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Começa agora o Explicador das manhãs 360. Vamos olhar pro apagão desta segunda-feira em toda a Península Ibérica e para isso é nosso convidado o administrador da REN, João Faria Conceição. A moderação é do Paulo Ferreira e do Bruno Vieira Amaral.
Muito bom dia, João Faria Conceição. Obrigado pela disponibilidade para estar conosco esta manhã. Vamos começar por lhe pedir para fazermos um ponto de situação atual, se está tudo normalizado em termos de fornecimento de energia no país.
Muito bom dia, eu também agradeço a oportunidade de estar aqui convosco. O ponto de situação é o seguinte: nós ontem, por volta das 23h22, tínhamos já toda a rede da REN, a rede de muito alta tensão, totalmente operacional. Tínhamos já todas as nossas subestações com energia, tínhamos restabelecido as ligações às centrais de produção, às interligações e à rede de distribuição. Rede de distribuição essa que estava a fazer o seu trabalho e a repor a normalidade dos pontos de consumo. Às 6h de hoje tínhamos, praticamente, a informação que dispomos da E-Redes, da empresa da rede de distribuição, 6.399.000 clientes ligados, faltavam ligar cerca de 1000 clientes e praticamente a totalidade das subestações, também da rede de distribuição, já ligadas. E a informação que disponho é que pouco mais tarde a E-Redes fez um comunicado a reafirmar que tinha todos os clientes ligados. Em resumo, neste momento, o ponto de situação é que temos toda a rede elétrica em Portugal totalmente operacional.
E há, neste momento, alguma contingência ainda ou algum risco nas próximas horas, depois do evento de ontem, de que possa haver mais alguma quebra nas próximas horas?
Risco de quebras existe sempre. Nós temos reafirmado sempre este cuidado, a segurança de abastecimento do sistema elétrico, seja ele português, seja qualquer sistema elétrico, nunca pode ser 100% assegurada. Portanto, risco existe sempre. Contingências, sim, estamos a ter algumas contingências. Nós, neste momento, estamos a operar os sistemas português e espanhol de forma separada. Nós estamos a abastecer todo o consumo nacional com produção exclusivamente localizada em território português. Não estamos a usar trocas na interligação com Espanha, e estamos a garantir que efetivamente o sistema fica todo estável. Temos várias centrais de ciclo combinado a gás natural a funcionar, precisamente para garantir que o sistema fica completamente estável, de forma a podermos, na medida do possível, assegurar que esse risco que falávamos há pouco é o mais mitigado possível.
E pessoas e empresas podem regressar à normalidade dos consumos, já devem ter algumas precauções, alguma moderação no tipo de consumos, pode afetar ainda esta situação. Algumas empresas, nomeadamente transportes, temos tido notícia de algumas dificuldades no metrô de Lisboa, por exemplo.
Sim, eu também tenho conhecimento. Aliás, ainda ontem à noite tentamos, juntamente com a E-Redes, através mais de partilha e de coordenação de informação e de apoio. Mas tenho conhecimento que efetivamente estavam a ser feitos trabalhos de ligação da E-Redes a consumidores como, por exemplo, o metrô de Lisboa. E em relação à primeira pergunta, sim, o objetivo é que todos os consumidores voltem à normalidade e passem a fazer a sua vida perfeitamente normal, com os consumos normais, como têm no seu dia a dia.
Bem, vamos agora tentar explicar, João Faria Conceição, o que se passou àquelas pessoas, como a maior parte dos portugueses só sabem ligar e desligar os interruptores. Como é que um apagão em Espanha provoca também um apagão geral em Portugal?
Muito bem. Os sistemas elétricos têm várias características que são muito específicas da natureza da eletricidade, e a primeira delas é que, por princípio, a eletricidade em si é dificilmente armazenada. Portanto, por princípio, ao contrário de outras formas de energia, quando se produz eletricidade, ela tem que ser consumida nesse mesmo instante. Não há, de forma direta, a possibilidade de armazenar eletricidade. Há a possibilidade de armazenar eletricidade através de formas indiretas, nomeadamente as baterias, ou também através, por exemplo, das barragens. Mas, por princípio, a eletricidade, quando é produzida, tem que ser imediatamente consumida. E isso faz com que, quando estamos a gerir um sistema elétrico, uma das primeiras regras, ou diria a regra base ou a regra zero, para todo um bom funcionamento, é que em todo instante a produção tem que ser exatamente igual ao consumo. Se isso não acontecer Provocam-se os chamados desequilíbrios na rede, que podem ter variadíssimas consequências. Outras formas de energia, essa produção e esse consumo podem ter desequilíbrios momentâneos, sem que isso provoque nenhum apagão nas redes correspondentes. Estamos a falar, por exemplo, nos combustíveis fósseis, no gás natural, etc. Mas na eletricidade não é assim. E, portanto, o que é que se passou ontem? Nós temos um sistema que está bastante interligado com a Espanha e isso é bom, é uma vantagem para o sistema, não só em termos de perspectiva económica, porque conseguimos fazer trocas de energia para os sistemas beneficiarem sempre das produções economicamente mais baratas em benefício dos consumidores, mas também em termos de segurança de abastecimento.
Para poder recorrer à rede espanhola, caso seja necessário, é isso?
Exatamente. Um sistema ilha, se tiver um problema, não pode recorrer a ninguém, tem que resolver esse problema por si só. O que é que aconteceu? Nós temos o sistema português fortemente interligado com o sistema espanhol, o que tem inúmeras vantagens, mas tem esta característica. O que é que aconteceu ontem? Um desequilíbrio no sistema espanhol, muito rapidamente se propagou para o sistema português, e não só, é preciso reforçar que também as zonas geograficamente juntas à fronteira Espanha-França também foram afetadas do lado francês.
Mas só para percebermos, João Faria Conceição, só para percebermos um pouco como funciona este sistema, ao contrário, isso poderia ter acontecido um problema em Portugal, poderia ter gerado um problema idêntico em Espanha?
Poderia ter gerado um problema idêntico em Espanha, embora temos que ter em atenção que a dimensão de Espanha é cinco vezes a dimensão portuguesa. Portanto, muito provavelmente um problema em Portugal geraria um problema nas regiões espanholas próximas da nossa fronteira. A Espanha é muito maior e, portanto, tem ali um efeito de diluição, podemos dizer desta forma, deste problema que atenuaria para zonas mais afastadas da fronteira.
Perdemos-
A transmissão desse problema. Estou sim?
Sim, João Faria Conceição. Perdemos por breves segundos.
Uma ligeira pausa.
Um apagão de comunicação, mas já está retomado. João Faria Conceição, e já sabemos agora sobre a causa, o que esteve na origem, de facto, deste apagão?
O que é que originou este apagão foi, efetivamente, como foi transmitido ontem, um aumento e uma oscilação muito brusca de tensões, em primeiro lugar, no sistema espanhol, e que fazem, como já foi também comunicado em Espanha, fizeram uma redução de 16 gigawatts de potência, de uma forma completamente brusca, e como consequência, perder aquele equilíbrio que eu referi há pouco.
Mas nesse caso, na produção?
O que acontece é que existe uma oscilação, ou existiu uma oscilação muito brusca de tensão e todos os mecanismos de segurança foram ativados, o que fizeram desligar uma imensa quantidade de produção de eletricidade e, como consequência, como o consumo instantaneamente não desapareceu, aquele referido equilíbrio entre a produção e o consumo, perde-se o dito equilíbrio e gera o chamado desbalance, que se propaga para o sistema português. E estamos a falar em segundos, não estamos a falar numa capacidade de resposta para resolver o problema. E estamos, por outro lado, a falar numa dimensão que os mecanismos automáticos que estão ao dispor da rede não foram suficientes para conter esta mesma propagação.
Nós sabemos, João Faria Conceição, o que é que motivou essa amplitude abrupta.
Nós sabemos o fator que causou tudo isto, não sabemos as causas ainda desse fator. Isso é algo que vai ser agora estudado e analisado em todo detalhe. Precisamos efetivamente de ter algum tempo e, principalmente, muita informação para perceber exatamente o que é que provocou este desequilíbrio, para, de forma totalmente construtiva, podermos definir medidas que permitam minimizar ou idealmente mitigar riscos futuros que isto volte a acontecer.
Essa auditoria, essa averiguação estará a ser feita, imaginamos pelas autoridades espanholas, portuguesas também, por exemplo, a REN do seu lado, o que é que a REN está a fazer ou vai fazer para participar também, para ter conhecimento de tudo aquilo que aconteceu?
Esta auditoria não vai só envolver as autoridades portuguesas e as autoridades espanholas, e os operadores de rede e os agentes de mercado do setor elétrico, mas pelo fato de ter afetado mais do que um país, vai subir de nível e vai também ser analisada a nível europeu. Nós vamos participar, naturalmente, com a disponibilização de toda a informação que dispomos e também nas diferentes análises que irão ser feitas, independentemente de outras auditorias que possam ter lugar, e para as quais a REN se manifesta total disponibilidade de estar envolvida, se for esse o interesse das partes.
João Ferreira da Conceição, nós estamos em processo de transição energética para a eletricidade. O acontecimento de ontem pode ser um alerta para os riscos de colocarmos, por assim dizer, os ovos todos no mesmo cesto?
Repare, uma das regras básicas de gestão de risco é nós termos, usando a sua expressão, vários cestos onde vamos distribuindo os ovos. É, no fundo, uma abordagem de portfólio. Toda a gente entende, por exemplo, quando nós aplicamos as nossas poupanças, não o fazermos num só instrumento financeiro ou noutra forma de poupança qualquer, mas de espalharmos as nossas poupanças por diferentes instrumentos, de forma que se algum deles correr mal, não pormos em risco todas as nossas poupanças. Aqui passa exatamente a mesma coisa.
É saber se estamos, de facto, a pôr os ovos todos no mesmo cesto e quais serão os custos de dividir os ovos por mais cestos.
Exatamente. Mas a questão é exatamente o compromisso que deve ser feito entre o risco e o custo, porque termos uma solução de risco zero, primeiro, é praticamente impossível ter e seria um custo absolutamente incomportável. Termos uma situação de custo a tender para zero, mas com um risco muito elevado, acho que ficou patente ontem que não é desejável e não é do interesse de rigorosamente ninguém. O que nós agora vamos ter que certamente avaliar, e quando digo nós, estou a falar todos os responsáveis da decisão política, regulatória e a própria sociedade em geral, é qual é que é o equilíbrio que todos nós estamos dispostos a ter entre estas duas variáveis, entre o risco e o custo.
João Ferreira Conceição, neste caso concreto, por exemplo, as centrais de carvão que fechamos ajudavam a resolver neste caso ou impediriam alguma coisa?
Não, é preciso também conhecer, as centrais de carvão têm uma característica, são centrais de arranque extremamente lento. Colocar um grupo de carvão a funcionar quando esse grupo está parado, leva tipicamente mais de oito horas, o que significa que as centrais de carvão, tal como eu ouvi dizer ao longo do dia de ontem e principalmente durante a noite de ontem, não teriam sido solução para o restabelecimento, se não estivessem a funcionar. E repare, o problema aqui é sempre o mesmo. As centrais das diferentes tecnologias estavam a funcionar. O que acontece é por causas que nós ainda não conseguimos ter com todo o rigor as justificações, ocorre aquela dita variação brusca de tensão que fez atuar os mecanismos de proteção. Portanto, se nós tivéssemos centrais a carvão a funcionar, com alguma probabilidade, esses mecanismos de proteção teriam atuado e teriam desligado essas mesmas centrais, o que significaria que embora provavelmente não demorasse tanto tempo a arrancar, porque se elas estivessem a funcionar, estariam a quente, é uma expressão técnica que se usa, mas mesmo assim o arranque não é um arranque imediato. E por isso, não me parece, na minha opinião, ser totalmente correto quando ouvi afirmar que se tivéssemos as centrais de carvão, nada disto teria a acontecer.
E quase a chegar ao fim, João Ferreira Conceição, precisamos de mais centrais que permitam o chamado arranque em vazio, black start, no fundo, que são as primeiras centrais que no ambiente de apagão são as primeiras a funcionar.
Exato. Temos efetivamente que avaliar alguns aspetos do que aconteceu ontem e um dos aspetos é precisamente avaliar se o tempo que foi necessário para o arranque dessas centrais foi razoável ou não. Naturalmente, há muita gente que acha que deveria ter sido mais rápido. Nós, na REN, tínhamos todo o interesse que ela tivesse sido mais rápido. Posso confirmar que as centrais arrancaram e foram abaixo, peço desculpa pela simplicidade de expressão, mas tiveram que rearrancar várias vezes. Portanto, não houve um arranque e a partir daí o sistema ficou a ser recuperado de uma forma contínua.
Isso agora aconteceu por quê?
Não, isso é normal acontecer, porque o que acontece é, voltamos outra vez ao dito equilíbrio entre a produção e o consumo Estas centrais têm uma característica que é a capacidade de arrancarem sem ter energia na rede. Também para facilidade, embora não seja exatamente isto, mas para facilidade de comparação, imagine, estas centrais têm um instrumento adicional que, por exemplo, nós temos em vários objetos da nossa vida, como por exemplo, os automóveis, têm o motor de arranque. Nos nossos automóveis, têm aquele motor de arranque que faz iniciar o funcionamento do motor. Aqui é exatamente de uma forma parecida, não é exatamente a mesma coisa, mas de uma forma parecida, elas têm esse dito motor de arranque, que é poderem arrancar sabendo que do outro lado da rede não existe nada. O problema não é esse arranque, esse arranque aconteceu. O problema é que depois todos os automatismos estão preparados para atuar em segurança quando detetam algum desequilíbrio, e que foi o que acontecia. Como do outro lado da rede não existia mais nada, portanto, nem consumos, nem produção, é necessário com muita paciência, muito cuidado e de uma forma muito gradual, ir introduzindo aos poucos produção e consumo, mas de forma que este equilíbrio se mantenha sempre e que não entremos num desbalanço que faça com que tudo vá abaixo. Foi o que aconteceu ontem. Por várias vezes, esses arranques foram iniciados, o sistema começava a permitir poder ligar pequenas quantidades de consumo e de produção, mas bastava existir um mais pequeno desequilíbrio e o sistema ia abaixo. Isso aconteceu várias vezes ontem.
E daí também a demora com que tudo se passou.
E daí a demora, e repare, e agora daí a importância de reforçar as interligações. O sistema português só tem interligações com Espanha, é algo que não vai mudar no futuro, em longo prazo, porque em termos geográficos, nós somos periféricos.
E para terminar, João Faria Conceição, por favor.
Espanha, por exemplo, rapidamente teve o apoio de França e também de Marrocos, que permitiu ao sistema espanhol mobilizar aos poucos, de uma forma mais expedita ao início, todo o seu sistema. Nós iniciamos mais lento, mas recuperamos mais rápido.
Muito bem, ficam aí pistas também para o desenho futuro do sistema elétrico. João Faria Conceição, administrador da REN, obrigado pela disponibilidade para estar connosco esta manhã. Obrigado, bom dia.
Obrigado