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Explicador da Rádio Observador, há um problema em Lisboa em torno da contagem de votos do Chega, que ficou apenas 11 votos de diferença da CDU nas eleições autárquicas deste domingo. Trata-se de 60 eleitores que votaram antecipadamente e que verificaram um erro nos boletins de voto em que constavam os diferentes partidos e candidatos à Assembleia de Freguesia de São Domingos de Benfica. Ora, um boletim não tinha o quadradinho a seguir ao nome do partido Chega. Esses votos ficaram guardados e só hoje iam ser contados, Judite.
E cumpre perguntar ao candidato e agora vereador do Chega, Bruno Mascarenhas, bem-vindo, antes de mais. Obrigada por ter aceitado o nosso convite. Se o Chega já sabe o resultado desta contagem?
Olá, Judite, olá, Ricardo, boa tarde e cumprimento também os nossos ouvintes da Rádio Observador. Não. Para já, esses votos ainda não foram contados. Eu não estou presente no local, mas evidentemente tivemos que mobilizar uma equipa para lá, porque precisamente o Partido Comunista, nas suas práticas estalinistas, montou-se desde terça-feira com um grupo muito alargado a tentar pressionar as quatro mesas da assembleia de apuramento. E isto para nós é totalmente inqualificável. Voltando à questão, a juíza entendeu que os boletins deveriam ser abertos. Nós apresentámos um protesto quanto a isso. E já agora gostava de explicar que nós, quando vamos votar, neste caso nas eleições autárquicas, temos direito a três boletins. E os ouvintes, se alguma vez só fossem entregues dois, porque um está inválido, naturalmente que iriam reagir e protestar. É disso que se trata. Trata-se primeiro do sigilo do voto e trata-se, sobretudo, de um ato que é totalmente irregular.
Mas os votos ficaram guardados exatamente por essa razão. E ficaram todos guardados, não só o da Assembleia de Freguesia. Ficaram todos, não é?
Ficaram todos. Os três: Assembleia Municipal, Assembleia de Freguesia e Câmara Municipal.
E era suposto serem contabilizados hoje, e era suposto o resultado ser conhecido hoje.
No nosso entender, não. Deviam ser todos anulados, por uma questão meramente processual.
E haveria uma repetição da votação? É isso que entende, se vão ser anulados?
Não entendemos isso. Nós entendemos que pura e simplesmente houve um vício de forma logo de início. Isto aconteceu muito antes, e também era importante que os ouvintes percebam isso, do ato eleitoral de domingo. Isto foi no caso de Lisboa.
Sim, no voto antecipado.
No voto antecipado.
Que neste caso das autárquicas, Bruno Mascarenhas, se calhar importa também explicar isso, porque às vezes já estamos a pensar naquele voto antecipado nas legislativas que se confunde com o voto em mobilidade. Neste caso das autárquicas não há voto em mobilidade. É um voto antecipado tradicional de forças de segurança, reclusos, enfim, pessoas que por uma razão profissional ou estão doentes. É isso, não é?
E outras pessoas.
Exato.
Para nos centrarmos na conversa. Tudo bem, a juíza presidente entendeu que os votos deviam ser abertos e deviam ser contados, deviam ser contabilizados. E nós, naturalmente, vamos respeitar. Não opomos, achamos que não faz sentido, mas vamos fazer a contabilização. Estávamos convencidos que isso iria acontecer esta manhã, passou para a tarde e a informação que eu tive há momentos é que ainda não serão contabilizados hoje, mas sim amanhã. Ou seja, esta novela vai se arrastar até amanhã.
Deixe-me só perguntar-lhe uma questão, entretanto não se esqueça do que ia dizer. Tem esperança que esta contagem aumente a diferença de apenas 11 votos que tem para a CDU? Há a hipótese de acontecer exatamente o contrário.
Eu quero dizer o seguinte: a tendência neste momento tem sido um alargar da distância, porque esta assembleia de apuramento está a verificar, e posso vos dizer coisas como votos bons no Chega, que nas mesas foram considerados nulos. Nós estamos a repescar alguns, estamos a aumentar a nossa votação, e votos que eram nulos da CDU, que foram dados como bons e que eles também estão a perder. Neste momento, nesta contabilização, os tais 11 votos de diferença já devem estar nos 20 ou 21. Ou seja, nós nestes dias, e para se perceber, de facto, que nós também temos que fazer um trabalho interno de sermos mais objetivos e termos pessoas nas mesas de voto que garantam que aquilo que é o voto popular, aquilo que é expresso, não é adulterado, porque o Chega foi claramente prejudicado nestas eleições, como se está agora a constatar. Aquilo que eu queria dizer é: à data de hoje, a este momento que estamos a falar, o Chega terá aumentado o seu score de 11 para, eu ainda não consegui ter a contagem final, mas quase duplicou. Deve estar na ordem dos 21, 22 votos a mais.
Bruno Mascarenhas, isso terá alguma Consequência agora na prática do que saiu destas eleições. Por exemplo, o Chega consegue mais um vereador, menos um vereador. Quais são as consequências práticas disto?
Neste momento, repare, nós estamos numa posição de vantagem. Portanto, a consequência é que teremos com a confirmação desta vitória, nós ficaremos com aquilo que já se apurou no domingo que é termos dois vereadores em Lisboa e a CDU ter um.
Mas essa questão da diferença de apenas 11 votos, que dá ao Chega a capacidade de eleger dois mandatos e os comunistas ficarem reduzidos apenas a um vereador, com esta diferença tão curta, percebe porque é que a CDU está a ponderar pedir a recontagem dos votos, que não tem a ver com estes votos que estamos a falar agora, estamos a falar numa descontagem.
Eu gosto de chamar as coisas pelos nomes, é o Partido Comunista. O Partido Comunista Português está a fazer todo o processo, que ainda não terminou, porque a cada voto nulo que é dado ao Partido Comunista e a qualquer voto que é habilitado ao Chega, fazem protestos sobre protestos e arranjando aqui um conjunto de, desculpe lá a expressão, é um pouco incurial, mas é uma manigância para tentar, de facto, alterar o processo eleitoral e aquilo que é a vontade expressa das pessoas, com o propósito que é levar uma discussão que se pode eternizar nos tribunais. Portanto, é este o objetivo claro do Partido Comunista. E mais, tem um conjunto de pessoas que estão justamente a criar problemas, que não respeitam, inclusive, o fecho das salas, que tentam abordar os juízes. Isto tem sido uma coisa incrível e nós tivemos a preocupação também de mobilizar pessoas. Repare, isto é quase um jogo do gato e do rato, isto é inaceitável em democracia. É inaceitável que um partido político tenha que estar a mobilizar pessoas para controlar o Partido Comunista, que tenta claramente fazer pressão sobre a mesa e inclusive até sobre os juízes.
E há representantes de todos os partidos nesta descontagem?
Não, Ricardo. Repare, na terça-feira eu fui ao local e levei quatro pessoas, uma por cada mesa. Temos um delegado em cada mesa. E a CDU, ou neste caso, o Partido Comunista, já lá tinha três. Qual é o interesse de ter tanta gente ali em cima?
Mas não há regras?
Aparentemente, não havia regras, havia uma desconformidade entre mesas. Tentou-se, de facto, que houvesse uma uniformidade de representantes e, portanto, na altura chegou-se à conclusão de que seriam admitidos três por partido. Agora veja só o absurdo, termos três delegados, em que as nossas pessoas basicamente têm que estar atentas às movimentações dos delegados do Partido Comunista. Isto é uma coisa incrível.
Bruno Mascarenhas, tenho que lhe perguntar também por que o Chega pediu uma recontagem de votos no Montijo? Há aqui uma diferença entre a posição que o Chega assume em Lisboa e no Montijo, que pede a recontagem de votos?
Há uma coisa que eu lhe vou dizer. Eu não faço ideia o que é que se passou no Montijo, nem sabia disso. Mas há algo que eu lhe posso dizer: é claro que nós nesta eleição estivemos prejudicados. Aliás, isso vê-se porque a CDU obteve votos a mais que não devia ter obtido e o Chega obteve votos a menos que devia ter obtido. Eu acho que agora é tudo pôr em causa. Repare, quando nós estamos a falar de boletins de voto que não têm o quadrado para o Chega, acha que isto é normal? Podia ser com qualquer outro partido, mas é sempre com o nosso. Isto é uma coisa que não se quebra para os céus.
Bruno Mascarenhas, já percebemos que esse problema existe e que é um problema que está em cima da mesa. Queria aproveitar ainda os minutos que nos restam para perceber também como vai ser o futuro, como vai ser daqui para frente. A Carlos Moedas falta um vereador para conseguir a maioria. Os vereadores do Chega, como é que vão funcionar em relação à presidência de câmara? Vai negociar caso a caso? Vai encontrar um acordo? O que vai fazer?
Percebo a pergunta, deixe-me esclarecer o seguinte: é completamente diferente.
Estamos com alguns cortes. Agora sim. Agora estamos a ouvi-lo.
Sim, senhor. Era nosso objetivo, em termos de candidatura, apresentarmos equipa e apresentarmos programa para vencer e com experiência para esse efeito. Naturalmente, os lisboetas entenderam dar-nos uma votação inferior àquela que era a nossa expectativa. Claro que hoje a realidade é um pouco diferente. Nós queremos, na mesma, que as nossas ideias, que as nossas políticas, sobretudo naquilo que é defesa da cidade, naquilo que são as áreas mais importantes da segurança, a habitação, até ao desporto, à ação social, nós queremos realmente deixar a nossa marca. E portanto, naturalmente que não temos a mesma força que achávamos que íamos ter, mas ainda assim teremos um papel decisivo Sinceramente, a minha preocupação neste momento é que nós consigamos resolver para já este imbróglio e esta questão da votação e sedimentar a nossa posição que é termos dois vereadores. Posteriormente, iremos com certeza chegar a conversações para os quatro anos que aí vêm, sendo que essas conversações, da nossa parte, não temos qualquer a priori quanto a pelouros ou sem ser pelouros. Aquilo que nos preocupa são políticas que nós queremos para a cidade e foi isso que nos comprometemos com os eleitores.
Deixe-me perguntar-lhe se já falou com o Carlos Moedas. O seu telefone já tocou ou ligou a Carlos Moedas?
Eu nem sequer tinha o telefone do engenheiro Carlos Moedas. Eu tive o cuidado de lhe ligar e de o cumprimentar, porque é isso que é suposto acontecer quando as partes estão após uma disputa eleitoral. Portanto, naturalmente, tive que o felicitar democraticamente pela vitória. Naturalmente também que há e nós temos vários aspectos. O engenheiro Moedas aproximou-se do Chega relativamente a alguns temas não só durante o mandato passado, mas também já o período eleitoral e julgo que ele terá todo o interesse em prosseguir com aquelas que são algumas das nossas ideias.
Haverá abertura. Entende que há pelo menos abertura para conversar de parte a parte, é isso?
Entendo que é desejável, sendo que a correlação de forças no mandato anterior, o centro e centro-esquerda protagonizado pelo PSD, tinha sete vereadores e que a esquerda e a extrema-esquerda tinham 10. Neste momento tem o centro e o centro-esquerda com oito e tem a direita com dois e portanto, eu julgo que nós estamos mais próximos e o engenheiro Carlos Moedas está mais próximo de nós do que poderá eventualmente estar do Bloco de Esquerda ou do Livre.
Bruno Mascarenhas, não queria deixá-lo ir embora sem lhe fazer esta pergunta e já falou nisso agora há instantes, de que era seu objetivo ter o melhor resultado. O resultado em Lisboa ficou aquém das suas expectativas. Estava à espera de mais?
Obviamente, quando nós nos apresentámos, sendo o partido que somos e com as expectativas que temos, claro que estava à espera de mais.
O que é que não correu bem?
Repare, houve aqui um apelo claro ao voto útil que nos penalizou. Quanto a mim, injustificável. Aliás, como se verificou, porque a distância entre o PS e o PSD, que eu pus sempre no mesmo saco, realmente foi maior do que aquela que era esperada. As sondagens claramente foram manipuladoras da opinião pública, porque puseram ambas as partes taco a taco, quando na realidade havia uma distância considerável e portanto, as pessoas acabaram por fazer o voto útil. Isto é incrível como é que nesta democracia há pessoas que nascem e morrem a votar útil e muitas vezes não apostam naquilo que são as suas convicções. Mas isso são contas para outro momento.
Voltaremos a conversar seguramente em breve. Obrigado Bruno Mascarenhas, o candidato eleito do Chega a Lisboa à Câmara Municipal. Obrigado por ter estado neste explicador da Rádio Observador. Devemos ainda dizer que convidámos também o PCP para estar neste explicador, mas os comunistas recusaram.