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Nos próximos minutos fazemos a análise aos resultados da eleição deste domingo, que colocou António José Seguro e André Ventura na segunda volta de 8 de fevereiro. São nossos convidados Luís Aguiar-Conraria e Pedro Brinca. A moderação é da Carla Jorge Carvalho. Pela segunda vez na história da vida democrática portuguesa, vai haver uma segunda volta para eleger um presidente da República. António José Seguro teve 31% dos votos, André Ventura 23,5. Bom dia, Luís Aguiar-Conraria. Bom dia, Pedro Brinca. Bem-vindos. Luís, começo por ti. O que é que vai acontecer no dia 8 de fevereiro? Os portugueses vão escolher entre esquerda e direita, tal como em 1986, entre quem defende e quem não defende a Constituição, ou vão escolher entre derrotar ou não derrotar o socialismo? O que é que vai acontecer?
Eu acho que vai depender mesmo de qual das narrativas é que vence as próximas semanas. E claramente vai haver uma narrativa de André Ventura, que já ensaiou e não ensaiou ontem, penso que já começou a ensaiar na última semana, que era tornar isto numa coisa esquerda versus direita, em que ele é o representante da direita, ou se preferires, socialismo versus não socialismo, que ele também gosta de se afirmar como sendo uma pessoa do contra e não propriamente pela positiva, mas eu diria que neste caso as duas narrativas terão impacto semelhante. Essa é uma narrativa de um lado. A narrativa do outro lado, de António José Seguro, vai querer combatê-la, vai querer desmontá-la e fazer, sim, uma coisa que é moderados versus radicais ou democratas de um lado, os outros do outro. Se calhar aqui invocar um bocadinho o discurso de Mário Soares. Lembras-te quando o Soares ganhou as eleições em 86, em que aquele discurso de Soares é: "Foi a vitória da democracia, foi a vitória da liberdade". E se calhar uma pessoa olha para trás e realmente vê que obviamente a liberdade nunca esteve em causa, não havia problema nenhum se Freitas do Amaral ganhasse para a liberdade.
Mas a dramatização ganhou na altura.
Mas a dramatização ganhou. E neste momento, se calhar, até há mais motivos para argumentar isso, no sentido em que André Ventura representa uma ameaça maior ao sistema do que propriamente Freitas do Amaral na altura. E repara, dependendo da forma como Seguro abordar a questão e os termos em que a põe, nem o próprio André Ventura irá negar isto. Quer dizer, se Seguro o acusar de quer destruir o sistema ou quer dar um grande abanão ao sistema e por aí fora, o próprio Ventura diz que sim. Já disse várias vezes que é isso que queria fazer. E, portanto, vamos ver qual das narrativas é que vence. Desculpa, declaração de interesses. Ontem à noite esqueci-me de fazer, mas não posso deixar de fazer. Eu sou apoiante de António José Seguro, ok? Portanto, façam o desconto que queiram.
Vamos usar essa lente para te ouvir. Pedro Brinca, seja como for, Ventura torna-se de facto o líder da direita em Portugal depois dos resultados de ontem.
Primeiro cumprimentar-vos ambos e os ouvintes da Rádio Observador e também começar não pelo fim, mas pelo princípio, a dizer também a minha declaração de interesses. Eu estive na comissão do Rui Marques Mendes e fui seu coordenador económico. Dito isto, parece-me que aquilo que vamos ter na segunda volta é precisamente aqui uma esquerda-direita, mas se calhar não nos termos, na minha opinião, de que André Ventura o pôs, mas noutros termos, nos termos de que a direita vai se sentir um pouco fragmentada, já estava nestas eleições, mas vai estar um pouco fragmentada entre Seguro e Ventura. E eu digo isto por uma razão, porque na minha leitura, António José Seguro faz parte daquilo que eu chamo, espero que ninguém se ofenda por eu dizer isto, do PS civilizado. Do PS do entendimento ao centro, do PS dos consensos, do PS com quem historicamente se conseguia fazer acordos de regime, etc. O PS tem uma ou outra ala se calhar menos disponível para este tipo de entendimentos. Por isso é um candidato que não é detestado pela direita, não é um candidato que tenha tido ali muitos anticorpos, pelo menos ali na direita moderada. E acho que será aquilo que vai determinar aquilo que vai acontecer, até porque se nós olharmos e acharmos que a votação que foi expressa em todos estes candidatos, e acho que é claríssimo quais são aqueles candidatos que vão à esquerda e quais são aqueles candidatos que vão à direita. A esquerda joga as suas fichas todas. Se nós olharmos para aquilo que é a votação, ou foi a votação dos candidatos de esquerda, há candidatos da lista esquerda que até Manuel João Vieira teve mais votos que eles. Os outros que tiveram mais, António Filipe e Catarina Martins, também é meramente residual. António José Seguro, se mantiver o seu eleitorado e se for buscar votos a Catarina Martins e António Filipe, que são os únicos que contam para outra tabela, passo a expressão, não chega para ganhar as eleições.
Portanto, vai precisar da direita para ser eleito.
Vai precisar da direita, que vai ter aqui uma crise de identidade entre o sistema e o anti-sistema, na minha opinião.
Pedro, só uma nuancezinha em relação ao que estavas a dizer. E bom dia também. Penso que aqui o único que não é tão claro, tu dizes que é clara a divisão de esquerda e direita, exceto no caso do almirante. Portanto, esse claramente, apesar de ter muitos apoiantes que são pessoas de PSD ressabiadas, centrou um bocado o seu discurso à esquerda e aliás, no último dia de campanha, ou penúltimo, Jorge Pinto quase que declarou aos militantes livres que podiam votar no almirante. Portanto, tirando essa exceção, claro que tens razão.
Mas mesmo que o almirante, se botarmos os votos que o almirante teve aos que António José Seguro teve, ainda assim, tínhamos 43%. Ou seja, isto acho que é a mesma direita a decidir.
Mas para já não há grandes motivos para adicionar os do Marques Mendes e os do Cotrim, não é? Porque esses claramente não declararam apoio a ninguém, portanto à partida estão indiferentes entre um e outro, e estando indiferentes entre um e outro, na medida em que representem o seu eleitorado, será votado para cada lado.
Outra coisa é o que os líderes dizem, outra coisa é o espectro. Eu acho que a maioria das pessoas que vota Cotrim é o que fica mais centro-direita que provavelmente centro-esquerda, diria eu. Independentemente de eles apoiarem A ou B. E diria o mesmo de Marques Mendes.
Eu fiquei mesmo admirado com o discurso de Cotrim. O Cotrim foi aquela pessoa que quando foi eleita para o Parlamento, fez birra no Parlamento e recusava-se a sentar e por aí fora, porque queria ficar ao centro do Parlamento e não à direita. Lembra-se disso?
Eu lembro-me disso.
Que ele achava que estava equidistante e portanto queria ficar entre o PS e o PSD e de repente entre Seguro e Ventura. Entre Seguro e Ventura assim de repente não há distinções? São ambos ameaças à democracia? Acho uma coisa muito esquisita.
Eu acho que vem, mas é precisamente porque Cotrim e a IL, a Iniciativa Liberal, terem querido afirmar dessa maneira e claramente naquilo que é todo o discurso e análise política em Portugal nunca o ter conseguido, que eu acho que nós não podemos olhar para a não orientação de voto de Luís Marques Mendes e de, em particular, neste caso estamos a discutir, de João Cotrim de Figueiredo, como uma hipótese de que aqueles votantes são neutros naquilo que é o espectro político português. Eu acho que há muito poucas pessoas em Portugal, infelizmente, e nisso acompanho João Cotrim, que acham que o liberalismo é de direita. Eu acho que o liberalismo não é de direita nem de esquerda, mas acho que as posições naquilo que é a economia da IL dominam sobre tudo o resto, porque se olharmos para aquilo que não é o pensamento de economia em sentido liberal, só com muito esforço e com muita boa vontade é que se pode considerar que a IL é um partido de direita, ou pelo menos da direita tradicional.
Eles posicionaram-se como tal.
Sim, mas não vos parece...?
Eu sou a favor da autodeterminação dos partidos. Se os partidos querem dizer que são de direita, não vêm aqui para os debates.
Mas eles não disseram que eram de direita.
Desculpa, disseram.
Não vos parece...?
Pelo amor de Deus, disseram-no de que maneira.
Disseram que eram do centro. Não eram de direita nem de esquerda.
E se dissessem que eram do centro, a única implicação disso era que apoiavam o Seguro. Aliás, vamos ver se não apoiam.
A questão é: não vos parece que João Cotrim Figueiredo ao longo da campanha evoluiu e foi virando mais à direita, até por aquelas declarações mais difíceis que Cotrim depois tentou corrigir dizendo que não sabia onde estava com a cabeça, mas não se aproximou mais na direita nos últimos dias?
Mas ele claramente não sabia onde estava com a cabeça. Verificou-se. Agora que se colocou esse cenário, ele realmente pôs-se numa posição de equidistância. Ele na verdade disse exatamente o que queria dizer.
E relativamente a Marques Mendes, Pedro Brinca, e já agora também Luís Montenegro, que se excluíram do seguimento destas eleições presidenciais. Também não é estranho que isso aconteça?
Depende da perspectiva. Eu não estou a falar em termos daquilo que foi toda a discussão da campanha relativamente ao passado dos candidatos, porque isso foi o que foi, mas do ponto de vista de perfil, até acho que Luís Marques Mendes e António José Seguro são dois candidatos até relativamente semelhantes. Em que sentido? No sentido em que eram dois candidatos de consenso, de acharem que Portugal é um país moderado, de querer fazer consensos ao centro, de um maior entendimento entre os partidos do regime, digamos assim, pelo menos em questões essenciais, obviamente sem prejuízo do normal debate político. Agora, acho que estas também foram umas eleições em cujo media sempre tiveram, obviamente, são parte do jogo, mas tiveram um impacto muito grande nas dinâmicas. Claramente aquilo que foi esclarecer o passado profissional de Luís Marques Mendes foi uma coisa que não correu bem, não foi bem gerido, ou pelo menos as coisas não correram. No caso de António José Seguro, não houve nada que se assinalasse.
Não houve erros, falou-se nisso.
Acho que acabou por ganhar a tal aura do Portugal moderado. E continuo a acreditar que Portugal é um país moderado, que graças à falta de capacidade de os principais partidos do arco da governação se entenderem à volta de um conjunto de questões essenciais, quiçá também por um bocado de estratégia comunicacional, eu acho que muitas vezes PS e PSD acham que se passarem um verão inteiro a discutir 1% de IRC, que vão roubar espaço mediático aos extremos. E que é capaz de funcionar no curto prazo, e isso aconteceu há dois verões passados. O problema é que depois também não se entendem acerca de nada. Ou seja, não criam condições políticas para ter o mínimo de políticas realmente que mudem a vida das pessoas, que as pessoas sintam que têm alguma coisa, para depois não quererem ver tudo arder. E no longo prazo, aquilo que se faz é alimentar precisamente os extremos. Eu sou muito mais adepto da segunda teoria, que eu acho que PS e PSD historicamente fizeram. Aliás, figuras históricas como Vítor Constâncio e Mário Soares Silva em 92 entenderam-se para fazer a revisão da Constituição. E falta um bocado este sentido de Estado e se calhar alguma capacidade agregadora ao meio. E eu acho que até António José Seguro, porque fez com Pedro Passos Coelho e na altura quando Pedro Passos Coelho governava sob a intervenção da troika, foi um político com estas características, e por isso é que eu acho que António José Seguro será um bom presidente da República, descrevendo a minha preferência em função destas características que acabei de descrever, como acho que Luís Marques Mendes seria. Mas creio que a grande diferença aqui acabou muito por ser, por um lado, a fragmentação da direita. Eu realmente quando vi que João Cotrim de Figueiredo entrou na corrida e que Henrique Oliveira e Melo também já estava na corrida. Eu comecei a perceber que a direita quiçá estava ali a esgotar um bocadinho de espaço
Aquilo que aconteceu muitas vezes com a esquerda, que avançou com muitos candidatos e que se foi esvaziando.
Aliás, deixa-me só fazer um comentário. Houve um economista até bastante inteligente, que é meu amigo, o Desculpem.
António José Seguro.
Como o Pedro Brinca disse que os dois eram muito parecidos.
Já os confundiste. Não, tiveram resultados muito diferentes ontem. Parece que os votos de Cotrim, ou melhor, não sabemos, de facto.
Os votos farão a diferença. Deixa-me dizer-te isto: os votos obviamente que farão a diferença. As pessoas em si mesmo eu não sei, porque como estava há bocado o Pedro simpaticamente a dizer, eu acho que os eleitores mostraram que são muito mais espertos e muito mais razoáveis que os seus representantes e que não são paus mandados. E portanto, na verdade, as pessoas irão, grande parte delas, votar independentemente do apoio de A, ou de B, ou de C.
Pelas indicações de voto, se olharmos para os candidatos e para os partidos que os apoiaram, de facto, a maior colagem está entre o Chega e André Ventura. Todos os outros variaram muito. Corroboro essa ideia.
Todos eles foram ou muito além dos seus partidos ou muito aquém dos seus partidos. Portanto, quem foi muito além foi Seguro e Cotrim Figueiredo, e os outros claramente ficaram muito aquém. E acho que isso também é uma enorme lição para esses partidos. Acho que é bom que aprendam, e acho que é bom que a esquerda do PS aprenda quando é que estão coisas importantes em jogo e quando é que faz sentido terem as atitudes de facção que tiveram, em vez de procurarem convergências. E no caso do governo, espero mesmo que entenda que o ser governo é um estado temporário, e que não podem dar como adquirido e que não podem continuar a comportar-se como se comportaram até hoje, como se tivessem a maioria absoluta.
Haverá agora algumas semanas para fazer digestão destes resultados. Luís Aguiar Conraria, Pedro Brinca, muito obrigada por terem estado aqui nesta análise. Um bom dia e uma boa semana para os dois.
Obrigado.