É verdade que as contestações dos estudantes, em França como na Bélgica, no Chile, na Índia ou em Espanha podem ser usadas por forças políticas, por calendários eleitorais ou, simplesmente, por quem entenda aproveitar-se delas para criar condições sociais susceptíveis de serem manobradas para outros fins. Mas, todavia, são um sinal.

Um sinal da distância que vai entre aquilo que lhes damos e tudo o que não lhes podemos prometer. Ou da diferença que vai entre uma realidade social de crise económica, de crise política, de crise migratória, de crise climática, de crise de humanidade, de crise energética e de crise de habitação, que ajuda a perceber que, sempre que olham para o futuro, ele seja sombrio. E as perspectivas do tempo que vão entre terminarem a sua formação escolar e terem o nível de vida dos seus pais não pára de aumentar. 

E são um sinal da discrepância entre a escola que têm e a “escola de vida”, que os leva a não entenderem a utilidade prática de muitas das coisas que aprendem em oposição a tudo o que não sabem. Sobretudo quando não encontram na escola respostas, parceiros e espaços de conversa para as suas inquietações.

E são um sinal de revolta em relação aos agentes políticos que substituem as ideias, as convicções e a verdade por estratégias de comunicação manipulatórias onde o interesse individual e os ciclos das eleições se substituem ao bem comum e à ausência de respostas que estes jovens procuram.

E são um sinal da desilusão e da decepção em relação a nós: aos pais e aos professores. Ao nosso silêncio resignado sobre todas as interrogações que eles transportam e que não vêm explicitadas na nossa voz, connosco a mostrar-lhes trilhos e caminhos.

Por isso, apesar de todos os oportunistas que a contestação arrasta, acho elogiável que eles levantem a voz e que se manifestem. Talvez algumas dessas contestações possam não ser substantivas. Talvez algumas sejam demagógicas, até. Mas enquanto têm força para contestar encontram disponibilidade para acreditar. Assim mereçam de nós a atitude que a sua necessidade de ter esperança aguarda que lhes possamos dar.