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Há dias assim em que tudo acontece e tudo se atropela. Orçamento do Estado, audições no Parlamento sobre prisões e comissão de inquérito ao caso das gêmeas, e até o anúncio do novo procurador-geral da República, que não estava propriamente previsto para esta sexta-feira. É para acabar a semana noticiosa a mil, como os nossos quatro ases do Fora do Baralho tanto gostam. A jogada da semana tem de ser: vai medir o pulso ao processo orçamental, à aproximação ou ao distanciamento entre PS e AD e também ao blefe que faz parte deste processo. Para já, Susana Peralta, Jorge Fernandes, João Marques d'Almeida e Luís Aguiar Conraria, a inesperada notícia do dia, o nome do procurador-geral da República, Amadeu Guerra, antigo diretor do DCIAP, também foi procurador-geral distrital de Lisboa. Apanhou o processo Marquês, o processo Fizz, o processo dos Vistos Gold. É esta a primeira carta em cima da nossa mesa de jogo e é tua, Luís Aguiar Conraria. É uma carta de paus para o processo de escolha do sucessor de Lucília Gago. Digamos que foi um processo rápido. Foi depressa demais, foi pouco ponderado ou estás a referir-te com esta carta de paus, especificamente a este timing do anúncio?
Não, não estou a falar de nada disso. Aliás, quero mesmo deixar absolutamente claro que não tenho nada a dizer em relação ao nome apontado. Já ouvi vários elogios em relação à pessoa e não tenho nenhum motivo para duvidar deles. Eu não conheço, não é a minha área, mas não tenho nada a dizer sobre isso, de negativo em relação à pessoa que foi escolhida. E até devo dizer que o facto de este assunto já estar arrumado, também me parece bom. Já se escolheu um sucessor para a Lucília Gago, e parece ser o nome mais ou menos consensual. O José Sócrates provavelmente terá ficado chateado e portanto, nada contra isso, tudo isso parecem boas notícias.
O que tens a apontar, então.
É, os meus paus não são de forma alguma em relação a isto. Os meus paus são especificamente em relação ao método de seleção, porque isto volta a ser um método, que aliás, é comum em Portugal, e esta crítica aplica-se a muitas outras nomeações, que é escolhido pelo primeiro-ministro, com os seus conselheiros e pelo presidente da República. Eu preferia mil vezes que houvesse um processo aberto, com candidaturas, em que quem estivesse interessado em ter este cargo se apresentasse, chegasse à frente com o seu CV, com um projeto, com um programa para os próximos anos, e que depois nos permitisse avaliar se cumpriu o seu programa ou não, e fazendo desta forma, toda a escolha seria muito mais transparente. É uma crítica ao processo. O Nuno Garoupa tem insistido muito neste tipo de propostas e eu concordo 100% com ele em relação a isto. Já agora, também gostaria aqui de referir outro assunto. Esta pessoa tem 70 anos, ou está perto dos 70 anos.
É o procurador-geral da República mais velho até agora.
É improvável que se coloque sequer a questão de um segundo mandato, porque estes mandatos são de seis anos, e eu acho que isto também era uma excelente altura para acabar com a possibilidade de renovação de mandatos. Isto por quê? Porque este é um cargo que se quer que seja verdadeiramente independente. E para alguém ser verdadeiramente independente, não pode estar a pensar na sua reeleição ou na sua recondução. Aliás, já há seis anos, quando Maria José Morgado não foi reconduzida, eu penso que na altura eu mais ou menos que aceitei a sua não recondução em nome deste princípio, que é em nome da independência, estes mandatos não devem ser renovados. Agora temos seis anos pela frente, temos aqui o nome consensual, portanto, se calhar seria a altura de introduzir algumas mudanças estruturais no processo de nomeação ou, neste caso, o que eu estou a sugerir seria já um processo de escolha e não nomeação, portanto, um processo de escolha para este cargo, que se aplicaria também a outros, como por exemplo, alguns reguladores, que também são nomeados mais ou menos da mesma forma.
Não sei se algum dos outros ases tem algo a dizer sobre esta escolha de Amadeu Guerra para suceder a Lucília Gago. Ninguém se acusa?
Não, queria só acrescentar que isto é, porventura, uma tentativa de pacificação, na medida em que Amadeu Guerra vem da escola Joana Marques Vidal, desses bons tempos de Joana Marques Vidal. Mais uma vez, eu não faço ideia se o seu mandato será mais ou menos parecido com o de Joana Marques Vidal. Acho que desse ponto de vista, até o processo opaco que o Luís já referiu, não nos ajuda a perceber o que o Amadeu Guerra quer para o Ministério Público, sendo que não estou a criticar a pessoa, desse ponto de vista, estou completamente alinhada com o Luís, mas eu penso que pode haver aqui um certo simbolismo do regresso da saudosa procuradora, PGR na altura, que nos deixou há dois meses e meio. Eu acho que há esse lado simbólico, mas vamos lá ver como é que isto corre. Nós não sabemos nada, na verdade, do que podemos esperar deste mandato, na medida em que o processo é tão opaco, nós não fazemos ideia.
Para já parece ter um voto de confiança da esquerda à direita. Amadeu Guerra, pelo menos a julgar pelas reações que fomos ouvindo durante o dia de hoje, essas reações políticas e também de, por exemplo, de uma ex-ministra como é o caso de Paula Teixeira da Cruz, que foi ouvida numa emissão especial aqui na Rádio Observador. A próxima carta deste Fora do Baralho, de ouros, precisamente para ti, Susana Peralta. É tua essa carta, porque o que está em causa aqui é um tratamento de € 4 milhões e a intervenção política neste processo. Estamos, naturalmente, a falar da comissão de inquérito ao caso das gêmeas. Hoje foi ouvida a ex-ministra Marta Temido. O que é que te apraz dizer?
Apraz-me dizer que é curioso, eu não ouvi toda a audição, mas ouvi por acaso uma parte em que estava em direto na RTP e estava a dar intercalado. E há uma parte que é muito engraçada em que a ex-ministra e atual eurodeputada diz: "Eu não estou a sacudir a água do capote." Há uma parte, depois lá no meio, em que ela diz: "Não, nesse aspeto, sou da escola António Costa e considero que eu sou responsável pelas ações de toda a minha equipe, e o meu secretário de Estado fazia parte da minha equipe." Portanto, aí realmente ela está a chamar a responsabilidade, em todo o caso, política a si, mas depois todo o resto do tempo só sacudiu a água do capote. Portanto, nada passou pelo gabinete dela, foi tudo o seu secretário de Estado. Já agora, o que eu admito que seja verdade, está bem, mas ela não tinha conhecimento de nada. A primeira vez que falou com o secretário de Estado sobre este assunto foi quando viu há um ano, e está a aparecer nas notícias há 10 meses, e lhe perguntou: "Viste as notícias?" Alguma coisa assim. Portanto, antes disso nunca tinha falado com a Lacerda Sales. Mais uma vez, pode ser verdade, não sei, mas também pode ser sacudir a água do capote. Essa é uma dimensão da água a ser sacudida.
Mas admite que pedidos de consultas médicas vindos de gabinetes ministeriais não são normais.
Não são normais, exatamente. Portanto, admite essa parte, embora não tenha vindo dela, veio do seu secretário de Estado, mas depois diz outra coisa extraordinária. Diz que estas duas meninas tiveram o acesso que deviam ter. Se as crianças aparecessem na urgência, também tinham tido o mesmo acesso, que de facto é uma afirmação extraordinária, porque parece-me que estas pessoas eram bastante bem informadas acerca do processo. Desde logo, enfim, há umas histórias com a seguradora brasileira. Havia, de facto, aqui muitíssima informação interna acerca do processo do acesso a estes medicamentos e entenderam vir por cima, muito por cima, desde a Presidência da República por aí abaixo. Ora, se fosse assim tão simples como ir às urgências, eu pergunto-me então por que estas pessoas não foram simplesmente às urgências. Essa ideia é de facto extraordinária. E depois há a ideia de que estas duas gêmeas não passaram à frente de ninguém. Quer dizer, não passaram à frente de ninguém no acesso a este medicamento. Eu não tenho a certeza que isso seja verdade, mais uma vez, mas mesmo que isso seja verdade, é um bocadinho irrelevante no sentido em que do que aqui se trata é do processo completamente opaco, e lá está, descendo em linha reta da Presidência da República para o Ministério da Saúde, aparentemente, secretário de Estado, sem passar pela ministra, mas ainda assim é o Ministério da Saúde, gabinete do primeiro-ministro, etc. E daí é que chega ao hospital para se gastarem € 4 milhões. Ora, estes € 4 milhões, obviamente, mesmo que não fossem usados para este medicamento em específico e para curarem outras crianças com esta doença, iam ser usados para outros efeitos na saúde, e o que não falta aí são necessidades gritantes no nosso Serviço Nacional de Saúde. E portanto, esse argumento também não faz qualquer espécie de sentido.
Muito rapidamente, Susana.
Não, é que de facto, estes medicamentos foram dados a estas duas gêmeas antes de estarem aprovados para circularem no mercado português. E de facto, existe um processo que permite que um medicamento nestas circunstâncias seja efetivamente administrado a um paciente, mas esse processo envolve instruir um processo junto do Infarmed, etc., que acabou por ser instruído mais tarde para justificar, não é isso que eu estou a dizer. O que eu estou a dizer é: a ex-ministra não pode vir agora dizer ao Parlamento que isto era uma coisa de simplesmente chegar às urgências como quem chega às urgências com uma perna partida, fazem-lhe uma radiografia e põem-lhe o gesso. Não é isso. Estamos a falar de facto de um processo extremamente complexo do ponto de vista burocrático e do ponto de vista das autorizações, e estas pessoas sabiam perfeitamente que vindo com uma cunha de muito por cima, isso facilitava o acesso. Mas foi mais um show. Esta comissão parlamentar de inquérito das gêmeas, de uma certa maneira, toda a gente já percebeu o que é que aconteceu, e a única coisa que ela serve é para colocar à nossa frente e aos nossos olhos, de facto, uma hipocrisia relativamente a uma maneira de funcionar do nosso Estado, de fazer favores a quem pode.
E passamos desse show.
Ó Susana, posso só dizer uma coisa aqui muito rápido? Já toda a gente percebeu o que aconteceu. O propósito desta comissão de inquérito é para ver se toda a gente deixa de perceber o que aconteceu.
Isso não tenho a certeza. Nós temos tido momentos reveladores. Olha a secretária do Lacerda Sales.
Em Portugal, os ministros sabem tudo, querem saber tudo, só não sabem é más notícias.
Eu não sei se a Marta Temido sabia. Sinceramente, não sei. Não ponho aqui as mãos no fogo. Eu admito que isto tenha vindo via Lacerda Sales apenas, não sei. Mas esteja como estiver, houve aqui um entorse ao processo e há muita coisa que Marta Temido diz que simplesmente, lá está, é sacudir a água do capote sob várias perspectivas.
Eu é que daqui a pouco vou ter de fazer um entorse, porque temos que continuar.
É difícil dizer do primeiro-ministro diretamente para o secretário de Estado, sem passar pela ministra.
Fica aí esse circuito posto aqui em cima da mesa pelo João Marques de Almeida. Agora a próxima carta é a de espadas. Jorge Fernandes para Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa, deu esta semana uma entrevista ao Público e à Renascença. Disse, por exemplo, que para alguma extrema-esquerda os sem-abrigo tornaram-se quase um negócio e culpou Fernando Medina e António Costa por todos os problemas da cidade.
Sobre essa parte, eu acho que Carlos Moedas tem razão, que não são exatamente os problemas da cidade, mas o modelo de cidade que hoje é Lisboa, em larga medida, resulta das decisões que foram tomadas nos mandatos de António Costa e Fernando Medina. E também algumas decisões tomadas nos governos nacionais, que é uma cidade baseada fundamentalmente num turismo desenfreado, completamente descaracterizada e onde foram feitas algumas coisas boas na reabilitação de muitas zonas da cidade. Quem se lembra do que era Lisboa há 20 anos, sabe que havia muitas coisas a cair e hoje há muito menos. A crítica que eu tenho a Carlos Moedas é que ele não tem sabido lidar com a cidade que herdou. O que eu quero dizer com isto? É evidente que existem muitos problemas que hoje afligem a cidade e que vieram de trás e aumentaram, naturalmente, durante estes anos de Moedas, a crise da habitação, por exemplo, que não é culpa diretamente dele, ou o subinvestimento público nos transportes públicos. O problema de Moedas, para mim, é que ele parece estar em negação sobre o estado a que a cidade chegou. E ele permitiu, isso é que é pior para ele, que se construísse uma narrativa política de que ele é culpado de tudo, ao contrário dos tempos maravilhosos do doutor Medina. Por exemplo, a questão do lixo que ele falou esta semana. Quer dizer, Lisboa é uma cidade sujíssima, não vale a pena fingirmos que não é, porque é. E tem um problema grave de lixo, que é evidente que fica muito aumentado por causa do turismo, há uma externalidade negativa, e o facto de haver muitos milhares de pessoas que nem sequer vivem na cidade todos os dias a circular, claro que aumenta as dificuldades da Câmara Municipal em lidar com a situação e manter a cidade limpa. E Moedas, em vez de assumir isto com toda a frontalidade, dizer: "Bem, eu não tenho recursos suficientes, é preciso repensar eventualmente taxas turísticas, etc.", começa a dizer: "Não, há aqui uma campanha concertada de pessoas que tiram fotografias na rua e põem nas redes sociais". Isto é evidentemente mentira. As espadas aqui, fundamentalmente, é porque Moedas dá uma entrevista em que parece estar um bocadinho fora do mundo. E se ele quer sonhar com uma vitória eleitoral no ano que vem, tem rapidamente que mudar de atitude, porque tem que assumir as responsabilidades, o estado em que a cidade está e esclarecer. Eu acho que ele tem razão ao dizer que a culpa não é só dele, porque notoriamente não é. Mas fingir que os problemas que notoriamente existem não estão lá ou que são uma campanha concertada, isso certamente não resultará. E perante uma potencial esquerda unida nas próximas eleições autárquicas, se Carlos Moedas mantiver esta toada política, será muito difícil conseguir ganhar as eleições.
E agora vai ser muito difícil seres sintético, João Marques de Almeida, na tua carta de paus, que acho que vem daí um trunfo também, mas vamos lá tentar. Tens uma carta de paus para quem critica Israel por atacar o Hezbollah.
Exatamente, eu devo confessar, antes de mais, para não deixar dúvidas no ar, que eu tenho uma grande simpatia pessoal por Israel, por várias razões. Aliás, uma delas, num verão, tive umas semanas num kibbutz junto à fronteira com o Líbano, em Rosh HaNikra. Eu tenho simpatia por Israel, mas isso também não me impede de ter a minha opinião. Eu queria fazer aqui dois pontos. Um ponto é que Israel é sistematicamente atacado de uma maneira que não atacam mais ninguém. Eu nunca vi, por exemplo, manifestações nos campos universitários dos Estados Unidos e do Reino Unido contra a guerra de Putin contra a Ucrânia, como vejo contra Israel. Eu nunca vi manifestações, nem qualquer tipo de preocupação com a guerra do Sudão, onde morrem muito mais pessoas do que nas guerras que Israel tem. Eu nunca vi nenhuma manifestação contra o que o regime Assad fez na Síria, contra a sua própria população. Mas muita gente está sempre disponível para fazer logo manifestações contra Israel quando há qualquer coisa. Ora, Israel, neste caso, está a lutar contra o movimento terrorista. E mais, a razão porque Israel tem que lutar contra o Hezbollah, é porque as Nações Unidas foram incapazes de cumprir uma resolução do Conselho de Segurança de 2006, há 18 anos. Tem uma força das Nações Unidas que foram incapazes de desarmar o Hezbollah e de tirar as forças armadas do Hezbollah da região do sul do Líbano, junto à fronteira com Israel. E depois há outro ponto, muito rápido, que é esta ideia de querer partidarizar a política externa de um país dizendo que Israel só faz isto porque o primeiro-ministro é Netanyahu. Posso-vos garantir, se o primeiro-ministro fosse do Partido Trabalhista, Israel fazia a mesma coisa, porque a questão de segurança é uma questão suprapartidária. Qualquer governo de Israel tem que garantir a segurança da sua população. E neste momento não garante com o Hezbollah no sul do Líbano.
Fica já o aviso que vais ser trunfado na segunda parte, na jogada da semana, que vai ser sobre o orçamento do Estado, mas vamos ter de começar por isso. Até já. Jogada da semana no Fora do Baralho. Se Marcelo Rebelo de Sousa está realisticamente otimista, e estou a citar, em relação à aprovação do orçamento do Estado para o próximo ano, Luís Montenegro diz que Pedro Nuno Santos lhe apresentou propostas radicais e inflexíveis. Já lá vamos, mas não podemos perder o fio à meada e ficou pendurado um trunfo da primeira parte à carta escolhida pelo João Marques de Almeida. Para o João, Israel respeita as resoluções da ONU, regra geral, o Hezbollah, não. Susana Peralta, vem daí um trunfo.
Não disse que respeita em regra geral. Eu disse que neste caso do sul do Líbano Israel respeitou a resolução das Nações Unidas e o Hezbollah não respeitou.
João, desculpa, eu fico um pouco incomodada com esta tua defesa permanente de Israel aqui no programa e depois eu nunca tenho tempo para trunfar. Já a semana passada foi sobre Israel. Vamos lá ver uma coisa. Eu acho que nós temos de ser capazes de reconhecer que o Hamas é um grupo terrorista terrível e que não respeita os direitos nem dos homossexuais, nem das mulheres, nem nada, e que o Hezbollah é igualmente um grupo terrorista radical, sem, no entanto, aceitarmos que Israel cometa todas as atrocidades perante os ataques destes dois grupos terroristas e as ameaças destes dois grupos terroristas à segurança, à dignidade e à vida dos israelitas. Não podemos aceitar que, por causa dos outros serem infr frequentáveis, então Israel pode fazer tudo e um par de botas, porque não pode, em primeiro lugar. Depois, há esta ideia de que, por exemplo, vens para aqui comparar mortes no Sudão com mortes em Gaza. Mais uma vez, eu não sei onde é que morreram mais pessoas, se foi no Sudão, se é em Gaza neste momento, onde está a acontecer aquela tragédia inaceitável que está a acontecer debaixo dos nossos olhos. Agora, não é uma razão para nós não condenarmos Israel, porque senão nós tínhamos que andar sempre a fazer um ranking onde é que está a acontecer mais mortes e usávamos o nosso capital diplomático e de indignação apenas relativamente a esse problema. Nada disso desculpa Israel. E depois, também temos de reconhecer que aquilo que Israel fez com a explosão dos pagers e com a explosão dos walkie-talkies, não é um ataque ao Hezbollah que respeita as convenções normais de um país que está em guerra. Foi também um ato terrorista que explodiu em supermercados e em sítios e que matou civis e que matou crianças, estrupiou e matou. Não foi um ataque simplesmente a terroristas do Hezbollah. Eu realmente estou a sentir-me cada vez mais incomodada. E depois é assim, tu aqui foste honesto e eu agradeço-te por isso. Tu és um admirador de Israel, tiveste lá num kibbutz e eu acho isso ótimo. E certamente que Israel, em si, a ideia de Israel tem várias características que nos podem levar a ter uma simpatia pela ideia e depois tem outras que nos podem levar a ter uma não simpatia. E certamente que Netanyahu é difícil ter qualquer espécie de simpatia pelo projeto político dele e das pessoas que o rodeiam. Mas, de facto, o teu título da crônica do Observador é dizer que Israel respeita as resoluções das Nações Unidas, quando na verdade, Israel deve ser o país que mais desrespeita resoluções das Nações Unidas. Não é por ele as respeitar neste concreto da fronteira com o Líbano, do conflito com o Hezbollah, que isso desculpa a sistemática falta de respeito das resoluções das Nações Unidas relativamente aos colonatos da Cisjordânia, relativamente à proteção dos civis em Gaza. O que a mim me incomoda é: há supostamente um duplo critério nas pessoas que, numa talvez excessiva exigência relativamente a Israel, que eu não tenho nada a certeza que exista, relativamente a outros locais onde acontecem atropelos graves aos direitos humanos e ao direito internacional. Mas também não me parece, por exemplo, que nós possamos vir para aqui, eu disputo a tua opção desse duplo critério, no fundo, levar a sempre desculpar todas as atrocidades que Israel comete, porque isso também é um duplo critério, que nós temos que exigir os mesmos.
Há um duplo trunfo agora, Susana.
Só dizer uma coisa.
Sim, e a dar aqui a oportunidade ao Jorge Fernandes de trunfar o que a Susana disse para depois tu poderes também, naturalmente, responder. Jorge.
Não, eu só quero dizer, eu acho que há uma coisa que a Susana disse que tem toda a razão, que é evidente que Israel tem algum perdão, digamos, e tem uma corda muito larga em muitos sítios. Mas as razões aqui são históricas, são tão complexas que não vale a pena. Agora, há uma coisa que o João disse com a qual eu estou 100% de acordo, que é as dores que a comunidade internacional toma, que alguns grupos políticos tomam relativamente às ações de Israel, é fascinante observar. As dores que qualquer pessoa toma quanto aos direitos humanos em Gaza, os direitos humanos que Israel viola quando, enfim. China, quer dizer, um genocídio autêntico de mais de 1 milhão de muçulmanos, quer dizer, a lista é infindável. E eu gostava realmente que houvesse aqui muito maior quando tomamos as dores. Não, mas quando tomamos as dores.
Tens que condenar as duas. Não podes desculpar Israel.
Não, mas como tu deves imaginar, só para dar exemplo muito simples: basta andar em qualquer campus universitário hoje em dia e tu veres a quantidade de documentos, de coisas a apelar a manifestações contra Israel. E não vês o mesmo grau de atenção a coisas que acontecem reiteradamente em outros pontos do globo.
Já percebemos que este tema daria uma jogada da semana, mas João Marques de Almeida, para rematar e para responderes aqui ao trunfo da Susana.
Só dois pontos, muito rápido. Sim, claro que dava, não vou discutir tudo o que a Susana disse. Dois pontos. O primeiro: Susana, eu sei que tu, pessoalmente, criticas tanto a China e a Rússia como criticas Israel, isto não é uma crítica a ti. Agora, foi exatamente o que disse o Jorge. Há uma disponibilidade, se quiseres, há uma discriminação em relação a Israel que não há em relação a muitos outros regimes. Há uma disponibilidade em várias partes do mundo ocidental para atacar Israel de um modo que não atacam mais ninguém Foi um ponto que eu quis fazer. O segundo ponto, eu nunca disse em lado nenhum, nem aqui, nem no meu artigo, falaste no artigo, eu não queria falar agora do artigo. Eu nunca disse em lado nenhum que desculpava atrocidades cometidas por Israel. Nunca defendi em lado nenhum, pelo contrário, não foi ao caso, já critiquei numa palestra em Israel há uns anos, a política dos colonatos na Cisjordânia.
E agora o que está a acontecer em Gaza, parece que é uma resposta à altura do que aconteceu a 7 de outubro.
Susana, eu para dar uma resposta sobre o que está a acontecer em Gaza, íamos ocupar o programa todo. Eu estou disponível para discutir Israel num programa.
Fica prometido.
Dou a minha visão sobre o que está a acontecer em Gaza. Agora, se vou explicar, preciso de tempo.
Fica prometido, até porque infelizmente parece ser um conflito que ainda se vai prolongar no tempo. Vamos então à jogada da semana, agora sim, orçamento do Estado e peço-vos alguma concisão aqui nas avaliações àquilo que assistimos hoje para conseguirmos tocar em vários pontos. A reunião entre Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos em São Bento não foi decisiva. Há margem para negociar dos dois lados, ao que parece, mas os adjetivos pesam. O primeiro-ministro diz que as propostas apresentadas pelo PS são radicais e inflexíveis. Já vamos às propostas que custam, pelas contas de Pedro Nuno Santos, 970 milhões de euros. Um ponto prévio aqui, o líder do PS avisa que chumba o documento que vai gerir as contas públicas se o IRC e o IRS Jovem não caírem. Não há sequer modulação possível. Perante esta linha vermelhíssima, pode o governo vir a acolher alguma proposta do PS, Jorge?
Bem, eu fiquei verdadeiramente surpreendido, confesso, com a resposta que Pedro Nuno Santos deu a isso. Nomeadamente, achei muito curioso o facto de ele dizer: "Bem, eu não estou disponível para o IRS Jovem, mas em contrapartida gastamos os mesmos milhões assim". Primeira coisa, naturalmente, vamos cuidar dos pensionistas, porque essa classe que tem sido tão massacrada ao longo dos últimos anos e que tantas alegrias eleitorais certamente tem dado ao Partido Socialista. Depois, um ex-ministro da Habitação, que sabe ainda por cima que estas coisas demoram imenso tempo. Disse 500 milhões para a habitação, que são basicamente tostões naquele contexto do que é uma política de habitação e que ninguém sabe muito bem como, nem quando seriam gastos, nem quanto tempo demorariam. Ele diz, aliás, de resto, que aquilo são medidas para a classe média. Portanto, no fundo, mais uma vez, é uma indicação no fundamental, na minha opinião, que é a atenção política que pretendemos dar. É uma escolha política perfeitamente legítima, mas mais uma vez a privilegiar no fundo os insiders, os reformados, quem já está, apesar de tudo, protegido dentro de uma certa lógica. Eu acho que Luís Montenegro, a proposta do IRS Jovem tem defeitos, é problemática, mas eu acho que é importante, apesar de tudo, haver um partido político que defenda uma parte substancial da população, que é uma parte substancial da população que, relembre-se, uma população que tem hoje menos de 40 anos, cresceu, entrou no mercado de trabalho no contexto de uma crise econômica muito profunda. Está aqui a Susana e o Luís, podem dizer isto muito melhor do que eu. Sabemos que muitas vezes as condições econômicas dos primeiros empregos deixam marcas, fundamentalmente para o resto da vida ativa das pessoas e para o mercado de trabalho todo. E, portanto, eu acho muito importante que haja um primeiro-ministro que de alguma maneira defenda os jovens. Pode não ser exatamente naqueles moldes, mas recusar liminarmente isso para uma das três medidas é subir as pensões a quem ganha, por exemplo, 3 ou 4 mil euros. Enfim, é uma opção política, mas sabemos bem de quem é que o PS espera que vote nele nas próximas eleições.
Vamos a essas propostas que o Partido Socialista apresentou este encontro em São Bento. Luís, 500 milhões de euros de investimento público para construir e reabilitar casas para a classe média, uma medida para os jovens e para residências estudantis, 270 milhões para esse aumento, que estava aqui a falar o Jorge das pensões até aos 1565 euros, para além do aumento já decorrente da inflação, e 200 milhões para negociar com os médicos um regime de exclusividade no Serviço Nacional de Saúde. O secretário-geral do PS garante que são medidas com responsabilidade orçamental, que não comprometem as contas, se essa descida do IRS jovem e do IRC cair. Não sei se já tiveste tempo de fazer contas ou isto é como os orçamentos familiares, é preciso é fazer opções.
Isto é preciso fazer opções, mas é evidente que não põe em causa as contas porque tem a contrapartida imediata de não haver a descida dos impostos. Portanto, aqui as contas no sentido de défice de saldo do fim do ano. Agora, aqui o que me chamou mais a atenção não foi o que ele disse, mas sim o que ele omitiu. Para já, eu acho que essas propostas não são para levar muito a sério. Aliás, mesmo Pedro Nuno Santos, no fim da intervenção, disse que o que eram mesmo as linhas vermelhas era o fim das medidas, o IRS e o IRC, e não propriamente as substituições, o que ele está a propor em troca.
Sim, com estas há margem para negociar.
Isso é claro. Portanto, o que acho que ele está aqui a anunciar é um programa de governo, as suas prioridades para o caso de haver eleições antecipadas. Acho que é isso que está a fazer. E aqui o que me chama mesmo a atenção e que mais uma vez me choca, e mais uma vez garanto que eu já disse isso várias vezes e não vou votar no Partido Socialista com certeza durante uma década, durante a década que vem, por causa disto, é que depois do desastre que foi a governação socialista para a escola pública, depois de deixarem centenas de milhares de alunos sem professores, a uma disciplina ou a outra, sem nunca terem proposto medidas extraordinárias, sem nunca terem conseguido resolver o problema dos professores, aliás, sem nunca terem tentado resolver os problemas dos professores.
A educação não será uma prioridade.
Numa situação dessas, não fazem uma proposta de 300 milhões de euros para a nova carreira dos professores, de forma a atrair docentes para dar aulas às nossas crianças. Mais uma vez fica comprovado que a escola pública, para o PS, é uma treta. E já era no governo É incrível, porque quando um partido está na oposição costuma prometer tudo e mais alguma coisa. E nem na oposição o PS consegue prometer alguma coisa de jeito relativamente à educação. Numa altura em que arranja aqui uma folga de 1500 milhões de euros, anda a espalhar dinheiro com palermices, que não resolvem problemas nenhuns, tal como o Jorge disse, e no assunto que é o assunto mais estrutural, mais relevante e mais decisivo para os próximos 20, 30 anos de Portugal, é totalmente omisso. Isso é o que eu tenho a dizer sobre isto. Não prometeram, mas sim o que não prometeram.
A Susana Peralta e o Jorge Fernandes assistem aqui a tua intervenção. João Marques de Almeida, apesar de Luís Montenegro dizer que são propostas radicais e inflexíveis da parte do Partido Socialista, pode haver aqui algum ponto de encontro entre PS e AD depois do dia de hoje?
Antes de mais, muito rápido, quero felicitar o Luís por durante a próxima década não estar no PS. Acho que foi das coisas que eu mais gostei de ouvir do Luís no último ano. Parabéns, Luís, e welcome to the club. Um ponto sobre isso. Eu acho que não há margem nenhuma, eu acho que depois da reunião de hoje, acho praticamente impossível haver um entendimento sobre o orçamento entre o governo e o PS. Uma coisa era o PS dizer: "Nós não concordamos com o IRC nestas condições, com a diminuição do IRS para os jovens nestas condições, vamos tentar ver se chegamos a um compromisso em relação a essas matérias." Agora, impor linhas vermelhas a dois pontos que fizeram parte do programa eleitoral do PSD e do CDS. O Luís Montenegro fez campanha em relação a esses temas. Faz parte do programa do governo. Como é que o Luís Montenegro pode aceitar as linhas vermelhas? É impossível, mais vale então demitir-se. Portanto, Pedro Nuno Santos, o que fez hoje foi basicamente dizer: "Nós não vamos aprovar o orçamento deste governo, porque impôs linhas vermelhas a duas questões centrais para o governo e começou a fazer campanha eleitoral com aquelas propostas." Foi isso que aconteceu. A mim, parece-me impossível haver um entendimento entre o governo e o PS em matéria orçamental. O que vai acontecer não sabemos, mas agora, a partir de hoje, a política portuguesa é muito mais incerta do que era. Não vai haver entendimento, na minha opinião, entre o governo e o PS. Aliás, como é que Montenegro podia aceitar desistir de dois pontos centrais da sua campanha eleitoral, do seu programa eleitoral, do programa do governo, e depois com que cara é que falava aos portugueses? Como é que podia governar?
Susana Peralta, uma frase só. Perante o que ouvi, está razões para Marcelo Rebelo de Sousa estar realisticamente otimista?
Não, mas Marcelo Rebelo de Sousa é que estabeleceu esta regra de que sem votos, sem aprovação do orçamento, tem que haver eleições. Mas infelizmente ele estabeleceu essa reputação, vai ser difícil fugir dela. Eu acho que não há razões para estar otimista, porque de facto, eu estava à espera que houvesse ali uma troca por troca. "Olha, deixa-me lá guardar o IRC e deixamos cair este disparate do IRS jovem."
O PS não perder a face, ganhar ali alguma coisa entre.
E o PSD também não, porque também percebe que a AD não pode agora governar sem nenhuma das suas bandeiras. É complicado. Independentemente do que eu penso das bandeiras. O que me parece é que foram os dois encontrar-se para nos voltar a mostrar irredutibilidade e desde março que andamos nisto. Não é assim que se negocia. Há um momento em que de facto se marcam posições e depois devagarinho tem que se ir aproximando. Parece que eles não saem da posição que marcaram inicialmente e estou a ver isto complicado.
E temos ainda três semanas, mais ou menos, pela frente até a proposta de orçamento ser apresentada pelo governo. Portanto, o filme vai continuar, o jogo também. O "Fora do Baralho" está de volta na próxima sexta-feira às 19h. Eu sou a Vanessa Cruz, bom fim de semana.