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Portugueses, acabei de decretar o estado de emergência.

Faleceu um doente que tinha a doença Covid-19.

Esta pandemia ainda não atingiu o seu pico.

Começaram a trabalhar na linha SNS 24 mais 112 enfermeiros.

Vamos ver como vai ser o desfecho.

E vamos vencer.

Um, dois, três, quatro, cinco, 78. Setenta e oito são as regras para ir à praia em segurança este verão. Mas são ainda muitas as dúvidas. O vírus sobrevive ou não na areia, na água salgada e é seguro o chapéu de sol a três metros do vizinho do lado? Hoje falamos de praia e de riscos de contágio no areal com Manuel Carmo Gomes, professor de Epidemiologia de Doenças Transmissíveis da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Já que falamos de praia, obviamente, também vamos falar de bolas de Berlim.

Isto aqui é entre nós. Se eu comprar uma bola de Berlim na praia, e compro, de vez em quando compro, sabe o que eu faria? Eu colocaria a bola de Berlim um bocado ao sol antes de a comer.

O calor já convida. A época balnear arranca a 6 de junho. E a fechar, a máscara transparente que permite ler os lábios.

Esta é uma luta pela nossa própria sobrevivência.

A prioridade absoluta para a nossa nação será a nossa saúde.

A vitória depende de cada um de nós.

Teste, teste, teste.

Se você está doente ou não se sente bem, fique em casa.

O número de desempregados em Portugal cresceu 22,1% em abril, mês em que já estávamos confinados. Há 392 mil pessoas, nesta altura, inscritas nos centros de emprego. A Ministra do Trabalho diz que o problema só não foi maior devido à política de lay-off especial adotada pelo governo. E Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente da República, ao comentar estes números, deixou como que uma sugestão ao governo.

Era esperável e, como disse a senhora Ministra do Trabalho, é muito contido por causa do lay-off. E eu penso que há que ponderar até que ponto é possível ou não, o governo saberá, prolongar o lay-off um pouco mais.

Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente da República. E o Brasil registou o pior dia de sempre no número de mortos, 1179 em 24 horas, e é o terceiro país mais afetado em todo o mundo. Tem quase 20 mil mortos e são mais de 270 mil casos confirmados. Os serviços de saúde estão já no limite, no Rio de Janeiro e também em São Paulo. Esta é a notícia em destaque na Rádio Jovem Pan, que dá ainda conta de uma piada presidencial.

No pior dia da pandemia no Brasil, Jair Bolsonaro anuncia mudança no protocolo da Cloroquina. O presidente ainda fez piada com a situação e disse:

E outra, toma quem quiser, quem não quiser não toma. Quem for de direita toma Cloroquina, quem é de esquerda toma Tubaína.

A Tubaína é um refrigerante típico do interior de São Paulo, é feito à base de guaraná e segundo uma das teorias, foi inventado por um português em 1896, José Miguel de Andrade. Entretanto, o número de casos em todo o mundo deverá estar a atingir a fasquia dos cinco milhões. O uso de máscaras em Espanha passa a ser obrigatório para os maiores de seis anos, a partir de amanhã, em locais fechados ou na rua, se não for possível manter uma distância superior a dois metros da outra pessoa. As crianças entre os três e os cinco anos são aconselhadas a usar também máscara. A paragem da aviação leva o fabricante de motores britânico Rolls-Royce a despedir 9000 funcionários. E na Nova Zelândia, a primeira-ministra sugere semanas de quatro dias de trabalho e outras medidas de flexibilização laboral para diminuir a circulação de pessoas, aumentar a segurança e incentivar o turismo naquele país. Já a seguir falamos de praia em tempos de pandemia com Manuel Carmo Gomes, professor de Epidemiologia de Doenças Transmissíveis da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. É também membro da Comissão Técnica de Vacinação da Direção-Geral da Saúde desde 1998. Bem-vindo, Manuel Carmo Gomes.

Obrigado. Obrigado pelo convite.

São muitas as dúvidas práticas que temos em relação à praia e ao verão que se aproxima, mas hoje queria falar essencialmente sobre praia. Mas podemos começar a falar sobre o calor e a fraca umidade no verão em Portugal. Isto pode ser uma vantagem no combate a este vírus?

Pode ser, mas sabe que há dois conceitos de umidade que têm que ser tidos em atenção. Um chama-se a umidade absoluta, a umidade total, que é a quantidade de vapor d'água que está no ar. E quando a temperatura do ar aumenta, a capacidade de ter vapor d'água no ar aumenta também. Portanto, isso não deve ser confundido com a umidade relativa, que é a quantidade de umidade que de fato existe relativamente ao total que poderia existir. As pessoas confundem as duas coisas com alguma facilidade. No caso concreto destes coronavírus e dos vírus respiratórios em geral, eu dir-lhe-ei que para o coronavírus, a umidade relativa ótima será qualquer coisa abaixo de 40%. Umidades relativas entre 40% e 60% não são muito boas para o vírus em termos de estabilidade e de outras coisas. Portanto, tudo depende da umidade que temos e isso vai variando dia a dia.

E o vírus sobrevive ou não sobrevive, por exemplo, na areia?

Em princípio, sobrevive, mas por pouco tempo, por duas razões. Primeiro, porque a areia está sujeita à radiação ultravioleta. A radiação ultravioleta destrói ou altera os ácidos nucleicos dos micro-organismos, neste caso o RNA. E a segunda razão é porque, em princípio, a areia estará quente ou pelo menos durante o dia estará quente e estes vírus não gostam de temperaturas muito acima, eu diria, dos 20, 25 graus, porque também desnatura as proteínas do vírus e altera o seu RNA. Portanto, não deve sobreviver muito tempo na areia.

E na água salgada ou na água doce, há aqui diferenças?

Ora bem, não há conhecimento suficiente para responder essa pergunta sobre este coronavírus. O que sabemos deriva de outros coronavírus e de outros vírus que causam infecções respiratórias. A sobrevivência na água salgada deve ser praticamente nula, e se é que algum vírus chega lá sequer, poderá chegar se houver um infetado que esteja a tomar banho e espirrar para dentro d'água, mas a sobrevivência deve ser nula. Na água doce, a resposta é não sabemos. Não temos a certeza.

Uma das formas de contágio é, obviamente, o contacto. Contacto com superfícies ou um aperto de mão. Desinfetar as mãos antes e durante a permanência na praia continua a ser aconselhável?

Continua, porque se a mão estiver desinfetada, evita-se que a pessoa inadvertidamente leve a mão à cara, aos olhos ou cumprimenta outra pessoa com a mão infetada. Portanto, aí as regras são as regras gerais do nosso comportamento no dia a dia. Lavar frequentemente as mãos e ir à praia, vir da praia, não altera em nada isso. Até porque quando nós vimos da praia, inadvertidamente tocamos com as mãos em objetos, desde corrimões até maçanetas de portas, etc. E portanto, chegar a casa, lavar as mãos, claro.

Manuel Carmo Gomes, há aqui outra questão, que é a distância que foi aconselhada manter na praia: três metros para o chapéu de sol, um metro e meio para distância entre pessoas. Isto são distâncias seguras, tendo em conta que outro meio de transmissão, corrija-me se não for este o termo correto, é o meio aéreo em que as gotículas podem viajar?

É seguro. É seguro porque o meio aéreo, aquilo a que chamamos de transmissão por aerossol, está muito diminuída no verão. A transmissão por aerossol é predominante ou tem um papel muito importante no outono e no inverno. Por várias razões, tem a ver com as pessoas estarem em casa, a umidade relativa do ar ser baixa dentro de casa, etc. Mas na praia, essa transmissão por aerossol tem muito pouca probabilidade de ter sucesso. Porque repare, isto acontece quando há uma partícula que nós emitimos que disseca quando sai da nossa boca. Ela já é pequenina, e depois perde a água que tem e o vírus que esteja nessa partícula fica em suspensão no ar. E está provado com este vírus que em meios controlados, ele aguenta até três horas em suspensão no ar e mesmo assim consegue infetar. Simplesmente, na praia, além de haver correntes de ar, há sempre brisa, especialmente aqui em Portugal, há ultravioleta. Portanto, o ultravioleta do sol elimina ou desnatura um vírus que esteja em suspensão numa partícula microscópica no ar. Logo, é muito pouco provável que quando eu emito uma partícula em aerossol e ela fica no ar, ela consiga sobreviver ao ponto de, evitando as correntes de ar e o ultravioleta, ir atingir alguém que está num guarda-sol a três metros de distância. Quer dizer, isto não é impossível, mas a probabilidade é muito baixa.

E baixa independentemente daquela questão da dimensão da gotícula.

Se a gotícula tiver, estima-se mais do que 10 micromilímetros, ela então não tem hipótese. Não é aerosolizada sequer, vai direito ao chão. Percorre uma distância de um metro, um metro e meio, dois metros, depende da força com que eu a emitir, e vai parar à areia. Na areia, não tem grande viabilidade, como já vimos. Se for muito pequenina e portanto ficar em suspensão no ar, tem este problema que eu referi, que a praia, em princípio, vamos ter ultravioleta intenso. Intenso do ponto de vista do vírus.

E as praias fluviais devem obedecer às mesmas regras?

Eu penso que sim.

Não há aqui diferenças substanciais.

Não, penso que não. Aliás, eu generalizava isto a todos os espaços abertos. Isto que eu estou a dizer é verdade no verão para todos os espaços abertos. Se estivermos todos num relvado, é o mesmo problema. As pessoas devem manter afastamento para evitar o contacto direto por objetos ou por contacto físico, e as gotículas mais pesadas, as tais que vão direitas ao chão, mas podem ser inaladas por alguém que esteja perto. E a aerosolização de partículas é pouco provável, porque novamente, estamos em espaços abertos, há sol, há brisas. Este tipo de transmissão a aerossol, que é muito perigosa no inverno e que nós pensamos que é uma das razões pelas quais o vírus tem tido tanto sucesso a transmitir-se nestes períodos de inverno, vai ter muito menos importância no verão.

Ou seja, pegando naquilo que está a dizer, é quase desnecessário usar máscaras Na praia?

Não, eu não iria tão longe, porque a máscara serve essencialmente para reter as partículas.

Para proteger os outros, não é?

Sim, retém as partículas, as gotículas infectadas que saem da nossa boca. Qualquer um de nós pode estar infectado, sem sintomas e sem saber. A máscara garante que nós não estamos a emitir gotículas para corrimões, para sítios onde as pessoas vão pôr as mãos. Portanto, é sempre de usar. Eu diria que na praia, desde que realmente se mantenha a distância entre os chapéus de sol, entre as cadeiras das pessoas, etc, não me parece que seja absolutamente necessário, a não ser que nós não queiramos, estejamos com alguém perto de nós, um amigo, um companheiro, que tenhamos preocupações em infectar essa pessoa. Mas como aquilo que está recomendado é que as pessoas andem em grupos de agregados familiares, de família, em princípio, o problema não se põe. O problema é que as pessoas estão na praia e depois vão ao apoio de praia, que é o café. Ou vão à esplanada. E se a pessoa não tiver a lembrança de colocar a máscara, entra pela esplanada adentro e a menos que lhe chamem a atenção, vai poder infectar as mesas, as cadeiras, tudo o que está à volta.

Deixe-me aproveitar essa deixa para ir já para a esplanada e para o apoio de praia. Muitos restaurantes destes de praia, por regra, as mesas são de madeira, às vezes até uma madeira bastante tosca, é um material até muito poroso. Não é tão fácil desinfetar como uma mesa de plástico, ou é?

Eu não sou especialista em superfícies de mesas, mas eu penso que se for de facto poroso e for daquelas madeiras que têm interstícios onde o vírus pode penetrar, é mais difícil desinfetar. Isto é uma questão de senso comum. Porque o vírus é microscópico e enfia-se em qualquer buraquinho, em qualquer fresta. Portanto, é evidente, se for uma superfície lisa, por onde se passa um pano, é mais fácil. Mas se o pano estiver embebido de um produto alcoólico, por exemplo, e se passar o pano generosamente pela superfície, ele vai desinfetar a mesma superfície.

Já que estamos sentados à mesa, deixe-me fazer-lhe aqui outra pergunta de algo que temos visto muito, que é, pelo menos nos últimos dias, que as pessoas sentam-se numa esplanada ou numa mesa, tiram a máscara e põem a máscara em cima da mesa. Pode ser?

É uma má prática, porque a máscara pode estar infectada. Porque se nós tivermos o vírus e a máscara tem como objetivo reter as partículas de vírus que nós emitimos, a máscara está infectada. Ao colocar a máscara em cima da mesa, basta que uma zona infectada da máscara contacte com a superfície da mesa para ficar lá o vírus. E depois, pode vir outra pessoa atrás de nós que passa a mão por cima daquele local onde o vírus foi depositado.

Só para fecharmos a nossa conversa: e bolas de Berlim, tudo OK?

As bolas de Berlim são como qualquer outro alimento. Em princípio, terão sido feitas com a higiene necessária e as pessoas que estarão a vender, além de estarem devidamente protegidas com máscaras e luvas, que devem mudar com frequência, em princípio, a bola de Berlim é como qualquer outro alimento. Mas eu faria o seguinte, isto aqui é entre nós. Se eu comprar uma bola de Berlim na praia, e compro, de vez em quando compro, sabe o que eu faria? Eu colocaria a bola de Berlim um bocado ao sol antes de a comer. Colocava ali ao meu lado em cima de um papel ao sol. Deixava estar ali um bocado a apanhar sol, ou seja, ultravioleta. E a seguir comia.

A ação do raio ultravioleta.

Absolutamente.

Não para tostar a bola, mas para matar o vírus.

Para desnaturar o vírus e dar-lhe cabo do RNA.

Manuel Carmo Gomes, muito obrigado pela sua ajuda, pela sua explicação. Manuel Carmo Gomes, professor de Epidemiologia de Doenças Transmissíveis da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, também membro da Comissão Técnica de Vacinação da Direção-Geral de Saúde desde 1998. Já a seguir vamos ao fact-check. E agora o caso de um médico que curava, e este curava está entre aspas, pacientes de Covid-19 com vitamina C. Charles Mok, o médico norte-americano, é suspeito de fraude. O site Coletividade Evolutiva, é assim que se chama, publicou a 1 de maio um artigo em que afirmava que o FBI invadiu o escritório de um médico lá em Detroit, nos Estados Unidos, que tratava pacientes com Covid-19 com vitamina C intravenosa. No artigo, o autor questiona o que está acontecendo com a vitamina C, por que está sendo ignorada como tratamento e prevenção contra o Covid-19, acrescentando que a vitamina C está curando pacientes na China e em hospitais de Nova York. Ora, quase tudo aqui é falso, menos o facto de as autoridades norte-americanas terem feito buscas no escritório do médico que prometia estas curas com injeções de vitamina C, o que, como sabemos, é ótima a vitamina C, faz muita falta nalguns casos específicos, mas não é cura para a Covid-19, nem milagre para o reforço do sistema imunitário, como de resto o Observador já explicou. Em declarações enviadas ao Observador, o departamento de comunicação do FBI de Detroit esclarece que Charles Mok é suspeito de ter efetuado cobranças fraudulentas ao Medicare, o sistema de seguros norte-americano, que é gerido pelo governo. Uma vez mais reforçamos, não há alimentos, suplementos ou medicamentos milagrosos contra este vírus que nos atormenta e que já matou mais de 320 mil pessoas em todo o mundo. Venha então o carimbo de falso neste fact-check, por favor.

Se já todas as pessoas que frequentam regularmente pessoas surdas usarem uma máscara, acho isso ótimo. Por exemplo, no supermercado, o caixa reservado para pessoas com deficiência, por que não oferecer à operadora um máscara transparente?

Esta é a voz de Kelly Moreillon, presidente da associação Main d’allemain, em entrevista à France Info. Aqui a pergunta, neste som: por que não fornecer máscaras transparentes aos operadores de caixa nos supermercados, nas caixas reservadas a pessoas com deficiência? Esta associação, que representa surdos, desenvolveu uma máscara transparente que permite ler os lábios, algo que é essencial para os surdos, e já se sabe que a necessidade aguça o engenho. Criaram, por isso, uma máscara que tem uma espécie de janela transparente que permite ler os lábios. Kelly Moreillon foi à procura de alguns tutoriais para perceber como se construíam máscaras, garantindo todas as normas de segurança e voilà.

Procuramos em diferentes tutoriais para encontrar a máscara que seria a melhor, respeitando as normas AFNOR, para que pudesse ser reutilizável, lavável a 60 graus, mas também que a parte transparente pudesse ser removida.

Nestas declarações à France Info, a presidente da associação Main d’allemain diz ainda que a parte de plástico tem tendência para embaciar. Isto pode ser resolvido com aquele truque que já explicamos aqui noutro episódio e que podemos usar, por exemplo, para os óculos, para não ficarem embaciados com as máscaras. Lavar com água e sabão e deixar secar. Cria uma película protetora que pode resolver este problema. Esta máscara não está à venda, mas a associação francesa promete que vai partilhar um tutorial sobre como fazer uma. O fact-check é da Marta Leite Ferreira, a sonorização é da Beatriz Martelo Garcia. Eu sou o Ricardo Conceição.

Portugueses, acabei de decretar o estado de emergência.

Faleceu um doente que tinha a doença Covid-19.

Esta pandemia ainda não atingiu o seu pico.

Começaram a trabalhar na linha SNS 24 mais 112 enfermeiros.

Vamos ver como vai ser o desfecho.

E vamos vencer.

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.