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Está aberto o gabinete de guerra na Rádio Observador. Eu sou o Miguel Cordeiro, vou estar à conversa nos próximos minutos com o Major General João Vieira Borges. Muito boa tarde. Nas últimas horas, a Rússia posicionou mísseis com capacidade nuclear na Bielorrússia. Como é que devemos ler este posicionamento de mísseis por parte da Rússia, uma notícia avançada pelo Kyiv Independent, que cita o chefe dos serviços secretos militares da Ucrânia. O que pretende a Rússia também ao posicionar os mísseis na Bielorrússia?

Muito boa tarde, muito obrigado pelo convite. Não é novidade o deslocamento de sistemas de armas inovadoras e que funcionam essencialmente para dissuasão numa primeira fase. Esperemos que não seja para utilizar no teatro de operações. Mas eu julgo que depois de um fim de semana de alguma esperança no sentido da paz, esta é uma medida que obviamente visa mostrar mais uma vez a capacidade, em primeiro lugar, o poder militar da Rússia, e em segundo lugar, mostrar que tem aliados, designadamente a Bielorrússia, que em termos geopolíticos é importante, como já vimos na própria invasão, que apoiou claramente a invasão. É abrir mais uma frente para a Ucrânia. Por outro lado, em termos militares, o deslocamento pressupõe mais cautelas da parte da Ucrânia, abrindo, digamos, mais uma frente. Já não bastavam 1200 km com a Rússia, abre mais uma frente. No entanto, certamente que os militares ucranianos vão pensar da mesma maneira que todos nós militares. Há as modalidades de ação mais perigosas e as mais prováveis, e eu penso que nesse caso, se enquadra naquela que é menos provável. E, portanto, eles vão acautelar ou vão continuar a acautelar, sobretudo, a linha da frente com a Rússia, o teatro de operações em que é fundamental, designadamente no Donetsk.

Muito se falou este fim de semana da Ucrânia e deste conflito, por causa da visita dos representantes da Casa Branca a Moscovo e à Ucrânia. No final deste fim de semana, depois de tudo isto, saímos com algo de novo dessas reuniões?

Não. Às vezes é bom não sair com algo de novo. Em termos diplomáticos, era assim que deviam ser todas as reuniões. Quando Trump está diretamente envolvido, obviamente que tudo aquilo que era tradicional no mundo diplomático não funciona. O funcionar, ou seja, manter-se o sigilo das reuniões, sair pouca informação, e a pouca que saiu tem a ver com conversas que foram muito benéficas ou que foram muito importantes para os negociadores, e não sair muito mais, também é importante, na minha perspetiva, enquanto Trump não falar, pelo menos. Agora, a frustração foi porque inicialmente, também transmitido por Trump, é que havia a ideia de um projeto pra paz. Nós não ouvimos nada de projetos pra paz. O que nós vimos e ouvimos foi fundamentalmente o Ivankov e o Kushner dizerem que ouviram uma parte, depois ouviram outra. Também vamos sabendo a pouco e pouco que o que ouviram de Putin foi aquilo que já sabemos desde o início da guerra, que ele não abdica dos seus objetivos. E portanto, o que ouvimos de Zelensky é que insiste que essas questões territoriais só podem ser discutidas com a presença de Putin. E pouco mais. Portanto, digamos que numa perspetiva tradicional do mundo diplomático, e que é positivo, não sabemos muito mais. Como já andamos nesta guerra há mais de quatro anos e meio, pra mim há mais de 12, obviamente ficou alguma frustração, e não vemos grandes evoluções no processo.

Sim. Também fica uma frase hoje de Lavrov, que diz que as relações entre a Rússia e o Ocidente, anteriores a fevereiro de 2022, nunca mais vão existir. Ou seja, a relação que existia entre a Rússia e o Ocidente antes do conflito na Ucrânia nunca mais vai ser a mesma, diz Lavrov, que é ministro dos negócios estrangeiros russo. Ora, Sergey Lavrov toma esta posição e garante que seja qual for o desfecho do conflito, as relações não vão voltar ao mesmo. Acaba por ser um pouco óbvio essa posição, porque depois de um conflito destes, será difícil voltar ao mesmo, mas também leva a essa possibilidade de análise de que as relações antes desse conflito viam uma forte ligação comercial também do Ocidente à Rússia, e que isso, de facto, pode nunca mais voltar a ser o mesmo?

A sua questão é muito interessante, faz-me lembrar o professor Adriano Moreira, que me dizia quando eu fazia projeções: "Vieira Borges, nunca faça projeções em vida sua". Eu acho que ele não falou com o Lavrov sobre isso. Por quê? Porque como geopolítico, eu entendo que a história se repete por razões óbvias. Mais entre os geopolíticos. Porque a ligação está lá, as necessidades estão lá, os recursos que tem a Alemanha ou que não tem a Alemanha, estão na Rússia. Por falarmos em Alemanha. E portanto, mais tarde ou mais cedo, pra quem é historiador, obviamente que as ligações entre a Europa e a Rússia, pode ser daqui a 50, pode ser daqui a 100 ou daqui a 125, mas elas vão voltar. O dizer que nunca mais vão ser como antes, eu acho que é mais uma afirmação no sentido De pressionar a Europa no sentido de marcar posição da Rússia do que propriamente uma afirmação que usufrua do tempo. Portanto, eu compreendo. Obviamente, para nós que estamos a acompanhar a guerra há poucos anos, isto em termos de fita do tempo histórica, é perfeitamente compreensível. Aliás, eu espero que também, já agora ele podia complementar, nunca voltaremos àquilo que foi a União Soviética. Mas isso é capaz de ele não querer dizer e muito menos Putin.

Ainda sobre a Europa, porque é um tema que marca a atualidade, há estes resultados eleitorais na Alemanha, em que a AFD volta a vencer uma eleição, neste caso a eleição para um estado. Isto pode mudar, de certa forma, ou a agitação política que isto pode levar na Alemanha e as consequências que pode ter, pode levar a uma alteração de posicionamento, estratégia a nível de conflitos e da abordagem que a Alemanha tem tido a conflitos nos tempos recentes. Este resultado pode levar a essa alteração na Alemanha?

Eu tenho família na Alemanha, também acompanho em pormenor, que talvez seja o país que eu visite mais nos últimos seis anos. É preciso também lembrar que a Saxônia tem 4 milhões de habitantes. A Saxônia são 4% da Alemanha. A Alemanha são 83 milhões de pessoas, a Alemanha são 16 estados, a Alemanha é um estado federal. E, portanto, cada estado tem a sua especificidade. Se olharem para o mapa, vão perceber claramente o porquê também da Saxônia ter votado na extrema-direita. É preciso não generalizar, é preciso não criar ou construir percepções diferentes da realidade. Portanto, o discurso populista que usam os próprios órgãos de comunicação social, de maneira direta ou indireta, para divulgar a mensagem, é algo que nós estamos a cair nestes dias, quer na Alemanha, obviamente tenho família, quer em Portugal, quer no resto da Europa. É preciso ter a noção de que em Portugal ganhou a extrema-direita em Beja, por exemplo. Não quer dizer que se estenda depois a todo o país. Portugal também tem um caso relacionado com a extrema-direita, que também há algumas câmaras, o que não quer dizer que de repente tenha um crescimento imediato e que tenha que mudar o governo.

É o segundo partido mais votado em Portugal. É o segundo partido com maior representação em Portugal.

Pois, neste momento.

Neste momento, sim.

Coisa que ainda não acontece.

Mas influencia e negocia com o governo medidas e posicionamentos.

Pois, o problema aqui, agora indiretamente à sua questão, julgo que não é positivo para a Europa, obviamente. Putin ficou muito satisfeito com esta vitória, independentemente de ser da extrema-direita, tem ligações à Rússia e veremos mais tarde que relações tem, vá além das normais de apoio à Rússia na guerra contra a Ucrânia, e de apoio a Putin. Mas é sobretudo canalizar a evolução de uma Alemanha, a evolução em termos econômicos, que a situação não está fácil, mas também de estabilidade política. E não tem havido estabilidade na Alemanha em termos políticos, o que faz com que se sobressaiam partidos mais populistas, sobretudo quando, e não é só a questão demográfica, existem outras questões também internas. A tal questão que eu falava há pouco, quer se queira quer não, a Alemanha tinha uma ligação privilegiada com a Rússia, designadamente na questão energética. E tinha dirigentes que faziam parte das próprias empresas russas. E portanto, esse afastamento, que tem trazido graves problemas em termos energéticos para a Alemanha e tem implicações enormes na indústria, e não é só na Volkswagen, como se vem falando ultimamente. Obviamente que depois tem por consequência também o desemprego, e tem conflitos sociais. E portanto, temos que estar atentos à Alemanha, mas a Alemanha não é que Saxônia, a Alemanha tem 83 milhões, não tem 4 milhões de habitantes.

Major-general João Vieira Borges, muito obrigado por esta participação no "Gabinete de Guerra".

Muito boa tarde, obrigado.