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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que analisamos os principais conflitos ativos e as situações tensas no globo. Hoje com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, seja muito bem-vindo. Obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar da guerra na Ucrânia, que é já a guerra mais longa da Rússia desde 1721. O que isto nos diz?

Quer dizer que a aposta de Putin de fazer uma operação militar especial falhou redondamente. Infelizmente, também quer dizer que os ucranianos continuam todos os dias a ser massacrados por estes ataques indiscriminados russos, ao serviço desta obsessão de Putin com alargar o território do maior país do mundo, um país que não tem falta de quilômetros quadrados, tem falta de população, perdeu talvez já um milhão de pessoas entre mortos e feridos graves nesta guerra, mais um milhão que fugiram. Mas realmente e objetivamente, é um marco importante. Já há alguns dias que esta é a guerra mais longa na história da Rússia em vários séculos, desde a chamada Grande Guerra do Norte entre a Suécia e a Rússia. Porque é preciso também recordar isso, porque hoje em dia com as redes, as pessoas são todas muito afoitas a fazer contas de cabeça sem estudar os assuntos. A Segunda Guerra Mundial realmente demorou mais anos, mas a Rússia, ou melhor, a União Soviética, de que a Rússia era a maior componente.

Apenas entrou no conflito quando foi atacada pela Alemanha.

Exatamente. Apenas entrou no conflito no verão de 1941 e, portanto, não são os seis anos a partir de setembro de 1939, porque nessa altura, em setembro de 1939, na verdade, a União Soviética, que era um aliado objetivo da Alemanha Nazi, foi um cúmplice dessa invasão para ocupar e dividir a Polônia em setembro de 1939.

Bruno, vamos fazer um balanço do encontro entre Estados Unidos da América e Dinamarca. Estiveram reunidos ontem. Quais são, no teu entender, os principais pontos a retirar desta reunião?

Aparentemente, a conclusão mais importante, não é propriamente inesperada, é que os Estados Unidos não desistem do seu desejo de anexar a Groenlândia. É extraordinário, mas é com isso que temos de lidar, ou seja, basicamente, um aliado ameaça outro aliado de anexação. Aparentemente, o que também podemos retirar é que, para já, pelo menos, os Estados Unidos parecem estar dispostos a conversar sobre o assunto, embora a Dinamarca e a Groenlândia tenham deixado claro que não há nada para conversar em termos dessa questão da anexação. Portanto, nem a Dinamarca está disposta a ceder a Groenlândia, nem o governo autônomo e a maioria esmagadora da população da Groenlândia. Penso que uma sondagem havia talvez 3% que estavam dispostos a eventualmente a ponderar fazer parte dos Estados Unidos, não querem isso. A esperança, apesar de tudo, é que, sobretudo começando a haver uma reação mais forte no interior dos Estados Unidos, começa-se a ver alguns sinais disso. A opinião pública é esmagadoramente contra esta ideia. Mesmo a maioria dos republicanos, mais de 50% dos republicanos estão contra a ideia, apesar de, por regra, mais de 80% apoiarem qualquer ideia, por mais disparatada que Trump tenha. Começamos a ver alguns nomes importantes no Congresso, inclusive o antigo líder dos republicanos no Senado, Mitch McConnell, veio dizer aquilo que é evidente pra qualquer pessoa com o mínimo bom senso, é que estas ameaças em relação a um aliado não são uma demonstração de força, são uma demonstração de estupidez, são um completo disparate do ponto de vista estratégico. No fundo, só dão força aos inimigos, aos adversários históricos dos Estados Unidos, enfraquecem a aliança mais forte da história, que tem sido um enorme benefício para os seus membros, para todos os seus Estados membros, inclusive os Estados Unidos, que é o membro mais importante. Portanto, pode ser que se for assim, talvez se comece a falar em termos mais racionais, ou seja, de um eventual reforço da presença norte-americana na ilha.

Para já têm sido os europeus a tomar essa iniciativa, digamos assim.

Sim, o que temos é exatamente isso. É algo que eu também já defendi, mas que me parece, ao mesmo tempo indispensável e perfeitamente dispensável. Ou seja, parece-me indispensável, porque acho que é importante que passe esta mensagem, que é Donald Trump não vai conseguir anexar a ilha com ameaças, vai mesmo ser preciso ir a tiros. E portanto, vamos ver se mesmo um presidente como Donald Trump se atreve a começar a disparar contra aliados, se atreve a dar esse tipo de ordens às Forças Armadas americanas, quando é muito evidente, por exemplo, mesmo vários congressistas têm dito isso, que isso seriam ordens completamente ilegais, aliás.

Sendo que agora até, Bruno, depois do que aconteceu com a Venezuela, Donald Trump tem agora de prestar contas.

Vamos ver se tem de prestar ou não. Ele sistematicamente ignora a lei, ignora o Congresso, mas pelo menos do ponto de vista político e simbólico, é importante. Aliás, está uma proposta de lei em cima da mesa de congressistas republicanos e democratas para impedir Donald Trump de atacar países da NATO. Mais uma vez é importante, se calhar é indispensável, mas é ao mesmo tempo perfeitamente dispensável, porque é evidente que isso à partida não devia ser preciso. Não devia ser preciso ter uma lei a dizer que não se pode atacar aliados. Mas aparentemente é aí que estamos e, portanto, como eu dizia, é indispensável, porque os europeus têm de mostrar que têm capacidade Para ter uma presença militar nesta região. É absolutamente falso algo que também tenho ouvido dizer muitas vezes, que é: os Estados Unidos, como têm dois milhões de soldados, estão todos prontos para ir combater pra Groenlândia. Para combater no Ártico é preciso estudos, equipamento e experiência. Há muito poucos países que têm meios significativos militares no Ártico. O mais importante é a Rússia, mas provavelmente o país que tem mais meios, mais tropas preparadas para combater num contexto muito exigente o Ártico, é a Finlândia. Que além de tudo, tem serviço militar obrigatório e basicamente toda a Finlândia está numa zona ártica e portanto, tem uma grande experiência pra o fazer. Até se pode dizer que a Europa aí tem mais capacidades, mais meios, mais efetivos do que os próprios Estados Unidos, como eu também sublinhei quando os Estados Unidos agora se lembraram que tinham falta de navios quebra-gelo pra terem uma presença militar no Ártico, tiveram de ir comprar à Finlândia, a correr, porque não têm sequer essa capacidade de construção e tiveram de pedir aos finlandeses para transferir esse conhecimento, para começarem a fabricar novamente navios quebra-gelo nos Estados Unidos. Parece-me que é uma demonstração importante de solidariedade da parte dos países europeus, ao mesmo tempo é dispensável, ou melhor, deveria ser dispensável, porque obviamente nada disto faz nenhum sentido. Não há nenhuma ameaça iminente sobre a Groenlândia, nem de perto nem de longe. A China não tem nenhuma presença na região e a Rússia tem uma presença importante no Ártico, mas sobretudo noutras zonas. A zona onde há mais presença militar importante no Ártico é no Alasca, que é um território norte-americano, aí sim os chineses e os russos têm estado bastante ativos.

Bruno, vamos avançar, falar sobre a situação no Irão, que está neste momento a evacuar algumas das bases militares. Isto no teu entender, é sinal que um ataque iminente dos Estados Unidos poderá estar no horizonte?

Quem está a evacuar as bases são os Estados Unidos, as bases militares na região do Médio Oriente. Isso no passado foi uma indicação de um ataque iminente, ou seja, os Estados Unidos fizeram exatamente isto quando fizeram aquele ataque conjunto com Israel contra o programa nuclear iraniano. No entanto, isso não quer dizer, e aí se torna a política internacional complicada e torna previsões com segurança ou com certeza muito difíceis e geralmente pouco sérias, não quer realmente dizer inevitavelmente que seja o caso agora. As últimas declarações de Donald Trump parecem apontar no sentido oposto, porque ele até diz que o Irão lhe garantiu que afinal já não ia matar mais manifestantes, nem executar mais manifestantes. Enfim, acho que essas garantias têm pouca ou nenhuma credibilidade, mas podem dar um pretexto a Donald Trump para recuar. Há também informações, essas parecem mais relevantes, de que alguns países do Golfo poderiam também ser alvos potenciais. O Irão ameaçou atingir, por exemplo, os petroleiros no Golfo Pérsico, no Estreito Ormuz, e eventualmente até retaliar contra instalações petrolíferas de aliados dos Estados Unidos. Aparentemente esses países terão feito pressão sobre os Estados Unidos para não avançar com o ataque. Parece-me que a ser verdade, é algo que pesará bastante junto de Donald Trump, mas também tudo isto pode ser simplesmente mais um exercício deliberado de desinformação, de desviar atenções, de manter a surpresa para um eventual ataque contra o Irão.

Da última vez tivemos uma situação parecida, Donald Trump disse que ia pensar durante duas semanas e o ataque contra precisamente o Irão aconteceu pouco depois.

Exatamente. É exatamente isso. Ou seja, pode haver novamente aqui um fenômeno de tentativa de desinformação para manter o efeito surpresa. Não sabemos, mas realmente os próximos dias vão ser decisivos desse ponto de vista para percebermos desde logo se mantêm os protestos contra este banho de sangue que o regime está a fazer, contra estes massacres contra os iranianos, e se há realmente algum tipo de reação dos Estados Unidos, como Donald Trump prometeu. No fundo, há que recordar isso. Donald Trump incentivou os manifestantes a enfrentarem desarmados um regime armado que já mostrou no passado ser incapaz de governar bem o Irão, mas ser bastante capaz de matar bem iranianos. Donald Trump incentivou as pessoas a enfrentarem este regime armado até aos dentes com a promessa de uma intervenção americana. Vamos ver se essa promessa se concretiza ou não.

Bruno, vamos avançar, falar sobre o último tema que tenho aqui preparado para abordar contigo neste gabinete de guerra, é sobre a Venezuela, nomeadamente o encontro entre Maria Corina Machado e Donald Trump, eles vão estar reunidos. A minha pergunta para ti, Bruno, é: o que é que pode estar em cima da mesa neste encontro e se acreditas que a venezuelana vá mesmo dar o Prêmio Nobel que conquistou a Donald Trump.

Acho que é possível, ou seja, formalmente o Comitê Nobel já explicou aquilo que devia ser evidente, que é o prêmio não pode ser transferido. O Saramago não podia ganhar o Prêmio Nobel de Literatura e depois a seguir passar ao Lobo Antunes, porque achava que o Lobo Antunes é que devia ter ganho. Mas eu acho que é bem possível que a medalha Nobel esteja em cima da mesa e que Maria Corina Machado seja suficientemente generosa e esteja suficientemente preocupada, menos com o seu ego e mais com a Venezuela, pra tentar isso, pra tentar conquistar alguma boa vontade de Donald Trump oferecendo-lhe o Prêmio Nobel que ela venceu e que Trump achava que devia ter sido ele a ganhar. Acho que essa é provavelmente a questão central deste encontro pra Donald Trump, aquilo que talvez justifique que ele tenha aceito o encontro com relativa rapidez. Agora, não estou nada seguro que isso seja suficiente pra mudar a posição de Donald Trump, que ainda ontem elogiou de forma rasgada a atual presidente da Venezuela, uma chavista histórica da primeira hora, esta Delcy Rodríguez, que garante a continuação do regime e da opressão dos venezuelanos e portanto, no essencial nada mudou. A única boa notícia é a libertação de alguns presos políticos, mas mesmo essa é uma libertação pra já muito limitada. Libertar presos políticos, todos eles, devia ser o primeiro passo para uma rápida transição pra democracia e de fato não há sinais de que Donald Trump esteja interessado nisso. Parece estar a apostar em manter o regime chavista desde que ele dê acesso ao petróleo e outros recursos. Vamos ver se Corina Machado consegue alterar isso ou eventualmente, algo me parece que é bastante provável, que é que com este regime, os problemas na Venezuela continuem, seja em termos de protestos, seja em termos de capacidade de captar investimento estrangeiro, porque realmente se eu fosse um investidor não me arriscava investir aqui milhares de milhões de dólares com um regime que historicamente provou ser, por um lado, muitas vezes incompetente e por outro, também muitas vezes compensar essa incompetência com nacionalizações de empresas estrangeiras.

Bruno Cardoso Reis, muito obrigado pela tua análise a estes vários pontos de tensão internacional, um pouco por todo o globo. Bruno Cardoso Reis é historiador, esteve conosco neste gabinete de guerra que termina agora. Fica disponível, como sempre, em podcast.