António José Seguro recebeu dois apoios sonantes nas últimas 24 horas, Cavaco Silva e Paulo Portas. André Ventura, confrontado com esses apoios, desvaloriza. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite França.
E conosco está Pedro Costa, apoiante de António José Seguro, e Rodrigo Tasha, apoiante de André Ventura. Bem-vindos, obrigada a ambos por terem aceitado o nosso convite. Eu começo por si, Pedro Costa. O apoio de Paulo Portas a António José Seguro surpreendeu-o?
Não, o que me surpreendeu foi o não apoio de Nuno Melo, ou seja, todos os líderes do CDS já apoiaram António José Seguro, coisa que me parece normal. O CDS é um partido com uma história que merece muito respeito. Eu tenho a sorte, tenho muitos amigos do CDS, é um partido que conheço relativamente bem, mas é um partido com um enquadramento histórico que serviu sempre de travão ao final do sistema, ao regime. Servia como a forma de enquadramento, mesmo daqueles que não gostavam especialmente da democracia, tinha o CDS. Paulo Portas e a sua teoria da parede, aquela teoria de Paulo Portas que dizia: "À minha direita só a parede", é a melhor demonstração dessa missão histórica do CDS. O CDS sempre assou. Nuno Melo parece que anda confuso. Pode ser que o Rodrigo Tasha nos consiga explicar por quê.
Rodrigo Tasha, André Ventura disse que se surpreendeu com o fato de Paulo Portas ir votar António José Seguro. Também surpreende a si?
Antes de mais, boa tarde, cumprimentá-los a todos, agradecer o convite e a quem nos acompanha também no vosso auditório. Não me surpreendeu grande coisa, na medida em que estes ditos notáveis de alguns partidos, sobretudo os partidos conotados à direita, estão a fazê-lo em barda. Eu até sou daqueles que não sofre nada com isso. Nalguns casos acho ridículo. Tenho pena que o doutor Paulo Portas tenha feito, quanto a mim, com o devido respeito, esta triste figura. Ouvi atentamente o Pedro, que disse que tinha muitos amigos no CDS. Eu também tenho. Durante anos, várias pessoas da minha própria família votaram CDS. E a verdade é que eu ouço em muitas pessoas do CDS que conheço, algumas que até tiveram responsabilidades no partido, outras nem tanto, mas que preferiram ouvir as palavras de Paulo Núncio e as palavras do doutor Paulo Portas. O Pedro falou também na história do CDS. Eu não quero estar aqui a abordar a história do CDS, mas todos nós sabemos também o que é que o CDS passou a seguir ao 25 de Abril. Da mesma forma que hoje nos chamam fascistas a nós, na altura os fascistas eram os membros do CDS. E as perseguições que algumas figuras fazem ao Chega eram as perseguições que as pessoas do CDS sofriam. Portanto, vejo com alguma tristeza. Não me espanta. Tenho respeito intelectual pelo doutor Paulo Portas, mas de facto acho que fez uma figura miserável, completamente desnecessária. Mas é como lhe digo, eu acho que a nós não, e a mim particularmente não me importa nada aquilo que os notáveis venham dizer, interessa-me aquilo que o povo diga no dia da eleição.
Mas de certa forma não é desanimador para a candidatura de André Ventura vermos que uma avassaladora onda de apoios que são declarados a António José Seguro, tanto à esquerda como à direita, no centro, e é difícil encontrar alguém que faça o movimento igual em relação a André Ventura.
Ricardo, veja, não sei se vai acreditar, porque certamente vai dizer que aquilo que eu estou a transmitir é por ser apoiante da candidatura.
É uma pergunta genuína, sem má intenção.
A nós não nos entristece nada, e é com toda a genuinidade que lhe digo que até dá força à candidatura, porque o que todas estas vozes, sobretudo não é as vozes à esquerda, porque essas é normal que transmitam o seu apoio a António José Seguro. Agora, todas as vozes à direita que o façam, depois de supostamente durante toda a sua vida política, terem combatido o socialismo, e nós lembrarmos bem do que é que alguns diziam do próprio candidato António José Seguro. Chega a ser caricato e portanto estas posições públicas dão força à nossa candidatura e àquilo que temos vindo a tentar explicar, de que de fato há este centrão dos interesses, o centrão da casta, da elite política. E repare numa coisa, eu acho que mesmo quem não for do Chega ou mesmo quem não esteja neste momento inclinado para votar André Ventura, sabe que esta elite política que governa Portugal num centrão não é uma invenção de quem quer que seja. Ela existe e portanto, todas as vozes, sobretudo as vozes que tiveram funções governativas no nosso país ou de influência, e que agora manifestam um apoio a um candidato chamado António José Seguro, que é do Partido Socialista, o único interesse que tem é só este: é não ganhar um candidato que eles sabem que se vencer, vai romper com este tal núcleo de centralidade que desinteressa a todos. É só isso. Portanto, não me entristece nada, acho normal e acho até que nos dá força.
Pedro Costa, estes apoios ignoram o descontentamento de uma fatia substancial dos eleitores.
Não, não vejo por quê. Vamos lá ver. Estes apoios e um certo sentimento de grande unidade em torno de António José Seguro, parece-me que se prende maioritariamente com a resposta a três perguntas essenciais sobre o que queremos para o presidente da República. O primeiro é: queremos um presidente da República que queira unir ou que queira desunir? Esta é a primeira pergunta. Isto não é verdadeiramente sobre uma visão de país. O Rodrigo Tasha dizia aqui que se lembra do que a direita disse sobre António José Seguro, eu recomendo que veja o que disse a esquerda sobre António José Seguro. Ouvi bastante mais críticas ao longo da carreira de António José Seguro vindas da esquerda do que da direita. Isto não é sobre uma visão de país. Isto é sobre a percepção de quem é o candidato mais bem preparado e mais disponível até para unir o país e o candidato que não está disponível pra o fazer. A segunda pergunta é: quem é o candidato que garante maior estabilidade ao país? Todas as sondagens são absolutamente unânimes a demonstrar que o país precisa de estabilidade. E digo isto até com o à vontade de quem faz parte de uma família política que é minoritária hoje no quadro parlamentar. E aliás, tem se visto, o Partido Socialista tem votado vencido muitas vezes no Parlamento durante esta legislatura. Mas a verdade é que o país precisa de estabilidade. Precisamos dar condições ao governo para governar, mesmo para cometer erros. E António José Seguro parece ser o candidato mais bem qualificado. Deixe-me só terminar, Ricardo. Um último ponto é: quem é o candidato que garantirá maior consenso político em Portugal? E consenso, vamos lá ver. Esta capacidade de criar consensos não é obrigatoriamente algo elogioso, mas é algo que faz parte do ADN político de António José Seguro. Se há coisa que trouxe dissabores na vida de António José Seguro, foi este seu esforço de sempre para procurar consenso entre os vários partidos e construir a partir daí, mais do que construir a partir da sua opinião e da sua visão do mundo. Esse é que é o motivo da agregação destes apoios.
O Pedro Costa não encontra mérito no argumento do Rodrigo Taxa, na medida em que estamos a assistir a manifestos, a baixos-assinados, a um movimento gigante de apoio a António José Seguro, com várias figuras notáveis. Vou já terminar. E isto, para uma parte substancial dos eleitores, é mais do mesmo, é o quase estabelecer uma dicotomia entre o bem e o mal, e há pessoas que se podem sentir atingidas por essa dicotomia entre o bem e o mal.
Ricardo, eu disse o oposto. Isto não é sobre os princípios.
Estou a perguntar se não corre o risco.
Isto é sobre as condições políticas.
Estou a perguntar se não corre o risco de ser entendido assim pelo eleitorado.
Eu tenho alguma dificuldade em valorizar o argumento quando o argumento nos fala sobre pessoas com funções governativas, ignorando que o primeiro-ministro e presidente do PSD e que o presidente do CDS, ministro da Defesa e número dois da coligação que governa o país, numa coligação, aliás, mal disfarçada com o resto da direita, que temos um total agregar do sistema à volta de um candidato. Isso não é verdade. A menos que o Rodrigo Taxa nos venha dizer qual é o acordo que há entre o governo e André Ventura para esta manutenção desta equidistância, que obviamente não é uma equidistância. Portanto, como não me parece que seja isso também, aquilo que me parece é que temos a resposta a três perguntas: estabilidade, união e procura de consensos pra construção de soluções de governo pra o país.
Rodrigo Taxa.
Não, quer dizer, Pedro, com o devido respeito e estima pessoal, estamos agora o doutor André Ventura e o primeiro-ministro ou o governo é que fizeram uma aliança, valha-me Deus. Então, vocês têm a esquerda, como o Pedro disse e bem, alguns visceralmente criticavam o vosso próprio candidato.
Isto não é sobre sentimentos, sabe que isto não é uma seita. Isto é sobre soluções políticas, não é sobre amores e desamores.
Claro que não é sobre uma seita, mas este movimento que agora se gera em torno de António José Seguro mais parece uma seita, que não é uma seita, sei eu. Agora, o Pedro colocou um conjunto de questões que são inteligentes e eu vou lhe responder a algumas, se me permite. Disse que isto era uma perceção sobre o país, não era sobre candidatos, e convinha que soubéssemos o que cada um pode trazer ao país. Pois, é que sobre o doutor António José Seguro, ninguém sabe nada, porque o homem não se manifesta sobre coisa nenhuma. A única coisa que transmitiu é um pacto pra saúde, mas isso um menino da quarta classe sabe o que é um pacto pra saúde e sabe defender um pacto pra saúde, sobretudo se perceber, se for ao médico, não tem ninguém que trate dele. Agora, a verdade é que não se sabe nada que o doutor António José Seguro tenha dito sobre tema nenhum. E aí eu até acho que é uma pena. E isto não é nenhuma crítica, não é tiro ao homem. É uma questão política. Eu até por isso acho que é lamentável a posição que António José Seguro decidiu tomar sobre os debates.
Era isso mesmo que eu ia perguntar.
Os debates são importantes exatamente pra nos conhecermos melhor.
Ia perguntar ao Pedro Costa, porque o facto de António José Seguro não aceitar mais do que um debate não demonstra receio em debater com André Ventura?
Vamos lá ver. Um debate não chega pra esclarecermos as questões que temos a esclarecer sobre os dois candidatos. Não tivemos já uma primeira volta onde já ouvimos o que os candidatos acham. Vamos lá ver, eu não vejo por que António José Seguro também diria: "Eu vou dizer uma coisa, ao seu contrário, também seria válido". Eu não vejo nenhum motivo fundamental pra que haja mais do que um debate. Também não veria nenhum problema em que houvesse mais do que um debate. Agora, não vale a pena tentarmos dramatizar cada coisa que acontece nesta eleição como forma de alimentar uma qualquer suspeita, um qualquer medo, uma qualquer perseguição. Isto são tudo circunstâncias normais. As eleições a duas voltas têm este traço. Há uma primeira volta, onde porventura há mais paixões, mais entusiasmo, menos entusiasmo.
A segunda é muito diferente da primeira.
A segunda volta, naturalmente, é um momento menos apaixonado, mas também com menos pra esclarecer. Sobre o pacto da saúde, Rodrigo, deixe-me só dizer-lhe aqui uma coisa. Eu até sou capaz de concordar consigo que não sabemos qual é a opinião de António José Seguro sobre o pacto da saúde. Sabemos uma coisa, que é um defensor do SNS. Qual é o mecanismo? Porventura, não sabemos, mas isso era o que eu lhe dizia há pouco. António José Seguro é um político que ao longo de toda a sua carreira sempre pôs os consensos acima, porventura, da sua posição de partida. Ora, isto pode ser uma crítica ou um defeito. Eu, por exemplo, fui muito crítico de António José Seguro por esta sua forma de ver a política em tempos passados. Agora, é um facto Na Presidência da República é melhor. Isto parece-me mais uma qualidade do que um defeito, ao contrário do que nas funções de primeiro-ministro. Há de eu disso não tenho grandes dúvidas. É aquilo que nos permitirá aproximar os partidos e construir em conjunto num país tão crispado. Isso é uma das coisas fundamentais para permitir a união.
Rodrigo Tasta.
Pedro, vamos lá ver uma coisa. Eu consigo compreender alguns argumentos que aqui invocou. Mas a questão aqui é esta: é que aquilo que a candidatura do doutor António José Seguro quanto a nós, naturalmente, personifica essa tal união, não é na verdade união, é imobilismo. Quando nós falamos, e depois as pessoas dizem que nós dizemos chavões para ficar no ouvido, quando nós dizemos o centrão, quando nós falamos na questão da elite política e até de uma certa casta política, mais uma vez não é um tiro ao homem. É fácil compreender que aqueles que viveram nas circunstâncias, tal como elas existiram durante 30, 40 ou mesmo 50 anos, agora sentirem que há a possibilidade de uma pessoa que nada tem que ver com isso, vir modificar o sistema político de forma que lhe seja prejudicial, porque colide com os princípios que eles sempre defenderam e viveram.
António José Seguro esteve 10 anos fora da política.
Está bem, Pedro, mas como sabe tão bem como eu.
O primeiro-ministro não o apoia, o maior partido em Portugal não o apoia.
O António José Seguro esteve 10 anos fora da política, mas não deixou de ser político. Valha-me Deus. Não vamos também agora aqui na rádio fazer das pessoas parvas, porque as pessoas não são parvas. As pessoas sabem como é que isto funciona. Deixe-me só terminar com isto, que acho que é muito importante. Concordo com uma coisa muito importante que o Pedro aqui disse, que é: não vale a pena dramatizar e agigantar medos. Mas aquilo que eu tenho assistido é a um agigantar de medos constantes em torno de André Ventura. Vamos lá ser objetivos para quem nos está a ver. Mas alguém acredita que André Ventura eleito presidente da República vai fazer mal a alguém?
Mas quer rever pelo menos a Constituição.
Quer mudar a Constituição.
Com certeza.
Não podemos, não é?
E até rever a Constituição, pelos vistos, que é presidir ao Conselho de Ministros a convite do primeiro-ministro, que é outra coisa que eu também não percebo bem.
Eu respondo a tudo, mas tem que ser uma coisa de cada vez. Quanto à Constituição, aos dito, dizer-lhe o seguinte: um candidato presidencial dizer que defende em determinadas matérias alterações à Constituição, não é faltar ao juramento constitucional que tem que fazer de cumpri-la. Aliás, isso aconteceu com vários presidentes da República que juraram uma Constituição e durante o seu mandato viram essa mesma Constituição alterada.
Mas não tem poder para isso.
Deixem-me só terminar esta nota, que é: parem de agigantar medos sobre André Ventura de coisas que não existem. O homem nunca governou, não fez mal a ninguém, não lhe podem ser assacadas medidas erradas porque não teve poder para isso, não persegue ninguém. Vamos supor que André Ventura, como eu espero, é eleito presidente da República. Acham o quê? Que ele vai conseguir dinamitar o sistema político? Não vale a pena nós transformarmos André Ventura numa pessoa que ele não é. É uma pessoa que deve ser politicamente combatida na diferença dos argumentos.
Rodrigo, estou a ouvi-lo, quase que fico com a sensação de que o André Ventura não vai mudar nada.
Não é isso que eu disse. André Ventura irá, com toda a certeza, sendo eleito presidente da República, mudar diversas matérias que já disse, aliás, que ia mudar.
Sendo que na presidência tem poderes limitados para fazer essas mudanças.
Estou a ver o Rodrigo muito café na capacidade transformadora do presidente da República.
Vamos ao Pedro. Só para fechar, que já estamos em cima do tempo.
Isto é uma coisa séria. O que eu estava a dizer não é que André Ventura não vai mudar nada. O que estou a dizer é que já é enjoativa esta conversa de transformarem André Ventura num monstro. Porque uma coisa é inegável. André Ventura está na política há seis anos. Os problemas que o nosso país tem não foram criados por André Ventura, nem alimentados por André Ventura, nem comparticipados por André Ventura. E portanto, querem combater a candidatura e o homem, combatam politicamente com argumentos como aqui estamos a fazer. Agora fazerem de André Ventura um monstro, chega a ser irracional, porque quem faz isso não consegue compreender que até isso nos dá votos e contribui para o nosso crescimento.
A conversa foi ótima, Rodrigo Tasta, Pedro Costa, muito obrigado por terem estado aqui no Camisinho de Blank. Aqui com o Apela ao Voto. A campanha só começa à meia-noite, Rodrigo Tasta.
Eu estou sempre em campanha.
Boa tarde.
Boa tarde.