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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, hoje centrado no conflito na Venezuela e nosso convidado, como o Nelson aqui anunciava, o professor Jorge Rodrigues é coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Muito boa tarde, bem-vindo, obrigado mais uma vez pela disponibilidade. Começava talvez por esta reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas, precisamente sobre essa intervenção militar dos Estados Unidos em território venezuelano. O que espera desta reunião?

Boa tarde, Miguel. Espera-se pouco, é a habitual narrativa. A ONU é paradigma da situação atual a nível do sistema político internacional, visto que demonstra que não existe um ator regulador do sistema, que não há um sistema de gestão de crises. É anacrônico, é baseado na distribuição de poder do pós-Segunda Grande Guerra e não tanto do respeito do poder atual, portanto com uma total incapacidade. Esperemos uma habitual narrativa em que teremos o Global South, como é designado, com uma reação narrativamente forte, operacionalmente relativamente fraco. Isso pode ser significativo, pode até ser intencional e demonstrando ter sido de alguma forma previsto/coordenado esse tipo de ação e, por outro lado, permitir que faça um aproveitamento no futuro. Seja como for, há aqui um destabilizar do status quo, isso é notório e naturalmente vai ser aproveitado neste fórum para passar as mensagens mais relevantes com vários atores a tentarem se posicionar. Naturalmente, António Guterres, como é evidente, a Venezuela tentando passar a sua mensagem e alguns aliados, do qual eu destacaria uma referência da preocupação do Lula com eleições em outubro, de tentar também com o poder colombiano, com o poder mexicano, ir passando algumas mensagens para não serem os próximos na linha de intervenção.

E a China, seu professor?

A nível da ordem internacional, acho que há aqui qualquer coisa de extraordinário. Isto é uma putinização das relações externas. Há aqui uma sinalização do fim da ordem internacional como a tínhamos, já vinha sendo feito desde que a administração Trump assumiu o poder, em que o sistema internacional liberal que liderava não lhe servia e que portanto, de alguma forma viria a servir outro tipo de atores. Mas verdadeiramente o que nós temos aqui é projeção de poder superar o direito internacional público, as esferas de influência, a concertação das grandes potências, o que é designado em alguns fóruns como a nova legitimidade, em que vem validar ações da Ucrânia, Taiwan, visto que falamos na China, mas também na Gronelândia e exclui a Europa, como está muito dividida. Portanto, de alguma forma, atores como a China consideram que por um lado perdem algum tipo de intervenção direta e mesmo a nível econômico que vinha desenvolvendo, mesmo até através do Belt and Road, portanto, sente prejudicada, mas por outro lado, vem lhe transmitir algum tipo de legitimidade para ações que venha a desenvolver no Mar Sul da China, na zona de Taiwan, etc. O que está aqui em causa, mais do que tudo, é que realmente vamos ter mais conflitos no imediato até se alcançar algum tipo de equilíbrio dentro dessas esferas de influência, mas depois é algo particularmente preocupante é que quem estiver dentro dessas esferas de influência perde soberania nas diversas dimensões, não só a nível político ou militar, mas também dentro da área econômica e desenvolvimento. E, por exemplo, podemos ter algum tipo de disrupção a nível de cadeias, seja tecnológicas, seja de supply chain, visto que há aqui uma divisão por linhas alinhadas com a potência diretora de cada área. Portanto, não sei se vamos entrar já nessa questão, mas de certo modo já vamos entrando nesta nova ordem de uma maneira muito efetiva.

Uma nova ordem internacional com dois grandes blocos tendo como polos os Estados Unidos e a China?

Sim, mas curiosamente isso inicialmente foi o que eu pensei que poderia vir a acontecer. Confesso que sou daqueles que evolui um pouco no meu pensamento, tendo em conta que Donald Trump foi puxando a Rússia para ser reconhecida a nível internacional, situação que já não tinha, e trouxe-a novamente para o patamar de superpotência. Sempre foi na componente militar, ainda para mais com o botão vermelho do nuclear, mas a verdade é que noutras dimensões não tinha essa capacidade. E Donald Trump com a posição que foi assumindo, com algum tipo de ideias que foi passando, com algumas posições concretas, nomeadamente em relação à Ucrânia, que desenvolveu, trouxe novamente a Rússia para esse patamar. E é dentro disso que nós neste momento estamos. Estamos realmente com essas três superpotências a liderar as ditas esferas de influência, que era um termo que nós conhecíamos no tempo da Guerra Fria e que de alguma forma se foi perdendo. Claro que não estamos a falar exatamente do mesmo tipo de esferas de influência, mas zonas de influência que se consideram próximas Que se consideram dentro do backyard de cada uma das potências e, portanto, de alguma forma, foi transmitida uma legitimidade para desenvolver as ações dentro dessas regiões. Ora, isso quer dizer que permite, por exemplo, à China ter ações cinéticas perante Taiwan e dá a ideia que os Estados Unidos poderão não reagir a um patamar que em tempos se pensou como evidente, nomeadamente na defesa dos interesses norte-americanos na região.

Tivemos uma ação surpreendente pela rapidez com que se desenvolveu e pela quase ausência de reação por parte das forças venezuelanas. É uma operação simples que pode ser facilmente reproduzida, será que atingiu os objetivos ou podemos estar na iminência de uma segunda vaga?

Esta operação, a chamada "Lança do Sul", tem a cara de Trump, tem a cara de Donald Trump. Permitiu-lhe algumas imagens, permitiu uns comentários à Donald Trump muito assertivos, as tais imagens do opositor aglutinado e que vai a tribunal ainda com esta imagem mais recente, já com farda de prisioneiro. Mas em boa verdade uma ação dessas não transmite nada de definitivo. É mais o passar uma mensagem local e também global. Teoria de jogos em que há um certo grau de loucura naquele jogo que é dificilmente traduzível do chicken game, portanto, quem vai até ao limite, em que demonstra que não é preciso legitimação, nem sequer uma ameaça direta para projetar poder. Projeção de poder pura sobre algo que realmente não constitui aquela ameaça que poderá ser invocada para uma ação preventiva. Ora bem, a missão em si é muito complexa, é uma operação conjunta que alonga, no mínimo, desde agosto de 2025 a sua execução. A nível de planeamento, eu diria que sempre esteve a ser planeada desde que Chávez chegou ao poder. A recolha de informações vem desde essa altura, de conto toda a saber, e há um planeamento que já foi assumido de há seis anos para cá. Portanto, demonstra ter aqui uma extensão do home security, algo policial, que é uma grande preocupação em traduzir essa componente para não haver a necessidade de declaração de guerra e, eventualmente, a consulta do Senado para intervir. Demonstra que alguém sabe informação no interior das Forças Armadas/Forças de Segurança e Inteligência da Venezuela. Há uma recolha de informação a nível de SIGINT, ou seja, digital, ou MINT, ou seja, o fator humano, de operações especiais, de serviços secretos, da CIA, do sistema ISTAR, que foram recolhendo informação para conseguir definir alvos, fazer targeting, preparar bem a nível de treino com o espelhar da situação no terreno, com as várias forças, com o edifício, etc. E depois desenvolver a ação em si. E desenvolve a ação em si dentro de uma área de inibir o comando e controle, de resposta em relação ao radar, aos céus de cisão, aos meios de defesa, como por exemplo os F-300, apesar de limitados, são os meios mais evoluídos que têm anti-aéreos. E depois uma ação definitivamente não cinética para criar confusão dentro do espectro eletromagnético. E depois há manobras de diversão já com força cinética, seja com F-35, seja com meios navais, seja depois com alguns helicópteros deslocarem-se para mais que um sítio não determinando onde era a ação principal. E depois 30 minutos de ação das Forças Delta, as Forças de Operações Especiais, uma ação direta em que é acompanhado pelo DEA, ou seja, a Força Antinarcotráfico, para dar aqui a tal componente home security e ser imediato, rápido nessa ação e assegurando a extração. Portanto, acaba por ser uma missão com os objetivos perfeitamente definidos em Maduro, não no regime, daí não terem direcionado para o Ministro do Interior, que é o Gustavo Cabello, ou da Defesa, que ainda é mais relevante, Vladimir Padrino, mas sim uma orientação definitiva para Maduro como líder do tal grupo de narcotráfico. Portanto, a justiça como arma de guerra nesse sentido. Claro que uma segunda vaga pode sempre surgir. Pode sempre porque continua a haver outros objetivos valiosos para retirar algum tipo de dúvidas se surgirem essas dúvidas dentro do atual regime venezuelano. E depois também numa componente de sinalizar, que já vinha surgindo com o National Security Strategy, com o corolário Trump da doutrina Monroe, que é o Enforcing Security no hemisfério ocidental, proteger basicamente o controle do backyard que há pouco falávamos, seja a nível da dimensão econômica, seja a nível da dimensão securitária, seja a nível comunicacional, a dizer que com o Trump não se brinca, a expressão foi mesmo "Don't play games with Trump", em que verdadeiramente pode surgir a necessidade de passar a mensagem a nível global. Ou seja, resumindo, essa segunda vaga só poderá surgir num caso da necessidade de passar uma mensagem para dentro da Venezuela ou para a imagem global que Trump poderá querer demonstrar.

Sendo que nesta altura em que falamos foi publicada uma notícia que dá conta que o decreto do estado de emergência na Venezuela prevê que a polícia inicie a busca e captura de todos os envolvidos nos ataques armados dos Estados Unidos. Há o perigo desta situação na Venezuela, a situação política na Venezuela, desaguar numa guerra civil?

Há sempre esse risco. O day after, os Estados Unidos não são fortes no plano dia seguinte, é onde mais falha, onde normalmente o nation building nas intervenções que têm desenvolvido, ou mesmo na transição consolidada com o tempo para uma democracia, não é definitivamente forte os Estados Unidos, mas nunca foi com nenhum presidente, com nenhuma administração. Há aqui um enquadramento que eu julgo que é relevante antes de passarmos aos cenários, que é o poder militar, e se a isso somarmos o paramilitar, os tais coletivos, continua a ser o maior poder na Venezuela, indubitavelmente. Para o lado que venha a atender, isso será sempre determinante. Depois há várias divisões político-militares dentro do chavismo. Maduro perseguiu alguns dos atores do chavismo e portanto isso continua com algumas contas por acertar. Hoje temos uma oposição fraca e incapaz, algo dividida, que não demonstra capacidade de liderar o regime já amanhã. Depois temos ainda grupos criminosos transnacionais de narcotráfico, de contrabando, que se mantêm bastante influentes. E depois não podemos esquecer que a nível externo, e esse fator também é determinante, não temos nenhuma mediação capaz, nem teremos uma influência externa decisiva, ou seja, não há nenhum ator a nível internacional que possa intervir decisivamente. Portanto, há aqui muita margem para a ação dos Estados Unidos e para algum tipo até inclusivamente de descoordenação interna. E daí chegamos aos cenários. Eu basicamente vejo três cenários. Um primeiro que é o apoio à oposição, no sentido de ter o respeito pelos resultados evidentes das últimas eleições. Pouco provável. Uma segunda em que o chavismo radical defende de forma existencial a Venezuela, o que poderá dar origem a uma ocupação modelo Panamá, pouco provável, mas uma guerra civil já é mais provável com o caos, com o posterior enfraquecimento das partes e uma intervenção mais escalada dos Estados Unidos. E o terceiro, que é o que nos parece mais previsível pelo menos no curto prazo, é um acordo com o chavismo, que seria até ideal para gerir a transição para a democracia. Não acredito muito que vamos por aí, mas definitivamente com acesso ao petróleo e aí sim responderia aos interesses dos Estados Unidos. Já vêm nesta direção as declarações de Delcy Rodríguez, a vice-presidente. Não houve, de facto, esse apoio externo e portanto ela vem de alguma forma falar numa agenda de cooperação e numa coexistência pacífica, se não me engano, foram mesmo as expressões usadas. E Trump, naturalmente, mantém o chavismo vivo, pelo menos para já. Pretende assegurar o seu acesso ao petróleo, mas não me parece que pretenda mudar o regime, pretende apenas controlá-lo e assegurar que, de alguma forma, naquela região fique bem passada a mensagem que os Estados Unidos manterão a sua influência e que obviamente haverá questões econômicas transacionais que serão prioritárias para a administração Trump.

E é desta forma que Trump vai cumprir aquilo que disse, que vai governar a Venezuela?

Parece-nos que sim. De outra forma poderá ser algo complexo neste momento. Não há um líder incontestado dentro da oposição, seja internamente, seja dentro da comunidade expatriada, e portanto não há grande margem para a oposição, não tem essa força, não tem essa capacidade para liderar no imediato. A intervenção direta e no terreno por parte dos Estados Unidos poderia ser um pântano e vai um pouco contra a base de apoio que Donald Trump tem. O movimento MAGA maioritariamente era não intervencionista, apesar de haver a fação Rubio que sempre defendeu a intervenção direta em algumas situações, mas definitivamente Trump não quer uma ocupação boots on the ground prolongada que lhe venha trazer conflitos prolongados, que é exatamente o que menos pretende dentro da sua ação externa.

Professor Jorge Rodrigues, muito obrigado por ter estado conosco neste Gabinete de Guerra e por partilhar conosco a sua análise sobre o que se está a passar na Venezuela e o que se pode vir a passar na Venezuela depois desta intervenção militar dos Estados Unidos. Fica por aqui a edição da tarde de Gabinete de Guerra com Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School.