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E começa agora mais um Explicador das manhãs 360 sobre o pós-eleições e o futuro do PS. Para isso convidamos para estarem conosco os socialistas Ana Abrunhosa e Miguel Prata Roque. A moderação é do Bruno Vieira Amaral.

Bom dia, bem-vindos a ambos, Ana Abrunhosa e Miguel Prata Roque. Ana Abrunhosa, começava por si. O PS deve avançar já para eleições internas e mudar de liderança ou deve deixar isso para depois das autárquicas ou até mesmo para depois das presidenciais?

Muito bom dia. Só uma correção: eu sou independente, apoiada pelo PS, naturalmente numa candidatura aqui a Coimbra. E cumprimento também o Miguel Prata Roque e todas as ouvintes. Eu estou bastante dividida na minha reflexão. E falo até enquanto candidata independente apoiada pelo PS.

Candidata a Coimbra, exatamente.

A Coimbra. Eu estou bastante dividida na minha reflexão. Não vou esconder que estas eleições, que não eram desejadas, das legislativas nos perturbaram profundamente. E imaginar agora um período de eleições internas no partido, que tira energia, que divide, também me preocupa muito, porque as eleições estão aí. Por outro lado, não termos um secretário-geral e termos também, de algum modo, uma disputa velada, porque as pessoas já se estão a posicionar, também pode tirar energias.

O que acha que pode pesar mais? É evitar, por um lado, esse processo eleitoral interno, que esse processo eleitoral prejudique também as candidaturas autárquicas ou, por outro lado, a necessidade de ter um líder que de alguma forma aglutine e mobilize o partido para essas mesmas eleições autárquicas?

Nesta fase, para mim, pesa mais um fator, que é o tempo que é necessário para haver uma reflexão e para a escolha de um líder e, portanto, que essa escolha seja feita depois das eleições autárquicas, com muitos inconvenientes que isso nos traz. Portanto, refleti muito nesta minha posição, mas eu penso que o partido precisa de tempo. E esse tempo, que nós normalmente não damos, ou essa falta de tempo ou precipitação pode ser prejudicial para o PS, a não ser que haja uma única candidatura, e creio que não é esse o caso, e portanto precisamos de tempo. E precisamos que o PS reflita e considere que estas eleições autárquicas podem também ser uma oportunidade de viragem, uma oportunidade de nos aproximarmos mais, uma oportunidade de apresentarmos programas que vão mais ao encontro da necessidade das pessoas. Mas volto a dizer, temo que também durante este período comece a haver posicionamentos e uma disputa velada e, portanto, que isso também nos retire energia. É preciso um partido unido.

Vamos então também dar as boas-vindas a Miguel Prata Roque. Perguntava-lhe o mesmo, se o PS deve avançar já para eleições internas ou deve esperar. Não há o risco de se esperar demasiado tempo, só para depois das eleições autárquicas, a definição da liderança, que esse processo também de disputa eleitoral interna acabe por corroer e por trazer prejuízos ao partido?

Muito bom dia, Bruno, e também um beijo à Ana. Bom dia também. Eu também devo fazer um disclaimer. Eu sou militante do Partido Socialista há 27 anos, mas não sou dirigente do Partido Socialista. Significa que não vou estar no sábado a tomar essa decisão sobre os timings deste processo eleitoral. Há duas visões, aparentemente em confronto. Uma delas acha que deve haver já a eleição, ainda que o Congresso Nacional, onde se elegem os órgãos e onde se discutem as políticas, deva ser adiado para depois das autárquicas. E há quem entenda que esses dois processos devem ser adiados. Eu, sinceramente, devo dizer o seguinte: eu acho que o PS não precisa de um líder. O PS precisa mesmo é de mudar de vida. E sinceramente, eu acho que o PS tem que deixar de andar atrás daquilo que acontece no espaço público. No espaço público, nos últimos anos, aquilo que nós temos assistido é a uma excessiva personalização da política. Não há nenhuma mulher, nenhum homem que venha salvar o país ou salvar o PS. Isso não existe. Nós precisamos é de pôr as pessoas a conversar umas com as outras, no país e também no partido do qual eu sou militante. O partido que eu sou militante foi o partido em que Mário Soares Tinha pessoas como Almeida Santos, Manuel Alegre, Salgado Zenha, Sotto Mayor Cardia, António Barreto, António Campos. Ou seja, as pessoas habituaram-se a olhar para os partidos e a não ver apenas um líder, mas a ver pessoas que tinham experiência de vida, que falavam com as suas comunidades, que eram reconhecidas nas suas áreas de profissão, e isso deixou de existir nos partidos.

Mas esse foi um dos problemas, Miguel Prata Roque, do Partido Socialista, a excessiva personalização ou concentração nas qualidades do líder e na figura do líder?

Julgo que sim, desde praticamente a liderança de José Sócrates que isso acontece. Acontece nos dois grandes partidos de poder, PS e PSD. Por exemplo, quando há um líder que é simultaneamente primeiro-ministro, as votações no Congresso de eleição de secretário-geral ou de presidente do partido andam na ordem das votações coreanas de 95%, 98%, 99%. Agora temos um partido que também tem representação parlamentar e que, apesar de ser o terceiro partido mais votado neste momento, corre o risco de ter mais deputados no Parlamento, que também centra todo o seu discurso numa lógica de culto do líder e de providencialismo. E eu, sinceramente, não é isso que quero para os meus filhos, nem para os meus netos, nem para o meu país. Eu não quero que nós passemos a vida inteira com essa tendência sebastianista de encontrar alguém que vem do nevoeiro salvar o país.

Então defende que essa reflexão deveria ser feita e a escolha, a definição do líder do PS adiada para depois das eleições autárquicas?

Eu vou ser muito prático. Nós até às eleições autárquicas, o que é que vamos ter? Vai haver tomada de posse do governo em meados de junho. O governo depois terá que discutir, passados cinco dias, o programa de governo. Obviamente que o Partido Socialista viabilizará esse mesmo programa de governo, porque o PS não é uma força de bloqueio ao país. Pelo contrário, tem que ser, ao longo dos próximos anos, uma força de desbloqueio. Depois disso, nós não temos tempo suficiente para levar a cabo qualquer procedimento legislativo até o final do mês de julho. Habitualmente, o Parlamento encerra as suas atividades a 15 de julho e retoma-as depois em setembro. Em 10 de outubro entra no Parlamento a proposta de lei do Orçamento de Estado e cabe ao governo marcar as eleições autárquicas. Nós não sabemos ainda qual é a data, que pode ser entre 15 de setembro a 15 de outubro. Resumindo e concluindo, do ponto de vista da atividade parlamentar, não acontecerá nada entre julho e final de setembro de 2025. E portanto, eu julgo que o Partido Socialista tem deputados com toda a capacidade para continuar a fazer oposição às políticas do atual governo. Acho que é preciso fazer uma reflexão intensa sobre aquilo que o partido tem que fazer e eu acho que essencialmente o PS tem que liderar pelo exemplo. Portanto, sou favorável, de facto, a que a eleição para secretária ou secretário-geral seja feita depois das eleições autárquicas, logo no início de outubro, e que o Congresso Nacional tenha lugar no final de outubro deste ano.

Ana Abrunhosa, olhando para a questão da futura liderança do PS, acha que o partido tem necessidade mais de discutir ideias ou de eleger uma figura que reúna, de alguma forma, um consenso dentro do partido? São mais importantes os nomes ou é mais importante desenvolver aqui uma ideia que ponha também, que confronte aquele que foi o trajeto seguido nos últimos anos?

Olha, eu só lhe quero dizer que estou completamente de acordo, subscrevo tudo o que foi dito pelo Miguel, aliás, como habitualmente, com enorme bom senso e de uma forma muito clara. Eu acrescentaria aqui uma coisa que eu senti no Parlamento: é que o PS não sabe ser oposição. E ser oposição é tão importante como estar no governo.

Deixe-me só dizer que uma das opiniões que tem sido repetida por vários elementos ligados ao Partido Socialista é de que o partido não deve ter pressa de regressar ao poder. Teve pressa de regressar ao poder ultimamente?

Concordo com isso totalmente, absolutamente. Porque eu acho que o problema mesmo que eu sinto no PS é alargar a sua base. Obviamente que é importante que um partido tenha uma liderança, mas a preocupação das pessoas ou dos socialistas não podem ser apenas os lugares, quem é o líder, quem está nos órgãos. E eu sinto que muitas vezes a discussão se centra nisso, se centra em quem vai estar nos órgãos, quem vai nas listas. E portanto, depois tudo isso se reflete no nosso afastamento e na falta de presença. Repare, os resultados são claros: onde se governa bem, onde se responde aos problemas das pessoas, onde o Estado, onde o governo local tem presença, o Chega não teve uma votação expressiva. O PS vai ter que se habituar a ser oposição, obviamente, sempre num espírito de voltar ao poder, de se reconstruir, mas de se reconstruir alargando a sua base de apoio, voltando a incluir os jovens, voltando a dar esperança aos mais velhos. A classe média que deixámos de representar e notou-se nas eleições, a classe média não se reviu no programa. E a classe média que hoje deixa de ter esperança no futuro. Portanto, é essa desesperança que leva as pessoas e que leva a que no nosso país, um determinado partido passe a ter lugar.

Ana Abrunhosa, deixa-me perguntar se dos nomes que se têm perfilado para uma eventual sucessão a Pedro Nuno Santos, se há algum que pode corporizar essa mudança e pode estar mais habilitado a fazer esse percurso em que o PS, como diz, tem de se habituar um pouco a estar na oposição.

Olhe, eu, dos nomes que tenho vindo a ouvir, conheço-os a todos. Fui colega, estivemos no governo ao mesmo tempo. Mas por que não há de aparecer uma pessoa nova?

Não acha que o José Luís Carneiro, por ter concorrido contra Pedro Nuno Santos, tem uma legitimidade, por assim dizer, reforçada para umas novas eleições internas?

Acho que parte em vantagem, porque de facto já esteve, já correu o país. Parte em vantagem, mas estarão todos com a mesma legitimidade. Este tempo que precisamos pode também ser um tempo em que surjam novas pessoas. E porque nós andamos sempre em circuito fechado. Isto não retira valor nenhum às pessoas que ouvimos falar, eventualmente, a Mariana Vieira da Silva, que é brilhante, foi uma ministra brilhante, é uma trabalhadora incansável. Fernando Medina, que foi um ministro excelente. Para mim, foi dos ministros com quem mais gostei de trabalhar, que foi autarca. Agora, eu acho que é da discussão, do confronto de perfis diferentes, que nós poderemos encontrar uma solução. Mas mais uma vez, como o Miguel disse tão bem, com clarividência, não focar apenas a discussão em um líder, nos órgãos, nos lugares, porque é isso que depois esvazia o partido de ideias, esvazia o partido de propostas. O partido fica fechado nas salas a discutir os lugares. O partido tem que ir para o terreno. Os estados gerais deviam ter começado logo assim que as eleições foram perdidas.

Deixe-me perguntar também ao Miguel Prata Roque, qual será, dos nomes que já avançaram ou mostraram disponibilidade para avançar para a liderança do PS, se há algum mais habilitado a fazer esse percurso, a levar o partido de volta ao terreno e a desligá-lo um pouco destas disputas internas.

Bom, Bruno, obviamente que eu não vou contribuir para isso, quando acabei de fazer uma crítica à excessiva colocação do tema no nome da ou do futuro líder do PR.

Então pergunto-lhe se um dos fatores que vai ser decisivo na definição da liderança do PS vai ser aquilo que os candidatos propuserem quanto à relação com o governo. Se esse vai ser o aspecto determinante ou se o PS tem, de facto, de discutir questões políticas e não tanto a questão de apoiar ou não um governo da AD durante quatro anos ou dois anos.

Olhe, Bruno, eu acho que mais importante do que a relação do PS com o governo, é a relação do PS com as pessoas. Eu sinceramente estou farto de um PS que tem medo das palavras e, portanto, tenho mesmo que dizer isto. Aquilo que eu ouvi agora da Ana e a postura da Ana na intervenção política é absolutamente refrescante. Mas eu tenho que dizer aqui que quando a Ana começou a ter intervenção política junto do Partido Socialista, eu ouvia em muitos corredores, em muitos lugares escuros a dizer-se assim: "Ela é do PSD. Então ela não foi nomeada por um governo do PSD? Por que ela há de ser deputada do PS?" Ou seja, eu não consigo compreender este tipo de mentalidade. As pessoas votam por vezes no PS, no PSD, outras vezes no Chega. Eu tenho familiares meus, amigos meus, que votam simultaneamente num e noutro partido, e a política não pode ser vista numa perspectiva absolutamente clubística. E nós temos que perceber, aliás, por que há um eleitorado, que é um eleitorado constituído por trabalhadores, por classe média, que anteriormente votava Partido Comunista Português, que passou a votar Partido Socialista e que em algumas zonas do país votou no Chega. Obviamente, eu acho que os 22% que o Chega teve nessas eleições lhes subiram à cabeça. Mas isso é uma discussão que teremos nos próximos meses e nos próximos anos, verificando, obviamente, o vazio de ideias e de propostas desse mesmo partido. Mas aquilo que eu acho é que sinceramente, o PS tem que estar à esquerda da indiferença. O PS não pode estar indiferente face a pessoas que não conseguem comprar casa. O PS não pode estar indiferente perante uma taxa de desemprego dos jovens de 20% O PS não pode estar indiferente quando há pessoas homossexuais a ser gozadas no espaço público, quando há pessoas, em função da sua cor de pele, a serem ofendidas e agredidas. Mas o PS tem que estar no centro da inovação e da transformação do país. E para isso, o PS tem que, obviamente, apresentar propostas concretas no Parlamento, nas autarquias, no espaço público e tem que negociar. Vamos ser francos, o PSD teve uma vitória de Pirro, porque teve apenas 32%, subiu 3%, teve apenas mais 140 mil votos, mas é o partido que, neste momento, tem condições de governar.

E o PS também deve contribuir para dar essas condições.

Com certeza que sim. Uma coisa é quando o Partido Socialista tem exatamente o mesmo número de deputados que o PSD. Aí a obrigação é da parte do partido que está empatado e que teve apenas 52 mil votos, encontrar as soluções governativas. A partir do momento em que o Partido Socialista tem menos 10% do que o partido que ganha as eleições, o Partido Socialista, obviamente, tem que exercer a função de oposição, porque eu também gostava de deixar isso bem claro.

E para terminar, Miguel Prata Roque.

Ganhar ou perder eleições não é critério de verdade nem de rectidão ética. Nós quando escolhemos alguém, não estamos a dizer que aquela pessoa tem razão e que a outra, que teve menos votos, não tem razão. Em democracia, há várias visões sobre aquilo que devemos fazer da nossa vida coletiva e nós devemos respeitar, quer quem tem mais, quer quem tem menos votos. Agora, como eu disse já várias vezes, o PS, neste momento, tem que contribuir para ser uma maioria de desbloqueio do país. O país não pode ficar parado, o país precisa de transformações profundas. Há uma crise económica internacional que está cada vez mais a avolumar e, portanto, obviamente, que os portugueses sabem que podem contar com essa responsabilidade do Partido Socialista.

E todas essas questões certamente serão fundamentais também para a definição da futura liderança do PS. Ana Brunhosa, Miguel Prata Roque, agradeço a vossa participação neste Explicador. O Explicador regressa mais logo na Tarde Política da Rádio Observador. Um bom dia.

Bom dia. Muito obrigado. Um bom dia. Beijinho, Miguel. Adeus, Ana.