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Este é o Gabinete de Guerra das manhãs 360, esta quinta-feira com a análise do Francisco Pereira Coutinho, professor universitário especialista em direito internacional, que já aqui está conosco em estúdio. Olá, Francisco, bom dia. Bem-vindo.

Bom dia. Obrigado.

Começamos por mais uma noite de ataques entre Estados Unidos e Irão. Em resposta aos mais recentes bombardeamentos, o Irão prometeu uma nova estratégia de combate contra as forças norte-americanas. Francisco, o Irão ainda tem capacidade militar para surpreender o Pentágono com uma nova tática no Golfo, ou trata-se de retórica para consumo interno?

Eu creio que é tudo isso. Eles têm capacidade, claramente, não foram obliterados, como o Donald Trump várias vezes anunciou. Eles continuam a ter essa capacidade. Aliás, surgiram notícias em junho que manteriam cerca de 70% dos seus mísseis e 40% dos drones, mesmo depois dos ataques incessantes dos Estados Unidos, especialmente em abril. Significa que os Estados Unidos tiveram algum sucesso em degradar as capacidades militares e bélicas do Irão, mas não total, e seria sempre muito difícil. Eles tinham muito armamento escondido, enterrado, que entretanto aproveitaram para desenterrar. É verdade que continuam a ter essa capacidade, aliás, têm-na utilizado para atacar navios no Estreito de Ormuz, porque esta última ronda de ataques recíprocos entre os Estados Unidos e o Irão resultou justamente disso. Os Estados Unidos, na semana passada, anunciaram que desminaram o estreito, estava aberto, já o tinham dito várias vezes, e o Irão mostrou que não está aberto. Eu chamo de semiaberto ou semifechado, porque alguns navios vão passando, mas por sua conta e risco, porque essa possibilidade de ataque continua a existir e os Estados Unidos acham que com mais alguns ataques vão conseguir resolver o problema definitivamente, o que já se percebeu que não é verdade.

Trump diz que a guerra não vai durar muito tempo, mas a imprensa avança que a Casa Branca se prepara para um aumento das operações depois das eleições. Este discurso de fim iminente, que já ouvimos várias vezes, é apenas para acalmar os eleitores americanos ou os Estados Unidos estão mesmo a tentar forçar um desfecho militar rápido antes de novembro?

Eles gostavam muito que isso acontecesse. Mas o Trump agora tem uma estratégia, que eu acho que é uma estratégia vencedora. Aliás, anunciou ontem no X, ou na sua rede social, a Truth Social, que é mudar o nome.

Agora quer batizar o Estreito de Ormuz.

Exatamente, vai se chamar Estreito de Trump. Aquilo é território americano e portanto aquilo agora está resolvidíssimo. Desta vez, eu acho que sim, isto vai ser um sucesso, porque o nome vai mesmo mudar, pelo menos para os americanos. Pelo menos é uma estratégia que me parece vencedora.

Como o Lago Ontário, não é?

Como o Lago Ontário. Porque fez-me agora uma pergunta que eu acho que a resposta é mesmo pura especulação. Achar que Donald Trump está a pensar a longo prazo, e quando falo em longo prazo, é algo a partir de novembro, eu sei que nós estamos em setembro, é algo que manifestamente é errado, a meu ver, porque ele não consegue decidir nada para além da semana seguinte. Aliás, é o que temos visto nesta estratégia americana, que está constantemente a mudar desde fevereiro. O início, se bem se recorda, foi um ataque ao Irão para mudar o regime. Isso falhou. A seguir era a capitulação total, rendição incondicional, isso foi em março, depois falhou. Depois fomos para o momento negocial, tivemos o memorando, isso falhou. E na semana passada era a ideia do estrangulamento econômico, pressão econômica. E o que estamos a ver agora? Regressam à opção militar. As notícias que chegam hoje de Washington é dizer: vão declarar que a guerra está ganha, o estreito aberto, vamos mudar o nome, isto está resolvido. Bem, não está, como é óbvio. E portanto, esta estratégia americana, que muda constantemente, é porque depois não se percebe muito bem exatamente qual é que é o objetivo, se é derrubar o regime, se é negociar com o regime e, portanto, todos os meios que são utilizados, são utilizados para fins que não estão bem determinados. É evidente que isto torna isto tudo muito complexo. Nós sabemos que os militares, a certa altura, terão influenciado algumas decisões, mas não outras, porque há dias em que parece que o Donald Trump está muito preocupado com o preço do petróleo e assina um memorando com os iranianos dizendo que vai haver uma catástrofe econômica e noutros dias, em vez de aceitar algum controle iraniano sobre o estreito, o que faz? Bombardeia o Irão. Qual é o resultado? Aumento do preço do petróleo. Será aqui objeto de análise na boa onda ou não é onda. É de facto difícil, senão impossível, pelo menos para mim, com as minhas capacidades analíticas, perceber o que é que vai na cabeça do presidente americano e desta administração americana a médio prazo ou mesmo a curto prazo, porque as eleições vão ser já em novembro. Nós estamos a pensar naquilo que vai acontecer no próximo ano, é já daqui a muito pouco tempo.

Esta ideia do Estreito de Trump é só mais uma provocação midiática ou é sinal de que Washington vai mesmo manter uma presença militar permanente em Ormuz? Ou nem uma coisa nem outra, é só mais um devaneio de Donald Trump.

Vamos lá ver, neste momento há um porta-aviões que vai a caminho de San Diego, porque estava em condições de funcionamento completamente deploráveis. Os militares estavam com dificuldades em ter comida decente já há alguns meses, porque as dificuldades logísticas para abastecer esse porta-aviões que estava no Índico, eles tinham que abastecer o porta-aviões a partir de Diego Garcia, que ficava a milhares de quilômetros, porque não conseguiam abastecer nos portos no Bahrein, que era onde estava a grande base americana da região. Esta é uma guerra que foi pensada para quatro ou cinco semanas, já se arrasta há seis meses, isto continua porque os Estados Unidos mantêm este bloqueio. Agora, qual é que é o problema? É que Donald Trump e também o ministro da Defesa, o secretário da Guerra, Hegseth, recusam-se a reconhecer a realidade. Os Estados Unidos podiam controlar o estreito se fizessem uma intervenção militar terrestre, e isso não querem fazer porque os custos seriam enormes. A alternativa é fazer isso que estão a fazer neste momento. A questão é: podem prolongar isto Podem prolongar isto indefinidamente. Não, não podem. Mesmo os Estados Unidos, porque nestas condições, pelo menos daquilo que a imprensa americana relata, das condições que a Marinha de Guerra americana neste momento tem ali para manter o estreito controlado, é muito difícil. E isto não se resolve com este tipo de pressões.

E os milhões que estão a gastar.

E os milhões que estão a gastar. Agora, nós vemos nas declarações dos Estados Unidos, do Donald Trump e do Scott Bessent, secretário do Comércio, qual é que é a esperança deles. Que o Irão capitule por via da pressão económica. É provável que isso aconteça? Não é provável.

Mas e se acontecer, quando?

Se olharmos para o passado, tendo em consideração que já tentaram esta estratégia em 2019 e 2020, isso não aconteceu e demorou vários anos.

O valor da moeda tem vindo a descer muito.

Muito. Há ali muita pressão, mas há pressão desde o início do ano. Agora, quem é que consegue resistir mais tempo? Porque os Estados Unidos têm aqui alguma pressão, isto é difícil ser feito. O relato que vem das condições de vida dos soldados americanos, os 5000 que estavam naquele porta-aviões há nove meses, as próprias famílias relatavam, eram mesmo muito difíceis. Aliás, é entrevistado o secretário de Guerra, aceita ele diz que não há problema nenhum no porta-aviões, mas no dia seguinte ou dois dias depois, já estava a caminho de San Diego. Portanto, mentem. Esta administração americana mente, mas depois é desmascarada e as coisas avançam. Depois avançam, porque se percebeu que realmente aquele porta-aviões não podia continuar ali e foi substituído por outro que estava na costa do Japão. Mas não há mais nenhum. E portanto, este bloqueio naval que os Estados Unidos têm ali, é um bloqueio naval difícil de implementar, porque justamente o Irão não está de mãos nos bolsos. Eles atacam, eles conseguem ainda atacar e atacam as bases americanas. E têm aqui uma estratégia, eles dizem que vão ter agora uma nova estratégia. Também há muita retórica por parte do Irão. Mas lá está, todos os condimentos estão aqui, isto é típico no Médio Oriente, para um conflito prolongado. A não ser que os Estados Unidos reconheçam a realidade, regressem ao memorando e deem ao Irão a tal vitória mediática, que é dizer: "Ok, sim, senhora. Então agora o estreito, vocês vão ter aqui algum controle sobre o estreito, mas não cobram portagens". E o Irão pode anunciar que venceu os Estados Unidos e Donald Trump não quer fazer isto.

Os Estados Unidos é erro.

Aqui, sim, a questão dos mandatos é importante, porque ele até lá, provavelmente não quer fazer isto, não pode fazer isto.

Mas à medida que se aproximar a data das eleições, talvez tenha de ceder.

Ele vai tentar que a situação se mantenha como está agora com o petróleo a $80, $90, porque os americanos entretanto já se habituaram, porque já estão há seis meses a pagar mais ou menos como nós. Vamos à bomba de gasolina e a circunstância do preço da gasolina, ao invés de estar a €2 e pico, é uma coisa que já estamos relativamente habituados. Aliás, quando baixa dos €2, está mais barato. Portanto, a nossa perspectiva, a nossa memória sobre os preços.

Podia pensar que era o valor que estava quando nós começámos.

A nossa memória sobre os preços é sempre muito de curto prazo e, portanto, o Trump acha que se isto continuar como está neste momento, com este tipo de pressão, as pessoas não vão ligar muito àquilo que se passa na guerra no Irão.

Na guerra da Ucrânia, Zelensky avisou as companhias aéreas e seguradoras internacionais de que o espaço aéreo russo vai ficar, de facto, fechado devido à intensificação dos ataques ucranianos com drones de longo alcance. Francisco Pereira Coutinho, este bloqueio ao tráfego aéreo comercial em Moscovo é o golpe mais eficaz de Kiev para destabilizar a economia e o dia a dia da população russa?

Vamos ver se eles conseguem, de facto, fazer isto. Porque isto depois é bastante arriscado. De facto, eu creio que ele está, no fundo, a avisar as companhias aéreas que é melhor não fazerem isto. E de facto, é possível que os ucranianos já tenham esta capacidade, de fazer muita pressão sobre os aeroportos para que isto cesse. É muito interessante ver a resposta de Putin, veio dizer que isto é um ato de terrorismo.

Falam de terrorismo. Amoral.

Tendo em consideração que não há um avião a voar para Kiev há cinco anos, em resultado das ações russas, também elas aparentemente terroristas, isto não deixa de ser caricato. Agora, isto faz parte da estratégia dos ucranianos, bastante arrojada, que é procurar dificultar ou pelo menos tornar muito visível para o russo comum a guerra na Ucrânia, para criar pressão sobre Putin. E está a funcionar. Eu ouvia-o ontem, ele veio dizer: "Realmente, nós temos aqui um problema com os drones ucranianos". Coisa sobre a qual temos falado bastante no último ano. Ele finalmente veio reconhecer que isto é um problema e que estão a tentar resolver o problema, mas que está tudo ótimo, os exércitos russos caminham vitoriosos na Ucrânia, mas realmente há aqui um problema com os drones. Se de facto os ucranianos conseguirem que os aeroportos russos deixem de funcionar, e depois é um país daquela dimensão. Aquela elite russa precisa mesmo dos aeroportos para se deslocar, senão ficam ali presos nas cidades. E, portanto, eu creio que essa é a estratégia. Agora, em termos operacionais, se eles vão conseguir fazer isto, porque repare, se a Ucrânia por acaso, um drone ucraniano leva à queda de um avião civil russo, isso depois vai levar a um capital de queixa enorme da Rússia e provavelmente a ações retaliatórias muito complicadas sobre a Ucrânia.

Francisco Pereira Coutinho, muito obrigada.

Obrigado.

É sempre um gosto recebê-lo. Obrigada.