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Duas semanas depois da tempestade, a promessa feita esta manhã na Rádio Observador que os primeiros pagamentos dos apoios do governo à reconstrução deverão chegar, e citamos: "O mais tardar, segunda ou terça-feira da próxima semana." No terreno, por exemplo, lá em Leiria, tenta-se recuperar no meio de chuvadas consecutivas. A chuva não para e há ainda milhares de pessoas sem eletricidade. Eu sou o Ricardo Conceição e comigo está a Judite França, quem é o nosso convidado, Judite?

Conosco está o presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes. Bem-vindo, obrigada por ter aceitado o nosso convite. Vamos começar pelo início. Que cenário traça da sua autarquia neste momento?

Em termos de tarefas que realizamos desde que começou o pós-catástrofe, o que se tentou de imediato foi acudir às instituições que mais necessitavam, os hospitais, centros de saúde, IPSS. A primeira ação foi ter tido de encontrar o maior número de geradores para acionar esses sistemas. Uns já tinham, outros tivemos que reforçar. Essa foi a primeira missão. Rapidamente percebemos que íamos ter um período bastante longo. Tivemos que acionar também uma operação limpeza, onde tivemos contratação de muitas empresas de limpeza, retirar todo o material que tinha sido derrubado, seja de construção, seja sobre telhados. E esse processo ainda continua, porque temos muitas estradas que estavam obstruídas e é uma operação que foi feita em todo o concelho e foi massiva e que já tem um investimento bastante elevado. Paralelamente, iniciamos os processos das ajudas humanitárias, com a recolha de alimentos, sobretudo para as populações que mais precisavam, e aquelas que estavam impedidas também de ir às compras. Iniciámos no estádio, um espaço para recolha de alimentos. E mais recentemente, depois daquilo que é a destruição de muitos telhados, aquilo que foi a abertura de um espaço para recolha de telhas e entrega às pessoas para poderem colocar nos seus telhados, tendo, numa primeira fase, optado por distribuição de lonas. Nos primeiros dois dias distribuímos mais de 100 milhas dessas lonas. Tivemos que comprar quase um stock a nível nacional, outras foram ofertas. Essa foi a parte humanitária. À medida que acompanhávamos também outras linhas de trabalho, que todos os dias íamos lançando para conseguir minimizar os impactos. O apoio tem sido excepcional em termos da população a nível do país, das câmaras municipais, que destacaram para cá equipas para ajudar nas limpezas, as escolas, sobretudo, que foi um dos principais objetivos. A escola tem que abrir rápido, só amanhã é que vamos ter 100% das escolas abertas, porque grande parte das escolas ficaram destelhadas, sobretudo três escolas, que tivemos que contratar empresas para fazer essas reparações. E neste momento, abrimos hoje o gabinete Reerguer Leiria, que funciona numa lógica de loja de cidadão para as pessoas lesadas ou que precisam de apresentar as suas candidaturas, quer na lógica das despesas de habitação ou mesmo da parte da economia, onde temos, no Mercado de Santana, um conjunto de guichês com várias entidades do município, funcionários do município habituados a fazer atendimento, mas também a repartição de finanças, a Segurança Social, o Conselho Profissional dos Advogados da Região Centro. E esse espaço vai crescendo à medida que vamos tendo necessidades, com outros tipos de serviços de oferta. Eu depois reparei que havia pessoas que não tinham fotografias. Vamos associar também aqui o trabalho que estamos a fazer com a Tekever, que já fez voos aéreos, em que identifica muitos dos danos.

Já tem esse levantamento feito?

É assim, eles não conseguiram fazer o voo todo, mas temos imagens que permitem já identificar, caso a pessoa identifique a sua casa, tirar dali um print para poder anexar ao pedido de candidatura. Hoje, em quatro horas, tivemos 200 pessoas a recorrer a este espaço e amanhã espera-se mais pessoas. Curiosamente, as Juntas de Freguesia também têm acionado a partir de ontem este serviço, também podem se deslocar lá, também tiveram a informação conosco.

Para ajudar ao preenchimento das declarações.

Para ajudar ao preenchimento das declarações, pois têm muitas dúvidas, se o seguro cobre ou se não cobre, até aos 5 mil € como é que funciona o formulário. Há ali uma ajuda no preenchimento e na submissão. O espaço tem internet, muitas delas ainda não têm internet em casa ou muitas não sabem preencher, porque não têm experiência no acesso a esse tipo de plataformas. É uma nova etapa. É uma etapa que gostaríamos de ter começado mais cedo, mas é a etapa que corresponde à fase da reconstrução, do reinício de uma nova vida e que estávamos ansiosos por começar e já deu para perceber que há muitas pessoas desesperadas.

E como é que está a reposição da energia?

A energia está a um ritmo lento. Nós temos 17 mil contadores sem energia, ainda, nas freguesias mais distantes e sobretudo aquelas distantes da cidade, sobretudo aquelas que são mais rurais, com muita parte florestal. Muitos dos postes que transportam a eletricidade até casa das pessoas foram derrubados com a tempestade. Agora é necessário erguê-los outra vez ou substituir aqueles que se partiram E voltar a passar a linha. E esse é um trabalho muito mais complexo, porque há uma maior dispersão das habitações, porque as pessoas não vivem todas juntas. E é um trabalho que é mais demorado.

Disse ontem que se esta falha no abastecimento elétrico tivesse acontecido na casa de quem nos governa, a resposta teria sido mais rápida e se calhar teria sido outra. Acredita que Leiria e a região estão, de alguma forma, a ser esquecidas?

Há aqui uma realidade que tem a ver com o que quem vive cá está a sentir, que é muito difícil de transmitir a qualquer pessoa. E a comunicação social tem feito um excelente trabalho com as reportagens que têm feito. O que acontece? Nós estamos numa bolha durante 14 dias, em que uns têm eletricidade mais cedo, outros ainda não têm, sem comunicações. Estamos a viver uma realidade totalmente diferente. Quando chegam ao pé de nós e dizem: "Submissão de uma plataforma". Plataforma como, se grande parte não tem eletricidade, já tem comunicações. "Já tem o levantamento da estimativa dos custos". E eu disse: "Estimativa dos custos como, se a gente não consegue comunicar com empresários, nem com as pessoas. Chegamos do voo aéreo, a gente pode começar a fazer uma estimativa, mas é sempre vago". Ou seja, a grandeza dos impactos é tal, é tudo tão complexo, que quando eu digo que só alguém que viva cá é que podia ter noção de que tipo de soluções é que podem ser apresentadas e o timing que podem ser apresentadas. Empresas de construção para reparar telhados não resolvem o problema. Carrinhas que podem dar suporte nas aldeias, quando as pessoas ainda estão preocupadas em tapar os seus telhados com lonas, vai ser um drama atender essas pessoas, que foi aquilo que eu hoje reparei. Nós temos hoje um problema, que é o nível de ansiedade, de revolta.

Que está a aumentar, imagino.

É, que neste momento está a atingir picos enormes, onde também não é qualquer pessoa que consegue atender a um cidadão que está desesperado. Eu próprio recebi hoje de manhã os contatos de umas pessoas.

E o Gonçalo Lopes é presidente da Câmara, imagino que o seu telefone não pare e as pessoas sempre que o apanham na rua, imagino que lhe façam perguntas. Está alguém a mandar nisto tudo? Há coordenação ou continuamos a assistir a algumas quintas?

Sim. Em Leiria, quem manda sou eu e a minha equipa. Aí tudo tranquilo, tenho alguma massa crítica, temos a determinação, tenho a equipa motivada, exausta. Estamos a chegar a um ponto em que é difícil manter níveis de motivação elevados. Isto também é importante explicar, voltando àquela questão, nós temos pessoas a trabalhar connosco desde a primeira hora na linha da frente, bombeiros, pessoal dirigente, técnicos superiores, cujas suas casas ainda não estão reparadas.

Também eles são vítimas.

Pessoas que trabalham diretamente comigo, que moram numa das freguesias mais rurais e não têm luz. Ela vem todos os dias a Leiria trabalhar, mas regressa a casa, acende a vela. É nestas condições que há 14 dias estamos a viver. Eu tenho dito, me sinto muito privilegiado, porque fui dos primeiros a ter, porque moro na cidade, foi assim que correu, mas há muita gente com quem lidamos diariamente que está a sofrer. E estar em sofrimento e estar na linha da frente, bombeiros, não sei o quê.

Mas vê alguma resposta?

Não houve uma única pessoa que não tivesse sido afetada pelo fenómeno.

Quando as pessoas lhe perguntam: "Senhor Presidente, quando é que isto se resolve?", que resposta é que dá?

Há uma explicação que tento dar e que eu acho que devia ter sido desde a primeira hora, eu tenho dito, o processo devia ser transparente, devia ser claro, a gestão de crise só se faz com a verdade, com transparência, como foi o exemplo do Covid e de outras crises. O povo consegue compreender, mesmo não tendo comunicação, tem acesso à rádio e tem acesso à informação do boca a boca, que depois é transmitido por outras pessoas, que era a evolução dos trabalhos, a identificação dos problemas, que ações é que estamos a fazer, o que é que amanhã se espera alcançar e ter aqui um planeamento operacional que garanta uma informação clara às pessoas. O que é que aconteceu desde a primeira hora? A identificação do problema foi tardíssima. As linhas que foram afetadas, sobretudo as de alta tensão e as de média tensão, foram um rombo enorme aqui no Conselho de Leiria, que prejudica depois a distribuição da eletricidade, porque estamos a falar de muitos poços que foram alvegados.

Mas por que essa avaliação foi tardia?

A avaliação, o impacto, a dimensão do problema é natural que seja tardia, porque muitas destas torres estão em espaços florestais, fazem parte de autoestradas, estão no meio do campo, é preciso verificar, tem que se fazer voos aéreos, seguramente, recorrer a uma ida ao local. É natural que a primeira fase de identificação tenha a sua complexidade. Mas depois é necessário encontrar soluções para os poços que estão caídos, aqueles que pesam oito ou 10 toneladas, que a gente pensava que não cairiam abaixo com ventos desta dimensão.

Mas com os terrenos completamente empapados, também deve ser muito difícil.

Se isto fosse explicado Se tivesse existido a explicação da complexidade técnica, eu acredito que muito do nível de ansiedade, de revolta, tinha sido controlado. Eu tenho reclamado isso desde a primeira hora. Tornem transparente o trabalho que estão a fazer, identifiquem os problemas, apresentem-nos, porque é importante para as pessoas, mas também é importante terem as pessoas do vosso lado. E eu tenho elogiado o trabalho das pessoas que estão na linha da frente nesta área da reposição das linhas, porque de facto, trabalhar à chuva, horas seguidas, a dormir pouco, é um trabalho extraordinário.

Mas não são pessoas suficientes no terreno.

Não, essa é a grande questão e é o que eu tenho levantado. E voltamos à questão das ajudas e do acionamento de mecanismos solidários no âmbito desta área. Quando se pede um auxílio europeu, não é como foi dito, para trazer telhas ou lonas. Isso é ridicularizar quem diz que é preciso um auxílio e solidariedade europeia. A solidariedade europeia pode ser acionada, empresas idênticas à E-Redes, acionar empresas idênticas noutros países para trazerem as equipas de suporte que têm lá para virem auxiliar um país que está numa crise de soberania. Por acaso aconteceu só na nossa região, mas se isto se voltar a repetir ou se algum dia existir um atentado que deita abaixo subestações, nós podemos ter um problema de eletricidade. Isto é uma nova maneira de fazer guerra. Não quero dar ideias a ninguém, mas temos que nos preparar. Estamos no ambiente europeu.

Temos de concluir, Gonçalo Lopes, por favor.

O que queria transmitir é que este trabalho obrigava a recurso a serviços externos, a empresas externas, e elas tardaram a ser feitas, assim como a requisição dos geradores vindos de outros pontos da Europa. Mandaram vir de Espanha, mas deviam ter mandado vir mais cedo e mais rápido.

Gonçalo Lopes, muito obrigado pelo seu testemunho. Obrigado ao presidente da Câmara Municipal de Leiria, no Explicador da Rádio Observador.