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É mais uma semana de gabinetes de guerra aqui na tarde, em direto da Rádio Observador. Isto num dia que pode ser decisivo para o rumo do conflito na Ucrânia. O presidente russo está na Bielorrússia. Poderemos ver este país aliar-se a Putin de forma mais efetiva e entrar nesta guerra. Olhamos para este e outros assuntos com o Bruno Cardoso Reis, também com a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz.
Estamos em um dia, de facto, que pode ser importante e decisivo para a guerra na Ucrânia. Temos o Kremlin a garantir que não vai haver pressão para os bielorrussos entrarem neste conflito. Bruno Cardoso Reis, entretanto, vamos tendo aqui algumas atualizações também sobre isto. Esse encontro já decorreu. Tem havido manobras militares nas últimas semanas e hoje até termina a inspeção da preparação militar das Forças Armadas de Lukashenko. Nós arriscamo-nos aqui a começar 2023 com a tal grande ofensiva e desta vez em dose dupla, com russos e bielorrussos juntos.
Eu acho que nós arriscamos a ter mais ofensivas, ou seja, quer de um lado, quer do outro, quer do lado russo, quer do lado ucraniano, há indicações várias nesse sentido. A mobilização parcial russa claramente aponta para aí. Os esforços para encontrar armamento, seja no Irão, seja na Coreia do Norte. Do lado ucraniano, obviamente, também o esforço para treinar unidades, por exemplo, esta missão de treino da União Europeia, uma missão de treino também na Grã-Bretanha, enfim, toda esta pressão para haver mais armamento e sobretudo os objetivos dos dois lados continuam a apontar no sentido da necessidade de haver ofensivas. Os russos continuam a insistir que vão, como eles dizem, libertar, garantir a segurança destas quatro regiões que eles anexaram, e que não controlam ainda completamente. E do lado ucraniano, há a insistência de que querem recuperar todo o território perdido, pelo menos desde fevereiro deste ano, mas eventualmente mesmo desde o início da questão russa em 2014. Agora, exatamente qual será o papel da Bielorrússia, isso é que é a grande dúvida. Eles, de facto, vieram dizer que Putin não ia pressionar a Bielorrússia, mas não disseram que a Bielorrússia não ia intervir. Portanto, no fundo, podemos pensar que se trata aqui de uma componente da propaganda, desta ficção de que a Bielorrússia, de facto, voluntariamente quer seguir a linha do Kremlin, e que não é simplesmente, sobretudo desde 2020, um regime, o regime de Lukashenko, que está completamente dependente do apoio militar e em termos de serviços de segurança da Rússia. Portanto, essa possibilidade não pode ser completamente afastada e não a afastar completamente interessa à Rússia, no sentido que obriga os ucranianos a manter tropas nesta zona do norte, nomeadamente para defender a capital, para defender uma central nuclear também bastante importante, que fica próxima da fronteira com a Bielorrússia, construir trincheiras, minar esta região. Portanto, há aqui todo um esforço que a Ucrânia tem de manter, mesmo que não se venha a concretizar esta ofensiva. A existir, ela dificilmente terá resultados melhores do que aquilo que teve no início da campanha russa, da invasão russa em fevereiro, porque entretanto realmente os ucranianos tiveram tempo para se preparar, tiveram tempo para construir estas linhas defensivas, para minar a zona da fronteira, etc. Portanto, seria sempre uma campanha, uma ação difícil por parte da Rússia, mas obviamente, ainda mais obrigaria a fixar também tropas ucranianas.
Bruno, o secretário-geral da ONU, António Guterres, reconhece esses rumores sobre a possibilidade da Bielorrússia se juntar à Rússia e não antevê que a paz aconteça num futuro próximo, mas tem a esperança que chegue até o final do próximo ano, ou seja, só daqui a um ano. O que te parece este horizonte delineado aqui por António Guterres?
Eu penso que, como eu referi, acho que é bastante provável que nos próximos meses, pelo menos até o verão, as duas partes continuem a apostar em meios militares para tentar alcançar os seus objetivos. Acho que já tiveram aqui enormes baixas, já tiveram grandes perdas de material, mas continuam convencidos de que têm ainda alguma capacidade de reserva e que podem atingir os seus objetivos, e têm sempre a esperança que seja o outro lado a fracassar primeiro. Portanto, acho que sim, acho que é razoável pensar que pelo menos até o verão, se vai continuar uma fase, infelizmente, ativa desta campanha. Depois, o que é que seguirá? Isso teremos de ver. Serão verdadeiras negociações de paz, serão pausas operacionais e depois um recomeço das ações militares com níveis que podem variar, isso teremos de ver. Nessa conferência de imprensa, acho que também foi relevante, no fundo, o António Guterres vir sublinhar um ponto que também aqui discutimos várias vezes, que é de facto, as Nações Unidas não têm, e o seu secretário-geral não tem a expectativa de uma paz no curto prazo, por isso não se têm envolvido nesse tipo de negociações. Têm apostado, sobretudo, noutro tipo de negociações com objetivos mais limitados, mas que são objetivos humanitários muito importantes, por exemplo, a questão dos cereais, para evitar uma crise alimentar global, a questão da libertação de presos, a questão da saída de populações civis de zonas mais afetadas e portanto, será expectável que as Nações Unidas continuem a fazer esse tipo de ações, a par das ações das próprias agências das Nações Unidas, das ditas agências especializadas, que são muito importantes no apoio humanitário, por exemplo, aos refugiados de guerra ucranianos.
E no terreno, a Ucrânia emitiu hoje alertas de invasão aérea em Kiev e um pouco por todo o país. Pode dar-se o caso de ser Zelensky aqui a dramatizar, ou estes alertas têm razão de ser por correr-se o risco de cobrirem todo o território? Eu sei que, além disso, queres frisar alguns pontos, em particular do discurso do presidente ucraniano, Bruno.
Sim, estes alertas fazem parte da nova rotina na Ucrânia. A Rússia tem procurado manter vagas recorrentes deste tipo de ataques aéreos em profundidade, com mísseis, com drones contra centros populacionais, procurando aterrorizar a população e, sobretudo, também contra a infraestrutura elétrica. E isso é claramente uma grande preocupação das chefias ucranianas. Houve uma grande entrevista do presidente e dos principais líderes militares ucranianos ao Economist, e esse é um dos temores que é referido, pelo próprio chefe do Estado-Maior ucraniano, que é: como é que nós vamos manter a moral das tropas ou a própria capacidade de ter reservas se tivermos uma rede elétrica completamente embaixo? E isso tudo vai sempre neste sentido, que é os apelos ao Ocidente para reforçar os meios aéreos. E portanto, o presidente Zelensky, que é muito hábil na comunicação política, é essa a sua grande força, aquilo que explica grande parte da sua carreira política, aproveitou o pretexto do dia de São Nicolau, que é o Pai Natal, é daí que vem a tradição do Pai Natal e das prendas. No caso do cristianismo ortodoxo, essa tradição das prendas está realmente associada a São Nicolau e ele veio dizer: "Infelizmente, os russos, as prendas que nos dão são mais ataques aéreos, não respeitam sequer o dia de São Nicolau, e as prendas que nós precisamos realmente são mais meios de defesa antiaérea mais sofisticados", os sistemas Patriot que temos falado. E também, especificamente, e já a pensar nesta dimensão ofensiva, a questão de carros de combate, e referiu especificamente, fez uma espécie de lista, um pedido específico em relação aos carros de combate Leopard. Nessa entrevista também do Economist falavam-se em 500 carros de combate. O problema é que isso é muito para aquilo que são as disponibilidades dos países ocidentais e em particular dos países europeus, nomeadamente a Alemanha, que é quem produz esse tipo de carros de combate. Isso é 10 vezes aquilo que a Alemanha tinha de reserva, tinha por volta de 50 desses carros de combate, vamos dizer assim, no armazém, para o caso ser preciso, e é mais do que o total daquilo que as Forças Armadas alemãs têm no terreno neste momento. Portanto, é um esforço grande, obviamente, implica reforçar a produção e alguns esforços estão a ser feitos para produzir novos carros de combate, mas é um esforço muito grande e portanto não é apenas má vontade ou burocracia dos países ocidentais que dificulta o preenchimento, a resposta a esta lista de prendas do presidente Zelensky.
Bruno Cardoso Reis, obrigada por esta tua análise. A ver vamos quais são os próximos passos na guerra da Ucrânia e também esta questão da Bielorrússia. Contamos contigo amanhã, nas manhãs 360 e também com os nossos especialistas e depois continuamos com os gabinetes de guerra noutras edições. Obrigada.
Obrigado.