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Fora do Baralho, edição extra para responder às perguntas dos ouvintes que estão preocupados com a situação no Irão, também com as alianças entre PSD e Chega. E ainda há aqui uma pergunta sobre Spinum Viva, empresa familiar de Luís Montenegro. Vamos começar do lado internacional com o Nuno Groupa, eu acho que está hoje de serviço. Nuno, Francisco Fernandes pergunta aqui: "Donald Trump parece ter compreendido que o Irão não é a Venezuela e que decapitar a liderança iraniana não é suficiente para controlar o regime. Depois de anunciar que a guerra está ganha, qual é que é o próximo passo pra intervenção norte-americana no Irão, tendo em conta que o conflito ainda continua?"

O conflito continua e neste momento estão em curso negociações de paz, com todo o ceticismo que possamos ter. Mas aqui é preciso também compreender que a Venezuela é diferente do Irão, porque a situação na Venezuela, como aliás tudo indica em Cuba, os Estados Unidos estavam em posição de impor ao regime vigente um conjunto de condições que, uma vez afastado, no caso da Venezuela, o presidente Maduro, no caso de Cuba, pelos vistos, possivelmente nem vai ser afastado ninguém, os regimes acabam por aceitar. Porque são economias pequenas, porque são países pequenos, não são economias pequenas, no caso da Venezuela não é economia pequena, são países pequenos e são países que obviamente estão no continente americano. Em relação ao Irão, a grande questão aqui é perceber o que é que Donald Trump e a administração americana entendem como a segurança do Estado de Israel, porque o fundamental desta guerra, apesar de terem sido apresentadas outras desculpas e outros argumentos, já toda mundo percebeu, é fundamentalmente a segurança do Estado de Israel e agora também, obviamente, a segurança dos estados do Golfo. Ora, aqui é que começa a contradição, é que não parece possível assegurar a segurança do Estado de Israel e dos estados do Golfo mantendo este regime. Mas ao mesmo tempo, Donald Trump não quer invadir o Irão, nem quer usar a ocupação militar para alterar o regime iraniano. E, portanto, nós vamos ter que perceber até que ponto é que a administração norte-americana está disposta a ir para de fato assegurar a segurança do Estado de Israel e dos estados do Golfo. E isso, neste momento, eu acho que é a questão que está em aberto, que não é nada claro o que é que Israel e os estados do Golfo acham que é a sua própria segurança.

Portanto, é difícil de antever qual é que será o próximo passo de Donald Trump.

Claro, acrescentando que evidentemente há umas eleições para o Congresso em novembro, e isso obviamente introduz uma complicação adicional na estratégia de Donald Trump.

E uma pressão adicional também.

É claro.

Vamos passar para o Manuel Carvalho, que faz aqui duas perguntas. Vamos começar pela primeira: "Assistimos a mais uma aliança entre PSD e Chega na proibição da mudança de sexo para menores de 18 anos, alterações aqui à lei da identidade de gênero. O PSD de Montenegro também se vai apoiar no Chega pra reforma laboral?"

Essa é uma pergunta muito interessante, porque evidentemente a minha resposta é: se eu tivesse uma bola de cristal, eu não estava aqui a responder, estava a jogar na bolsa ou no Totobola. Vamos lá ver.

Estava noutro jogo.

Estava noutro jogo mais sério e mais rentável. Vamos lá ver. Eu acho que aqui há que reconhecer um conjunto de coisas, que é: apesar de tudo, naquilo que o PSD tem chegado a acordo com o Chega, não é só, obviamente, como disseste, as recentes alterações às leis, mas também, por exemplo, estou-me a lembrar da lei da nacionalidade e tudo isso, há uma certa proximidade de agenda ideológica entre o Chega, o CDS, até fundamentalmente por o CDS nestas matérias mais de identidade de gênero, e o PSD, apesar de o PSD ter que impor disciplina de voto, porque evidentemente tem um conjunto de pessoas mais à esquerda que não concordam. Mas aí há uma certa afinidade ideológica, podemos dizer, nas matérias em que o PSD chegou a acordo com o Chega. O problema da legislação laboral é que o Chega está muito mais próximo das posições do Partido Socialista, senão mesmo à esquerda do Partido Socialista nesta matéria, do que com o PSD. Portanto, eu não acho que seja impossível que venha a ser essa a coligação final, mas acho que ou o Chega cede imenso e, de fato, muda de posição radicalmente em relação àquilo que Ventura tem dito sobre matérias laborais, ou o PSD cede ao Chega, não sei. Mas diria que a proximidade ideológica entre o PSD e o Chega é muito pequena em matérias laborais e, portanto, não parece que o Chega, desse ponto de vista, seja o parceiro que o PSD quer nestas matérias. Mas vamos ver, pode ser que o PS tenha uma posição tal que force o PSD a aproximar-se do Chega e a fazer concessões ao Chega ou o contrário, o Chega a fazer concessões ao PSD.

Sim. Vamos agora ainda à outra pergunta deste ouvinte do Fora do Baralho, que nos escreveu para foradobaralho@observador.pt. "Depois de tanto mistério, já foi publicada a lista de empresas que obtiveram serviços da Spinum Viva." Luís Montenegro, de resto, antecipou-se à própria autoridade da transparência, Nuno. "Quer isto dizer", é o que perguntou o ouvinte, "que o país atravessou mais meio ano de eleições e instabilidade política, mais do que este período, a troco de nada?" Aliás, foi mais de meio ano, foi ano e meio.

Foi ano e meio. Deixa-me dizer que eu aqui não sou isento e, portanto, tenho que começar por admitir que não sou isento. A minha opinião pessoal é que Luís Montenegro não tem condições éticas para ser primeiro-ministro, não é de Spinum Viva, é desde a história das avenças da Carmo Tepinha em 2016. Portanto, na minha opinião, sempre disse, há 10 anos que digo, Luís Montenegro não tem condições para ser líder do PSD, nem primeiro-ministro. Não tem condições éticas. Ora bem, esta minha opinião é a minha opinião. Obviamente, não é a opinião da AD, nem é a opinião dos 1 milhão e 800 mil eleitores da AD, que acham que ele tem condições éticas para ser primeiro-ministro. Dito isto Parece-me que o caso Spinogira vai continuar. Não morreu, ao contrário do que se pode pensar, vai continuar a vir ao de cima, até porque não se sabe ainda o que consta no arquivamento da averiguação preventiva e até que isso saia, vai continuar a ser notícia. Vai continuar a ser notícia as investigações à casa de Luís Montenegro e eu arrisco que quando Luís Montenegro sair de primeiro-ministro, vai passar o resto da vida a enfrentar processos no Ministério Público. Isso significa que isto não foi de facto grátis para o país e vai perseguir a governação de Luís Montenegro, dure ela 18 meses ou cinco anos. Desse ponto de vista, eu acho que isto vai ter custos políticos inevitáveis para o país. E não há forma de sair disto, porque não se pode proibir a comunicação social de falar destes processos e estes processos vão continuar. Lembro que há 12 mil processos no Ministério Público com mais de cinco anos. Estes vão ser processos que vão durar muito tempo e vão continuar.

Até falaste sobre isso, sobre o número de processos pendentes no Fora do Baralho de sexta-feira.

E isto vai ser só mais um. E repara, até podemos dizer que estes até são os que ainda têm menos de cinco anos, ainda nem sequer chegou a esse número, ainda não são parte desse conjunto. Eu acho que é lamentável, estou de acordo. Seja lamentável para quem apoia a AD, porque acha que isto é uma distração, seja lamentável para quem não votou AD, porque isto mostra que não se consegue governar livre destes problemas, mas vamos ser realistas, estes problemas vão continuar, vão se arrastar, os arquivamentos vão continuar a ser polêmicos e parece-me que vai continuar a ser notícia, se não todas as semanas, pelo menos cada três meses, cada quatro meses, aparece mais uma notícia sobre o Spinogira, sobre os problemas de Espinho e outros problemas eventuais que venham a aparecer daqui até o final do mandato.

Mas consegues encontrar algum cabimento na nota que foi divulgada pelo gabinete do primeiro-ministro, dizendo que não há novidade, que são 13 clientes. Se não há novidade, por que tanto tempo?

Por que tanto tempo e por que a discussão no Tribunal Constitucional? E a discussão no Tribunal Constitucional não faz nenhum sentido à luz desta nota do gabinete do primeiro-ministro. Mas essa própria questão levanta outra questão, que eu acho que vai dar lugar a outro processo mais tarde, e processo já estou a dizer, vai vir coisas pra frente, que é o primeiro-ministro usou recursos do Estado para fazer a sua defesa pessoal neste processo. Ora, o primeiro-ministro tem todo o direito de se defender pessoalmente, obviamente, mas tem que utilizar os seus recursos privados, porque este é um problema privado.

Estás a falar dos pareceres que pediu?

Claro. E das assessorias jurídicas do Estado. É que o primeiro-ministro não tem direito, porque isto não é um problema do Estado, isto é um problema privado. Isso evidentemente vai dar lugar a mais processos, mais discussão lá pra frente e isto não vai fechar nunca. É a minha opinião, isto não vai fechar nunca e vai perseguir o primeiro-ministro muito depois dele deixar de ser primeiro-ministro.

E cá estaremos para analisar esses desenvolvimentos, se surgirem. Obrigada, Nuno Garoupa, pela resposta que deste aqui aos nossos ouvintes. Já sabe, pode sempre escrever-nos para foradobralho@observador.pt ou então através de WhatsApp, mensagem escrita ou áudio para o 91 002 41 85. Eu sou a Vanessa Cruz, estou de volta com os quatro ases da análise política na próxima sexta-feira, depois das 19h, na Rádio Observador. Até lá.