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"Fora do Baralho", episódio extra ao domingo, totalmente dedicado aos ouvintes e a dúvidas que os inquietam. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira e esta semana recebemos muitas perguntas e comentários no e-mail foradobaralho@oobservador.pt. Se quiser fazer o mesmo, é este o endereço que deve seguir. Nas respostas, hoje temos o Jorge Fernandes. Olá, Jorge.

Olá, Sara.

E nas perguntas, voltamos às intervenções recentes de Pedro Passos Coelho, com críticas ao governo e a Luís Montenegro. Lídia Sousa pergunta: será que Passos Coelho está a tentar desacreditar o PSD e o primeiro-ministro para avançar para o Chega e destronar André Ventura? Será uma hipótese demasiado maluca, Jorge?

Antes de mais, agradecer à nossa ouvinte pelo interesse com que nos segue e pela pergunta. Em política tudo é possível. Portanto, mal comparado, se alguém dissesse há dois anos que António José Seguro regressaria depois de tanto tempo fora da política e que hoje em dia seria presidente da República, certamente também seria apelidado de maluco. Portanto, em política tudo é possível. Apesar de tudo, eu acho muito pouco provável. No entanto, acho que lidamos sempre com estas matérias no campo das probabilidades, acho muito pouco provável que Passos Coelho faça. Isso seria não só romper com o seu partido de sempre, romper com o eleitorado de centro-direita, que já vimos, de resto, nas presidenciais, apesar de tudo, há uma bela parte do centro-direita que não está disponível para embarcar nos projetos do Chega e no projeto de André Ventura, especificamente. E depois há aqui um pequeno pormenor, que eu penso que as pessoas tendem a ignorar, que é a maioria das pessoas trata a relação de André Ventura com Passos Coelho quase como se fosse uma relação de vassalagem ou uma relação em que André Ventura, devido à consideração histórica que este tem e à importância que ele dá ao papel de Passos Coelho no PSD, trata André Ventura como se, caso Passos fizesse ou tentasse fazer um partido de direita, ou tentasse de alguma maneira tomar o Chega, que André Ventura aceitaria quase naturalmente e como um cordeirinho. E eu tento sempre recordar, e acho que é sempre importante percebermos, que André Ventura até pode ter apreciação por Passos Coelho, admite perfeitamente que ele seja ou fosse naquele tempo um passista e que a história que ele gosta de contar, porque todos os partidos têm narrativas, mitologias, santos laicos, etc., e que Passos figure claramente no altar de André Ventura. Mas André Ventura, acima de tudo, é um político e sendo político, gosta de ter poder. E André Ventura, certamente, como se costuma dizer, deu muito sangue, suor e lágrimas para construir o Chega e portanto, certamente não abdicaria do poder do Chega só porque Passos Coelho decidia de um momento para outro fazer uma oposição ao partido. Portanto, eu acho que mesmo se Passos Coelho tivesse essa intenção, eu acho que a reação de André Ventura seria completamente cerrar fileiras e dizer: "Sim, senhor, Passos Coelho pode ter sido um grande estadista, um grande primeiro-ministro, mas o Chega é o Chega e quem manda no Chega sou eu." E convém relembrar que André Ventura, neste momento, no Chega, apesar de ser um partido que tem claramente uma componente de um homem só, em que ele tem um predomínio e uma ascendência sobre muita gente, já há uma elite intermédia no Chega, até no grupo parlamentar, que de alguma maneira também não se quer ver ultrapassada, por exemplo, em coisas tão simples como a velha e boa distribuição dos tachos. Portanto, sob esse ponto de vista, eu acho extremamente improvável que alguma vez Pedro Passos Coelho faça isto. E termino só dizendo isto: eu acho que apesar de tudo, mesmo quando se fala muitas vezes na ideia de Passos Coelho regressar ao PSD e que, no fundo, se Passos Coelho regressasse ao PSD, André Ventura passaria um cheque em branco e apoiaria rapidamente e poria o peso do Chega por detrás de Passos Coelho e do PSD, eu também acho essa ideia extremamente infantil do ponto de vista da análise política, porque por mais admiração que ele tenha por Passos Coelho, André Ventura tem o seu próprio projeto pessoal de poder e neste momento o Chega já é uma força suficientemente institucionalizada e com autonomia estratégica e com plano de poder próprio, que em certa medida não se coadunam com a ideia de serem uma muleta de alguém que, por muito bom que seja, veria sempre o Chega como um ator secundário e uma muleta.

Num tema completamente diferente, Jorge. José Paulo Soares, do painel do nosso podcast Geração V, que já agora envia um abraço a todo o "Fora do Baralho", quer perceber o que é que tu pensas sobre o novo RJIES, o Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior, aprovado na Assembleia da República. Vai no bom sentido?

Isto realmente é um tema mesmo radicalmente diferente. Eu mando também um abraço ao Zé Paulo, que eu tenho o gosto de conhecer e que admiro também o percurso dele. Eu acompanhei com alguma atenção as notícias que saíram quando foi aprovado o novo RJIES, embora alguns detalhes que eu confesso estou completamente por fora, porque já não estou no sistema científico português e, portanto, já não sigo com a atenção que deveria, talvez. Eu chamaria a atenção para duas alterações. Em ambos os casos, eu não tenho a certeza se são boas ou se são más. Tenho algumas dúvidas. A primeira alteração é a ideia daPortanto, a primeira alteração tem que ver com o modo como se passarão a eleger os reitores, envolvendo não só os professores e o corpo docente da casa que está nas universidades, mas também ex-alunos, incluindo um conjunto de pessoas com capacidade eleitoral que vai muito para além daquilo que é a massa crítica ativa na universidade em cada momento. Se for bem implementado e se for bem praticado, pode ter alguns benefícios, porque sabemos muito bem que existem endogamias, existem máfias internas. Máfias não no sentido italiano do termo, mas existem, como se costuma dizer, pressões de voto organizadas, outros critérios que vão muito para além do mérito e da competência.

Então o que é que te preocupa na medida?

Eu acho que as forças externas podem contrabalançar isso. Por outro lado, eu acho que há aqui um perigo das forças externas, e isto é uma coisa que pode estar a acontecer no sistema científico nacional, que é um descentrar da universidade, do seu papel, acima de tudo, de produção de conhecimento e de formação de estudantes, porque eu acho que está a haver aqui uma tentativa de desequilibrar a maneira como se pensa a ciência e o ensino superior numa lógica meramente utilitarista. Isto é, a ideia de que a ciência, a produção de conhecimento devem estar ao serviço da economia. E eu não nego que devem estar ao serviço da economia parcialmente, mas eu acho que abrir a possibilidade da votação para reitor a todo um corpo que não está na universidade naquele momento, corre o risco de pôr os reitores, como estão preocupados com aquele segmento eleitoral, a fazerem promessas para recentrar a função e a missão da universidade e focá-la mais, muitas vezes, em dar benefícios ou fazer a universidade trabalhar para certos segmentos que não são o centro da missão da universidade, tal como eu entendo. E portanto, eu acho que pode haver aqui esta tentação de, na reorganização que está a haver da ciência em Portugal, e estou a pensar, por exemplo, no fim da FCT e na maneira como a nova agência de financiamento de investigação está a ser montada, pode haver aqui uma tentação de estar a descentrar a universidade com a aparência de abertura ao que está cá fora, corremos o risco de o que está cá fora se tornar quase tão importante do que está dentro e isso, para mim, pelo menos, causa-me alguns problemas.

Obrigada, Jorge. Se quiser ouvir respostas para as suas perguntas nos episódios extra do "Fora do Baralho", basta escrever para foradobaralho@observador.pt. Um dos ases aqui estará a cada domingo na rádio e em podcast. Bom fim de semana.