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O nível de adesão no conjunto do país à greve geral é inexpressivo.

É talvez a maior greve geral de todos os tempos.

A parte que está a exercer o seu legítimo direito à greve é a parte minoritária, a parte largamente majoritária está a trabalhar.

Em que ficamos, afinal? As expressões podem rimar, mas qual é a mais correta? Inexpressiva ou massiva? A greve geral desta quinta-feira, a primeira em 12 anos, a juntar UGT e CGTP, vai ser a jogada da semana. Hoje não podemos contar com a Susana Peralta, nem com o Luís Aguiar Conraria, mas já estão fora do baralho o Jorge Fernandes e o Nuno Garoupa. Precisamente nesta semana de greve geral, a revista The Economist classifica Portugal como a economia do ano 2025. Seria a carta do Luís, que acabou por não estar conosco, mas gostava de te ouvir sobre isto também, Nuno Garoupa. O que ajuda a explicar esta distinção e o desempenho econômico de Portugal e em que medida é que isso tem o dedo do governo, ou se o mérito é dos agentes sociais e econômicos, das empresas e dos trabalhadores?

Eu acho que aqui nós temos que distinguir o que diz a revista Economist do que é a realidade, porque o que a revista Economist tem é um conjunto de indicadores que sinceramente olham para uma realidade muito parcial. E note-se que desde que existem esses indicadores, as economias que segundo o Economist são exemplo, são as economias do sul da Europa, o que é algo curioso, consistente, obviamente, com a estagnação da Alemanha e de França, mas dizer que os milagres econômicos são Portugal, Espanha, Itália e Grécia nestes últimos cinco anos, é um pouco perigoso para a União Europeia, porque se esses quatro países são um milagre econômico, então a União Europeia está numa situação muito complicada. Dito isto, são boas notícias para Portugal, são boas notícias que refletem um desempenho da economia portuguesa acima da média das outras economias europeias. Se há mérito, esse mérito deve-se obviamente ao anterior governo e ao atual governo. Agora, reflete e continua a refletir um crescimento bastante medíocre, porque dizer que 2,5% ou 2,3% ou 2,7% é um grande crescimento econômico, nominal ainda por cima, nesse indicador que está a ser usado pelo Economist, quando nós sabemos que em relação à média europeia, nós estávamos em 85% há 25 anos e continuamos em 85% 25 anos depois, isso, de facto, é dizer que o copo está meio cheio, quando o copo pode estar meio vazio. Claro, entende-se perfeitamente que o governo tenha feito uma festa, porque vamos ser sinceros, já houve indicadores no passado semelhantes e o Partido Socialista fez uma festa e a AD criticava. E agora a AD faz uma festa e o Partido Socialista critica. Isso parece-me que é a política corriqueira e não vejo aí também grande alteração daquilo que é esperado dos partidos políticos.

Pois, é que este governo, aliás, é o segundo governo de Luís Montenegro, um ano e meio de governação de Luís Montenegro, mais ou menos. Jorge Fernandes, a reação do primeiro-ministro, que associou esta distinção da Economist à dinâmica do mercado laboral, curiosamente, o mercado laboral que quer reformar agora e promete também reforçar a competitividade de Portugal. Há um ano e meio, Luís Montenegro, Joaquim Miranda Sarmento, eram bem mais pessimistas sobre o estado da economia e também das contas públicas. Tem propriedade Luís Montenegro em associar esta distinção ao mérito do governo, ou pelo menos de forma exclusiva?

Olá, Vanessa, olá, Nuno. Bem, a primeira pergunta que deveria ser feita a Luís Montenegro, depois desta distinção da Economist e depois desta afirmação que ele fez, foi: se o mercado laboral está tão bem, a economia está a funcionar muito bem, se estamos em pleno emprego pra todos os efeitos, estamos a crescer, apesar de ser de forma medíocre, como disse o Nuno, quer dizer, as coisas são o que são, Portugal continua a ter um salário mínimo de 900 € e um salário médio que não ultrapassará os 1.800, 2.000 € por mês, penso eu. E, portanto, a pergunta que deve ser feita ao primeiro-ministro é: à luz desta festa que ele próprio está a fazer, e o governo, e que de resto qualquer governo faria, tenho a certeza absoluta que um governo do Partido Socialista faria exatamente a mesma coisa. Mas à luz disto, por que é necessário fazer uma reforma da lei laboral? Porque geralmente há aquele ditado inglês que se diz: se está a funcionar, não vale a pena mexer. Se não está partido, não vale a pena mexer. Portanto, pra que fazer essa reforma da lei laboral e por que é necessário mudar algo que ele próprio diz que o mercado laboral está pujante? E é evidente, quer dizer, vamos ser honestos, assim como Eu vou dizer uma coisa que talvez seja um bocadinho politicamente incorrecta. Assim como António Costa não teve o mérito de pôr o país a funcionar, Montenegro também não tem o mérito geral. Isto é um mérito continuado e que é ao longo do tempo. António Costa, quando chegou ao governo em 2015, beneficiou, e muito, de Passos Coelho ter arrumado a casa. Apesar de não ter feito reformas estruturais, infelizmente, arrumou a casa sob um conjunto de pontos de vista e sob um conjunto de indicadores. E a verdade é que a economia portuguesa, praticamente desde 2013, há ali um momento de viragem durante a implementação do programa da Troika, que sublinho, agora até há uma certa ironia histórica, porque na altura, uma grande parte do Partido Socialista e até pessoas do PSD, por exemplo, estou-me a lembrar agora do mais recente apoiante de Marques Mendes, Pacheco Pereira, muita gente na altura dizia que se Portugal não renegociasse a dívida, era o fim e Portugal rapidamente seria um país medieval e iríamos passar para a Idade Média. Bem, e a verdade é que desde 2013 a economia deu a volta, fundamentalmente por um conjunto de fatores exógenos, que não foram particular mérito de Passos Coelho, não foram particular mérito de António Costa, nem são particularmente mérito de Luís Montenegro. E enquanto o exterior continuar a correr bem, bem por um lado e mal por outro, para nos permitir esta comparação positiva, certamente teremos mais distinções, mas quando os países europeus, esperemos nós, voltarem à carga, nós voltaremos a ser o patinho feio da Europa.

Vamos agora à próxima carta. Enquanto vemos o governo com uma urgência em fazer reformas, há questões que continuam pendentes. Os ouvintes do "Fora do Baralho" sabem muito bem que Nuno Garoupa está sempre atento aos cargos, às nomeações. Ora, soubemos esta tarde que as eleições para o Tribunal Constitucional, Conselho de Estado e Provedor de Justiça estão oficialmente adiadas para o próximo ano, algo que já aventavas. O prazo terminava hoje, mas não chegaram nomes propostos pelos partidos à Assembleia da República. Podemos começar por aqui, porque ainda queres falar depois de outra entidade que também tem aqui uma nomeação pendente.

É verdade. Não é uma notícia surpreendente. Eu sempre vinha a aventar a hipótese de que isto seria decidido depois das presidenciais, pela simples razão óbvia que o PSD não quer mostrar com quem é que se vai entender para estes órgãos e, portanto, está adiado.

Não quer mostrar que será com o Chega, é isso?

Ou com o PS, tem duas noivas e não pode casar com as duas, não pode ser bígamo. E quando escolher uma noiva, a outra vai ficar incomodada e não vai gostar, como é evidente, seja uma noiva mais rosa ou uma noiva mais chegana, a verdade é que a coisa vai ter implicações. Apenas uma ressalva aqui, vou acrescentar algo curioso, é que hoje também há uma notícia de que há um conjunto de juristas reputados, e com alguma razão, que pedem à Provedora de Justiça, em carta, que solicite ao Tribunal Constitucional um pedido de verificação de constitucionalidade para declarar a inconstitucionalidade das averiguações preventivas, dizendo que isto não tem cabimento na nossa Constituição e nosso ordenamento jurídico. O curioso dessa carta é que vai endereçado a uma provedora ou a um provedor que não existe. E temos esta curiosidade de continuar tudo a fingir que está normalizado, quando obviamente, não havendo provedora nem provedor, esta carta terá que ser reenviada aos juristas dizendo: "Não há ninguém para tratar disto na Provedoria de Justiça", porque evidentemente o lugar está em aberto.

A carta que trazes é de paus, também para uma nomeação que está pendente, porque o mandato do presidente da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos terminou há quase um ano e o governo, surpresa, ainda não nomeou o novo líder. Surpresa pra ti, porque de facto tens estado sempre atento a isso.

Exato. Não é grande surpresa, mas deixa-me fazer duas ressalvas, até porque alguns dos nossos ouvintes apreciam estas ressalvas. Primeiro, a bandalheira com os reguladores vem do Partido Socialista. Portanto, eu não estou a dizer que a bandalheira da AD é má e que a bandalheira do PS era boa. Não. A bandalheira vem do Partido Socialista, muito grande mesmo, na altura foi criticada e continuou. Segundo, todos os membros deste programa, vocalmente e abertamente, criticamos a nomeação de Mário Centeno para o Banco de Portugal há cinco anos. Para ficar muito claro que principalmente todos nós fomos contra essa nomeação, porque era uma porta giratória. Por que isso tem a ver com a ERSE? Porque o problema da ERSE não é apenas a bandalheira, é uma bandalheira que um ano depois o lugar continue em aberto. O problema é que depois, infelizmente, a ministra da tutela, pessoa que aliás muito prezo e por quem tenho alguma admiração, porque sempre pareceu uma pessoa bastante competente pelos lugares onde passou, a ministra Maria da Graça Carvalho, afirma algo extraordinário, que é: não é prioritário, porque o governo entende que o regulador que está neste momento, já há um ano à espera de ser substituído, está a fazer um bom trabalho. Ora, isto é o que está errado nesta bandalheira. Portanto, quando gostamos de quem lá está, à margem da lei e contra o espírito da lei, deixamos ficar. Quando não gostamos, como era o caso do Banco de Portugal, vamos imediatamente substituir. Ora, isto é exatamente o que está errado neste sistema. Os reguladores são independentes, cumprem os seus mandatos e como em qualquer outro país europeu Nós sabemos um ano antes de terminar o mandato, quando terminam. Portanto, os governos tratam da sua substituição a tempo. Não é: ficam em regimes paralegais, porque são regimes de extensão de mandato, regimes de substituição, pessoas que a gente gosta e depois os que a gente não gosta, vamos imediatamente substituir. Isto é a perversão do Estado regulador e acho que estamos num estado já de bandalheira bastante preocupante nesta matéria.

Vamos para a última carta desta primeira parte, de espadas, Jorge, para o risco que corre o interior de Portugal, oito distritos, quase metade do país pode ficar sem distribuição de jornais.

Sim, isto para mim que sou um colaborador, e com muito gosto, do Observador, que é um jornal completamente eletrónico, mas eu sou um consumidor ávido de papel e acho que isto realmente é uma notícia muito má e muito triste ao mesmo tempo. Embora, por um lado, Portugal sempre teve taxas de leitura muito baixas. Há uma frase clássica do António Barreto sobre isto, porque o António Barreto a dada altura chama a atenção para o facto de Portugal ter sido o único país europeu onde a televisão chegou antes da total alfabetização da população. Isto significa que uma bela parte da população nunca chegou a utilizar o mecanismo da leitura como fonte primordial de informação. Havia muita gente que simplesmente não sabia ler e quando apareceu a televisão, passou o estádio de modernização e desenvolvimento diretamente, supõe-se, de saber informação através de amigos ou das redes sociais por onde se movia, para diretamente para a televisão. Portanto, os hábitos de leitura nunca foram verdadeiramente incorporados por uma bela parte da população.

E agora com a digitalização e com a cobertura de internet, em grande parte do país, é possível ver notícias online.

Exatamente, em grande parte do país os índices de leitura são baixíssimos, não vale a pena sequer ir para o interior. O número de vendas dos jornais em papel em Portugal são números extremamente baixos. Mas eu gostava de chamar aqui a atenção para uma coisa, que é o seguinte: a culpa não é só dos consumidores, se quisermos. Tirando raríssimas exceções, os jornais em papel em Portugal são coisas muito mal feitas em relação especialmente ao que era no passado. Nem estou sequer a comparar com Bíblias internacionais como o Financial Times ou a New Yorker. Basta comparar, por exemplo, como os nossos ouvintes sabem, eu moro em Madrid, comparar qualquer jornal diário em Portugal com o El País ou o El Mundo, estamos a anos-luz. Antigamente havia um conjunto de suplementos culturais em Portugal que tinham uma certa pujança, havia jornais bem feitos. Eu vejo isto como mercado, quer dizer, os consumidores consomem pouco, o que leva no fundo as empresas a fazer com que haja uma bela parte do país que não é economicamente viável, mas também há uma culpa. Isto é um problema do ovo e da galinha. Há uma culpa, porque há muito mau jornalismo, que também não tem condições para ser feito, mas está aqui um problema. E isto é dramático para Portugal, porque de facto a ideia de que uma democracia pode sobreviver sem jornais, sem jornalismo e sem escrutínio, ou que uma democracia pode ser forte sem bons jornais e sem um bom escrutínio, é realmente impensável. E portanto, é uma pena que esta parte do país venha a ficar sem jornais. O governo já veio dizer que não dá subsídios ou cheques em branco, acho que foi essa a expressão, a empresas monopolistas. E eu, por um lado, compreendo isso, mas, por outro lado, também compreendo que se há subsídios para tudo.

A empresa em causa é a VASPE, que é a partir de lá que deixa de distribuir.

Claro, mas se há subsídios para tudo e mais um par de botas, inclusive houve, por exemplo, 3,5 mil milhões para salvar a TAP, quando a TAP é uma empresa concorrencial, que vive num mercado concorrencial e os portugueses não deixariam de poder apanhar um avião para irem para o estrangeiro. Quer dizer, passar um cheque de tostões, literalmente, para que a população do interior consiga ter jornais e revistas em papel, para mim seria importante.

Fica aqui esta tristeza e este desagrado do Jorge Fernandes. Na jogada da semana, já a seguir. Vamos à greve geral e lá vou voltar às rimas, se a reforma laboral do governo tem ou não pernas para andar. Jogada da semana no Fora do Baralho. O governo vai ou não ser obrigado a ceder na concertação social depois da greve geral desta semana, ou já está a contar com uma mãozinha do Chega no Parlamento, se não conseguir acordo com os parceiros sociais. Entretanto, André Ventura já veio dizer que o pacote laboral, tal como está, merece o voto contra do Chega. Mas já lá vamos. Vamos começar pelos factos que têm significado político. É a primeira greve geral em 12 anos, a primeira desde os tempos da Troika, a juntar as duas principais centrais sindicais. Milhares de pessoas saíram à rua na quinta-feira. Há sempre a tradicional guerra de números entre governo e sindicatos, mas, Nuno Garoupa, há razões para uma avaliação tão discrepante da adesão a esta greve geral. É inexpressiva pelo que diz o governo, é uma das maiores, talvez a maior de sempre, pelo que diz a CGTP.

Eu acho que tradicionalmente há sempre estas divergências e eu acho que nós podemos sempre fazer os números médios entre a média do que diz o governo, este ou outro governo, e a média do que dizem as centrais e o valor das centrais sindicais. Mas parece-me que contudo aqui, e ao contrário do que ouvi alguns outros comentadores dizer, parece-me que aqui, neste caso, isto correu bem aos dois lados, ou seja, na minha opinião, os dois lados estiveram mobilizando aquilo que é a sua parte Da sociedade portuguesa. A esquerda precisava desta greve geral, porque a esquerda está com um problema eleitoral muito grave, como é evidente, o Partido Socialista é o terceiro partido parlamentar e a esquerda no seu todo soma 35% e provavelmente vai ter um resultado muito mau nas presidenciais, ao que tudo indica nas sondagens, e precisava de encontrar algum respiro na sociedade portuguesa e encontrou. Há uma parte da sociedade portuguesa que obviamente não se revê neste pacote laboral e que eventualmente não se revê neste governo, e essa parte da sociedade portuguesa respondeu à greve geral. Por outro lado, há uma parte da sociedade portuguesa que não gosta da greve geral, que acha que o país precisa de mais competitividade, independentemente de concordar ou discordar de sermos neste momento a melhor economia do mundo, como diz o primeiro-ministro, e esse país também respondeu em parte e identificou-se com os apelos que o governo teve feito ao longo do dia de que isto era fundamentalmente os mesmos de sempre a criarem confusão, enquanto o setor privado, motivado, trabalhador, foi trabalhar no dia da greve geral. E nesse sentido, acho que os dois lados saíram bem da greve geral, mas sem alterar drasticamente os seus problemas, como já vamos falar. Eu acho que o governo está numa posição igual à que estava antes da greve geral. Não tem parceiros parlamentares para aprovar esta legislação, de momento, e a esquerda também está como estava antes da greve geral. Teve um respiro, mobiliza, mostrou que existe, mas isto não se vai traduzir em votos na esquerda e no candidato presidencial da esquerda, com o qual não é claro que repercussões é que isto possa ter a médio prazo.

Mas o governo está igual também do ponto de vista social, para lá do ponto de vista político?

Eu penso que está igual, porque o governo tem o apoio de 30% da população portuguesa. Nós temos que estar sempre a lembrar, isto é um governo minoritário e mais minoritário da nossa história. Tem 30%, tem pouco mais de 1 milhão e meio de votos. Portanto, é normal que haja muita gente na sociedade portuguesa que não se identifica com este governo e que se mobiliza com uma greve geral contra este governo. Se o governo tivesse 50%, se fosse um governo de maioria absoluta, como no tempo de Passos Coelho, como no tempo de José Sócrates, como no tempo de Cavaco Silva, aí, sim, a greve geral é um problema porque choca com uma maioria absoluta. Aqui não, este é um governo hiperminoritário, hiperminoritário antes, hiperminoritário depois da greve geral.

Jorge Fernandes, a um dia da greve geral, Luís Montenegro tinha desvalorizado logo o apoio à paralisação, que ainda não sabia qual é que ia ser, e disse isto, o primeiro-ministro. Vamos aqui escutar.

Não vale a pena andar com esse jogo, com a sondagem aqui, ou amanhã vamos andar seguramente com números aqui ou acolá. Não é isso que interessa. O que interessa é que Portugal é um país onde os rendimentos estão a crescer, os jovens têm mais oportunidades hoje do que tinham há uns anos atrás, onde as perspectivas de investimento são elevadas, a credibilidade e a reputação são elevadas. Estamos mesmo no topo da Europa e do mundo. É preciso dizer isto com tranquilidade. Não é com soberba, nem é com euforia, é com tranquilidade.

Jorge, não vês nem soberba, nem euforia neste comentário do primeiro-ministro?

Absolutamente nenhuma. Nem eu, nem os dois milhões de pobres, depois de transferências sociais, que vivem em Portugal, 20% da população. Portanto, qual soberba? Portugal é o melhor país do mundo, é e será até o seu desaparecimento final, o slogan que deveria estar montado no meio do centrão PS e PSD e de alguma classe média em Portugal que gosta de ouvir constantemente o seu narcisismo coletivo, a ideia de que Portugal é o melhor país do mundo. Isto não tem a mínima adesão à realidade. Eu acho que o Nuno estava a falar, quer dizer, disse perfeitamente aquilo que era correto. O Montenegro tem um governo minoritário e é preciso lembrar que, apesar de tudo, bem, o Partido Socialista claramente votará contra o pacote laboral. Mas quanto ao Chega, se André Ventura tiver os instintos políticos que eu presumo que ele tem, o André Ventura é um bom político e é um político com uma grande capacidade de perceber por onde o vento está a soprar, ele saberá certamente que uma bela parte do seu eleitorado é eleitorado que vem de estratos sociais que serão diretamente afetados, e é isso que nos mostra, os retratos pós-eleitorais do Chega mostram-nos que há uma bela parte do eleitorado do Chega que será necessariamente afetada por este tipo de medidas de pacote laboral.

Ia só dizer que sendo que André Ventura utilizou exatamente a mesma expressão para momentos diferentes. Classificou de erro esta greve geral e associou-a à extrema-esquerda quando foi anunciada, e agora diz que o erro, quem o cometeu foi o governo com este pacote laboral.

Eu sinceramente acho que o governo subestimou a reação que esta lei parece, posso estar enganado, subestimou a reação que este pacote laboral, que esta mudança teve. É evidente que, enfim, o Nuno já disse isso, e bem, quer dizer, a esquerda, independentemente da mudança do pacote laboral ser maior ou menor, a esquerda precisaria sempre disto para fazer uma prova de vida. Isto não vale a pena. Quando o Luís Montenegro, muitas pessoas na área deste governo dizem isso, estão absolutamente corretas. A esquerda está a utilizar a greve, a CGTP, enfim, está a utilizar um conjunto de mecanismos que são legítimos de representação e de capacidade de canalização de certas preferências políticas que existem na opinião pública Agora, se isto é verdade, não deixa de ser verdade também que um governo minoritário está a tentar fazer aprovar um código laboral que tem mudanças que, para além do governo não ter o mandato para isto, quer dizer, inequivocamente, nada disto foi discutido durante a campanha eleitoral, não aparecia nos programas parlamentares. Falava-se vagamente no programa de governo de fazer um código de trabalho moderno, mas isto é uma coisa de tal maneira genérica que pode ser tudo e o seu contrário. E eu acho que o Luís Montenegro subestimou. Ele pensou que isso ia passar quase entre os pingos da chuva e que ia colocar essas mudanças todas à consideração do Parlamento e que muito provavelmente o Chega aprovaria isto sem grandes considerações. E acima de tudo, aquilo que me deixa ainda perplexo nesta matéria do código do trabalho, é que eu ainda não percebi genuinamente qual é a motivação do governo para fazer isto, porque popular isto não é, certamente. Quer dizer, não há grandes votos a ganhar ao fazer este tipo de mudança laboral. Portanto, não há qualquer tipo de intencionalidade de vamos fazer isto para ganhar este segmento do eleitorado ou para agradar. A única explicação que eu encontro, de facto, é tentar agradar a uma certa componente da economia portuguesa, que seria a componente, de resto, mais atrasada. O ministro Fernando Alexandre, antes de ser ministro da Educação, economista destacado, como sabemos, ele às vezes escrevia nos jornais e em blogs, no fundo, dizia que se há empresas que precisam de certas disposições de códigos de trabalho que sejam de tal maneira miserabilistas, Portugal não precisa dessas empresas. Isto é um bocado o racional que eu acho que é correto, que é se alguma empresa precisa deste tipo de código laboral, que está a desproteger completamente os trabalhadores para ser viável economicamente, essa empresa, então, na minha opinião, mais vale fechar e precisamos que a destruição criativa, que é algo que eu espero que algumas pessoas neste governo acreditem, faça o seu trabalho.

Para quem só chegou agora ao Fora do Bralho, nesta segunda parte de hoje, não podemos contar com a Susana Peralta nem com o Luís Aguiar-Conraria, mas estamos aqui muito bem representados pelos azuis Jorge Fernandes e Nuno Garoupa. Nuno, olhando para o que se segue, a próxima fase, a ministra do Trabalho, Maria Rosário Ramalho, já convocou a UGT para uma nova reunião na próxima terça-feira. Depois desta greve geral e do que foi dito nesta greve geral, a negociação está mais difícil deste braço de ferro, sim ou não? A UGT tem duas linhas vermelhas, a questão do banco de horas individual e também a flexibilização do regime de outsourcing que o governo quer fazer, portanto, a contratação externa de serviços. Um ano depois de um despedimento coletivo, não é possível as empresas com a lei atual fazerem essa contratação. O que esperas agora para esta próxima fase?

Eu penso que o problema do governo agora, como aliás estamos todos aqui a dizer, é um problema de negociação, porque o pacote como está, não passa. Isso já está evidente. E não passa, insisto, porque o governo não cuidou de negociar ou com o Partido Socialista, ou com o Chega, ou com os dois ao mesmo tempo, antes de apresentar o pacote. E portanto, o governo neste momento tem o seguinte problema: ou o governo decide deixar cair o pacote no seu todo, porque entende que não há condições para avançar com esta reforma.

Mas isso seria assumir uma derrota política que dificilmente poderá conceder.

Não é necessariamente uma derrota política, seria um argumento que poderia até ser transformado numa vitória política, dizendo: aqui está porque é que precisamos de maioria absoluta e aqui está porque é que nas próximas eleições os portugueses têm que nos dar maioria absoluta, porque quando nós queremos fazer reformas a sério, o Partido Socialista e o Chega impedem essas reformas.

Ou seja, dar um passo atrás na perspectiva de dar depois duas à frente.

Exato. Isso depende da narrativa e do spin que o governo fizer, mas eu acho que dar um passo atrás pode ser apresentado como uma vitória em termos de carta eleitoral. A outra alternativa, como eu digo, é tentar salvar este pacote, mas agora não está muito claro com quem, porque o Partido Socialista, depois desta greve geral, também tem menos margem para aproximar-se da AD, com a agravante, que eu já disse neste programa várias vezes, que me parece que é o Partido Socialista não pode ser visto como a bengala permanente da AD, porque isso é um problema para o Partido Socialista. Voltar a ser a bengala no pacote laboral, é possível que a UGT pudesse, de alguma forma, fazer a ponte entre o PS e o PSD e tentar de alguma forma resolver estes problemas, vejo muito complicado depois da greve geral. O Chega também está numa posição curiosa, é que estamos a um mês das eleições presidenciais e André Ventura tem que mobilizar o seu eleitorado. André Ventura não pode ser, neste momento, a bengala deste pacote, porque isto tem implicações diretas nas eleições dentro de um mês, que há uma parte do seu eleitorado que não gosta destas reformas. E infelizmente para a AD, a iniciativa liberal, que ainda não percebi muito bem se é uma posição favorável, semifavorável, semicrítica, porque já ouvi várias intervenções, quer do candidato Cotrim, quer da líder da IL, quer de outros deputados da IL um pouco confusas. Para mim não é muito claro qual é a posição da IL neste momento, mas a IL não soma com a AD. Portanto, neste momento, eu acho que o governo está um pouco cativo daquilo que foi a sua própria tática, que foi apresentar o pacote, em vez de ter chamado o PS e a IL, ou a IL e o Chega, e tentar apresentar isto como um pacote já negociado com esses partidos. Portanto, do meu ponto de vista, sobram dois caminhos: ou um passo atrás e dizer: isto é a prova pela qual precisamos de uma maioria absoluta nas próximas eleições e os eleitores de direita que votaram Chega, IL desperdiçaram o vosso voto e venham votar na AD para podermos fazer estas reformas, ou tentam um consenso através da UGT com o Partido Socialista ou eventualmente mais tarde com o Chega, algo que já vai coxo e em que terá que cair muitas destas medidas simbólicas que a ministra disse que eram tão importantes.

E tendo em conta o calendário em que estamos, esta questão da reforma laboral vai agora também afetar o próximo ano, um próximo presidente da República, e temos os candidatos presidenciais a posicionarem-se também quanto a este pacote laboral. António José Seguro desafiou esta sexta-feira o primeiro-ministro a retirar a proposta. Já Marques Mendes pede cedências. Cedências também têm pedido outros candidatos, negociação. Gouveia e Melo, por exemplo, tem falado também sobre isso. Jorge Fernandes, que avaliação é que fazes deste posicionamento por parte dos candidatos presidenciais, sendo que alguns marcaram presença nas manifestações ontem, outros não?

Eu acho que para alguns candidatos presidenciais, a greve, a mobilização em geral política e no fundo a ativação política do seu campo, especialmente da esquerda, estou a falar da esquerda, da extrema-esquerda, naturalmente que isto são boas notícias. Para António Filipe, para Catarina Martins, Jorge Pinto não, porque o eleitorado do Livre não está propriamente metido em grandes aventuras sindicais. Mas pelo menos para o Bloco de Esquerda, para o PCP e até para o próprio António José Seguro, esta capacidade da esquerda mostrar que está viva, dar uma prova de vida face a uma direita que é tão hegemônica sob o ponto de vista parlamentar, é evidentemente um bálsamo para eles, embora eu tenha muitas dúvidas que na prática se acabe por traduzir em votos nas presidenciais. O candidato para quem isto poderá ser mais complicado de gerir é Marques Mendes, porque é o candidato do governo, quer ele queira, quer não, e portanto, tudo o que acontece de bom e de mau ao governo refletir-se-á naturalmente na sua votação, embora não diretamente, não numa lógica de um para um. E portanto, eu acho que Marques Mendes é quem está na posição mais delicada aqui. Mas apesar de tudo, acho que ele tem sabido e conseguido manobrar relativamente bem. Não o vi até agora em nenhuma intervenção pública a ficar apertado, se quisermos, quando é confrontado com esta questão da greve geral e da reforma laboral. Ele sabe sempre e consegue sempre dizer: "é importante fazer". Ele defende a posição do governo, mas é sempre relativamente crítico, até porque o Marques Mendes, como sabemos, um dos principais problemas e uma das principais críticas que lhe são apontadas pelos adversários é o fato de ele estar intimamente ligado a Luís Montenegro, intimamente ligado a uma certa facção dentro do PSD, e naturalmente há muita gente que o acusa, nos debates, por exemplo, muitos dos seus adversários, da possibilidade de ele ir para Belém e ser a mão por trás do arbusto, mas ao contrário, ajudar continuadamente o governo e a dar um apoio a Luís Montenegro, como lembrou o Nuno de início, tem um governo muito minoritário. Portanto, ter um presidente da República cooperativo, ajudante, compreensivo, será naturalmente muito benéfico para o governo.

Pode esta reforma laboral e esta tensão a que assistimos ontem, que temos assistido nas últimas semanas, Nuno Garoupa, ter aqui influência também nas presidenciais?

Eu penso que influência tem. A questão é que neste momento não é muito claro ainda exatamente porque os três candidatos mais partidários, vamos dizer assim, Marques Mendes, António José Seguro e André Ventura, nas sondagens, não fazem o pleno dos seus partidos. Todos estão bastante abaixo do pleno do seu partido. Portanto, há aqui eleitorados que claramente votaram AD, PS e Chega, que não se reveem nos candidatos apoiados por esse partido. Em parte porque obviamente há uma candidatura não partidária, mas em parte porque há oscilações. E nesse sentido, a reforma laboral, com notícias que vamos ter esta semana, vamos ver o que acontece com a averiguação preliminar à empresa do primeiro-ministro, vamos ver mais notícias até às eleições, podem ter algum impacto nestas oscilações que explicam limitações, neste momento, das sondagens que nós de facto não sabemos.

Sim, pois. O procurador-geral da República falou numa prenda de Natal sobre essa questão da CPI não viva até ao Natal. Vamos ficar por aqui no "Fora do Baralho" de hoje. Todas as sextas-feiras depois das 19h00 na Rádio Observador, aqui estamos. Também ao domingo de manhã, por volta das 08h45, respondemos às perguntas de quem nos escreve para foradobralho@observador.pt ou por WhatsApp. O número é o 910024185. Também podemos receber áudios, portanto estejam à vontade. Esta semana, o Jorge Fernandes é que vai responder e vai ser a um ouvinte que votou no partido de André Ventura nas legislativas, vai votar em António José Seguro nas presidenciais, mas admite voltar a votar no Chega numas próximas eleições legislativas. É uma reflexão para ouvir em podcast no domingo, esta edição extra. Eu sou Vanessa Cruz. Até lá.