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Abrimos mais um Gabinete de Guerra na Rádio Observador, hoje com a análise do coronel José do Carmo. Muito bom dia, senhor coronel, bem-vindo a este Gabinete de Guerra. Vamos começar pela Ucrânia. A Rússia parece estar a endurecer os ataques contra o país. São impressionantes também as imagens do metrô de Kiev esta noite, à pinha, servir de abrigo. De resto, o Zelensky já apontava para a possibilidade de um ataque mais massivo, que estaria em preparação, e aconteceu: dezenas de mísseis lançados contra a Ucrânia. Vários atingiram Kiev, também algumas cidades na região de Poltava. Para já, há registro de oito mortos, 30 feridos, pelo menos. É um endurecer que estamos a assistir por parte da Rússia neste conflito na Ucrânia?
Olá, bom dia. É um endurecer, mas no fundo é manter a estratégia que a Rússia tem. É uma estratégia de continuidade. A Rússia consegue, com a produção mensal de mísseis que tem, nomeadamente os mísseis balísticos, que é onde tem neste momento uma grande superioridade, porque não há, de fato, defesas suficientes para os bater. E, portanto, a Rússia consegue fazer vagas, não é todos os dias, é de X em X dias, consegue fazer vagas de mísseis, que depois integra num pacote com mísseis de cruzeiro, mísseis balísticos, drones, etc. E lança estes pacotes que dispersam as defesas e têm mais eficácia do que lançar sistematicamente X meios aéreos por dia. No fundo, lança estes pacotes X em X tempo, quando os acumula, e consegue melhores resultados, porque alguns passam, nomeadamente os balísticos. Já os mísseis de cruzeiro e os drones, há uma taxa de interceção bastante elevada, mas é evidente que os mísseis balísticos, que a Rússia produz cerca de 100 por mês, é possível que aumente um pouquinho mais, mas são estes mísseis que estão a fazer a diferença, porque não há interceptores suficientes na Ucrânia. Portanto, não é um aumentar, é uma guerra de desgaste em que neste momento a Rússia tem uma superioridade neste tipo de meios, porque há do outro lado carência de defesas e está a explorar isso. É normal, é uma guerra. No sentido em que, em termos militares, é normal que explore uma insuficiência do adversário.
É por isso que a construção de Patriots da Ucrânia, que poderá demorar vários anos, seria tão importante, precisamente para essa defesa que está a falhar do lado do regime de Kiev.
Pois, essas construções licenciadas deste tipo de mísseis não são para já. Isso não vai resolver o problema imediato. Eu acho que a Ucrânia também está a tentar agora, já vai lançar o seu protótipo do míssil antibalístico do sistema Freya. Mas, de qualquer maneira, são coisas que levam tempo. Não é como ir ao supermercado e comprar um pacote de leite. As coisas têm que se fazer, a produção tem muitos gargalos, nomeadamente os mísseis Patriots, interceptores PAC-3, aqueles que interceptam, que são os mais usados de impacto direto. Há componentes que só são fabricados nos Estados Unidos, em certas fábricas, e há uma limitação. E para já, neste momento, os Estados Unidos não estão a conseguir produzir mais do que produziam, não triplicaram ainda a produção, porque também há componentes que estão limitados. Só fabrica, por exemplo, a Boeing, que fabrica o seeker final, que é os olhos do míssil na parte final, e só produz X por ano. Ainda não conseguiu dar a volta a isto. É uma coisa que demora tempo. O grande problema desta guerra é justamente a indústria de guerra. Neste momento está se tornar uma questão de quem é que faz mais, quem é que aguenta mais, quem é que produz mais por mês. E a Rússia está numa economia de guerra completa. Está só a produzir isto, e produz isto com componentes que vêm da China. É preciso notar isto. A maior parte dos componentes para este tipo de armas vêm da China. É a China que está, no fundo, a servir de fábrica a esta guerra.
Coronel José do Carmo, olhamos para o Médio Oriente, Trump com palavras fortes para o Irão, com uma expressão que até disse: "Vão levar uma grande tareia", e parece ter cumprido. Houve um grande ataque nas últimas horas ao país. De resto, também um pouco centrado pelo que se percebe e pelo que foi comunicado nas infraestruturas marítimas do próprio Irão, uma resposta aos ataques que terão sido feitos a partir do Iraque. Que momento é este do conflito? Porque Trump também já disse que esta fase de ataques estaria, por agora, concluída. Estamos aqui numa consecutiva resposta de um lado e resposta do outro, e teremos agora uma situação de alguma acalmia ou estes ataques dos Estados Unidos mais fortes ao Irão, como o que aconteceu na última noite, serão para continuar?
Eu creio que Trump quer mostrar que está a controlar o ritmo da guerra. Quando ele decretou o fim dos bombardeamentos para dar uma oportunidade às negociações, estava a dizer: "Sou eu que controlo a guerra, sou eu que controlo o tempo da guerra". No Irão, há uma fação iraniana, e eu acho que os Estados Unidos estão a apostar ainda numa possibilidade dentro do regime. E há, de fato, diversas vozes. Há vozes moderadas, o presidente, que nem sequer é persa, é um azeri curdo. Há ali o ministro dos estrangeiros, que até são acusados internamente de serem traidores e de quererem se render aos Estados Unidos. Há uma aposta nessa divisão interna que possa levar a negociações. De fato, este assunto resolvia-se melhor com negociações. Agora, o Irão deu uma resposta cabal sobre a questão do estreito. O Irão não aceita que haja rotas fora do seu controle. Não aceita regressar ao sistema que estava anteriormente, que é o que vigorava antes e é o que vigora em Gibraltar, e vigora no Estreito de Málaga. É um organismo que controla, não no sentido político, mas controla em termos técnicos a passagem nos estreitos, vão pela direita, vão pela esquerda, anda mais estreita, anda mais devagar. É como um ator de controle, era o que estava antes E é o que está nos outros estreitos que têm situações semelhantes. O Irão não quer voltar a isso, não quer que a rota pelas águas de Omã, que até é tecnicamente a melhor rota, fique livre do seu controle, porque pretende explorar aquilo em termos económicos e não lhe interessa um mecanismo onde, na parte de Omã, haja liberdade, porque aí os navios vão todos por lá. É como eu ir agora do Porto pra Lisboa, se houver uma autoestrada gratuita, vou pela autoestrada gratuita, não vou por aquela em que pago. O Irão não quer isso porque então ninguém vai pela autoestrada deles, eles querem controlar aquilo tudo. E já deram a resposta cabal que não iam aceitar isso. Aliás, é o que está a acontecer no estreito é justamente isso, o Irão ataca navios que passam pela rota de Omã e vai lá meter minas, etc. Já deu essa resposta, não vai aceitar. E se não vai aceitar, agora só há uma possibilidade: ou o mundo se rende a esta nova visão do direito marítimo internacional ou há que prosseguir até o fim. Eu acho que os Estados Unidos vão chegar a um ponto em que, na minha opinião, já deviam ter chegado, que é o Irão não vai ceder por negociações, mesmo que faça negociações não irá cumprir os acordos que estabelece, raramente o fez. Vamos chegar a este ponto em que dificilmente, a não ser que haja uma mudança de regime em Teerão, interna, que a fação digamos moderada ou mais racional fique no domínio da situação, não creio que isto vá mudar. O tipo de estratégia de escalada, de resposta, parada e resposta, não é uma boa maneira de ganhar uma guerra, é a melhor maneira de a prolongar e de causar mais danos. É como uma luta em que as pessoas começam aos empurrões, depois começam aos socos, depois aos tapas, finalmente acabam a tiro. É o que irá acontecer se não houver aqui uma estratégia mais eficaz. Eu creio que agora quando o Netanyahu foi aos Estados Unidos ontem.
Um encontro com poucas declarações do qual soubemos pouco.
Poucas declarações, mas o que se sabe é que o Netanyahu levou mapas e sabe-se da sua capacidade de mostrar ao presidente americano, muitas vezes de forma gráfica, o que está realmente em causa. Vamos ver o que é que sai daqui. Há muitas vozes nos Estados Unidos que acham que sim, que deve-se acabar essa tarefa, o Irão não vai lá, o regime não vai mudar assim, vão ter que se dar golpes mais devastadores pra que o regime mude. Não é atacando apenas alvos militares ali na região do Golfo, na região do Estreito, que as coisas vão mudar. O Irão encaixa isso. Os alvos já não serão muitos, pelo menos visíveis, alguma coisa vai ter que mudar ou então aceitamos que o direito marítimo internacional mudou. E temos que conviver.
Muito bem. O ponto de situação nestes conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente aqui feito esta manhã com a ajuda do coronel José do Carmo em mais um gabinete de guerra. Coronel José do Carmo, muito obrigado pelos seus esclarecimentos. Bom dia.
Bom dia e obrigado.