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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, programa em que fazemos um ponto de situação nos principais conflitos a marcar a atualidade internacional. Hoje contamos com a ajuda do coronel José do Carmo. Coronel, bem-vindo e obrigado pela disponibilidade.
Bom dia, Vasco.
Começamos pelo Irão. Depois de 13 noites seguidas, aparentemente a última noite não trouxe ataques dos Estados Unidos na região. O governo iraniano veio mesmo dizer que foi uma noite tranquila. Pode isto significar, coronel, uma aparente pausa no conflito ou, no mínimo, um abrandamento?
A impressão que eu tenho é que isto é uma espécie de cessar-fogo tácito pra dar um espaço à diplomacia. Os Estados Unidos construíram, nestes últimos dias, uma posição mais forte, estão claramente preparados para uma campanha mais intensa. Deslocaram reforços de um hospital militar na Alemanha, deslocaram aviões de reabastecimento pro Medio Oriente, aviões de combate também, forças especiais, enfim. Há claramente um reforçar do dispositivo preparado para operações mais intensas. E também a retórica americana aumentou, no sentido de exigir ao Irão que venha a termos e venha à mesa às negociações. Esta pausa, não houve bombardeamentos, tirando um navio que foi atacado por estar a tentar furar o bloqueio. Enfim, foram os americanos que atacaram esse navio, um navio iraniano. E a Arábia Saudita também que atacou os houthis, mas é um teatro à parte. Já curiosamente, o Irão também não fez grandes retaliações, aliás, não fez retaliações nenhumas sobre os países à volta. Portanto, há aqui um acordo tácito, que significa que a América está a apostar que perante as ameaças, perante o crescimento do reforço do dispositivo na zona e perante esta pausa, está a dizer ao Irão que é a altura de ir às negociações, de ir pra mesa. Vamos ver agora como isto acaba. Ou o Irão vai de fato à mesa, ou é muito provável que o que vem a seguir seja bastante mais intenso.
E a ver vamos que postura vai adotar Donald Trump, mas entretanto chega também uma informação que é avançada pelo New York Times, que cita fontes dos serviços secretos norte-americanos, que dizem que o líder supremo do Irão, Moitaba Khomeyni, está mais interessado em desenvolver armas nucleares do que o antecessor Ali Khomeyni. Isto pode ser um problema?
Quando se fala do líder supremo, é um líder supremo que ninguém conhece, nunca ninguém o viu. Na verdade, o que é muito mais provável, o que é mais lógico, até porque ele não apareceu quando era suposto ter aparecido, é que de fato quem está a falar por ele seja a Guarda Revolucionária, portanto, são aqueles generais já da terceira geração, porque enfim, depois das aniquilações, as decapitações que se fizeram, já é uma geração mais nova e que está ambientada no fanatismo do regime. Sim, o objetivo sempre foi atingir o programa nuclear, quer dizer, não é uma coisa de agora, é uma coisa de há muitos anos. E o Irão montou toda uma estrutura e todo um sistema de defesa para garantir a produção de armas nucleares, aliás, até ameaçou usá-las e ainda desistir, inclusive. E portanto, o Irão escavou montanhas, gastou milhões de dólares, do dinheiro que eles têm lá oriadas, gastou imenso dinheiro nisto. Dinheiro que não usou depois pra tratar da sua própria população. E portanto, a sua intenção é a mesma. Agora estará evidentemente mais apurada, porque o Irão neste momento está a usar o Estreito de Ormuz, os proxies, os mísseis, tudo como proteção do grande objetivo que é obter a arma nuclear e proceder àquilo que eles dizem sempre, que é aniquilação do pequeno Satã e do grande Satã.
Ontem à noite, o presidente dos Estados Unidos esteve no jantar de correspondentes da Casa Branca, já é uma tradição nos Estados Unidos, e veio descrever a guerra no Irão como um sucesso, dizer também que o Irão ainda não está pronto pra um acordo de paz e até que a capacidade militar do Irão está em níveis mínimos. Também é este o seu entender, coronel, a guerra está a ser um sucesso pros Estados Unidos?
Não. A guerra pode estar a ser um sucesso tático, no sentido em que se vai de fato desgastando as capacidades militares do Irão aos bocadinhos, enfim, mas ainda tem capacidade de parar o Estreito de Ormuz, tem essa capacidade, muitas vezes pelo medo ou com utilização de meios mínimos. Mas em termos estratégicos, não, os Estados Unidos não conseguiram, até ao momento, desde que iniciaram esta campanha, não conseguiram atingir nenhum dos seus objetivos maximalistas, e que eram aqueles pelos quais desencadearam a operação, que era o programa nuclear, a parte dos mísseis e a parte dos proxies. É verdade que os proxies estão a ser paulatinamente degradados e estão a ser paulatinamente isolados. Mas isso não é bem fruto desta campanha. Quer dizer, acaba por ser indiretamente, porque o Irão fica com mais dificuldade de os abastecer e de os comandar. Mas ainda agora foram deslocadas umas dezenas de guardas revolucionários para o Iêmen para trazer os houthis outra vez à luta. E não foi há muito tempo. Agora, de fato, os objetivos estratégicos não foram alcançados. E neste momento até, além de não terem sido alcançados Embora sejam tidos degradados, eu acredito que o programa nuclear tenha sido degradado, a parte militar foi muito degradada, a parte da produção também foi muito degradada. Mas neste momento, se o Irão voltar a ter paz e ganhar esta guerra em que consegue espalhar o preço desta guerra e apostar numa sobrevivência, se este regime sobreviver nestas condições, será uma derrota estratégica de grandes dimensões para os Estados Unidos, porque ficará um Irão que se irá fortalecer, vai levar mais alguns tempo, mas irá fortalecer-se outra vez, não abandonando os seus objetivos, voltará a eles inevitavelmente, porque esses objetivos fazem parte da própria teologia do regime, da própria filosofia com que este regime existe. Por isso, se não mudar o regime, a natureza do regime, se as pessoas que lá estão não mudarem de objetivos, uma sobrevivência nestas condições em que estamos neste momento é a garantia de que a próxima guerra irá acontecer daqui a uns tempos e provavelmente mais grave.
Entretanto, e à revelia do mandato de captura do Tribunal Penal Internacional, Benjamin Netanyahu, Donald Trump vai receber na próxima semana o primeiro-ministro israelita na Casa Branca. O que é que podemos esperar deste encontro, porventura uma garantia da continuidade ou da continuação do apoio da Casa Branca a Israel?
A primeira ressalva é que nem os Estados Unidos nem Israel são partes do tratado que instituiu o tribunal. Aliás, os Estados Unidos até têm, em relação a esse tribunal, uma opinião bastante negativa.
Reservas.
Não são apenas neutros, são contra. Porque claro que nunca irão acionar um mandato de um tribunal ao qual não sequer pertencem. Isso não irão fazer, é óbvio. E também não irão fazer porque Israel é um aliado e entendem que há nestes mandatos um viés político ou ideológico e por isso nunca o fariam. Agora, em termos formais, Netanyahu vai aos Estados Unidos para participar no funeral de Lindsey Graham, que foi um senador republicano que era bastante amigo de Israel. Na verdade, há aqui uma reaproximação. Eu penso que depois do falhanço de J.D. Vance, que é o pai do morando. Foi o homem que tentou criar este morando, que não tinha muita consistência, tanto que falhou logo a seguir. Um morando que era muito favorável ao Irão, é estranho que o Irão não tenha aproveitado melhor. Porque agora se vier a fazer um morando será bastante mais problemático. Mas há aqui um afastamento de J.D. Vance da ribalta nas relações com Israel, e ele foi bastante crítico de Israel, fez até declarações bastante infelizes e repetindo libelos vindos do passado, e agora está afastado deste processo. E portanto, Donald Trump reaproxima-se, pelo menos em relação à imagem, de Netanyahu, porque de facto se vier a haver uma campanha mais intensa contra o Irão, provavelmente haverá, se o Irão não negociar agora, Israel fará parte ou por decisão própria, ou por coordenação com os Estados Unidos, ou então porque o Irão irá gastar todas as munições e irá também atacar Israel. Portanto, Israel com a certeza que irá ser trazido para o conflito e neste caso será um aliado muito útil, porque há uma parte do Irão que poderá ficar dividido entre duas forças aéreas ou mais, enfim, também as sauditas, os Emirados também podem vir a entrar nisso, há indícios de que isso poderá acontecer. E haverá partes do teatro que são divididas pelas respetivas forças aéreas para poderem bombardear com mais eficácia o Irão. Vamos ver. E por isso eu percebo esta ida de Netanyahu aos Estados Unidos, para Israel é ótimo, porque retoma os laços e os contactos com um aliado imprescindível. E para Donald Trump é um sinal de que naquela luta interna na Casa Branca entre a fação Rubio e a fação J.D. Vance, a fação J.D. Vance teve uma oportunidade e falhou. E portanto, a reaproximação com a outra fação, Rubio é muito mais aliado de Israel, é muito mais amigo de Israel do que J.D. Vance, e é provável que essa encenação seja a prova disso mesmo.
Antes de olharmos também para a Ucrânia, até porque o presidente ucraniano também vai deslocar-se a Washington, queria perguntar-lhe, e ainda sobre este conflito do Medio Oriente, o Irão está a acusar a União Europeia de pura hipocrisia por mostrar preocupação com os direitos humanos e ao mesmo tempo prestar apoio logístico e técnico à agressão contra o povo iraniano. Eu perguntava-lhe, e mais uma vez antes de irmos à Ucrânia, que papel é que a União Europeia pode assumir aqui neste conflito, olhando agora, por exemplo, para a ida de Netanyahu à Casa Branca, como é que a União Europeia pode não ficar de lado neste conflito?
Eu começo por uma nota prévia. O Irão invocar direitos humanos é como um pirômano invocar a proibição dos fosfos. O Irão não tem qualquer autoridade em matéria de direitos humanos, é um regime que mata milhares dos seus próprios cidadãos por protestos. Isso é a hipocrisia levada ao seu limite. Agora, no fundo, o que pretende o Irão é que a Europa também se assuste com as suas capacidades missilísticas. O Irão ameaça, aliás, incluindo já ameaçou a Grã-Bretanha há dois ou três dias Porque as bases estão a ser utilizadas. Sim, estão a ser utilizadas as bases porque a Europa tem todo o interesse em que o regime iraniano também caia. Não tem interesse em este regime se manter. O Irão é uma ameaça. Neste momento já tem capacidade, pelo menos teoricamente, e na prática também tem alguns, já tem mísseis capazes de atingir países europeus e, portanto, não me admira que até venha a usar isto, esta ameaça que fez à Grã-Bretanha. No fundo, estas opiniões sobre a participação europeia como aliado, são claramente para tentar quebrar a coligação que se está a criar à volta contra o Irão. O Irão tem uma estratégia que era separar os Estados Unidos dos países árabes à volta e dos seus aliados que estão à volta. No fundo, para que o custo desta operação recaísse nesta aliança, que eles querem que também tenha como objetivo expulsar os Estados Unidos daquela região. Agora, o que está a acontecer é exatamente o contrário, ou seja, os países, as monarquias do Golfo estão a unir-se. Já há notícias de ter sido feito um ataque aéreo com as forças aéreas do Kwait e do Bahrain sobre o Irão, aqui há duas ou três semanas, coordenadas pelos Emirados. Isto não sei se é verdade, mas foi noticiado pelo Alter Journal, por isso provavelmente tenha alguma credibilidade. E, por outro lado, a Arábia Saudita já bombardeou ontem os outros também, por uma vez só, a ver se os outros param com isto, senão irão bombardear mais vezes. O Irão, ao dizer isto, está a tentar manter a sua estratégia de assustar toda a gente para que se poupe a si próprio e poupar os seus próximos. Agora, a União Europeia. Eu creio que já não está naquela página em que estava no início desta operação, em que criticou bastante os Estados Unidos. Na altura até se percebia, porque foi uma operação desencadeada sem o conhecimento, sem coordenação com os próprios europeus. Neste momento já percebe que há aqui entendimento das formulações formais sobre se somos aliados, se sobe ou não a informação, se há coordenação, se vão atrás, se vão com eles. Já perceberam que a ameaça iraniana, como se prova agora com Ormuz e com o Mar Vermelho, é uma ameaça estratégica global. Ou seja, não se pode aceitar aquele regime manter-se naquelas condições e com estas capacidades, porque vai certamente fazer o mesmo quando entender. Se achar que o petróleo está, por exemplo, demasiado barato, vai certamente fazer uma coisa destas, vai lançar um míssil sobre um navio e o petróleo aumenta logo o preço. Fica o Irão a controlar o custo da bomba de gasolina. Isso não pode ser tolerado e eu creio que já há até reuniões previstas entre os Estados Unidos, o Reino Unido e a França, se não estou em erro, no sentido de coordenar ações, por exemplo, no Mar Vermelho. As escoltas europeias poderão perfeitamente libertar forças americanas para outro teatro. Eu penso que é isso que está em causa. E portanto a Europa vai-se envolver, porque está em causa também a sua própria segurança e a sua própria capacidade de propiciar bem-estar aos seus cidadãos.
Temos apenas um minutinho, coronel, e por isso pedir-lhe brevidade nesta resposta, mas Volodymyr Zelensky também vai deslocar-se à Casa Branca. Entretanto, ontem a ONU alertou que a Rússia pode vir a realizar um ataque massivo em território ucraniano nas próximas horas. O que eu pergunto é se desse encontro com Donald Trump podemos esperar também um reforço do apoio norte-americano às forças de guerra da Ucrânia.
A América neste momento está com os seus stocks bastante contingentados. Aqueles stocks de armas que importam neste momento à Ucrânia são mísseis antibalísticos, mísseis de defesa Patriot. É o que importa mais neste momento à Ucrânia. E os americanos não têm para lhes dar, nem sequer para lhes vender. Não têm, porque a produção ainda é baixa, são na ordem 800, 700 por ano, e estão a ser gastos no teatro de operações do Médio Oriente. Na Ucrânia tem muito poucos. Aliás, isso nota-se pela maneira como a Rússia ataca com mísseis balísticos e quase todos os mísseis entram e está a aproveitar isso. Há ideias de produção desses mísseis mais tarde, mas isso são coisas que não são para já. E portanto, Zelensky vai lá. Eu penso que se vai tentar relançar a ideia das negociações, desde que a Rússia acredita, ou acreditam, que a Rússia está neste momento também a sofrer consequências que não estava à espera desta guerra, problemas internos, problemas de mobilização, problemas económicos, problemas graves. Problemas, inclusive, de dissensões entre as lideranças, entre os silovikis, aqueles magnatas que estão a perceber que esta guerra não estava a ir para lado nenhum. E portanto, há aqui uma oportunidade de relançar as negociações. E os Estados Unidos, quer se queira, quer não, são o único ator que consegue servir de mediador. De facto.
Para concluir, coronel, por favor.
Ok. Digamos que eles deixaram de ser apoiantes da Ucrânia nominais e ganharam, de facto, um papel de negociador, pelo menos de mediador, que podem tentar usar agora, neste momento. Vamos ver o que é que a Rússia ou a Ucrânia cedem. E neste momento, é um dos melhores momentos para a Ucrânia, é um momento em que têm alguma capacidade de bombardear no interior da Rússia.
Coronel José do Carmo, muito obrigado por ter estado conosco no Gabinete de Guerra. Este episódio fica disponível já daqui a pouco em podcast.
Obrigado eu. Boa tarde.