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Gabinete de Guerra, é neste espaço que na Rádio Observador detalhamos toda a informação sobre os conflitos em curso. Destaque neste episódio para a guerra na Ucrânia. Comigo está o professor universitário da Universidade da Beira Interior, Nuno Amaral Jerónimo. Muito boa tarde. Obrigado por estar conosco aqui na Rádio Observador.
Muito obrigado pelo convite, Miguel.
Vamos começar por esta questão dos drones ucranianos que avançaram sobre várias cidades na Rússia, em particular Moscovo. Levaram até ao encerramento temporário de alguns aeroportos. A Rússia disse que abateu 105 drones ucranianos durante a noite, incluindo 19 na capital. De facto, a Ucrânia recusou esse cessar-fogo de três dias que a Rússia estava a propor, pediu um cessar-fogo mais prolongado, mas continua a desenvolver estas operações em território russo, a dar seguimento a estas operações e tentar mostrar à Rússia que tem força ainda neste conflito. É esta a leitura que podemos fazer?
Sim, eu acho que essa leitura é correta e deixe-me acrescentar ainda mais uma, porque foram várias cidades. Mas continuamos com o mesmo desnível, porque a Rússia precisou de fechar vários aeroportos por causa do espaço aéreo, que podia ser perigoso para os aviões e, portanto, a Rússia ficou sem circulação de aviões pelo próprio governo. Aeroportos fechados, mas que ainda assim, se compararmos a diferença entre a proposta de cessar-fogo e a maneira como foram quebrados, nós podemos dizer isso. A Ucrânia não aceitou a proposta de cessar-fogo, mas também era uma proposta de cessar-fogo para os russos usarem a propaganda da vitória da Segunda Guerra Mundial. Mas ainda assim, há uma diferença entre aeroportos fechados e hospitais, creches e parques infantis destruídos. Na diferença entre o que foi as propostas de cessar-fogo e o que cada um não respeitou, ainda continuamos com essa diferença.
De facto, é uma informação que marca o dia de hoje, mas outra notícia que também está a marcar a atualidade neste conflito é a questão da troca de prisioneiros de guerra entre a Ucrânia e Rússia. A Ucrânia conseguiu recuperar 205 prisioneiros. De facto, a questão de discutir o cessar-fogo tem vindo a ser adiada, há várias propostas a serem recusadas, mas é importante manter esta troca de prisioneiros?
Sim, para os ucranianos e, portanto, para os russos também, verem as pessoas regressar a casa depois do conflito, isso é bastante importante. Há bocado estava a ler, por exemplo, a mensagem do presidente Zelensky, a mensagem começa por dizer: "Estamos livres". E ele estava a referir a esses soldados. Deixa-me contar-lhe aqui um episódio mais pessoal, mas para se perceber também o impacto que isto tem e como é que as pessoas sentem isto. Nós esta semana temos uma professora ucraniana a visitar a universidade, nos programas de intercâmbio, e quando falámos disso, agora à hora de almoço, falámos dessa troca de prisioneiros e ela contou uma coisa bastante pungente, que é que o irmão dela foi capturado e morto pelo exército russo. E ela diz que sempre que vê estes prisioneiros a serem libertados, ela espera sempre ver o irmão numa dessas trocas, que eu encontrar a cara do irmão, apesar dela saber o que aconteceu, que ela espera ver a cara do irmão nesses soldados libertados e que mesmo sabendo que esse irmão já não volta, que a alegria de ver aqueles soldados regressar. Portanto, isto é também do ponto de vista nacional ou do ponto de vista daquilo que é uma esperança coletiva, porque aquelas pessoas representam todos. Nesse sentido, é uma importância ainda mais transcendental do que é evidente que para a vida daquelas pessoas e aquelas famílias, isso é importantíssimo, não há grandes dúvidas, mas há aqui também um significado que ultrapassa isso e que se torna mesmo nacional. Se seguir, por exemplo, as contas no antigo Twitter de pessoas ucranianas, há ali um sentimento coletivo de estes são os nossos heróis ou as pessoas que estavam a tentar defender a nossa pátria, que por alguma coisa, alguma razão, foram capturados e que hoje regressam a casa. E por isso o significado é importantíssimo, isso parece-me claro.
Há aqui uma questão que envolve a Rússia e a Chechénia. Declarações de Kadyrov, são desta tarde, uma conversa com Putin, está a propor deixar o cargo, o líder da Chechénia abandonar as suas funções. O que já sabemos sobre esta notícia?
O que se sabe é o que ele próprio disse. Ou seja, essas declarações são do próprio Kadyrov, que disse que tinha pedido ao Putin para o exonerar das funções, para deixar de ser presidente. Isso é o que se sabe. Agora, por quê, exatamente? Eu estava a ler há bocado, será que ele tem medo que aconteça o mesmo que aconteceu ao Prigozhin? Será porque está cansado? Haveria alguns até a adiantar que Possivelmente, ele poderia ter a expectativa de que o filho fosse nomeado. Há aqui várias possibilidades, ainda não se sabe muito mais. Sabe-se isto, sabe-se que estas declarações são do próprio Kadyrov.
Sim, de facto, a relação já foi melhor entre Kadyrov e Putin. Já houve tensões durante este conflito. Já disse o líder checheno, numa fase inicial, que queria ir pra frente de combate, queria levar os filhos e depois, entretanto, quis atacar Putin e vários deputados, até oligarcas russos. Esta questão da tensão nas relações, a confusão também nas relações, pode levar também a esta decisão?
Sim, era o que os tais analistas diziam, de ele tentar evitar um fim como o do Prigozhin. Se calhar, percebeu precisamente o que acabou de dizer. Esses conflitos que podem ter vindo a surgir e ele dizer: "Se me afastar é melhor do que acabar a cair de uma varanda ou uma coisa assim do gênero". Mais uma vez, estamos a especular um bocadinho, porque não temos muito mais informação do que essa, mas é uma possível interpretação.
Sim. Vamos falar que a Comissão Europeia anunciou medidas para acabar com a dependência da energia russa, comprometeu-se com uma série de medidas, de acordo com a Comissão Europeia, para acabar definitivamente, algo que será certamente difícil. Que leitura faz destas medidas anunciadas pela Comissão Europeia e se de facto é possível acabar com a dependência da energia russa?
Essa possibilidade também depende de fatores diversos. Depende de onde é que se consegue identificar alternativas, de mercados alternativos. Na verdade, isso soube-se agora há uns meses, soube-se no sentido de quando foram divulgadas as contas. Havia até aquela conta que a União Europeia gastou mais em energia russa do que gastou a ajudar a Ucrânia, se quiser pôr as coisas assim em paralelo. Isso significa que a dependência, apesar de ter tentado diminuir, é sempre muito grande. Agora, também se percebe quais são esses esforços e há aqui também uma tensão interna na União Europeia. Nós sabemos que há alguns países que são amigos, ou pelo menos não são inimigos, ou não querem ser inimigos do regime do Kremlin, e há outros que estão bastante assustados com a possibilidade de acontecer nas suas fronteiras o mesmo que já aconteceu na Ucrânia. Estou a falar nomeadamente da Polônia e dos três países bálticos. E depois a questão da Moldávia, mas essa é um bocadinho diferente por não ser da União Europeia. Mas esses países têm uma pressão e uma perceção diferente do risco e do perigo, até pelas razões históricas.
Quando falamos aqui de medidas, a intenção é a retirada gradual do petróleo, do gás e da energia nuclear russos do mercado da União Europeia. Mas isto não é tudo para já, até o final de 2025.
Sim, é evidente que é faseado.
E aqui o que se pede é que os Estados-membros tenham planos para eliminar progressivamente as importações de energia russa e acelerar a transição energética europeia. Quer isto dizer, pegando precisamente nesta ideia, não será nem para já e será mesmo muito difícil. Pede-se aqui planos para retirar a energia russa. Não dá, de facto, para tirar a Europa dessa dependência que tem da Rússia.
Não somos especialistas em energia, mas parece-me que isso é difícil. Só uma lembrança histórica para que se perceba por que, por exemplo, os bálticos e a Polônia têm mais presente. Os bálticos têm claramente. A Lituânia declarou a independência da União Soviética em 1990, um ano antes de todas as outras repúblicas. Nesse inverno, no inverno de 90, 91, Moscovo, portanto ainda a União Soviética, por uma república que tinha declarado a independência, cortou-lhes a energia toda. Eles passaram o inverno sem energia do próprio centro, do próprio país que dizia que não os deixava ser independentes. Se Moscovo fazia isto a uma das repúblicas que eles ainda diziam que fazia parte, imagine o que eles acham que não podem fazer a um país que agora é realmente independente e estrangeiro. Essa memória histórica, que não é assim tão antiga como isso, são 35 anos, está presente. Também não me parece que seja possível que essa independência seja conseguida de um dia para o outro. Mas por que os países na orla que fazem fronteira com a Rússia e com a Bielorrússia, porque a Bielorrússia aqui é uma parte importante desta equação, têm medo disso e têm receio? Porque já viram isso acontecer.
Nuno Amaral Zorrinho, muito obrigado por ter estado connosco esta tarde.
Muito obrigado pelo convite.
Na Rádio Observador. Uma boa tarde.
Obrigado.