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Este é o Som do Gabinete de Guerra das Manhãs 360, esta quinta-feira com a análise do coronel José do Carmo, que já está conosco. Olá coronel, bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia.
Bom dia. Começamos pela Ucrânia, que no mais recente ataque sobre Kiev não conseguiu abater nenhum míssil russo por falta dos interceptores balísticos que, como disse Zelensky há poucas horas, poderiam ter salvado a vida das 17 pessoas que morreram. Coronel, o que mais precisa acontecer para que os parceiros compreendam que os atrasos na entrega ou até a relutância em transferir sistemas antibalísticos resultam em vítimas e destruição, como aquela que assistimos na noite de terça-feira?
Eu não creio que vá haver muitas alterações. O que se passa é que, de facto, há uma falta desse tipo de mísseis interceptores no mercado. Nesse caso, o único produtor são os americanos e neste momento também estão a braços com uma guerra que tem consumido muitos. Os países têm alguns estoques, não sabemos quantos, são secretos o que cada país tem, mas os estoques que os países têm são para prever um problema que existe também. Imagine agora a Rússia resolve, por exemplo, bombardear Varsóvia. A Polônia não pode entregar todos os interceptores que tem, porque essa possibilidade existe, embora não seja muito previsível nos próximos tempos. O que está aqui em causa é que isso não vai mudar nos próximos tempos. A produção é baixa, os estoques estão baixos, estão inevitavelmente baixos. Há muita procura em vários teatros e, portanto, isso não vai mudar nos próximos tempos. Ou seja, a Rússia vai obviamente explorar essa falha.
Querias perguntar, sabendo desta fragilidade da Ucrânia, prevê que a Rússia intensifique ainda mais os ataques?
Sim, intensifica e neste momento a Rússia fabrica cerca de 100 mísseis balísticos por mês. Mas neste momento também a Coreia do Norte já está instalada também uma bateria de lançadores de mísseis desse tipo, são mísseis de curto alcance, e que já terá também lá, segundo algumas informações, mais de 160 mísseis balísticos para lançar. Portanto, isto vai se intensificar e não há nada que, em termos de interceptores, possa fazer, porque não se pode ir no supermercado comprá-los. De facto, não existem no mercado e não há alternativas viáveis. Embora possa haver uma pool, neste momento, acho que o secretário-geral da NATO está a tentar sensibilizar vários países da NATO para ratearem um bocado os seus estoques, portanto, irem aos seus estoques e transferirem para a Ucrânia uma parte desses estoques, para dar mais algum conforto e poder, de facto, defender alguns objetivos mais sensíveis.
Mas será sempre uma ajuda limitada, não é?
Será limitada, sim, mas no fundo permitirá talvez aguentar enquanto este problema... Neste momento, já há instruções, já há movimentos, já há planos para alargar a produção destes mísseis, destes interceptores, que são muito sofisticados, os Patriot. Mas, de qualquer maneira, isso demora muito tempo. Demora muito tempo, é preciso criar novas indústrias, é preciso treinar pessoal. Tudo isso demora tempo.
Que é outra coisa que a Ucrânia não tem.
Pois não tem. E por isso mesmo a Rússia está a explorar este gap e o que pode fazer neste momento a Ucrânia, além de pedir que, por favor, se lhe arranjem alguns mísseis destes, alguns interceptores destes, no fundo, o que tem que fazer é dispersar as suas instalações mais vulneráveis e mais necessárias, proteger e fazer também força para que haja sanções, porque muitos destes mísseis, nomeadamente o Iskander, que é o míssil balístico mais preciso que a Rússia tem neste momento e que está a usar bastante, tem mais de 1000 componentes que são ocidentais, componentes que vêm de países ocidentais, eletrônicos. E as sanções não estão a funcionar muito bem. Muitos desses componentes são de duplo uso, são chips, são coisas assim muito pequenas e sofisticadas, que são vendidas a outros países, que a gente sabe que depois esses países vendem-nos à Rússia. É aí que tem que se atacar também.
Quanto à guerra no Médio Oriente, Trump garante que prefere assinar um acordo com o Irão do que prolongar a guerra e continuar a matar pessoas. Já o número dois, J. D. Vance, diz que as negociações vão levar tempo, que o sistema iraniano é fragmentado, que há fações radicais a querer a continuidade da guerra. O coronel concorda que o verdadeiro obstáculo a este acordo não é a vontade de Trump, mas sim a incapacidade de Teerão falar a uma só voz?
Sim, Teerão, quem manda em Teerão, de facto, é a Guarda Revolucionária, eventualmente o general Vaidi, que está à frente da Guarda Revolucionária. Ele é que manda, ele é que decide. Aquelas pessoas que nós vemos nas negociações, o ministro dos estrangeiros, e o próprio presidente, o Galibaf, são apenas emissários. É óbvio que o Irão, neste momento, está com problema interno, mas neste momento, claro, o poder é claramente da Guarda Revolucionária e, de facto, por isso é que quando se faz um acordo com esta gente, a Guarda Revolucionária, se o acordo não lhe agrada, pode torpedê-lo imediatamente. Por exemplo, neste momento já se fala em que há um acordo, pelo menos de princípio, que é um acordo estranho, segundo aquilo que se diz, para Ormuz. Mas hoje, esta madrugada, já houve explosões, ninguém sabe que explosões foram, em Omã, na parte do estreito que fica nas águas de Omã. Houve também ataques dos houthis. Tudo isto demonstra que qualquer acordo feito com o Irão, neste momento, pode falhar no momento seguinte, se a Guarda Revolucionária não gostar, se aquilo não tiver lá aquilo que eles querem, que no fundo é o controlar o estreito. E se não der lá isso, eles vão torpedear. E este é o problema. É um problema que não se resolve. Eu acho que Donald Trump, sim, tem razão, é mais fácil, é melhor para toda a gente obter um acordo do que entrar em guerra, mas neste momento o Irão O Irão não parece que vá aceitar, pelo menos pela retórica que está a apresentar e pelas ações, não parece ser confiável um acordo que se faça com o Irão. É o que se viu agora com o Hezbollah no Líbano. Está-se a discutir um acordo com o Líbano e o Hezbollah ataca forças israelitas e mata dois soldados. Isto é claramente ordenado por Teerão, porque é Teerão que manda nesses movimentos também.
O Irão que diz ter acordado com Oman uma nova rota no Estreito de Ormuz, mas impõe como condição para abrir a navegação o fim de todos os ataques americanos. Coronel José do Carmo, Teerão está a conseguir usar este bloqueio de Ormuz para forçar os Estados Unidos a ceder à mesa das negociações e asfixiar o comércio, como temos visto?
Claramente, isso não há qualquer dúvida. Neste momento, aquilo que se fala deste acordo para o Irão, este acordo para Ormuz, está totalmente contrário àquilo que estava e que está em Malaca e que está em Gibraltar. Não tem nada a ver com a lei internacional que regula estas coisas, está totalmente fora disto. O que havia antes era uma rota de entrada, tipo autoestrada. Há uma rota de entrada, há uma rota de saída. Havia um controle, que é um controle técnico, feito por uma autoridade marítima.
E não existiam rotas alternativas, que é o que está agora a acontecer.
Ali até pode haver várias rotas, rotas mais seguras e mais profundas, que são as que passam junto a Oman. O problema é que este acordo que se está a desenhar implica que o Irão, uma entidade política, vai controlar aquilo, que é a Guarda Revolucionária. Isto está totalmente à revelia do que é o direito internacional. Eles, de facto, parece não querem abdicar isso. E como é que se resolve isto? Ou com guerra ou com rendição, não há outra maneira. A rendição até pode ser disfarçada de uma linguagem técnica e que é por dois meses e que é por três meses e que é para limpar minas. Mas o fato é que o Irão, se este acordo for como consta, nós não conhecemos ainda, mas como consta, é uma vitória completa do Irão, pelo menos para já.
Pois. Coronel José do Carmo, muito obrigada pela sua análise. Bom final de semana para si.
Igualmente para si e para os telespectadores também.
Obrigada, bom dia.