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Fora do Baralho, edição extra de resposta aos e-mails e mensagens que recebemos dos ouvintes, com o Jorge Fernandes a responder esta semana. Vamos a isto, Jorge. O Mauro, ouvinte regular d'O Observador e do Fora do Baralho, faz questão de o dizer, escreve diretamente para ti através do nosso WhatsApp 91 002 41 85, porque quer perceber a tua visão, tendo em conta que és cientista político. E sobre o quê? Este ouvinte tem 35 anos, diz que até há cinco anos sempre votou à esquerda, na maioria das vezes até à esquerda do PS, e a principal razão era pela política material que a esquerda defendia: mais redistribuição, direitos dos trabalhadores, saúde e educação públicas para todos. E sempre olhou para a direita como a defensora dos riscos. Só que há cerca de cinco anos foi pai e começou a identificar-se com alguns pontos defendidos por comentadores de direita. E hoje em dia sente-se com uma base minimamente sólida para se afirmar como alguém de centro-direita, um conservador neoliberal moderado, com alguma simpatia pela democracia cristã, embora também confesse aqui que não é um magnífico religioso. Mas diz que se tornou o eleitor típico da AD, mesmo não concordando com tudo, e dá o exemplo das alterações à lei laboral que este governo de Luís Montenegro quer fazer. E a pergunta, feito este preâmbulo, este contexto, é esta: o que queria perguntar ao Jorge é se é normal haver esta evolução de personalidade política. Já agora, ele até acrescenta que também quer perceber se isto pode ser causado pelo facto de ter tido um filho e de ter feito mudar as perspetivas.

Antes de mais, quero agradecer ao Mauro, o nosso ouvinte, não só pela pergunta simpática e inteligente, mas também por ser nosso ouvinte regular e por apreciar a nossa companhia todas as semanas. Esta é uma pergunta que é recorrente, isto é, que é uma coisa muito estudada na ciência política. Eu vou dizer aquilo que é possível dizer, porque cada caso é um caso e cada pessoa tem as suas circunstâncias particulares, não só familiares, materiais, do local onde mora, do tempo onde vive. Neste momento, vivemos naturalmente um tempo no qual temos assistido a algumas mudanças importantes, e hoje eu vou falar sobre isso. Mas aquilo que nós sabemos na ciência política é que, no fundamental, existe um processo de socialização política que ocorre nas primeiras três eleições nas quais a pessoa participa. Cada um de nós sabemos que há um termo, aliás, na ciência política chamado os anos impressionáveis, isto é, quando nós fazemos 18 anos, vamos votar durante três vezes seguidas em múltiplas eleições. E aquilo que sabemos é que os eventos políticos, o mundo político tal como ele é quando nós temos essa idade, no fundo, tem um grande impacto naquilo que são as escolhas e a formação da nossa personalidade política. E portanto, por exemplo, se alguém começa a votar numa altura de profunda crise económica, por exemplo, alguém que fez 18 anos em 2011 ou 2012 em Portugal e cujos anos formativos politicamente foram anos muito marcados por um período de austeridade, de crise económica, de recessão, desemprego, isso naturalmente, e sabemos isso de muitos estudos que existem em ciência política, terá repercussões ao longo da vida. Dito isto, também sabemos que existem alguns acontecimentos na vida das pessoas, especialmente a entrada no mercado de trabalho, isso está muito bem estudado, e aquele exemplo que o ouvinte dá de se tornar pai, naturalmente são eventos muito importantes que mudam de alguma maneira o nosso paradigma e a maneira como olhamos para o mundo. Eu posso dar um exemplo pessoal ao ouvinte. Eu sou viciado em política, mas agora comecei a me interessar por motivos pessoais, que devem ser bastante fáceis de perceber, comecei a me interessar por taxas de juro bancárias, por política monetária, coisa que durante muitos anos, apesar de ter um grande interesse pela política, não me interessavam, simplesmente porque estou a entrar numa fase da minha vida em que isso terá um impacto direto.

Ainda não tinhas comprado casa.

Exatamente. Portanto, o que o ouvinte descreve é uma coisa perfeitamente normal. Vale a pena referir que naturalmente ao longo dos últimos anos, houve uma grande reconfiguração do paradigma político ou ideológico do mundo. E a posição de cada um de nós é sempre uma posição relativa, isto é, eu sou mais de esquerda ou mais de direita relativa às pessoas que estão à minha volta, ao país onde eu habito, ao país onde voto, relativo aos próprios partidos, à oferta política que os partidos nos dão. E portanto, estas flutuações são perfeitamente naturais e é fácil perceber. Portugal hoje em dia certamente não é o mesmo país que era há 20 anos. Havia aquele velho ditado que o passado é um país estrangeiro e, portanto, é perfeitamente natural que as pessoas ao longo da vida vão evoluindo e há ciclos e sabemos perfeitamente que determinado tipo de eventos muito importantes na vida da pessoa, e ter um filho, há poucos acontecimentos tão importantes e tão felizes, mas tão consequentes na vida de uma pessoa. Naturalmente, a pessoa tem que começar a ter outras preocupações, por exemplo, uma coisa tão simples como acesso a determinado tipo de cuidados de saúde, compras, enfim.

E a preocupação com o futuro ganha outra dimensão.

Claro, e a própria preocupação com o futuro ganha outra dimensão e, portanto, sob esse ponto de vista, parece-me uma coisa perfeitamente até salutar, porque significa que cada um de nós, no fundo, estamos preocupados com o futuro, no caso dos filhos, e pensamos em coisas que se calhar quando Quando somos mais jovens e não temos filhos à nossa responsabilidade, não temos com o que nos preocupar.

Estas flutuações, esta evolução esquerda-direita ou ao contrário, mas neste caso deste ouvinte é da esquerda para a direita, faz com que ele tenha outra pergunta. Portanto, vamos continuar com o Mauro, porque diz ele: sendo agora um eleitor tipo da AD, estaria naturalmente inclinado a votar Marques Mendes, é o candidato presidencial apoiado por PSD e CDS. Mas a hipótese de estarmos perante um antigo facilitador de negócios, diz este ouvinte, deixa-o de pé atrás. O problema é que nenhum dos outros candidatos lhe parece minimamente razoável para o cargo. Não quer votar em branco, quer evitar André Ventura na segunda volta, então, por exclusão de partes, considera que vai ter de votar Marques Mendes. Mas gostaria de perceber, neste caso poderia ser o teu comentário ou dos teus colegas, mas estás aqui tu, que opinião tens sobre os riscos de haver um ex-facilitador de negócios em Belém? De resto, tu também já tens falado sobre isto nos programas.

Sim, eu já tenho falado nisto nos nossos programas. Esta pergunta é um bocadinho mais difícil de responder, porque é uma pergunta não só muito pessoal, mas também tem que ver com a formação de preferências das pessoas. Eu só posso dar a minha opinião e acho que já expus isto reiteradamente no nosso programa, acho que um perfil como o de Marques Mendes não é bom para Portugal e não é bom enquanto presidente da República, precisamente por aquilo que o próprio ouvinte mostra. Até posso fazer um comentário mais genérico sobre isto. Eu acho que houve um antes e um depois na campanha de Marques Mendes, depois daquele debate com o Gouveia e Melo, porque no fundo, acho que há uma sensação mais ou menos difusa em todos os eleitores. Nós sabemos que Marques Mendes pode não haver nada de exatamente ilegal aqui, mas do ponto de vista ético e do ponto de vista político, estas duas dimensões são diferentes. Não basta ser legal para ser algo ético e não basta ser legal para ser algo que politicamente nós queiramos na Presidência da República.

Mas todas as pessoas têm o seu passado e como sabemos, os advogados, os consultores podem ter esse cunho de facilitadores de negócios. Esse passado pesa assim tanto para o futuro de Marques Mendes?

Na minha opinião pesa e aparentemente também pesa, não só na minha opinião, mas na opinião do Mauro. Ele próprio, aparentemente, se sente incomodado. E aparentemente não somos só nós, porque Marques Mendes está a perder gás nas sondagens, pode haver um conjunto de motivações para isto, mas significa grosso modo, que o seu perfil não está a convencer as pessoas. E é preciso reiterar que, diferentemente de uma eleição legislativa, que apesar de ter uma componente personalizada e personalista, em que a figura do primeiro-ministro é uma coisa muito marcada, mas aí estamos a votar num partido, estamos a votar em deputados. O cargo de presidente da República é, por definição, o cargo unipessoal, é a pessoa. Pode ter uma equipa muito boa, mas é a pessoa. Eu acho que alguém como Marques Mendes, não se pode querer sol na eira e chuva no naval. Marques Mendes, certamente ao longo dos últimos 20 anos, ganhou imenso dinheiro como facilitador. Eu continuo a achar que ele é um facilitador, é basicamente alguém que faz telefonemas, ajuda pessoas com os seus conhecimentos. Há vários exemplos públicos, ele diz que não há exemplos, mas há muitos exemplos que são públicos, vou me eximir sequer de comentar. Eu nunca acreditei naquela teoria de que as pessoas acordam de manhã e decidem: "Olha, vou concorrer a presidente da República". Certamente isto era algo que Marques Mendes tinha na sua cabeça há muitos anos. Podia não saber exatamente quando seria o momento, mas isto é sempre uma ideia que germina lentamente na cabeça das pessoas. E as pessoas fazem as escolhas de vida, fazem as escolhas de carreira que querem fazer e se eventualmente quereria pensar chegar a presidente da República, se calhar deveria ter tomado outras opções sob o ponto de vista profissional. Não tem mal nenhum. Há pessoas que têm este tipo de perfil. Estou a pensar, por exemplo, em António Vitorino. Tem esse perfil e certamente foi muito feliz, teve uma fruição económica muito eficaz. Posso pensar noutro exemplo, Durão Barroso, que é uma pessoa altamente preparada, saiu da Comissão Europeia e a dada altura decidiu abandonar a vida política, foi para a Goldman Sachs, foi ganhar dinheiro, foi para o setor privado e pronto, encerrou politicamente a sua vida. As pessoas não podem, como se costuma dizer, ter o pão e comê-lo. Marques Mendes teve uma carreira profissional que é pública e conhecida de todos e naturalmente, isso tem algum tipo de implicações agora no seu perfil e na pessoa que ele é e no tipo de contactos que poderá levar para Belém. Se eu acho que aquilo me deixa de chegar a mim, remotamente, acho que não é nada que a democracia portuguesa precise neste momento, especialmente quando temos alguém como André Ventura à solta, uma pessoa extremamente eficaz, inteligente e que naturalmente poderia aproveitar com bastante eficácia eventuais escândalos ou eventuais histórias que possam surgir envolvendo o presidente da República, até do seu próprio passado. Vamos supor que daqui a um ano ou dois surja alguma história envolvendo o presidente da República, e Marques Mendes é o presidente da República, se calhar não é exatamente aquilo que nós pretendemos para Portugal e não é muito saudável deitar achas para a fogueira, uma fogueira que já está bem acesa e bem quente.

Jorge Fernandes, obrigada pelas respostas que dás a este ouvinte e que são também certamente as dúvidas e as preocupações de outros ouvintes que seguem o "Fora do Baralho". Ainda falta uma semana de campanha. A ver vamos o que acontece na primeira volta das presidenciais do dia 18 de janeiro. Pode sempre escrever-nos para foradobaralho@observador.pt ou através do WhatsApp 910024185. Eu sou a Vanessa Cruz. Boa semana para si.