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"Cesária não fazia nada que não quisesse. Se gravou estas canções, é para serem lançadas"

“Reina da Morna" é o disco póstumo com uma dezena de gravações inéditas. Em entrevista, o manager e editor José “Djô” da Silva explica que álbum é este e recorda o caminho feito com Cesária Évora.

Vai ser lançado a 16 de outubro o álbum póstumo Reina da Morna, uma coleção de 10 gravações inéditas de Cesária Évora, registos que permaneceram anos nos arquivos à espera que um dia pudessem ser escutados. O single de avanço, Sonsente, foi divulgado com um videoclipe construído a partir de imagens também nunca antes reveladas, incluindo momentos de gravação em estúdio. Reina da Morna reúne composições de autores como B.Leza, Manuel D’Novas ou Eugénio Tavares, e vem com um livreto assinado pelo jornalista musical francês Francis Dordor, que acompanhou Cesária Évora ao longo da sua carreira.

Editadas pela sucursal francesa da Sony Music, as canções inéditas de Cesária Évora foram preservadas ao longo do tempo pela sua editora, a Lusáfrica, do empresário cabo-verdiano José “Djô” da Silva, que no ano passado vendeu o catálogo — mais a sua firma de gestão de direitos de autor, Africa Nostra — à editora multinacional de que já era parceiro. Djô da Silva foi o grande arquiteto por trás do sucesso global de Cesária Évora. Nascido na Cidade da Praia, mas criado no Senegal, para onde foi com meros 20 dias de vida, haveria de se mudar para Paris, a capital francesa, durante a adolescência. A mãe era empregada doméstica e ambos moravam num bairro nobre da cidade, na casa dos patrões, longe dos circuitos habituais da comunidade cabo-verdiana.

Foi apenas na passagem para a idade adulta que, num movimento de aproximação às raízes, Djô da Silva começou a integrar-se nas associações locais de cabo-verdianos. Acercou-se da música, que sempre ouvira e que fizera parte do seu quotidiano, e integrou a banda Sun of Cap, que passou a gerir enquanto manager e agente. Estavam os primeiros passos dados para que, poucos anos depois, numa visita fortuita a Lisboa, se encontrasse por acaso com uma desconhecida Cesária Évora, então com 46 anos, e a sua deslumbrante voz. Daí viajaram até Paris, onde pouco a pouco ergueram uma carreira que mudaria para sempre a história da música cabo-verdiana e a própria relação dos cabo-verdianos com o seu país.

Em entrevista ao Observador, numa chamada entre Lisboa e a Cidade da Praia, aos 67 anos, Djô da Silva recorda o seu percurso, relata a extraordinária história trilhada com Cesária Évora e detalha que disco inédito é este que nos leva ao reencontro com a “rainha da morna”.

Envolveu-se na música antes de conhecer Cesária Évora, no início dos anos 80. Qual foi a primeira coisa que fez neste universo?
Eu fazia parte de uma associação cabo-verdiana em Paris e fazíamos desporto. Jogávamos futebol. Mas havia malta que tocava guitarra, cavaquinho, então começámos a fazer umas noites de música para brincar dentro da associação. Acabámos por levar aquilo a sério e gravámos um disco. A banda começou a tocar nas noites das associações cabo-verdianas na Europa, em França, na Bélgica, Holanda, Suíça, de 1983 a 1986… Chamávamo-nos Sun of Cap, o “Sol de Cabo Verde”.

E tocava percussão?
Tocava percussão e tratava de tudo da banda. Do som, do agenciamento, vender espetáculos… Fazia mais ou menos tudo.

Já era o manager e o produtor.
Sim. Porque a malta toda era mais velha e trabalhava. Eu, como era estudante, tinha mais tempo.

Mas nessa altura já tinha interesse em trabalhar profissionalmente na música? Já existia a vontade?
Comecei a ganhar vontade justamente com essa banda. Porque, quando decidimos gravar, ninguém sabia nada sobre gravações. Então tive que me informar e assim aprendi a parte da promoção, estive a trabalhar no estúdio com os engenheiros, ajudou muito. Ao fazer os concertos, fui conhecendo a diáspora na Holanda, na Bélgica, na Suíça, em Portugal… Fomos até aos Estados Unidos, a Boston, tocar para a comunidade cabo-verdiana. Aprendi muito com essa banda.

E começou aí a ganhar gosto pelos bastidores?
Sim, comecei a gostar mais do lado organizacional, de ser manager, agente. Quando parámos a banda em 1986, fui convidado para trabalhar com os Cabo Verde Show, que também estavam em França e tinham vindo do Senegal, como eu. Já nos conhecíamos e éramos amigos. Naquele tempo, aquela banda era o top da música cabo-verdiana. Era algo novo, mais pop, moderno, então fiz management deles durante um ano. Eles convidaram-me porque tinham visto o que eu fizera com a minha banda. E geri a banda até me encontrar com a Cesária no final de 1987, em Lisboa.

Conheceu-a no restaurante e clube do Bana, outra referência da música cabo-verdiana, o célebre Monte Cara. Como aconteceu esse encontro?
Foi por acaso. Eu estava em Lisboa, a conhecer a cidade e a comunidade cabo-verdiana, as noites do Bana eram extraordinárias, fui ao restaurante e tive muita sorte. A Cesária estava de passagem, tinha vindo dos Estados Unidos, e só cantou lá nessa noite. Foi mesmo muita sorte ter calhado estarmos os dois lá. Quando ouvi a senhora cantar, fiquei emocionado. Pela primeira vez na minha vida senti esse tipo de emoção. Esperei que ela terminasse e fui falar com ela. Explicou-me que estava de passagem, que ia para Cabo Verde, que não tinha produtor nem ninguém para gerir a carreira dela… Sempre viveu da música, desde os 16 anos, nunca fez outra coisa. Mas viveu mal, porque em Cabo Verde praticamente não se pagava. Eu automaticamente propus cuidar dela. Ela aceitou e convidei-a para ir a Paris.

"Era preciso colocar a Cesária no mundo inteiro para abrirmos portas para os outros. E o país ganhou com isso. Em todas as entrevistas, em todos os sítios em que falava, a Cesária falava de Cabo Verde. Sempre levou o país onde quer que fosse, recusando falar em português, francês ou inglês. Era sempre em crioulo. Em tudo o que fazíamos era pôr Cabo Verde para a frente."

E como foram esses primeiros momentos juntos em Paris?
Em Paris… Eu trabalhava nos caminhos de ferro, era controlador de linha na SNCF [Société Nationale des Chemins de Fer Français]. Tinha tempo ao fim de semana. A única coisa que ela exigiu para ir para França foi que levasse consigo o [músico] Luís Morais. E foi uma aventura: eu não tinha dinheiro para pagar hotéis, então eles estavam instalados na minha casa. Os meus filhos vieram para o meu quarto e demos o quarto dos meninos à Cesária. O Luís Morais dormia no sofá da sala. Eu ia trabalhar, quando vinha do trabalho buscava soluções, e comecei a arranjar concertos nos bares e restaurantes cabo-verdianos na Europa… Ao fim de semana, pegava no carro e íamos para a Holanda ou para a Bélgica fazer concertos. Assim eles ganhavam alguma coisa todos os fins de semana.

A Cesária nesse momento já cantava temas originais?
Não, a Cesária sempre cantou um repertório nacional, dos autores cabo-verdianos conhecidos como o B.Leza, o Manuel D’Novas… Ela cantava músicas tradicionais antigas. Esta rotina durou um ano ou ano e meio. Comecei a pensar em gravar um disco, mas, lá está, não tínhamos muito dinheiro. Era inventar. Já estávamos a gravar e eu a pedir dinheiro emprestado no banco, depois não chegou e tive de pedir emprestado à família, não chegou e tive de pedir emprestado a amigos… Até que conseguimos terminar o disco, La Diva Aux Pieds Nus [1988]. Eu estava a insistir no disco porque, durante esse ano e meio, vi o sucesso que ela tinha na comunidade. Sabia que, se fizéssemos um disco, íamos vender sem problema. E o disco tinha os três melhores arranjadores da música cabo-verdiana daquela época. O Paulino Vieira fazia as mornas, que foram gravadas em Lisboa, o Luís Morais fazia as coladeiras e o Manu Lima fazia música mais moderna. O disco saiu e estoirou, foi um sucesso grande na comunidade. Fabriquei três mil discos de vinil e andei um mês a vendê-los na Holanda, na Bélgica, em todo o lado onde houvesse cabo-verdianos. Rapidamente vendi todos. E então vem a ideia de fazermos mais: vamos para um segundo disco.

O Distino di Belita, de 1990.
Fui buscar o Ramiro Mendes, que na época era um jovem que vivia nos Estados Unidos e que estava com muito sucesso nos arranjos. Até ao Distino di Belita, estávamos a trabalhar só para a comunidade, porque não éramos conhecidos fora. Esse segundo disco foi novamente vendido na comunidade cabo-verdiana. Mas comecei a pensar que poderíamos ir buscar uma distribuidora francesa ou europeia… Comecei a bater às portas por volta de 1988 ou 1989, da CBS, da Universal, toda essa gente. Não consegui, ninguém estava interessado. Quando ouviam a voz, diziam que era formidável, mas quando viam uma foto da Cesária, diziam que era impossível de vender.

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▲ Djô da Silva fotografado este ano no Mindelo, Cabo Verde, com os discos de ouro conquistados por Cesária Évora

AFP via Getty Images

O problema era a imagem?
Sim, achavam que era muito velha, vesga… Então era impossível, não era aquilo que o povo queria. Houve mesmo um que me disse: “As pessoas querem uma loira jovem, bonita, isso é que vende”. Eu dizia sempre: não, esta senhora vai fazer o mundo chorar. Continuei a insistir. Acabei por conseguir distribuição numa firma chamada Mélodie, em Paris, especializada em música africana, que tinha um responsável de promoção que ouviu o disco e me disse: “Esta senhora tem uma voz formidável, mas o disco como está… O europeu não vai gostar”. Senti que ele gostava mais das mornas, das músicas mais tradicionais. E os dois discos que tínhamos feito, La Diva Aux Pieds Nus e Distino di Belita, tinham arranjos com teclados. Os sintetizadores tinham chegado, todos os músicos cabo-verdianos queriam pô-los nos discos. Esse gajo conseguiu-me um concerto no festival de músicas do mundo de Angoulême, onde pela primeira vez a Cesária vai cantar para um público francês grande. E estavam lá todos os grandes jornalistas. Percebi isso e disse: “vamos fazer duas coisas lá”. A banda que tínhamos era capaz de tocar os arranjos modernos e os mais tradicionais. Então começámos a tocar as músicas modernas, que os cabo-verdianos gostavam, porque queriam dançar e aquilo é que estava na moda. Mas vi que o público não reagia. Depois passámos para as músicas tradicionais, com guitarra acústica, cavaquinho e piano. E deu-se um silêncio enorme, toda a gente com muita atenção. A voz da Cesária ganhou outra dimensão. Eu próprio entendi que aquilo era bom para ela porque valorizava a voz.

Quase 15 anos depois, a casa de Cesária Évora vai tornar-se um museu: “Ela abria a porta para receber todos, assim vai continuar”

Dava-lhe mais espaço para sobressair.
Eu estava no meio dos jornalistas e ouvi os comentários: “Isto é que é música para esta senhora”. Quando voltámos a Paris, reservei três noites no estúdio e disse: “Vamos gravar um disco tradicional”. E gravámos o Mar Azul, o disco mais espontâneo da Cesária, porque não teve preparação nenhuma. Gravámos uma noite cabo-verdiana como se estivéssemos num bar no Mindelo. “Cesária, canta o repertório que tu gostas dos bares do Mindelo”. Ela mesma escolheu as canções com o Luís Morais e gravámos com cavaquinho, guitarra acústica e tudo. Quando terminámos, enviei logo a gravação para esse responsável de promoção e ele disse-me logo: “Acertaste”. Fez cinco cópias, mandou para cinco jornalistas chave de Paris e todos disseram: “Este tem direito a uma página, sem problema”. E assim que editámos o Mar Azul teve críticas formidáveis em todos os jornais e vendemos 50 mil exemplares. Aí entrámos noutra coisa, num público fora da comunidade cabo-verdiana. A comunidade não consumiu muito este disco porque não era o que estava na moda e o que estavam a dançar nos bailes. Mas começámos a ter pedidos para concertos nos festivais e nas salas de espetáculo francesas. Então começámos logo a preparar a produção de um segundo disco tradicional, que seria o Miss Perfumado. Chamo o Paulino [Vieira] para gravar esse disco e aí levámos tempo, estivemos três meses a gravar e acertámos. Quando sai o Miss Perfumado, venderam-se rapidamente 300 mil exemplares. Já estávamos nos grandes palcos da Europa, as grandes editoras já me estavam a ligar.

"Sempre gravámos música a mais, sempre gravámos 14 ou 15 músicas por disco. E às vezes, quando fazíamos a seleção, tentávamos ter um disco equilibrado e havia músicas a mais. Houve várias que, a cada gravação, ficaram guardadas para mais tarde. Mas não há mais, nem houve intenção de gravar para guardar."

E assim começou o estrelato. Desde o primeiro momento em que a conheceu, Cesária Évora confiou na sua visão?
Foi uma confiança grande, porque eu dirigia tudo. Podia ter conflitos com os músicos ou com qualquer pessoa, mas chamavam-me e ela dizia “está bem, se o Djô diz, é assim”. Mas a confiança veio porquê? Ela praticamente viveu comigo. Conheceu a minha família, tinha visto como é que eu era, com o meu trabalho, sabia que eu estava a ajudar. Quando íamos para a Holanda e para a Bélgica aos fins de semana, eu não ganhava nada, era mais para eles ganharem alguma coisa. E assim continuou sempre essa confiança.

Quando é que deixou o emprego nos caminhos de ferro para se dedicar completamente à música?
Definitivamente, em 1992. Aí já era certo, já tinha escritório e empregados, então decidi parar completamente.

Tendo em conta que começou como membro de uma banda, os Sun of Cap, nunca teve depois vontade de voltar a tocar ou de explorar a área enquanto músico? Sei que foi coautor de um tema que Cesária Évora gravou, Sorte.
Sim, escrevi a Sorte, mas são coisas que nem sei explicar. Era uma noite em que não conseguia dormir, então fui cedo para o escritório, tipo seis da manhã. Estou sentado em frente do computador, começo a escrever e saiu essa letra. Chamei logo o Teófilo Chantre às nove da manhã e disse-lhe: “Tenho aqui um texto que escrevi, vê lá se dá para fazer uma música”. E no dia seguinte ele mandou-me a música. Também escrevi uma para o Polo Montañez. Estava no carro, comecei a cantar uma letra e chamei-o logo: “ouve isto”. Ele achou que era uma música e fez. Mas tocar… Eu tocava mais por causa do ambiente e da malta, não acho que fosse um bom músico. Percebi que às vezes estava mais a criar problemas na banda do que outra coisa, mas eles tinham que me aceitar porque eu fazia tudo o resto [risos]. O que eu estudei foi Gestão, isso é que me interessava mais.

A Lusáfrica nasce para oficializar e profissionalizar aquilo que já vinha a acontecer, a gestão da carreira de Cesária Évora e a edição dos discos. Só mais tarde é que começa a usar a editora para trabalhar com outros artistas. Foi um passo natural?
Com o tempo e o sucesso da Cesária, comecei a ter muitos pedidos, mas negava sempre. Só que, depois, já tínhamos experiência suficiente, a equipa funcionava bem, então abrimo-nos a outras músicas e a gravar outros artistas. O catálogo da Lusáfrica é, praticamente, um catálogo feito pelo que me dava prazer a mim. Gravei tudo aquilo de que gostava. Cresci no Senegal e lá ouvíamos muita música latina, especialmente de Cuba. Então sonhava ir a Cuba e gravar música cubana. Foi o que fiz. Gravei um monte de discos e acabei mesmo por ter lá um escritório com duas pessoas a trabalhar. Acabámos por ter um catálogo importante de música cubana. Gostava de tudo o que eram as Caraíbas, por isso gravei música das Antilhas. E da costa [ocidental] de África, claro. Por exemplo, eu gostava do Bonga, porque a minha mãe ouvia Bonga todos os domingos lá em casa desde que vivíamos no Senegal. Procurei o Bonga, mas não o consegui assinar como artista. E decidi comprar os direitos [dos discos] dele. Fui à Holanda encontrar o produtor cabo-verdiano que tinha produzido os primeiros discos do Bonga, convenci-o a vender-me os direitos. Lançámos outra vez o Angola 72 e o Angola 74 e tivemos muito sucesso. Ao dar-se conta disso, o Bonga lá aceitou falar com este cabo-verdiano que estava atrás dele [risos]. Começámos a trabalhar juntos. Também gravámos música do Gabão, da Costa do Marfim, do Zimbabué, do Senegal, do Mali… Gravámos muitos discos e o catálogo enriqueceu-se de todas essas gravações.

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▲ Cesária Évora e Djô da Silva, na entrega do prémio de Melhor Álbum de World Music, nos Victoires de la Musique, em 2004

Corbis via Getty Images

Mas foi muito, como estava a dizer, pelo seu gosto pessoal.
Nunca segui muito as modas. Gostava de algo e fazia. Por sorte, até me orientei sempre. Mas conseguimos isto graças ao sucesso da Cesária, se não era impossível. E depois tivemos sorte de ter muito sucesso com o [cubano] Polo Montañez. Rapidamente teve um sucesso estrondoso na América Latina. Vendemos muitos discos e, como autor e compositor, estoirou completamente. Grandes artistas latinos cantaram músicas dele. Também foi importante para a Lusáfrica, ajudou muito. Infelizmente, faleceu aos 47 anos num acidente, mas gravámos três álbuns com ele que ficaram discos de referência.

Imagino que a operação se tenha tornado progressivamente mais complexa ao longo dos anos, tendo em conta a quantidade de artistas com quem trabalhavam, os diferentes mercados e géneros em que operavam, ainda antes da massificação da Internet.
Sim, às vezes até me pergunto como consegui gerir artistas em África, em Cuba, nas Caraíbas, em França… Depois entrou a Internet, o que facilitou as gravações. Gravávamos em Cuba, enviávamos para Paris, de lá pedíamos uma coisa em África. Às vezes num disco juntávamos três ou quatro continentes.

Hoje é consensual o papel que a carreira de Cesária Évora teve para afirmar, internacionalizar e abrir portas para muitos outros artistas cabo-verdianos no mundo. Foi acontecendo de forma gradual, à medida que teve um impacto cada vez mais global? Ou houve algum momento específico em que perceberam que estavam de facto a fazer esse caminho?
Até 1995 ou 1996, tivemos momentos de crítica em Cabo Verde. Os artistas, os jornalistas, criticavam porque diziam que a Cesária ocupava tudo e não deixava espaço para mais ninguém. Mas a partir dessa altura, começámos a dar oportunidade a outros. Trabalhámos com o Tito Paris, a Lura, o Princezito, o Tcheka, mais tarde a Lucibela e muitos outros artistas cabo-verdianos. E tantos outros tiveram o mesmo público da Cesária, como a Mayra Andrade quando apareceu. Mas era preciso um tempo. Era preciso colocar a Cesária no mundo inteiro para abrirmos portas para os outros. E o país ganhou com isso. Em todas as entrevistas, em todos os sítios em que falava, a Cesária falava de Cabo Verde. Sempre levou o país onde quer que fosse, recusando falar em português, francês ou inglês. Era sempre em crioulo. Em tudo o que fazíamos era pôr Cabo Verde para a frente. Então o país ganhou muito com essa campanha.

Um filme à procura das histórias de Cesária Évora: “Quando conseguiu uma casa, pôs uma panela ao lume para dar de comer a toda a gente”

E imagino que, no início de tudo, o próprio país não era assim tão conhecido nos meios da música e que também nisso há um antes e depois de Cesária Évora.
Sim, antes da Cesária não era tão conhecido. E mesmo dentro da comunidade, havia uma grande parte que não conhecia muito de Cabo Verde, porque já havia uma grande segunda geração [de emigrantes]. Por exemplo, nos Estados Unidos é com o sucesso da Cesária que eles começam a reivindicar serem cabo-verdianos. A partir dali já era bom dizer “sou cabo-verdiano”, porque as pessoas já nos reconheciam como sendo do país da Cesária. Lembro-me de ser jovem em Paris e muitos cabo-verdianos, para não terem de explicar sempre onde fica Cabo Verde, diziam que eram brasileiros. Isso acabou, voltou tudo a ser cabo-verdiano. Por exemplo, o meu irmão era casado com uma cabo-verdiana americana, como eles diziam, que não falava crioulo e tinha uma bandeira americana na porta e tudo aquilo. De repente, dois anos depois da campanha da Cesária nos Estados Unidos, vou a casa dela e vejo no frigorífico os artigos da Cesária colados, a bandeira de Cabo Verde… Eh pá, a coisa mudou. A comunidade ganhou orgulho. Tal como aconteceu agora com o futebol.

"A confiança veio porquê? Ela praticamente viveu comigo. Conheceu a minha família, tinha visto como é que eu era, com o meu trabalho, sabia que eu estava a ajudar. Quando íamos para a Holanda e para a Bélgica aos fins de semana, eu não ganhava nada, era mais para eles ganharem alguma coisa."

A Sony Music em França prepara-se para lançar um álbum póstumo de Cesária Évora com uma dezena de gravações inéditas, depois de em 2025 o Djô ter vendido os catálogos da Lusáfrica e Africa Nostra à editora multinacional. Antes de mais, porque decidiu vender?
Vem do facto de eu estar há 10 anos em África. Antes na Costa do Marfim, agora em Cabo Verde. A minha filha [Elodie da Silva], que estava a dirigir as firmas, de repente começou uma atividade dela que pegou, teve muito sucesso e acabou por ficar sem tempo para a Lusáfrica. Quando teve o primeiro bebé, iniciou uma página sobre crianças e hoje tem quase um milhão de seguidores [no Instagram]. Tornou-se uma influencer importante nesta área e deixou de ter tempo. Na família não tinha mais ninguém com capacidade e vontade de gerir a firma. A partir daí tenho um problema: ou volto para França para gerir as firmas, ou vendo. Optei por vender. Sei que seria impossível gerir estas duas firmas a partir de Cabo Verde, então vendi à Sony que já me perguntava há anos sobre esta possibilidade. E são meus parceiros há mais de 25 anos. Também, justamente, para não deixar que os catálogos caiam no esquecimento. Poderia manter a Lusáfrica só com um empregado para gerir o dia a dia, mas não se iria desenvolver o catálogo nem cuidar dos discos como deve ser. Por isso decidi vender, para salvaguardar o catálogo e mantê-lo vivo. Sei que a Sony vai cuidar dele porque foi um investimento deles.

E sobre as gravações inéditas que ficaram guardadas ao longo dos anos, estamos a falar de uma grande quantidade?
Não, são só mesmo as que vão sair agora, não há mais. Sempre gravámos música a mais, sempre gravámos 14 ou 15 músicas por disco. E às vezes, quando fazíamos a seleção, tentávamos ter um disco equilibrado e havia músicas a mais. Houve várias que, a cada gravação, ficaram guardadas para mais tarde. Mas não há mais, nem houve intenção de gravar para guardar.

Portanto, são gravações de diferentes anos, registadas ao longo da carreira de Cesária Évora?
Sim, são de vários anos. Penso que começam a existir depois do Paulino [Vieira], eu diria que a partir de 1994, quando passámos a gravar com o Bau ou o Nando Andrade. Algumas até nem estavam acabadas, mas a Sony optou por lançá-las como estavam. Tínhamos deixado para mais tarde pegar nelas e terminarmos as canções, íamos adicionar um solo ou algo desse género, mas todas tinham a voz da Cesária como deve ser e a base estava lá.

Ao longo dos anos houve conversas com Cesária Évora neste sentido, de um dia aproveitar estas gravações que foram sendo feitas?
Não, nem falámos disso, nem pensávamos muito nisso. Ou seja, se fosse para pegar nelas teríamos de as terminar ou seriam para completar outro disco ou algo assim. Começámos a pensar em fazer um disco já depois do falecimento da Cesária. Foi o responsável de promoção da Lusáfrica que juntou tudo aquilo num ficheiro e me disse: “Tens aqui 10 músicas, dá para fazer um disco”. Mas disse que não, que não era o momento, e fui deixando. Também não sentia falta de lançar um disco novo. Sempre pensei que o momento iria chegar, mas não tinha pressa.

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▲ Quando sai o Miss Perfumado, venderam-se rapidamente 300 mil exemplares. Já estávamos nos grandes palcos da Europa, as grandes editoras já me estavam a ligar.

Gamma-Rapho via Getty Images

Mas acredita que Cesária Évora estaria satisfeita que estas gravações vissem a luz do dia?
Claro, são gravações dela e a Cesária não fazia nada que não quisesse [risos]. Se gravou estas canções, é para serem lançadas. Se não, nem as tinha gravado.

Há uma década aceitou o desafio da Sony Music de abrir as instalações da editora na Costa do Marfim, servindo como principal base da empresa nos países da África francófona. Foi o motivo que o levou a deixar Paris e regressar ao continente africano. Havia a vontade de explorar mais a música na África Ocidental, onde cresceu?
Sim, sempre fiz coisas que me davam prazer. Quando apareceu essa possibilidade de ir criar a Sony na Costa do Marfim, aceitei logo porque são desafios como esse que eu gosto. Sempre critiquei as multinacionais por não se instalarem em África. Então, quando uma editora destas me pede para eu o fazer, nunca poderia recusar. E como tinha a minha filha a gerir as firmas, estava à vontade para ir. Foram quatro anos extraordinários. Tinha a possibilidade de andar por vários países africanos, ouvir diferentes estilos de música, gravar discos, criar uma casa do zero… Eles deram-me o orçamento e deram-me carta branca. Cheguei a Abidjan com a minha mala, fiquei três meses num hotel, procurei o sítio para montarmos a empresa, empreguei e formei as pessoas, construí um estúdio de gravação, uma sala de ensaios, um sítio para residências… É um trabalho que acrescentou muito valor e demos aos artistas africanos uma possibilidade de entrarem em competição com qualquer outro artista no mundo, porque vão ter na mão a mesma tecnologia do que o artista que está em Paris ou em Nova Iorque, a mesma estratégia de promoção e de marketing… Os que não fazem parte da editora vão aprender com ela à mesma. E as outras editoras vão ter de se pôr ao nível para poderem competir com as grandes editoras. Isso só poderia elevar a música africana e trazer mais possibilidades. Mas o desafio era criar, ser a pessoa que levou e que fez, entender como funciona o showbiz africano; a intenção não era gerir o projeto durante um monte de anos. Ficar lá sentado a assinar os jovens e a lançar disco após disco já não era o meu objetivo.

Hoje em dia gere a Harmonia em Cabo Verde, mantém projetos como os eventos Kriol Jazz e Atlantic Music Expo. Sente que lhe falta fazer alguma coisa na área da música?
Francamente, não. O que me falta é continuar a ajudar os jovens e a formar pessoal, desenvolver cada vez mais o negócio da música em Cabo Verde.

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