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Esta manhã, no Gabinete de Guerra, recebo o Coronel José do Carmo. Muito bom dia, senhor Coronel. Bem-vindo ao Gabinete de Guerra. Obrigado pela disponibilidade. Começamos a analisar a situação internacional, agora com a aprovação por parte da Câmara dos Representantes nos Estados Unidos, desse montante de US$ 95 mil milhões para a guerra com o Irão. Alguns republicanos votaram contra, todos os democratas também votaram contra. Críticas, porque parece que não estarão a ser acautelados cortes orçamentais compensatórios para este montante de investimento neste conflito. Aqui joga-se, senhor Coronel, uma questão quase de política interna nos Estados Unidos, que está depois a embater nestes milhões que terão de ir para o conflito com o Irão. Ainda assim, Donald Trump tem aqui mais uma margem para continuar com estes ataques que se têm verificado há já 11, 12 dias.

Bom dia. Sim, o financiamento das operações está sempre dependente do Congresso e, portanto, depende sempre de uma maioria no Congresso. Eu creio que a maior parte dos democratas estão contra estas operações. No fundo, estão ainda presos ao anterior acordo. De qualquer maneira, também lembramos que os democratas estiveram no poder depois de Trump, Biden esteve no poder durante quatro anos e não renovou este acordo com o Irão, ou seja, manteve-se fora. Os Estados Unidos não voltaram a negociar com o Irão o regresso ao acordo anterior. Por isso, não há aqui, em termos factuais, uma grande diferença entre uma coisa e outra. Agora, republicanos, há uns que são contra, os isolacionistas, eu acho que até uma ala ligada ao vice-presidente Vance, estão bastante contra esta guerra, são pelas negociações e acreditam que o Irão pode negociar desde que lhe seja dado aquilo que ele quer. E, portanto, esta votação, que foi pela margem mínima, é evidente que só pode funcionar agora enquanto a maioria republicana tiver-

Foi aprovada com 216 votos a favor, 214 contra.

Exatamente, é mínima. Basta alguém não estar lá ou trocar de posição e a coisa já não funciona. Agora, também há aqui uma questão que é uma questão de regime, ou seja, os Estados Unidos, inseridos numa guerra, acabam sempre por encontrar maneira de a financiar, porque se não o fizessem, seria uma derrota estratégica, psicológica e moral que não seria aceitável pela maioria dos americanos. Nestas coisas negoceia-se, mas já se sabe à partida como vão ser as contas, já se sabe se pode votar contra ou a favor. Há aqui um jogo aritmético que no fundo garante sempre que as operações, quando há militares, quando há soldados envolvidos numa guerra, a ideia é que não se pode cortar o oferecimento.

Coronel José do Carmo, aqui mais preocupante poderá ser este alargamento do conflito também ao Mar Vermelho, com a entrada em cena dos houthis do Iémen e um novo bloqueio de um novo estreito que tem impacto para o mercado petrolífero. Este é um conflito que ainda tem margem para crescer naquela região, pelo que se tem visto agora com a entrada um pouco mais para sul e para oeste dos houthis.

Sim, tem margem. O Irão está a fazer a sua escalada horizontal, acionando as suas alavancas. Portanto, agora acionou uma alavanca que tem, é uma força que ele tem ali no extremo da península arábica, que são os houthis, e está a acioná-los. O Irão criou justamente estas ferramentas para as usar, para exercer a sua estratégia, que é, como não pode enfrentar militarmente os adversários mais poderosos que tem pela frente, cria o caos. Funciona como o homem louco que dispara em todas as direções, na esperança de que as pessoas tenham medo dele e por isso não o atinjam. Agora, aqui a questão que se põe, os houthis obedecem ao Irão, isso já se sabe, tal como o Hezbollah, embora o Hezbollah neste momento esteja um bocado quieto, mas é uma arma que o Irão ainda pode acionar. O Hezbollah ainda tem capacidade de fazer alguns estragos e certeza que o Irão, se isto não se resolver entretanto, o Irão vai acionar o Hezbollah e vai atacar Israel. No futuro será, digamos, que o limite da escalada. O Irão tem estas armas todas para escalar e confia nisso para que a sua posição à mesa das negociações venha a ser mais forte do que aquilo que a progressiva degradação está a tornar. Agora, há aqui uma questão que se põe. Os Estados Unidos anunciaram ontem que iriam fazer uma retaliação titre for tat entre um ataque a um navio e um ataque a um alvo no Irão, um alvo da infraestrutura iraniana. Agora, a questão é esta: os Estados Unidos ligam, sabendo que os houthis são um instrumento do Irão, ligam isto também, ligam também o Mar Vermelho, ou é só o Golfo Pérsico? Porque se não ligarem, estão a dizer que os houthis não é bem o Irão. Há aqui uma separação, digamos que instrumental, como se os houthis fossem independentes do Irão em termos de atuação. Não são, os houthis fazem o que o Irão manda, digamos assim. Portanto, vamos ver agora se os Estados Unidos respondem a este ataque a um navio, pelo menos confirmado, se respondem com aquilo que ameaçaram fazer, porque eles criaram conceptualmente esta equação para que o Irão, para que os dirigentes iranianos pensem em cada alvo quando atacam o navio, sintam que isso os vai também levar a sofrer um golpe Mais caro até do que aquilo que provocam. Vamos ver se isso funciona. Se não ligarem, estamos com um problema, porque a Arábia Saudita vai fazer uma escalada também e vai responder de uma forma cuidadosa, porque também não quer que seja alvejado com mísseis iranianos, lançados pelos houthis, nas suas infraestruturas. E portanto, vamos ter aqui um problema. E o problema que nós temos é sempre o mesmo: está-se a atacar os tentáculos de um polvo, mas a cabeça do polvo, por enquanto, está segura. E enquanto a cabeça do povo estiver segura e não for atacada, os tentáculos vão continuar a atacar. E esse é o grande problema.

Coronel José do Carmo, temos aqui um minuto, pedia que fosse breve só numa análise também à situação na Ucrânia, porque ao que parece a União Europeia nas últimas horas não chegou a um acordo sobre um novo pacote de sanções à Rússia, seria o 21º pacote de sanções à Rússia. Continua a ser eficaz este mecanismo de ferir Moscovo através de pacotes de sanções? Este acho que seria mais dirigido ao setor bancário, não é?

Sim, mas é a tal coisa. A Rússia continua a ter, no seio da União Europeia, alguns Estados que no fundo fazem o seu trabalho. Na verdade, muitas vezes não o querem fazer, mas querem ganhar vantagens para si próprios. E portanto, vai acabar por chegar lá. Como todos os outros pacotes, vai acabar por chegar lá.

Acho que é o caso da Grécia, que está preocupada com o fornecimento de gás natural liquefeito.

Pois, é isso. É que há vários interesses particulares que acabam por sobrepor àquilo que é o grande interesse. Normalmente é assim, são países, têm os seus interesses, o caso da Hungria, têm seus interesses próprios e não querem que as sanções toquem em setores que afetam os seus interesses, que são os seus interesses principais. No caso da Hungria era o petróleo e também um bocado o gás. E no caso da Grécia, é isto. Isto é uma questão depois de negociar, ou seja, como estas sanções vão causar prejuízo para estes países, um prejuízo material.

Não se chega a acordo.

Acaba por chegar, acaba por haver compensações e chega-se lá. A negociação será mais difícil, mas de qualquer maneira é esta tibieza na resposta que faz com que a Rússia sinta que ainda consegue dividir, ainda consegue quebrar esta coerência da ajuda ocidental, ou neste caso europeia, à Ucrânia. A Rússia sente que estas crivagens, estes interesses diferentes, têm sempre a vantagem de, no fundo, estilhaçar um bocadinho ou tornar mais visível que esta resposta europeia, que é sempre tíbia e é sempre difícil, e segue sempre processos muito burocráticos. A Rússia ainda tem esperança que seja possível, embora não pareça neste momento já, mas a Rússia ainda tem esperança que consiga estilhaçar esta coesão europeia na defesa da Ucrânia.

Tem sido uma aposta na sua política internacional. Coronel José do Carmo, muito obrigado pelos seus esclarecimentos. Está feito o Gabinete de Guerra desta quinta-feira. Tenham um resto de bom dia.

Muito obrigado.