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Começa agora o Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos os principais focos de conflito. Hoje contamos com a análise de Orlando Salmoão, especialista em relações internacionais. Boa noite, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. E vamos começar pelo Médio Oriente. A Arábia Saudita anunciou hoje a criação formal de uma coligação marítima de defesa multinacional. Pergunto-lhe o que é que podemos esperar deste novo organismo.

Boa noite, muito obrigado pelo convite. Nós notámos desde ontem esta entrada da Arábia Saudita. Chegou a haver algumas notícias internacionais, creio que em maio, em como já teria tentado atacar ou atacado algumas daquelas milícias no leste do Iraque, mas ontem foi mesmo uma operação conjunta e portanto parece que a vontade de entrar foi um bocadinho incentivada. Sabíamos que estavam a responder ainda aos Houthis, mais a sul, porque os Houthis nesta promessa de fechar Bab-el-Mandeb estavam, na realidade, a atacar ou a escolher apenas os navios que iriam para Yanbu, portanto para a Arábia Saudita, eram os da Arábia Saudita. São facções de um país e este grupo que estão há muitos anos e apesar dos pedidos ou tentativas de cessar-fogo, alguns deles recentes, são muitos anos de tensão, mas este envolvimento agora também em território no Iraque, ainda que sejam forças que algumas das quais são pró-Irão, outras até são de caráter nacionalista. Aliás, não se percebe bem muitas vezes a configuração destes grupos xiitas armados que estão no leste do Iraque e a sua composição e até que ponto é que têm algum tipo de unidade, que em princípio não têm. A verdade é que é uma operação conjunta com os Estados Unidos. A Arábia Saudita é um ator que entra, que é fundamental percebermos, tem servido de contrabalanço ao Irão e por isso muitas vezes é visto com bons olhos. Note-se a maneira como nos últimos anos tem incentivado tanto este intercâmbio, até por via internacional, do desporto e o aparecimento do país na academia, no desporto, em muitas áreas da vida, mas é um regime com quase o mesmo tipo de limitações e problemas do que o do Irão. O grau é um bocadinho diferente, mas os laivos da teocracia estão lá, a questão de ser mesmo uma monarquia, mas muito centralizada, em que as eleições são feitas através de pessoas escolhidas, que não têm um sufrágio verdadeiramente universal, nem os órgãos são órgãos eleitos com cariz decisivo, são meramente consultivos. Mas ainda assim, por serem aliados dos Estados Unidos, têm aqui a possibilidade de ter acesso a um conjunto de equipamentos, nomeadamente até, quem sabe, à utilização do programa nuclear para uso doméstico. É certo que está permitido a muitos países e também é certo que quando parece dar essa possibilidade, primeiro, até se nos recordarmos estava Marco Rubio quando foi apanhado um pouco de surpresa, ele primeiro responde de maneira atabalhoada, porque parecia até não saber muito bem que Trump poderia ter mencionado que a Arábia Saudita poderia vir a ter um programa nuclear doméstico, mas no dia seguinte ele corrige e diz qualquer coisa deste género. Marco Rubio ainda em Manila, nas Filipinas. Pode haver essa possibilidade, porque se não forem os Estados Unidos, será outro país qualquer. O que isto quer dizer? Se calhar é melhor ser os Estados Unidos a acompanhar este projeto nuclear, porque tem mais tentativa de controlar e de verificar do que outro país qualquer. Significa que a Arábia Saudita pode estar aqui na disputa de um conjunto de interligações ou de relações internacionais com outros grupos. Pode estar a querer entrar para aquele grupo que para já até nesta guerra está mais em silêncio, como a Turquia e o Egito, muito embora agora o porto do Egito de Damieta também tenha sido possivelmente atingido a um navio que estava no porto. Portanto até não sabemos até que ponto é que o Egito permanecerá tão neutral, chamemos-lhe assim, mas sabemos a maneira como o Paquistão também pode estar interessado em entrar neste grupo, também pode ser um fornecedor da Arábia Saudita ou até quem sabe pode estar a ser disputado pelo outro bloco que no fundo está em guerra com este mundo árabe, israelita ou ocidental, que parece ter aparecido nos últimos dias e esse outro que pode estar também a tentar aliançar a Arábia Saudita, até pode ser a China, quem sabe. Quer isto dizer que sim, é possível que estejam a tentar agizar um entendimento entre alguns países ou islâmicos com parte árabe, juntando aqui esta geografia dos que ainda não estão envolvidos presentemente no conflito, mas note-se, não deixa de ser uma forma do conflito se expandir, estar a juntar mais países e quanto mais países se juntam, mais emaranhados ficam os nós e mais dificuldade teremos em desvendar esta situação, que é cada vez mais complexa e que só tem gerado, para já, rondas de violência, em vez de iniciativas de paz e de cooperação, que continuam a ser faladas de uma maneira um bocadinho leviana, mas na prática ainda não estão a ser assertivas o suficiente para que se possa falar em projeto de paz. Isto para já, estamos numa situação de pergunta e resposta, mas sempre com ataques e o envolvimento da Arábia Saudita já não é só para o sul Com o Iémen é também nesta zona leste do Iraque ou pelo menos foi, também não sabemos se tem continuidade, e vai continuar a tentar obter protecção. De facto, ser dos Estados Unidos dá-nos pelo menos uma garantia maior em como os Estados Unidos procurarão provavelmente tentar controlar o processo, mas já se sabe que muitas vezes, e nestes países que não são democracias, podemos ter aqui mais uma autoestrada para uma situação semelhante à do Irão, que no fundo descontrola um pouquinho o processo e gera este potencial alcance da guerra nuclear, e também de gerar uma rede de grupos proxies noutros países. E de lembrar que criticamos muito o Irão por isso, mas a Arábia Saudita também está cheia de grupos proxies um pouco por todo o mundo e que no fundo não partilham exactamente do mesmo tipo de heterodoxia, chamemos-lhe assim, do islamismo, e por isso é rival do Irão, mas que também têm uma visão, por vezes global, de mundo a ser centralizado pela Arábia Saudita. E, portanto, tudo isto tem que ser equacionado. Há momentos em que é preciso vê-los como aliados neste contrabalanço para com o Irão, mas também devem ser alvos de crítica no que diz respeito ao seu regime político. Aliás, a sua pergunta, e desculpe alongar-me tanto. Estes últimos dias podem-nos fazer lembrar da maneira como Israel, nas apresentações que Netanyahu fez nos últimos anos nas Nações Unidas em setembro, quando apresenta os mapas em que normalmente põe o mundo árabe com a Arábia Saudita, como sendo a estrada que ele chama "blessing", que é uma estrada abençoada que pode gerar prosperidade da Ásia até à Europa e que coabita o mundo árabe não persa, ou seja, rejeita o Irão, a que chama a maldição, era assim que Netanyahu descrevia nesses mapas, "the curse", a maldição, mas colocava a Arábia Saudita como do seu lado, entre aspas. Isto para um país que ainda não entrou nos Acordos de Abraham, que não está disposto a isso, como a Arábia Saudita, é no mínimo interessante e que nos diz que vai haver aqui, de facto, uma rivalidade Israel-Arábia Saudita, nem que seja até pela atenção dos Estados Unidos.

O Irão voltou a deixar novas ameaças, garante que os Estados Unidos vão ser punidos ainda hoje. O que é que pode acontecer mais que os Estados Unidos não estejam à espera?

O Irão vai estudando também as defesas das bases norte-americanas na região e vai estudando a maneira como o Trump reage. Claro que os Estados Unidos gostam de ter ou pretendem ter, através da sua superioridade militar, os destacamentos na região, controlar as fases. Portanto, estes momentos da guerra em que nos últimos dias até tivemos esta pausa que nem percebemos muito bem. Mas este encadeamento também tem o outro lado. E o Irão vai testando as defesas. Para já os ataques à Jordânia, em princípio, não têm grande efeito, acaba por ser um pouquinho disperso. Pode começar a ter apenas o efeito de juntar estes países todos numa força um pouco mais comum, ou seja, que tentem alisar as suas diferenças e que continuem, aliás, a ver os Estados Unidos como um protetor. Eu creio que até alguma análise tem dito que os Estados Unidos perdem credibilidade cada vez que há estes ataques nestes países da região pela presença das suas bases. Mas creio que no muito curto prazo há esse efeito, a mais longo prazo continua a ser um Irão ameaçador, que gera a incerteza e o medo que, no fundo, é gerado por si próprio. Repare-se na maneira como fala nos ataques no Estreito de Ormuz. O Irão diz publicamente que não é seguro passar. Não é seguro passar porque o próprio Irão está a atacar. Também é verdade que pode ser que muitas das autoridades políticas não tenham efetivo controle sobre todos os comandos e a descentralização por províncias que provavelmente existe neste momento na guarda revolucionária. Mas ainda assim, são ataques que vão continuar. Demonstram também que o Irão não está assim tão interessado na paz e que se calhar até fala a verdade quando diz que não está a ter contacto com os Estados Unidos. E temos Trump, e normalmente nós, nas democracias, temos mais capacidade para escrutínio, mais rastreio, mais jornalistas e imprensa livre que podem fazer perguntas a Trump em várias circunstâncias. Trump vai afirmando sempre que vai conversando e que eles estão desesperados por um acordo. Tem sido agora, parou um pouquinho nestes últimos dias. Mas se pensarmos bem, até pode ser alguma verdade que esses diálogos sejam muito indiretos e que se calhar o Irão a dizer que não está interessado em negociar, não esteja mesmo. Agora, num clima de incerteza, com dificuldade até em tentarem arregimentar uma maneira de irem pra mesa tentar esboçar uma tentativa de memorando, aumentando o número de agentes envolvidos, de atores envolvidos e mais países estarem envolvidos neste momento, e os seus portos, é uma situação que de facto depreende que, em princípio, esta guerra assim um pouco intermitente, e claro que não é absolutamente total, e não é absolutamente total porque ninguém tem capacidade pra isso, mas de um modo geral, parece-me que vai continuar, pelo menos nos próximos dias e na medida das forças de cada um dos lados.

Muito obrigada pela sua análise. Orlando Sá Mendes, especialista em Relações Internacionais. Fica por aqui. O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã.