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Recebemos no Gabinete de Guerra Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Vai estar conosco nesta edição, num dia em que Ursula von der Leyen fez o discurso de estado da União e lançou um pequeno convite ao Canadá, que era uma ligação mais forte ao país da América do Norte. Ursula von der Leyen falou sobre isto neste discurso de estado da União. Sugeriu que o Canadá seja um membro associado da União Europeia. Ora, é por aqui que vamos começar. Jorge Rodrigues, que importância tem isto e, de facto, o que aconteceu ao longo dos últimos meses? Nós temos escutado, claro, as declarações do afastamento dos Estados Unidos face ao Canadá, o afastamento dos Estados Unidos face à Europa. Foi esse duplo afastamento a dois grandes blocos que fez criar esta possível aliança entre a União Europeia e o Canadá?
Boa tarde, Miguel. Naturalmente que sim, há aqui uma vontade extrema por parte da Europa, em que o Canadá acaba por se aliar por um impacto muito grande em relação à dependência que tem dos Estados Unidos e, portanto, toda essa ligação, quase umbilical, acaba por ter consequências tremendas dentro do modus vivendi do Canadá. Mas a Europa procura há bastante tempo agora, percebeu a realidade, percebeu o mundo real, percebeu que tem que enfrentar com pragmatismo e realpolitik e procurar o que se chama externess. Portanto, dentro deste conceito, julgo que esta aproximação de membro associado do Canadá, que ainda vamos ver bem o que isso quer dizer, mas que já fora identificado como principal referência aos valores, é uma reação, é uma autonomia estratégica, não só face aos Estados Unidos, mas vejo também em relação à China, visto que já ficou bem patente, e eu até chamo a atenção ao relatório Draghi, extraordinário documento que sumarizou toda a informação que havia relativamente a este problema, em que foi necessário encontrar aqui um caminho. Parece um caminho interessante, de autonomia estratégica, como eu digo, de contornar Trump, mas que já foi iniciado com algumas parcerias europeias, nomeadamente com o Mercosul, inclusivamente com a China, que eu há pouco dizia que é preciso afastar um pouco, mas que naturalmente em algumas áreas é interessante manter as ligações com a Índia e com outros atores a nível global. O que é que está verdadeiramente aqui em causa? Eu faço aqui uma ressalva, eu ainda não tive a oportunidade de ler com bastante atenção, porque aquilo tem muitas segundas leituras nas 16 páginas do discurso de von der Leyen. No entanto, já me permito ter aqui as ideias principais, porque elas são repetidas ao longo do texto. Estamos a falar de uma segurança, muita preocupação com a segurança e, agora vou me concentrar na questão Canadá, naturalmente, numa segurança orientada para a indústria, para a indústria de inteligência, para a tecnologia, pra AI, para a defesa, muito relevante este ponto, mas também para a energia, para os raw materials, para a preocupação com a questão automotiva e a dependência da China e, portanto, as baterias e os raw materials que poderão vir do Canadá poderão ajudar definitivamente nessa competição com a China. Portanto, é uma reação aos Estados Unidos, como dizia bem o Miguel. Não poderemos dizer que vamos conseguir contornar as capacidades estratégicas dos Estados Unidos e, portanto, haverá uma reação de alguma forma também por parte da Casa Branca. Há questões que são únicas, mas isto permite, de facto, uma reorganização da ordem internacional com aquilo que já alguém chamou no passado, quando esta hipótese começou a ser aflorada, como o Ocidente democrático alternativo, como aquele ator geopolítico fiável, com influência em vários teatros, nomeadamente em um particularmente importante, o do Ártico, que tem sido muito esquecido, mas que realmente com este ator poderá permitir uma ligação maior, mas também na direção de uma multilateralidade, fazendo uso das organizações internacionais em vários temas, seja no IA, no clima, no comércio, etc. Em boa verdade, há aqui aquela componente de comércio e finanças que também é muito relevante. A rede friendshoring com o Canadá permitirá não só ao Canadá ter um novo mercado bastante alargado e que lhe permite contornar os Estados Unidos, mas permite à Europa definitivamente alcançar energia e raw materials que bem precisa. Portanto, há definitivamente aqui uma autonomia estratégica em parceria e, como eu dizia há pouco, um ganhar de externess por parte da União Europeia.
Falar aqui também do conflito na Ucrânia, houve o ataque a esse comboio junto à fronteira polaca. Que leitura faz deste ataque, sendo que Vladimir Putin, a Rússia, já deixou algumas ameaças à Polônia, continua a afetar ou continua a atacar a estrutura ferroviária da Ucrânia. Ainda nas últimas horas tivemos um novo ataque. Que leitura faz disto? Porque a NATO fala em desespero por parte de Vladimir Putin.
É uma marcação de posição, não há dúvida nenhuma, não considero que seja ainda uma escalada vertical, como doutrinariamente se refere, ao ponto de marcar posição neste conflito com o Ocidente, o que eles determinam um conflito de longo termo com o Ocidente. E houve, como diz o Miguel, já várias ações nos Bálticos, na Moldova, na Romênia, na Polônia. Eu estive recentemente, na semana passada, na Polônia e havia esse sentimento de receio em relação ao que poderia acontecer, mas também repare nos cabos da Noruega, que também na semana passada tivemos essa reação. Há aqui uma guerra comunicacional, mais do que tudo, assustar, trazer o conflito para a Europa, retirar a vontade de combater dos europeus, a vontade de apoiar a Ucrânia e de alguma forma deixar a Ucrânia um pouco mais isolada. Há ameaças quase diretas e a de Lavrov de hoje foi evidente que seria um conflito diferente e muito curto, mas o que nós estamos aqui a falar verdadeiramente É da continuação de uma guerra híbrida. Os números, que já estão desatualizados, porque são de 9 de setembro da União Europeia, referenciavam 189 ataques críticos desde 2014, com base na Rússia. Portanto, estamos a falar de um nível já muito elevado, que cria preocupações extraordinárias. Há pouco falávamos do Estado da União, da von der Leyen. Surgiu também um quase artigo 4º da NATO, mas para a União Europeia, apoiado inclusivamente pelo secretário-geral da NATO, mas que permitirá, de alguma forma, fazer aqui um passo intermédio para o que nós consideramos o artigo 5º da NATO e a correspondência, que não só constitui aqui um determinado comando e controle, mas tem uma ligação direta a uma dissuasão que se pretende desenvolver. E também a criação de um Conselho Europeu de Segurança com parceiros, com o Reino Unido, com a Ucrânia, com a Noruega e com o próprio Canadá. Portanto, há aqui uma preocupação maior de securização, um equilíbrio entre as vertentes de segurança e bem-estar, e há um pragmatismo muito maior da União Europeia. Falta agora concretizar algum tipo de dados, nomeadamente o famoso Drone Wall, que é essencial, seja pela sua capacidade, seja pelo custo e eficácia, e naturalmente, de alguma forma, este pilar europeu não ser afastado do que é a NATO, porque a NATO está viva. A NATO é a melhor referência que há de defesa a nível global e, portanto, não pode simplesmente ser deitada fora, porque nem os Estados Unidos nem a Europa pretendem isso.
Temos sensivelmente mais dois minutos e meio, temos de falar também da questão no Médio Oriente. Os houthis continuam a avançar e atacar, principalmente em território da Arábia Saudita, mas não só, há aqui alguns ataques estratégicos, muitos deles ligados à parte dos combustíveis, da exportação de petróleo. Há novos ataques à Aramco, uma empresa da Arábia Saudita. Já tinha acontecido também nos dias anteriores. Que leitura faz do que está a acontecer e que ligação tem o Irão ao certo a tudo isto, uma vez que acabam também estes ataques por ter influência direta nos mercados dos combustíveis e colocar mais pressão na sociedade ocidental e no custo que está a suportar por todos estes conflitos?
Michel, eu vou começar pela segunda parte, porque é essencial, realmente. Há aqui, definitivamente, uma ligação e faz parte da estratégia do eixo da resistência. Sempre houve escaramuças nos vários conflitos e, portanto, que eles continuam a acontecer no estreito de Ormuz e em toda aquela região, e o Irão não está a reagir muito efetivamente. Ele tem um objetivo, que está a utilizar o tempo como arma e também não quer dar pretextos que possam favorecer nem Donald Trump, nem Netanyahu nas eleições que se aproximam. Esse é um primeiro vetor. Um segundo será o desenvolvimento de uma política de apaziguamento regional, inclusivamente cria uma reunião em Omã com os países do Golfo, que acabou por ser adiado sem data. Procura o apoio internacional a nível global, através dos BRIC, o que tem conseguido. Portanto, a sensação de não estar isolado é muito importante. E pressiona, mas pressiona agora com várias vertentes, a vertente económica, a vertente comercial e a escalada horizontal. E aí sim, é que surgem os houthis com os proxies, não só no Iraque, como já soubemos que houve aqueles ataques ao oleoduto leste-oeste da Arábia Saudita e os houthis que procuram controlar o estreito de Bab-el-Mandeb, o que seria tremendo caso conseguissem. E a situação, em boa verdade, está muito volátil. Está muito volátil com áreas muito preocupantes, seja Taiz, Dobar, Maielá. Maielá tem uma importância muito relevante porque é um centro petrolífero e também é uma zona geoestratégica de relevância que poderá, de certo modo, abrir caminho para a ocupação de um território muito mais extenso por parte dos houthis, mas que, é verdade, os houthis não estão a conseguir. Eles perderam o momento e, portanto, abrandaram, não conseguiram consolidar. E há aqui uma resposta por parte das forças governamentais e que, dada a não organização de posições defensivas, alguma flexibilidade operacional, se espera que haja aqui agora um equilíbrio. Agora, seja como for, há uma preocupação grande, e para terminar, e que obviamente a Arábia Saudita está particularmente preocupada, porque são os interesses da Arábia Saudita que estão em causa. Pediu ajuda aos Estados Unidos, pediu ajuda ao Tratado de Defesa Conjunta de Meca e, em boa verdade, acaba por ser Israel o único que verdadeiramente apoia com informações de vigilância, de reconhecimento e algum apoio à Arábia Saudita, o que é muito curioso, tendo em conta isto, mas há o risco final de estreito e ataques à Arábia Saudita que podem promover uma escalada.
E os Estados Unidos, ou pelo menos Donald Trump, está agora mais preocupado com o período eleitoral que está a enfrentar. Vamos ver se assim é até ao final do ano. Está feito este gabinete de guerra.