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Fora do Baralho, no episódio de domingo dedicado às perguntas dos ouvintes. É muito fácil enviar perguntas ou comentários, basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt. Eu sou o Ricardo Conceição e hoje cabe ao Luís Aguiar Conraria responder. Olá, Luís, bem-vindo.

Olá, bom dia.

Temos aqui duas perguntas. Vou começar pela pergunta do Pedro Veiga, que nos enviou um e-mail. Pergunta sobre o recálculo do PIB. Diz que ainda não viu uma análise sobre o impacto na percentagem do endividamento público. Deve diminuir? Quanto? Que impacto poderá ter nos mercados de dívida pública?

Esta é uma pergunta interessante, porque sim, tem razão. Já sabemos que o PIB vai ser recalculado, mas eu não lhe consigo responder diretamente à pergunta, porque não sabemos qual é que vai ser a revisão do PIB. E não há volta a dar quanto a isso. Mas é muito interessante esta pergunta, porque ilustra aqui um pormenor que é: em muitas das análises que nós falamos, que nós fazemos e indicadores que nós usamos, nós usamos rácios, que é algo a dividir por outra coisa. E tudo o que envolva rácios, depois uma alteração numa variável pode envolver muita coisa. Eu nunca tinha pensado nisso, mas ele, de facto, tem razão. O Pedro Veiga tem razão. Se o PIB vier a ser considerado mais elevado, isso quer dizer que a dívida pública, que costuma ser apresentada como um rácio sobre o PIB, vai diminuir, o déficit externo vai diminuir. Todas as outras coisas que tenham o PIB por baixo vão diminuir. Olhe, o saldo orçamental, aquele excedente orçamental, se calhar passa de 0,3% para 0,2%, ou se for um déficit, passa de 0,7% para 0,5%. Tudo isso vai se alterar, é interessante. E há coisas boas e coisas más. Por exemplo, a taxa de criminalidade em Portugal vai baixar, porque os crimes estão claramente bem definidos.

Se somos mais.

Os crimes estão bem definidos. Aí, de facto, não há recálculos, penso eu. Os crimes estão bem definidos, a dividir pela população para sabermos qual é a taxa de criminalidade, que geralmente é por cada mil habitantes, esse indicador vai melhorar. Os médicos de família por habitante ou o número de médicos por habitante vai piorar.

Exato.

E há aqui uma série de indicadores que vão mudar. Mas agora, se calhar, aqui a resposta anticlímax, eu acho que isto não vai ter impacto absolutamente nenhum nos mercados de dívida pública. Os mercados sabiam e sabem que a população estava subestimada. Aliás, nós mesmos já sabíamos disso, há um ano e tal que se fala em um milhão de imigrantes e que isso não estava a ser contabilizado. Tudo isto era mais ou menos conhecido e, diga-se de passagem, que o mesmo se passa em muitos países europeus. Portugal está a fazer esta mudança e isso também é outro pormenor interessante que outro dia um amigo meu, o Manuel Caldeira Cabral, me referiu, e é o outro lado interessante. Nós fizemos este recálculo e isso provavelmente é possível, não sabemos, veremos no fim, é possível que tenha algum impacto no ranking de Portugal no PIB per capita dos vários países europeus. Mas a verdade é que ainda há vários outros países que ainda não adotaram esta nova metodologia do cálculo da população. Quando esses outros países também adotarem esta nova metodologia, vão ter de fazer os mesmos cálculos. O que é engraçado, e esses verão o seu PIB per capita provavelmente a baixar ligeiramente. Tudo isto é engraçado e reforça um bocado a mensagem que eu tenho estado a passar.

A tua teoria da pizza.

Sim, mas é aquela imagem que eu acho que o INES teve mal ao fazer esta correção sem corrigir tudo o resto. Ou então tinha ter deixado muito claro que ainda falta corrigir tudo o resto e pedir às pessoas paciência, sendo que aqui a paciência é quase um ano, para fazerem comentários mais substanciais.

Vamos aqui a outra pergunta, neste caso do Pedro Sousa. Esta primeira foi nos enviada pelo Pedro Veiga, agora vamos à pergunta do Pedro Sousa. Vou tentar aqui resumir um pouco. Diz ele que, de um modo geral, a taxa de crescimento económica portuguesa tem estado abaixo da inflação, o que significa um crescimento real negativo, diz o Pedro Sousa. O mesmo acontece com a economia da União Europeia e da zona euro. Porém, os governantes gostam de esconder esse facto, divulgando apenas o valor do crescimento económico, escreve ainda o Pedro Sousa. Caso isto se confirme, como é que as autoridades europeias e portuguesas não são confrontadas pelos especialistas em economia com este facto, uma vez que é um dos principais indicadores da qualidade da governação? Ora, temos aqui um grande especialista em economia, Luís.

Epá, não, isto aqui é chato. Estamos aqui a usar esta pergunta quase de forma pedagógica, digamos assim. O ponto de partida é errado. Quando se diz que Portugal cresceu, agora já não me lembro onde é que foi o ano passado, mas pronto, vamos admitir 2%. Quando se diz que Portugal cresceu 2%, estamos a falar da taxa de crescimento real do PIB, ou seja, para além da inflação. Ele está aqui enganado. Se a inflação foi, imaginem, 2,5% e dizemos que o crescimento real foi 2%, isso quer dizer que o crescimento nominal da economia como um todo foi de 4,5%. As contas não são exatamente assim, mas são aproximadas. Essa correção já está feita.

Desconta o valor da inflação já.

Desconta o valor da inflação. Isso é um exercício que é feito mantendo os preços constantes. Uma pessoa compara o PIB de um ano. O que é o PIB? O PIB é basicamente tudo que é produzido vezes os preços daquilo que é produzido. Tudo que é transacionado vezes os preços. E o que se faz quando se compara o PIB de um ano com o do ano anterior é manter os preços iguais aos do ano anterior e ver quanto é que é o aumento mantendo os preços iguais. Esse efeito está descontado. A economia real tem crescido, os salários reais têm crescido de uma forma geral desde 2013, desde o vale, o pico da crise, digamos assim, dos tempos da Troika, desde essa altura, que a nossa economia tem se portado muito bem e tem se portado muito bem atravessando vários governos, apanhando ainda os últimos anos de Passos Coelho, os da Geringonça, tirando a da época da Covid, claro, e mesmo agora, apesar de tudo, não está péssima, não está mal.

Obrigado, Luís. Luís Aguiar Conraria foi o membro do painel escolhido esta semana para responder aos ouvintes. É muito fácil fazer perguntas ou comentários aos membros do painel do Fora do Baralho. Basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt. As respostas são dadas aos domingos na rádio e claro, também ficam disponíveis em podcast. Eu sou o Ricardo Conceição. Bom fim de semana.