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Este é o episódio extra do "Fora do Baralho". Aos domingos respondemos às perguntas e às dúvidas, críticas, anseios, desejos dos nossos ouvintes que nos enviam as suas dúvidas para foradobaralho@observador.pt e a cada domingo, um dos membros do painel responde a estas dúvidas. Hoje calha ao Jorge Fernandes. Olá, Jorge, bem-vindo.

Olá, Ricardo.

Hoje vamos responder à pergunta do nosso ouvinte Salvador Almeida e Brito, que nos pergunta: "Por que Cavaco Silva provoca tanta urticária à esquerda?" E manda um abraço para todos.

Antes de mais, agradecer ao nosso ouvinte por mais uma pergunta. É sempre bom ter ouvintes que estejam engajados conosco. A urticária de Cavaco Silva à esquerda pode se dividir em duas dimensões. Há uma urticária que é mais fácil de explicar, que é uma urticária quase cultural, que tem que ver com as origens sociais de Cavaco Silva. Embora Cavaco Silva, na verdade, não seja uma pessoa de origens sociais tão humildes como ele próprio gostou sempre de pintar, apesar de tudo, Cavaco Silva vinha de um contexto familiar em que foi possível para os pais dele mandarem-no pra Lisboa estudar e tirar uma licenciatura nos anos 60, o que apesar de tudo, não era propriamente comum para uma família de província. Portanto, não era propriamente uma pessoa de uma classe completamente pobre. Mas esclarecido isto, havia um sentimento na classe política depois da transição pra democracia, e basta vermos, de resto, a composição do Parlamento nas primeiras eleições de 75, em que vemos literalmente a fina flor não só da política, mas da intelectualidade portuguesa, da cultura, pessoas, todas elas, de famílias e de posições sociais muito privilegiadas na sociedade.

Uma certa elite de Lisboa, Porto, Cascais, por aí.

Incluindo, naturalmente, os fundadores do PSD. O partido Cavaco Silva é fundado por Francisco Pinto Balsemão, por Sá Carneiro, Miller Guerra. Há ali um conjunto de gente que naturalmente faz parte de uma elite social que já era, de resto, a elite antes até da transição para a democracia.

Exatamente.

E Cavaco Silva emerge no meio desta gente, emerge como um líder para o PSD. Recorde-se, na altura, que a pessoa que estava a concorrer contra Cavaco Silva em 85 era João Salgueiro e era a pessoa que emergia como concorrente contra Cavaco Silva, e Cavaco Silva consegue ganhar. Portanto, há aqui uma certa urticária social, que depois foi vastamente colossada, por exemplo, no Independente, por Miguel Seabra Cardoso, por Paulo Portas, que gozavam com Cavaco Silva, diziam que ele não tinha modos à mesa, diziam que ele usava meia branca. Havia aqui um conjunto de racismo social punido.

Desculpe interromper, mas isso é muito curioso, porque causa o mesmo tipo de urticária nessa classe, quer à esquerda, quer à direita.

Quer à esquerda, quer à direita.

A esquerda também tem a sua elite intelectual citadina.

Sem dúvida nenhuma. De resto, o Partido Socialista sempre foi o partido mais elitista de Portugal. Mesmo hoje em dia, se nós repararmos, com raras exceções.

Não sei se essa tua afirmação não nos vai valer aqui mais três ou quatro e-mails.

Podem mandar e-mails à vontade.

foradobaralho@observador.pt.

Eu acho que esta afirmação é uma afirmação bastante tranquila. É uma coisa que se pode até, se quisermos, quase provar de forma empírica. Se nós olharmos para as origens sociais, a educação das pessoas, a educação dos pais das pessoas, até as origens territoriais, por exemplo, a elite do Partido Socialista, com raras exceções, sempre foi uma elite política muito mais centrada em Lisboa do que, por exemplo, o PSD, que apesar de tudo, foi arregimentando muito mais pessoas aos mais altos níveis fora de Lisboa. Há aqui uma componente social que tem a ver com a extração social das pessoas. E Portugal, vamos ver, a elite portuguesa ainda hoje é muito pequena e toda mundo se conhece. Mas nos anos 80 era ainda mais pequena, até porque, recordemos, não tinha havido ainda uma grande expansão do ensino universitário, que apesar de tudo, funciona como um dos caminhos clássicos de recrutamento de elites. Sabemos inclusive isso da ciência política. No fundo, há a elite que é quase por herança econômica e de posição social, mas tipicamente, de resto, a academia e a universidade serviu sempre como elevador social. Basta pensar em dois exemplos até do antigo regime, Salazar e Marcelo Caetano eram ambas pessoas. Aliás, há uma carta famosíssima de Marcelo Caetano, já no Brasil, em que ele escreve, na altura ele tinha uma correspondência com Veríssimo Serrão, e eles trocavam cartas regularmente, e já depois do 25 de abril, ele dizia: "Bem, agora a esquerda portuguesa, o doutor Cunhal e o doutor Soares, que são filhos da mais alta burguesia, enquanto eu e o doutor Salazar éramos filhos da pobreza, e eles dizem que eles defendem os pobres e nós atacávamos os pobres." O próprio Marcelo Caetano faz notar isto numa das cartas, logo na abertura da carta. Enfim, numa passagem que se tornou bastante famosa. Há esta componente cultural e social, se quisermosE depois a esquerda verdadeiramente nunca perdoou a Cavaco Silva o fato de ser, independentemente daquilo que nós possamos pensar sobre as suas políticas ou sobre o que ele conseguiu fazer ou não como primeiro-ministro e mais tarde como presidente, mas Cavaco Silva é, objetivamente falando, o político português com maior sucesso eleitoral da democracia portuguesa. Isto é absolutamente inequívoco. Cavaco Silva teve momentos eleitorais em que chegou a atingir 3,5 milhões de votos, que é uma coisa absolutamente alucinante. Podemos pensar que António Costa, quando teve a maioria absoluta, só por ponto de comparação, teve cerca de 2,3 milhões de votos. Portanto, vemos aqui a diferença da mobilização eleitoral que Cavaco Silva conseguia imprimir ao PSD.

E tem a capacidade de execução, porque muita coisa mudou durante o consulado de Cavaco Silva.

Sim, há sempre esse argumento, é uma velha discussão de que, no fundo, Cavaco Silva tinha a vida muito facilitada porque chegavam fundos europeus todos os dias, o que é inequivocamente verdade.

Mas agora também chegam, não é?

Também chegam. Na verdade, há vários trabalhos acadêmicos, até jornalísticos, que mostram isso. O momento em que chegaram mais fundos de forma absoluta, concentrados no tempo, foi no momento do PRR. Portanto, é evidente que depois Cavaco Silva, no fundo, a obra era mais fácil de aparecer, porque basicamente estava tudo por fazer, não havia uma autoestrada de Lisboa para o Porto, faltavam hospitais, faltava tudo praticamente em Portugal ou quase tudo. E portanto, era muito fácil a Cavaco Silva fazer as coisas e ter obra feita que rapidamente as pessoas viam a diferença. Portanto, cada euro adicionado naquele momento, provavelmente tinha muito mais impacto na vida das pessoas do que um euro adicionado atualmente. Dito isto, é preciso relembrar que foi preciso bastante talento político, por exemplo, para fazer uma coisa como a revisão constitucional de 89. Portanto, ter dinheiro, a chegada à Europa, é uma coisa. Ter o talento político pra fazer uma revisão constitucional como a de 89, que, de resto, já foi um pouquinho tardia, mas foram as condições da época. Mas, de facto, a revisão de 89 termina, por exemplo, com o monopólio público em coisas como bancos, jornais. O Estado era dono da tabaqueira, fazia cigarros. Estamos a falar de 89, não estamos a falar de há dois séculos. E portanto, de facto, houve momentos muito marcantes na governação de Cavaco Silva, por exemplo, a introdução do IRS ou do IVA, tal como nós o conhecemos. A construção do aparelho político e econômico da máquina do Estado foi feita com muita ajuda da Europa, não só em termos de dinheiro, mas também, no fundo, ensinando Portugal algumas práticas-chave que eram indispensáveis pra construção do aparato de Estado moderno, tal como nós o conhecemos hoje. E portanto, Cavaco Silva, foi preciso muito talento político pra fazer aquilo tudo em tão pouco tempo. E portanto, eu acho que muitas vezes as pessoas subvalorizam aquilo que Cavaco Silva fez. E há outra coisa interessante que é, enfim, podemos quase fechar aqui, que é das pessoas dizerem: "bem, mas com aquele dinheiro ele podia ter feito muito mais." Possivelmente, isto é verdade, eu acho que ele poderia ter feito muito mais, mas é preciso sempre perceber que estamos a falar de um país, na altura, que tinha taxas de analfabetismo, em grande medida herdadas ainda do passado, tinha taxas de analfabetismo muito altas, tinha uma população muito pouco qualificada, mesmo a população que sabia ler e escrever, em média, tinha muito poucas qualificações, tinha poucas infraestruturas, tinha poucas escolas. O que acontece, no fundo, é: quando se dá dinheiro a um Estado, o Estado tem que ser suficientemente moderno, eficaz e tem que estar a funcionar com a devida eficiência para gastar esse dinheiro de forma eficaz.

Bem gasto.

E bem gasto, de forma bem gasta. E, na verdade, quando Cavaco Silva chegou ao poder, e isto não aconteceu só com ele, aconteceu com o doutor Soares antes dele, com Balsemão, com Sá Carneiro. Na verdade, Portugal é um Estado, em grande medida, um Estado praticamente, eu ia dizer medieval, mas as funções do Estado. As pessoas não têm muito bem noção, mas a ideia de não haver uma capacidade de recolher impostos de uma forma moderna e de se recolher impostos de uma maneira absolutamente deficiente do ponto de vista técnico, impede o funcionamento capaz do Estado ou de haver uma administração pública com pessoal pouco qualificado. Enfim, pra usar aqui, vou terminar com isto, é aquela velha metáfora dos chineses. Pode-se entregar mil peixes à pessoa, mas se a pessoa não souber pescar, não pode fazer nada. E portanto, na verdade, Cavaco Silva eu acho que fez o possível com as elites que Portugal tinha, com a população que Portugal tinha, e foi o possível. Podia ter sido melhor? Certamente poderia ter sido melhor. Mas não é remotamente a herança tão negativa que muita esquerda e até muita direita gosta de pintar.

E fica aqui também reiterado o nosso abraço ao Salvador Almeida Brito, nosso ouvinte que enviou um e-mail para foradobaralho@observador.pt. Vamos respondendo às dúvidas e às críticas dos ouvintes aos domingos de manhã, e claro, também em podcast. Um bom fim de semana, Jorge. Um bom fim de semana a todos.

Obrigado