Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Usando uma velha expressão da política nacional, Pedro Passos Coelho anda por aí e continua a ensombrar Luís Montenegro, o governo, e a apelar a reformas e mais reformas, mas parece que esta postura pode estender-se aos socialistas, com Mário Centeno a fazer questão de aparecer e de ocupar espaço no contexto político nacional. Estas duas aparições ficam para a jogada da semana, na segunda parte deste episódio. Este é o "Fora do Baralho", eu sou a Inês André Figueiredo e tenho comigo os ases Jorge Fernandes, Luís Aguiar-Conraria e Susana Peralta. Esta semana fica apenas a faltar-nos o Nuno Garoupa. Luís Aguiar-Conraria, começamos por ti. Trazes espadas e vais dá-las a Carlos Moedas, que esta semana foi muito comentado, muito criticado nas redes sociais por causa de um texto de homenagem a Jorge Palma. Não sei se é por causa disso ou se as tuas espadas são pra outra coisa.
As espadas são pra outra coisa, mas também merecia as espadas por esse motivo. Fez um tweet, basicamente a confundir uma música icônica de Sérgio Godinho, que é o "Primeiro Dia", como se fosse de Jorge Palma, e depois fez um segundo tweet com uma desculpa esfarrapada, quando mais valia assumir o erro. A cidade de Lisboa não tem um presidente que aprecie muito a cultura associada à sua cidade, até porque várias vezes Jorge Palma cantou Lisboa e portanto podia ter aproveitado uma dessas músicas para fazer a sua homenagem. Mas pronto, é o que é. O motivo das minhas espadas volta a ser aquele tweet de há mais de um mês de Carlos Moedas, que tem a ver com aquela situação em Lisboa da turista que foi baleada. A turista foi baleada, houve uma pessoa que foi interrogada em tribunal e que depois foi libertada e Carlos Moedas fez um tweet a dizer que era inaceitável a decisão do tribunal de não manter a pessoa em prisão preventiva, dizendo, estou a citar: "Além do exemplo socialmente reprovável que se transmite, é também um sinal de falta de autoridade para as nossas forças de segurança. Como presidente da capital, repudio em absoluto terem libertado um criminoso". Isso são as palavras de Carlos Moedas há pouco mais de um mês. Ora, entretanto, outro dia apercebi-me, isso já aconteceu no início da semana passada, só que na semana passada não reparei nisso e, portanto, não incluí isso no meu naipe. Os suspeitos dos tiros já estão detidos, e estão em prisão preventiva. E o que é extraordinário, é que não era este que foi interrogado. Portanto, Carlos Moedas explicitamente apelou à prisão de uma pessoa inocente. Não há outra forma de interpretar isto. Alguém que a polícia não liga àquele crime, que o tribunal não liga àquele crime, já estão pessoas presas preventivamente por aquele crime, o presidente da capital de Portugal apelou a que ficasse presa. Isso é de uma gravidade extrema, e também quero aqui condenar muito os nossos jornalistas por não lhe perguntarem isto muitas vezes. Como é que é possível ele andar a passear sem que ninguém lhe pergunte: "Você ainda é a favor de prender um cidadão inocente?" Pelo menos do crime que é acusado, poderá ser culpado de outros crimes, como é evidente, sobre isso não sei. E dado que isto também já se passou há 10 dias, em que os outros potenciais criminosos, alegados criminosos, estão em prisão preventiva, Carlos Moedas já teve 10 dias pra escrever um tweet a retratar-se desta situação. E não o fez. Isto é de uma gravidade extrema, isto é mais grave do que 99% das coisas que André Ventura já disse e já fez, aquele ato policial do André Ventura e fanfarrão. Isto é inqualificável e portanto isto merece umas espadas muito pretas e acho que os lisboetas deviam ter vergonha do presidente da Câmara que têm.
Jorge Fernandes, tu escolheste ouros para António Costa, que esta semana foi repreendido, por assim dizer, por causa do próximo orçamento da União Europeia. Tens um naipe positivo, por quê?
Sempre. António Costa comigo é sempre naipes positivos. Não, eu acho que nós estamos a entrar numa fase muito importante na União Europeia, uma fase que vai ser decisiva, porque de facto vai ser a primeira vez que se vai discutir dinheiro a sério na União Europeia, nesta nova realidade, que é a realidade do mundo pós-Trump, a realidade do mundo pós-invasão da Ucrânia, porque a última vez que se discutiu os quadros comunitários de apoios, o orçamento europeu, digamos assim, foi em 2019, 2020, enfim, ali na altura da pandemia, o quadro comunitário depois entrou em vigor em 2021. E portanto agora realmente é a primeira vez em que estamos noutro mundo. E António Costa parece continuar a viver no mundo anterior. Eu percebo que é perfeitamente natural que ele tenha que fazer o papel dele, e o papel dele é puxar por um orçamento mais generoso e mais forte para a União Europeia, enquanto os Estados-membros têm, naturalmente, que fazer o seu papel agora No fundo, há limites para a vergonha e para pensar. E o António Costa pensava que as vacas voavam. Este aqui é o motivo pelo qual eu quero criticar António Costa. Em Portugal é fácil controlar a narrativa e dobrar a realidade quase aos desejos políticos de uma pessoa, porque faz-se meia dúzia de chamadas, os jornalistas e os comentadores amigos vão para a televisão fazer o que tem que ser feito, escreve-se meia dúzia de artigos nos jornais e os portugueses, os pequenos e médios intelectuais, acreditam que a realidade é aquilo que o doutor Costa diz que é. Agora, quando se está no mundo da alta política, de facto, a realidade não é aquilo que ele diz que é. E a realidade, neste momento, em muitos países europeus, é extremamente complexa, especialmente os países grandes estão com dificuldades. França está com umas dificuldades financeiras objetivas. A Alemanha está com problemas políticos fortíssimos e está economicamente diminuída, digamos assim, apesar de continuar a ser a Alemanha. E portanto, a situação da negociação é extremamente complexa e António Costa, apesar de tudo, eu acho que ele tem que fazer o papel dele, de representante coletivo da União, mas acho que tem que manter uma certa dignidade institucional do cargo para não dizer coisas que são completamente fora da realidade, literalmente. Quer dizer, dizer coisas que o possam envergonhar praticamente, porque está a falar de um mundo que não é o mundo real. Depois há outro problema, para além da questão desta dimensão dos fundos e do valor dos fundos, há a questão do tempo. Está a haver uma grande pressão, há uma sensação na Europa, especialmente por causa de França, que há muitas decisões que são importantes. A começar, por exemplo, o Banco Central Europeu, que há um rumor que Christine Lagarde vai sair para que seja ainda Macron a conseguir influenciar quem vai ser o sucessor no Banco Central Europeu. E, portanto, há aqui uma pressão extra para que as coisas fiquem fechadas rapidamente, que é para evitar que o ciclo político do próximo ano possa influenciar isto. E, portanto, António Costa estar com pedidos ou esperanças absolutamente irrealistas torna isto ainda mais difícil.
Temos aqui um trunfo a ser usado pelo Luís Aguiar Correria?
Sim, eu faço uma leitura diferente da do Jorge. Eu penso que à porta fechada, a maioria, senão quase todos os líderes dos países da União Europeia concordam com António Costa. E sabem que o orçamento da União Europeia tem que ser reforçado, sabem que tem de haver fontes de financiamento alternativas, sabem essas coisas todas e concordam. E de facto, tem um problema político. E o caso da Alemanha é óbvio. Aqui a contestação surge logo depois dos resultados nas últimas eleições alemãs, que deram avanços significativos à extrema-direita e também à esquerda radical. Mas todos ou quase todos concordarão com António Costa. Portanto, eu não acho que o António Costa esteja a viver fora da realidade. Acho até provável que este tipo de coisa e atirar essas coisas para cima da mesa, faça parte até de uma estratégia que esteja coordenada com alguns dos líderes desses países. Agora, evidentemente, cada um faz o seu papel e o papel dele é este.
Susana, também estás mais de acordo com o Luís ou com o Jorge?
Completamente de acordo com o Luís, como é óbvio. Eu diria até que precisamente porque o mundo mudou, ou seja, como o Jorge disse e bem, a União Europeia tem de se confrontar com o óbvio. Nós não vamos sobreviver neste mundo de superpotências e num mundo que terminou com o multilateralismo, com um orçamento que representa grosso modo 1% do rendimento nacional bruto da União Europeia. Quer dizer, o orçamento federal dos Estados Unidos é 23% do PIB americano. É claro, depois os orçamentos de cada estado representam menos do que entre 40 e 50% que representam os europeus. Portanto, tem que haver, obviamente, aqui uma reafectação das despesas. Não estou a dizer que devemos ter mais despesa europeia em cima das dos estados. Obviamente, o que tem a ver é uma transferência de responsabilidade para a União Europeia. Agora, nós não temos nenhuma hipótese a continuar a brincar com o orçamento de 1%. Quer dizer, isto é ter uns trocos ao pé de superpotências que estão a competir com outro tipo de dentes.
E vamos ficar em ti, Susana, que vais trazer copas para Nazaré Costa Cabral, presidente do Conselho das Finanças Públicas, que esta semana pediu responsabilidade aos atores políticos, numa altura que a discussão do orçamento do Estado está mesmo aí à porta.
Sim, a Nazaré Costa Cabral foi numa conferência de imprensa em que apresentou o novo cenário macroeconômico do Conselho de Finanças Públicas para a economia portuguesa. Que é um cenário que é até bastante positivo para 2026, mas começa a apontar algumas nuvens negras para 2027. É sabido, e aliás, o Luís já falou disso aqui há umas semanas, há uma pressão do aumento dos juros que é geral, ou seja, Portugal está relativamente protegido dessa pressão do aumento dos juros, porque de facto, as nossas contas públicas têm tido um desempenho bastante positivo nos últimos anos, mas é relativo, quer dizer que a nossa taxa de juro provavelmente vai aumentar menos do que a francesa, por exemplo, que o Jorge já aqui falou de França, mas não quer dizer que não aumente. Nós continuamos a ter uma dívida elevada, apesar de estar abaixo de 100% do PIB, isso tudo serem ativas notícias, e o que a Nazaré Costa Cabral vem aqui dizer é o óbvio, é que em face destas pressões para o aumento do custo de vida, das pressões em face do aumento do custo de vida e das pressões para mitigá-las, para termos políticas que mitiguem esse custo, não podemos continuar com esta ideia que vamos ajudar toda a gente. E eu aqui associo as minhas copas à Nazaré Costa Cabral e ao Conselho das Finanças Públicas, a paus para o governo, porque o governo não quer aceitar as medidas que a oposição sugere do IVA zero e de reduzir o IVA dos combustíveis, porque não são medidas dirigidas aos setores da economia que mais necessitam de ajudas. Isso é bom. Ainda bem que o governo resiste a essas pressões. Agora, responde com políticas que também não são dirigidas, porque baixar o IRS, não só baixa o IRS a toda a gente, como não dá mais disponibilidade de dinheiro a quem mais sofre com o aumento do custo de vida, que são as pessoas que não pagam IRS. E, por exemplo, a questão das pensões, o Jorge já aqui falou dela, mas eu vou repetir, é muito importante. Para já, o governo não está a ir necessariamente apenas às pensões mais baixas, está a ir a cerca de 50% dos pensionistas. Portanto, do ponto de vista relativo, não são apenas as mais baixas. E, por outro lado Não é porque se tem uma pensão baixa que se é pobre. É preciso olhar para todo o rendimento do agregado familiar, porque muitas vezes uma pessoa tem uma pensão baixa, por exemplo, porque viveu de rendimentos de capital ao longo da vida, e isso não tem mal nenhum, mas numa altura dessas o governo devia olhar para todas as famílias mais pobres, tanto as que têm pensionistas como as que não têm pensionistas, sobretudo as que têm crianças, e injetar dinheiro nessas famílias.
Fazemos agora uma curta pausa e voltamos dentro de momentos para a segunda parte do "Fora do Baralho", onde vamos falar de Passos Coelho e de Mário Centeno. Pedro Passos Coelho deixou de ser discreto e aparentemente está para ficar. Não se sabe muito bem é como, quando, de que forma. Nas últimas semanas escreveu um longo prefácio no livro "Portugal na Paz dos Bloqueios", de Pedro Gomes Sanchez, e em novembro vai apresentar propostas concretas para a governação num estudo com Sérgio Sousa Pinto e Nuno Botelho, que vai ser entregue tanto ao governo como ao Presidente da República. Vamos ouvir os nossos ases sobre isto. E começamos já pelo Jorge Fernandes. Jorge, como é que esta presença cada vez mais notória pode ser explicada?
Que pergunta tão difícil. É uma pergunta de facto difícil, porque para mim não tem explicação isto. Vamos tentar perceber o que é que se está a passar. Pedro Passos Coelho saiu do governo de Portugal numa situação muito peculiar, que foi a situação que todos sabemos o que é. E aqui temos que separar aquilo que poderá ser o seu ressentimento pessoal ou quaisquer sentimentos pessoais que ele possa ter quanto a isso, isso é um problema só dele, que não tem nada que ver conosco. E depois há a questão política. A minha leitura, pelo menos, é que há um grupo de pessoas em torno de Pedro Passos Coelho que embeleza aquilo que é o legado de Pedro Passos Coelho e a ideia de que Pedro Passos Coelho tem uma ideia para o país. Fundamentalmente, há duas ou três coisas. Em primeiro lugar, eu ouço Pedro Passos Coelho a dizer: "Bem, Montenegro não está a fazer reformas." Verdade. E Montenegro não está a fazer reformas suficientes, mas eu nunca ouvi a Pedro Passos Coelho uma ideia para o país, porque diz-se por aí, eu não sei exatamente muito bem, mas que Pedro Passos Coelho tem uma grande ideia para o país, que é a pessoa certa para o país, mas eu nunca percebi exatamente. Eu gostava de ver Passos Coelho sentar-se e explicar durante uma hora seguida, para além dos clichês, das bocas, dos inuendos que ele faz sobre Montenegro. E note-se que quem ouve o nosso programa sabe perfeitamente que eu não gosto de Montenegro, nem acho Montenegro uma pessoa minimamente capaz para ocupar o cargo que ocupa. Agora, também não acho Pedro Passos Coelho uma pessoa particularmente capaz. Criou-se o mito que ele salvou Portugal nos anos da Troika, etc. Não salvou Portugal. Quem salvou Portugal e quem resolveu a crise das dívidas, fundamentalmente, foi Mário Draghi em 2012, quando faz aquela declaração que é a partir dali que as coisas mudam e que os países que estavam na altura em intervenção, as coisas mudam. Não houve uma reforma estrutural no tempo de Pedro Passos Coelho, não há uma reforma. Eu gostava que me dissessem sinceramente: "Houve esta reforma de Pedro Passos Coelho e esta reforma realmente mudou o rumo do país." Não houve, não existe. Quer alguém que me diga, pelo menos, senão posso estar enganado. E portanto, eu acho que se criou aqui uma espécie de um sebastianismo em torno de Pedro Passos Coelho, que ninguém sabe muito bem porquê. Da minha opinião, não se percebe muito bem porquê. Não é alicerçada sequer numa governação especialmente boa. Pedro Passos Coelho foi, à falta de melhor termo, como se costuma dizer, um gestor de massa falida. Ele foi um gestor de massa falida. Foi tomando medidas, algumas delas não particularmente inteligentes, privatizou o que tinha que privatizar, algumas das privatizações foram um erro, de resto. Agora, a ideia de que Pedro Passos Coelho foi um homem reformista e que foi graças à sua ação que Portugal deu a volta e que as coisas começaram a encarreirar-se, não é verdade, simplesmente não resiste a um teste da realidade. E portanto, eu não consigo entender qual é o capital político, quais são as ideias políticas que Pedro Passos Coelho tem, que o tornam assim tão capaz para ser o salvador da pátria. Sinceramente, eu não acho Montenegro capaz, mas também não acho Pedro Passos Coelho particularmente capaz, muito honestamente. Há um conjunto de pessoas nos jornais, que são as viúvas negras do passismo, que têm este mito, esta ideia. Há outros dois pontos que eu vou terminar agora, que é: primeiro lugar, Passos Coelho não tem tropas no partido. Não tem. Quem são as pessoas que estão com Passos Coelho, para além de meia dúzia de comentadores e de notáveis que
Que escrevem coisas nos jornais regularmente a dizer que Pedro Passos Coelho, que é Deus no céu e Pedro Passos Coelho na terra. Que eu saiba, não existe. E depois há outra questão, falta saber se os portugueses, do ponto de vista da popularidade, se quereriam Pedro Passos Coelho neste momento. Eu tenho muitas dúvidas sobre isso, muito honestamente. Passos Coelho, independentemente daquilo que nós possamos achar do seu mandato, e eu já expressei aqui o que eu acho do seu mandato, de facto, para a maioria dos portugueses, não traz grandes recordações. E eu tenho muitas dúvidas que politicamente, ele tenha algum valor no mercado eleitoral.
Susana, também achas que Passos Coelho não tem uma ideia para o país? Mas deixa-me também só acrescentar se a sombra constante feita a Luís Montenegro pode desorientar o primeiro-ministro.
Eu vou começar pela primeira pergunta. Eu concordo completamente com o Jorge, eu já não tenho paciência para ver o Passos Coelho sempre a aparecer com este ar combalido e grave, como se ele realmente fosse uma pessoa muito séria, com uma reflexão profunda para o país e que no fundo, o país cometeu esta injustiça terrível de não lhe dar o palco que ele merece para nos vir mostrar o caminho e salvar-nos, não sei do quê. Por amor de Deus, para já, ele não tem ideia nenhuma. Ele perdeu as eleições. Eu sei que ele foi o partido mais votado, ele estava à cabeça do partido ou da coligação mais votada em 2015, porém, a configuração parlamentar retirou-lhe o poder de modo legítimo. Portanto, ele de facto perdeu as eleições, apesar de ter sido o mais votado. Ou seja, perdeu as eleições no sentido de não ter conseguido, a partir daquelas eleições, construir uma maioria parlamentar que lhe permitisse governar. E depois disso, realmente ele nunca nos veio apresentar nenhuma ideia. E depois, mesmo que Passos Coelho viesse apresentar uma ideia, e aparentemente vem aí a ideia, eu também quero ir a isso. E que essa ideia fosse, no entender de Passos Coelho, absolutamente genial e realmente salvífica para este país onde ele andou a dizer que vinha o diabo e não sei o quê. Isto é uma democracia e, portanto, a ideia de Passos Coelho só será genial no dia em que ele conseguir apresentá-la ao país, portanto, tem que ter uma, tem que a apresentar ao país e o país tem que a sufragar. O país, nós, as eleitoras e eleitores. Portanto, eu já não tenho paciência para figuras salvíficas e que não percebem a natureza do jogo democrático. Pronto, relativamente a isto de ele ter ideias ou não, aparentemente, vem aí o grande estudo dele e do Sérgio Sousa Pinto. Mais um estudo, mais um par de cabeças pensantes que supostamente têm a solução para os bloqueios do país, para as famosas reformas, toda a gente a falar de reformas, sem perceber o que é isso de uma reforma. As políticas públicas são aquilo que o processo democrático nos entregar. E portanto já não há pachorra, sinceramente. Eu acho que a direita, se quer ter alternativas a Montenegro, honestamente, entre Sebastião Bugalho e Pedro Passos Coelho, acho que realmente precisa de nos mostrar um bocadinho mais de substância e um bocadinho mais de seriedade para garantir que há alternância democrática neste país com qualidade. Se quiseres que eu responda à pergunta de eu acho que o Montenegro é um açore apantado, independentemente de Passos Coelho. Acho que Passos Coelho, obviamente, vem piorar. Estás a ver aquelas coisas giratórias que havia nos parques infantis, não sei se ainda há. Quando tu montavas naquilo e depois aquilo andava à roda. Eu acho que, no fundo, o Montenegro já anda à roda numa coisa dessas. O Passos Coelho vai lá de vez em quando dar um empurrãozinho, mas também não me parece que seja ele a causa de termos um primeiro-ministro completamente perdido e sem rumo.
Luís Aguiar-Conraria, estás alinhado com os restantes ases? Percebe-se que um antigo primeiro-ministro do partido que está no governo apareça constantemente a fazer esta pressão.
Pois, eu estava aqui a rir-me. Tive que pôr o microfone em mudo enquanto ouvia o Jorge e a Susana. Bem, aqui eu só consigo interpretar tudo o que Montenegro tem feito, e na verdade, isto também depois vai alinhar com a segunda parte do nosso programa, que tem a ver com o Mário Centeno, com o ele estar à espera que haja uma situação política do país em que Montenegro não pode continuar como primeiro-ministro, que o Chega também não consiga impor como primeiro-ministro e que o vão buscar a ele. Esta é a única estratégia que eu vejo como possível, porque tudo o resto que eu estou a ver é o que o Jorge disse, este é um homem sem tropas, é um homem que teve hipótese de ir a eleições dentro do partido e que não foi, teve hipótese de ir a eleições presidenciais, provavelmente teria ganho, não sei, mas pelo menos teria dado luta garantidamente. E não foi, e portanto, parece-me que ele não está disponível para se sujeitar ao jogo político. E portanto, isso só é compatível com estar à espera que o poder lhe caia ao colo. E este é o único cenário em que eu consigo imaginar o poder a cair-lhe ao colo. Uma geringonça direita.
Aqui do lado do PS parece que também há uma cara bem conhecida, que na verdade, até já viu o nome ser levado ao presidente da República como opção na altura da Operação Influencer. E está a aparecer de várias formas, com críticas, agora com um novo espaço de comentário na CNN. Susana, Mário Centeno, na verdade, nem sequer é militante do PS. De que forma é que se pode olhar para esta procura por espaço no contexto político?
Pois, é o clube dos cromos. Eu acho que uma pessoa que foi ministro das Finanças, governadora do Banco de Portugal e presidente do Eurogrupo, é normal que queira opinar. Acho que Mário Centeno é uma voz válida do ponto de vista econômico, ou seja, que tem um contributo a dar. Por exemplo, já contrariamente a Passos Coelho desse ponto de vista, do ponto de vista técnico, há assuntos nos quais a opinião de Mário Centeno merece ser ouvida. Depois podemos concordar mais ou menos. Agora, se de fato há esta capa do Expresso de hoje, em que Mário Centeno aparece a dizer que as pessoas não têm em quem votar, algo assim, não é só isso, obviamente, há todo o contexto do disso, mas esta capa parece-me bastante explícita de uma pessoa que está a querer entrar como uma espécie de alternativa política à esquerda. Mas eu também não sei muito bem o que quer dizer. Também não sei, sinceramente, por quem está a esquerda. Se do lado de Passos Coelho pode haver um cenário improvável de haver um governo qualquer com a atual geometria parlamentar, no qual ele, por algum milagre institucional que apareça por aí, uma giga-joga, apareça como primeiro-ministro, do lado de Mário Centeno eu não sei muito bem o que ele quer. Será que ele quer nos trazer de volta ao bloco central neste momento, com os protagonistas existentes? É completamente impossível, portanto, não percebo.
Tu não leste a entrevista ainda, não é?
Ainda não li.
Eu acho que lendo a entrevista é essa a ideia que fica. E era essa a ponte que eu estava a fazer entre Passos Coelho e Mário Centeno. Eu acho que essas duas personagens estão a posicionar-se para uma situação. Uma coisa que Mário Centeno insistiu bastante na entrevista é a necessidade de se formar uma maioria parlamentar. Dizer que é impossível governar sem uma maioria parlamentar e até elogiou os primeiros quatro anos da geringonça por causa disso. Se levarmos a teoria de Mário Centeno à prática, isso quer dizer que muito provavelmente nas próximas eleições, ou há uma maioria PSD/Chega, ou haverá uma maioria PSD/PS, ou seja, o bloco central. E ele não só mostra que não tem medo de nenhum bloco central, até diz porque é que se houvesse um bloco central, isto haveria de se traduzir em mais votos pro Chega no futuro, só se a governação for má. A minha interpretação é que se está a oferecer pra ser um eventual líder de uma giga-joga dessas, como tu agora lhe chamaste, de um bloco central. Porque Passos Coelho não tem tropas. No caso de Mário Centeno, é pior do que isso, ele nem militante do Partido Socialista é. Não pode ir sequer a jogo dentro do Partido Socialista e mesmo quando se tornar militante, pelos vistos, é preciso esperar um ano antes de poder ser líder. Portanto, a minha interpretação é essa.
Mas ainda vai a tempo, tendo em conta o contexto político?
Não, de ser líder do PS, não.
Era impossível.
Ser líder de um partido é muito difícil e ninguém o faz sem ter o aparelho. E ele, obviamente, está fora do aparelho. Se ele se sujeitasse a uma eleição do Partido Socialista, seria humilhado. Agora, aquilo em que está a jogar é isto, é haver uma situação política em que o PSD não aceite, agora esqueci o nome do líder do PS.
José Luís Carneiro.
Carneiro, José Luís Carneiro.
Que o PSD não aceite José Luís Carneiro como primeiro-ministro, que o PS não aceite Montenegro como primeiro-ministro e que seja necessário uma resposta, um encontro de consenso. Aí seria, eventualmente, Mário Centeno. Ou ele acha que seria?
Porque ele já achou isso. Nós sabemos que ele já achou isso. Ou seja, é uma pessoa que no fundo quer ser primeiro-ministro.
É dos pontos da entrevista onde se nota o incômodo dele. Ele claramente foge às perguntas nessa parte de quando o presidente falou o nome dele pra ser primeiro-ministro. Aí ele foge mesmo à pergunta, é a única parte onde ele se sente mesmo incomodado na entrevista. Pelo menos foi a sensação que eu tive.
Voltou-se a falar entre os dirigentes do PS, a recordar aquela expressão que ficou bem vincada quando Pedro Nuno Santos a utilizou, a do livre-pensador. Com tudo isto dá para achar que Mário Centeno é só um livre-pensador da área socialista?
É pra mim?
Era pro Luís, estava a dar continuidade, mas pode ser pra qualquer um de vocês. Força.
Pega tu nisso, Jorge. Acho que livre-pensador.
Eu acho que Mário Centeno, sinceramente, eu concordo com aquilo que o Luís e a Cecília disseram. Eu acho que Mário Centeno está a tentar, no fundo, construir uma imagem de uma espécie de reserva moral da nação, porque está a perceber, e bem, que podemos estar a caminhar para um momento em que estejamos num impasse político e especialmente considerando o perfil do presidente da República que temos, que é um perfil muito apagado, eu acho que até um dia vale a pena falarmos sobre isso, mas é um perfil notoriamente apagado, é um perfil centrista, é um perfil institucionalista e que não quer grandes aventuras. Eu acho que se chegarmos a um momento em que, por exemplo, o Chega fique em primeiro lugar nas eleições, mas haja uma maioria clara entre PS e PSD, Mário Centeno pode almejar emergir, especialmente emergir como uma espécie de solução vagamente patrocinada por Bolain, quer dizer, já não numa lógica de governos de iniciativa presidencial, que já não existem, mas alguma coisa em que Bolain pelo menos dê a sua conivência, para que Centeno apareça como uma espécie de Mário Draghi, com exatamente o mesmo papel que Draghi teve em Itália, quando Itália estava completamente bloqueada e Sérgio Mattarella patrocinou a vinda e os partidos centristas concordaram com a vinda de uma pessoa, de um técnico, digamos assim, um governo tecnocrata, para conseguir governar o país no momento de impasse e pra tentar sair do impasse político. Centeno acho que é muito mais por esse caminho. No fundo, ele investe nesse caminho pra se posicionar como esse Como essa reserva moral da nação. Eu acho que este tipo de entrevista ao Expresso e este patrocínio do Expresso não é uma coisa por acaso. Está claramente aqui um apoio tácito. Se alguém me disser uma capa de revista com este tipo de destaque que teve José Luís Carneiro, eu gostava de saber, porque eu não me lembro desde o início do seu mandato. Até porque podemos estar aqui perante um caso, e aí eu não excluiria, e talvez esteja um bocadinho em discordância com o Luís, que é o costismo, que não aprecia particularmente nem Carneiro nem António José Seguro, pode tentar posicionar-se dentro do Partido Socialista atrás de Mário Centeno e eventualmente Mário Centeno funcionar como António Costa funcionou em 2014, quando mandou embora António José Seguro. Portanto, esta figura extra que está a planar um bocadinho acima da militância e da carne assada do dia a dia, pode ser o homem de mão do costismo para o golpe de mão dentro do partido.
Vamos ver. Fechamos este episódio de uma forma diferente, não por boas razões. Jorge Palma morreu esta semana, foi um dos mais incontornáveis artistas nacionais e por isso mesmo os Azes vão fazer-lhe uma homenagem. Luís Aguiar Conraria, és tu que vais dar essa voz e enquanto isso vamos ouvir a música "Dá-me lume".
Pois, o Jorge Palma morreu, como disseste, e de facto o que dá identidade a um povo é a cultura partilhada. Portanto, pouco há de tão importante para a construção do património cultural de um país do que os seus artistas. E nós sabemos que esta semana que passou, um pouco por todo o mundo, houve muitos portugueses a ouvir as músicas dele no Spotify. E de facto, ele foi um compositor e um letrista notável. Tinha versos deliciosos, como a falar nos cambiantes do sabor de uma lágrima, a dizer que a liberdade é uma maluca que sabe quando falta um beijo, todas essas coisas. E depois, eu acho que há outra coisa que nos faz identificar muito com ele. É que todos ou quase todos nós, em algum momento das nossas vidas, nos identificámos com alguma canção de Jorge Palma. Fosse por estarmos com dor de corno ou o contrário, por estarmos na embriaguez do início de uma relação amorosa, fosse por estarmos do lado errado da noite, agora para citar diretamente uma música dele. Eu acho que Jorge Palma tem uma canção diferente para cada estado de espírito e todos ou quase todos já encontrámos refúgio numa das suas canções. Acho que Jorge Palma é para celebrar e esse é o motivo da escolha desta música, que é uma música alegre e que nos deixa bem-dispostos.
E este Fora do Baralho fica por aqui com esta homenagem a Jorge Palma. Até para a semana.
Até a música acabar. Dá-me lume. Não deixes o frio entrar. Faz os teus braços fecharem as asas há tanto tempo a zunar. Eu tinha o espírito aberto, às vezes andei perto da essência do amor. Porei no meio dos colchões, no meio dos tramulhões, a situação era cada vez pior. Tu despertaste em mim um ser mais leve. E eu sei que essencialmente isso se deve a esse passo inseguro e ao paraíso no teu olhar. Dá-me lume, dá-me lume. Deixa o teu fogo envolver-me até a música acabar. Dá-me lume. Não deixes o frio entrar. Faz os teus braços fecharem as asas há tanto tempo a zunar. Se eu fosse compositor, compunha em teu louvor um hino triunfal. Se eu fosse crítico de arte, havia de declarar-te obra-prima à escala mundial. Mas eu não passo de um homem vulgar, que tem a sorte de saborear esse teu passo inseguro e o paraíso no teu olhar. Esse teu passo inseguro e o paraíso no teu olhar.