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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de conflito. Hoje contamos com a análise de Orlando Sá Mendes, especialista em relações internacionais. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Boa noite.

Vamos começar hoje por olhar para a Assembleia Geral das Nações Unidas, o encontro que reúne líderes de todo o mundo. E vamos olhar primeiro para o discurso de Donald Trump, o presidente norte-americano. Começou por dizer "America is back", por falar também numa era dourada. Afirmou que os Estados Unidos estão a expandir-se e são os mais poderosos. Encontra fundamento para estas afirmações?

Boa noite, muito obrigado pelo convite. É uma cerimónia muito importante, solene, e por isso é que os discursos, para mais este dos Estados Unidos da América, devem nos deixar com toda a atenção. Ele, de facto, começou por sublinhar aspectos que parecem mais de política interna e algumas das pressões a lembrar até quase a inauguração dele em janeiro de 2025, precisamente ao falar nessa questão da era dourada. E agora, passado este tempo, que ainda não são dois anos, é um ano e meio, ele tentou reportar algumas melhorias. Acha que os Estados Unidos estão à frente de todos os países em muitos aspectos e bem sabemos que são, de facto, ainda hoje, a potência mais determinante no mundo e que do ponto de vista militar, industrial, econômico, são o país mais influente. Também por isso lhe devia dar bastante mais responsabilidade. Sobre outros aspectos, quando ele fala numa era do índice de pobreza ser o mais baixo, também pode ser verdade quando fazemos o nosso zoom out, porque estamos numa era de maior projecção de bem-estar em todo o mundo e felizmente em todos os países, quando comparamos com indicadores anteriores, estamos melhor. Ainda que, como sabemos, precisamente as questões do custo de vida e desta inflação, até por via de guerras, que no fundo também Trump não só promoveu como não conseguiu atenuar, podem estar a incitar a um aumento do custo de vida que até o pode prejudicar eleitoralmente. Portanto, é sempre olharmos para Trump nesta maneira de se vangloriar dos feitos dos Estados Unidos, mas ele próprio relembrou os 250 anos e portanto, creio que podemos considerar que muito deste esforço foi feito não só por presidentes, acima de tudo pelo povo, que os presidentes às vezes não se esforçam assim tanto, mas pelo povo dos Estados Unidos da América e pelo facto de ter sido um povo sempre muito engenhoso, dinâmico e empreendedor.

Mas portanto, acha que este discurso do presidente norte-americano foi algo desadequado para o local?

Sim, quer dizer, se olharmos para as Nações Unidas e para a sua tradição, para a importância de termos uma organização internacional onde todos falam com todos, cuja ideia é tão boa. O multilateralismo ao máximo, para que todos se pudessem entender e firmar um conjunto de regras que depois podiam tentar obrigar com um sistema equilibrado de alguma verificação e freios ao poder, estar de facto a falar sobre questões mais de cariz interno, e nós já passamos tanto tempo a ouvir Trump, o alcance podia ter sido outro. Ainda assim, houve muito sobre questões das guerras, que ele acha sempre que consegue resolver. Voltou a falar nas oito guerras que resolveu, mas admitindo logo a seguir que dependeram de uma relação muito especial que tem com os líderes. Ora, mais uma vez, é Trump a ser igual a si próprio, a achar que são as suas emoções, as suas amizades que são determinantes e não uma cultura política mais baseada nas regras gerais e abstratas, que são independentes precisamente das amizades que cada um possa ter. E no fundo, ele acha sempre que é o seu próprio efeito e das suas negociações, tenta aplicar essa maneira de estar empresarial num sistema de Estados. E nós sabemos que esta é uma das principais críticas que vamos sempre poder fazer a Trump, porque as empresas entre si quando fazem negócios não podem usar poderes coercivos. Os Estados, pelo contrário, têm os poderes coercivos legítimos, que muitas vezes são dados pela Constituição, e como tal não atuam da mesma maneira na arena internacional. Têm que procurar os valores e não tanto apenas fazer os negócios. No caso, Trump vai dizendo que é para projetar ainda mais os Estados Unidos e ele aponta sempre essa dimensão econômica. Esperemos que seja repercutível às pessoas, mas muitas vezes sabemos que Trump parece estar a negociar um pouco por ele. A fundar, como agora funda, se calhar, uma nova televisão ou uma nova rede social e no fundo, a não se coibir de usar alguma informação que por vezes pode ser privilegiada para prosseguir com os seus intentos ou até de familiares. E isso vai ser algo que nós vamos ter que escrutinar muito bem, não só nestes anos, mas nos próximos.

Como dizia, Donald Trump falou também sobre os atuais conflitos. Quanto à guerra na Ucrânia, afirmou que vai acabar mais rápido do que as pessoas pensam e no que toca ao Irão, disse acreditar que vai existir um acordo depois das eleições. Há algum motivo concreto que nos leve a acreditar nisto ou estamos perante a habitual retórica algo exagerada de Donald Trump?

Em toda a honestidade, esperaríamos que ele tivesse razão quando diz que a guerra na Ucrânia vai acabar de forma mais rápida do que estamos à espera. Temos sempre a ideia que as negociações podem estar a acontecer fora dos nossos olhares e esperamos que sim. Agora, quando Trump fala com o Zelensky e com o Putin, naturalmente que nenhum deles lhe quer dar a ideia de não estar a ouvir e interessado numa trégua, no caso, a trégua energética que Trump Tentou que eles prosseguissem. Mas sabíamos que ou há um mecanismo de verificação, a não ser que haja uma simultaneidade, portanto, que houvesse uma trégua mútua acordada pelos dois, é muito difícil vir impor de fora e aquilo que redunda este esforço de Trump é, no fundo, uma declaração política em que vai haver uma trégua, mas que depois, não há uma dedução efetiva disso, há apenas a mera declaração. Ficamos por palavras, o que é até interessante, porque o próprio Trump disse no discurso a ideia de que os outros falam e eu faço, mas sem articular as posições da Ucrânia e da Rússia, que ele muitas vezes compara, é difícil. Ele, de facto, tem alguma dificuldade em olhar para Zelensky e a Ucrânia como sendo o país invadido, e nós aqui estando na Europa e percebendo esta movimentação de muita gente na Ucrânia que gostaria até de aderir a algumas das organizações internacionais ocidentais, percebemos um pouco melhor a maneira como isto pode ter sido traduzido em Moscovo como uma ameaça. Mas Trump continua a comparar os dois. Aliás, há uma altura do discurso em que ele fala naquela questão interna que houve do Russia Oaks, portanto deste embuste de ter-se falado muito da Rússia, em que ele próprio acrescentou Ucrânia. Ele põe muitas vezes em pé de igualdade, disse que estão a haver mortes parte a parte, falou outra vez naqueles números de 25 mil. São números gigantescos. Ele aí, de facto, tem um bom intuito, porque vê que as mortes estão a ser desmesuradas e desnecessárias. É uma guerra de atrição que, aliás, não estão a mudar assim tanto as próprias conquistas no terreno, deveria acabar, até aí estamos todos de acordo. A questão é que se a Ucrânia para, de repente, é a própria Ucrânia que acaba. Como se costuma dizer, se a Rússia para, a guerra para, se a Ucrânia para, a Ucrânia acaba. Por isso é que Trump devia pressionar um pouquinho mais Putin. Sabemos que se vai encontrar hoje com Zelensky e esperemos que Zelensky continue a tentar pressionar Trump, fazê-lo entender desta sua perspectiva.

Vamos também olhar para António Guterres, fez hoje o último discurso nesta assembleia enquanto secretário-geral das Nações Unidas. De certa forma, em jeito de despedida, Guterres disse que quando não for secretário-geral, vai continuar a defender que a paz é possível, prometeu nunca desistir deste ponto. Pergunto-lhe que legado é que deixa António Guterres nas Nações Unidas e se teve um dos mandatos mais desafiantes na história da ONU.

É, foi de facto um dos mandatos mais desafiantes e nós estamos numa altura de uma falta de entusiasmo geral perante essa instituição, que de facto foi erguida com base em ideias tão nobres e que poderiam de facto ter elevado tanto a humanidade à procura da paz e da articulação dos vários valores de pluralismo, de liberdade para todos. Mas o que é facto é que estamos todos muito decepcionados. É certo que ele não tem um poder efetivo, no fundo, para controlar os estados-membros que continuam a ter a sua força. É um poder com alguma distância. No fundo, é um poder que deveria tentar ser usado ou canalizado de uma maneira um pouco mais direcionada. Parece-me que, em jeito de crítica, se me permitir, creio que ele hoje até teve o foco principal da paz, mas muitas vezes e nestes últimos 10 anos, a culpa não é só destes últimos 10 anos, mas também já vem de trás, houve um acréscimo muito grande aos objetivos da ONU, que passaram a inculcar em si muitas outras ideias e muitos outros problemas da humanidade, também importantes, mas não tão prementes quanto à guerra. Em paz vamos conseguir resolver os problemas gerados pelas alterações climáticas, em paz vamos conseguir entendê-los melhor, em paz vamos conseguir projetar um futuro de liberdade para todos. Em guerra, não. Em guerra estamos com necessidades muito mais prementes e levamos certamente várias catástrofes humanitárias. Por isso é que era bom que a ONU se tivesse concentrado um pouquinho mais naquilo que deveria ter feito. E aí houve um dispersar de atenções que pode não ter contribuído isto. Às vezes as pessoas têm ditados para isto: "Quem muitos cavalos leva, muitos deixa para trás". Parece que as Nações Unidas tentam fazer mais do que aquilo que deveria, em vez de se concentrar. Agora, ainda assim, hoje tivemos de facto um discurso muito interessante em que ele lembra a ideia de tentarmos ser geridos por normas e por regras, uma certa ideia de rule of law e não tanto pelas iniciativas deste ou daquele isoladamente. E que, portanto, estamos a entregar demasiado poder a pessoas, quem sabe até a máquinas, também fica o alerta, em vez de voltarmos a instigar, promover e defender essas regras. Mas essas regras têm muitas vezes que ser defendidas pelas potências que estejam interessadas nisso. E o que é facto é que as Nações Unidas também deram muito protagonismo a países cuja ideia de direitos e até muitas vezes direitos humanos, não é a mesma que a ocidental. E claro que a posição dele é uma posição difícil, porque tem que conseguir ouvir todos e respeitar as ideias de todos. É uma posição muito difícil, que nos vai levar até muito tempo a conseguir avaliar, e que temos muitas das limitações, mas também por vezes é preciso perceber que quem mais protege os direitos e as liberdades são muitas vezes os países ocidentais que têm sido muito esquecidos e é certo que é preciso dar voz a países africanos, e ele sublinhou isso, haver uma reforma das Nações Unidas. A Índia, que é o país com mais população e que não está, por exemplo, no Conselho de Segurança a nível permanente. Portanto, toda essa reconfiguração é necessária, mas nos últimos 10 anos também não houve muita hipótese ou vontade de iniciar essa negociação. E depois, claro, com líderes também dos países Que muitas vezes parecem não entender totalmente este espírito, pior ainda. E quando estamos numa fase em que todos parecem puxar para seu lado, a humanidade vai se mesmo deslaçando. E por isso é bom que voltem estas potências médias, como o Carney, que tem dito, o primeiro-ministro do Canadá, que é preciso voltarmos a lembrar o papel das regras gerais e as potências médias mais democráticas se unirem. É verdade, o problema é que muitas vezes estas uniões criam outras organizações e até tiram algum protagonismo à ONU, que ainda tem papel muito importante. A ideia é boa, temos que, se calhar, agora numa nova fase que se inicia, tentar voltar um pouco mais às raízes, perceber aquilo que a fundou. E aquilo que a fundou não foi tentar substituir-se aos países em questões de educação, não foi tentar substituir aos países em muitas outras áreas que poderiam ter sido preferidas em favor da paz. Houve aqui, de fato, uma descompensação muito grande quando se tentou chegar a todo lado.

Para terminar, pergunto-lhe que importância é que tem esta Assembleia Geral das Nações Unidas nesta difícil conjuntura e também se podemos esperar que saiam daqui conclusões, acordos, entendimentos importantes entre algumas partes?

Bom, aquilo que estamos a ver para já é um conjunto de encontros bilaterais entre os vários Estados que estão a aproveitar o fato de estarem perante outros chefes de Estado e de governo para falarem uns com os outros. Portanto, não se perde o esforço e pode ser que daqui resultem alguns acordos. Mas, no fundo, estamos a chegar a uma 81ª reunião da Assembleia Geral da ONU nesta fase, nestes dias, com os chefes de Estado e de governo, 193 Estados vão-se reunir uns aos outros e sabemos que muitos dos problemas já não são protagonizados por Estados, mas sim por grupos terroristas, o que também dificulta muito a persecução da paz. E também sabemos que não vamos ter para já muitos anúncios, as divisões são profundas, mas que dessas divisões não resultem fissuras, porque da fissura pode vir o abismo. Também há uma altura em que Guterres disse qualquer coisa deste gênero. Agora, que estamos a entrar numa nova era e que temos que continuar a procurar a humanidade em nós, temos, porque senão corremos o risco de nos desencontrarmos com aquilo que nos poderia unir. As Nações Unidas hoje vão voltar ao diálogo com pouco entusiasmo, mas esperemos que no final das contas possamos, nunca é nesta altura, nunca é no próprio momento, perceber que um dia mais tarde não foi um acordo totalmente irrelevante, muito embora, para já a esperança esteja muito abaixo daquilo que seria as expectativas para um encontro desta projeção, magnanimidade e oportunidade.

Chegamos ao final do nosso tempo. Orlando Samanos, especialista em Relações Internacionais, muito obrigada pela sua análise.

Muito obrigado.

Fica por aqui o Gabinete de Guerra, está de regresso amanhã. .