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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Nos próximos minutos vamos falar sobre os conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente. Sou o João Gama. Hoje contamos com o Major-General Vieira Borges, a quem desejo desde já uma boa tarde. Major-General, é dia de reunião dos ministros dos negócios estrangeiros na União Europeia. As declarações de Josep Borrell estão a dar que falar e a olhar para a Ucrânia, o líder da diplomacia europeia veio pedir esta manhã o fim das restrições à Ucrânia para o uso de armas contra alvos militares russos. Os ataques da Ucrânia contra a Rússia com armas europeias devem ser feitos à vontade, como disse ainda hoje o comandante das Forças Armadas dos Países Baixos.

Muito boa tarde, muito obrigado pelo convite. Esta é uma posição que naturalmente tem entre os próprios membros da União Europeia alguns países que não concordam. Portanto, esta não é propriamente a posição comum de todos os membros, não é propriamente a posição do próprio governo dos Estados Unidos, e do Reino Unido também tenho as minhas dúvidas relativamente a outros dois países que não fazem parte da União Europeia, mas que são importantíssimos, como sabe, no apoio à Ucrânia neste conflito. No entanto, é uma posição que em termos político-estratégicos tem a sua importância numa altura em que Zelensky, em que a Ucrânia precisa urgentemente desse tipo de utilização de armas de longo alcance para abater determinado tipo de alvos. Isto é muito simples, é o jogo do gato e do rato. Para os nossos espetadores, nós quando olhamos para o mapa de operações, é fácil perceber que em função do alcance das armas, há um deslocamento, há uma reorganização para o combate, designadamente, neste caso, das próprias bases aéreas e das aeronaves. Elas têm determinado tipo de alcance, são batidas por determinado tipo de sistemas, obviamente que têm que sair de determinadas bases e ir para outras bases mais à retaguarda. Até em função da operação militar especial da qual estamos a acompanhar exatamente esse deslocamento das próprias unidades. Inicialmente, ficaram ao alcance das armas 25, depois obviamente que deixaram de estar ao alcance, foram para outras bases. O território é muito extenso, há muita profundidade estratégica, operacional e tática da parte da Rússia e, portanto, independentemente desta movimentação, obviamente que temos que compreender que quanto mais longe estiver, menos alvos serão batidos na Ucrânia, designadamente com bombardeamentos das chamadas bombas planadoras, como hoje houve mais bombardeamentos na região de Sumy. E, portanto, é esse o objetivo, é sobretudo bater a área da retaguarda, quem destrói a própria Ucrânia, áreas logísticas, designadamente, como foi hoje, paióis de munições, porque depois há outro tipo de objetivo que é a chamada infraestrutura petrolífera, já vem de longe essa estratégia da parte da Ucrânia, que continuará hoje, certamente, independentemente deste tipo de armas. Porque isto tem sido batido até com drones, com grandes alcances, como foi hoje o drone em Kirov, ficamos todos a olhar, a 1500 km. Portanto, há aqui novos drones que têm grande alcance, não são detectados, voam a muito baixa altitude, mas cada vez têm maior potencial de destruição. Isso é uma novidade desta guerra que certamente vai ser transportada para outras guerras a partir de agora e infelizmente ser utilizada eventualmente por movimentos terroristas e teremos um mundo muito mais complicado, isso tudo fruto desta nova tecnologia, da investigação e da inteligência artificial.

Major-General, este apelo de Josep Borrell vai ser correspondido pelos Estados-membros ou vamos ter aqui uma, já começou por falar dessa divisão entre os 27, essa divisão pode ser superada com este apelo de Josep Borrell à cabeça?

Pode ser superada, mas aqui os países têm autonomia para cada um deles depois fazer o que quer. Esta é a mensagem política. Agora cada um, quer estes 27, quer os 32 da NATO, atuarão em conformidade com aquilo que são os seus interesses, aquilo que é a sua política de defesa, e isso ninguém vai alterar. Eu não acredito, de maneira alguma, que seja na União Europeia, seja na reunião da NATO, que tenha lugar uma posição unânime, até porque os Estados Unidos não a têm. E têm uma posição de alguma restrição. E nesse sentido, se os Estados Unidos têm, por maioria de razão, há de haver outros países que também vão seguir a mesma linha. O argumento é não escalar a guerra. O argumento fundamental, o argumento político, é não escalar a guerra.

E iria escalar a guerra esta carta branca, por assim dizer, dos países europeus?

Sim, a partir do momento em que não há qualquer restrição ao uso destas armas, elas tanto podem bater estes objetivos militares como podem depois bater objetivos de cariz civil e, portanto, com consequências muito complicadas para a imagem de quem apoia. E portanto, isso poderá ser usado para os próprios países que autorizaram esse tipo de armas. Isto é muito sensível, são decisões políticas muito sensíveis que podem ter, e têm, neste caso, os Estados Unidos em plena campanha eleitoral, consequências políticas em caso de, imaginemos, um ataque com essas armas bater uma central nuclear ou ter efeitos colaterais com mortes muito elevadas numa determinada cidade. Há um cuidado muito grande da parte dos países que têm estas armas e que apoiam a Ucrânia nesse sentido. Portanto, uma coisa é defender a Ucrânia em território ucraniano, batendo alvos em território russo ao alcance das armas mais convencionais Para que não sejam batidas na linha da frente, outra coisa é bater alvos a grandes distâncias, e estamos a falar de mais de 180 km, 200 km, para além da fronteira internacional.

Major-General, deixe-me continuar com as declarações de Josep Borrell, mas virá-las para o Médio Oriente, porque o líder da diplomacia europeia também sugeriu que tinha chegado a altura de a Europa ponderar sancionar ministros israelitas por mensagens de ódio contra palestinianos, o que diz Josep Borrell que é uma violação da lei internacional. Isto seria um corte por completo nas relações entre Israel e Europa e faria sentido neste momento?

Neste momento faz sentido para que a Europa tenha uma posição coerente. Aliás, ainda bem que faz a pergunta a seguir à Ucrânia. Se há coerência é com o Borrell, apesar da linguagem nem sempre ser a mais adequada. Mas ele tem coerência, tal como as Nações Unidas a proteger quer a Ucrânia, que está a ser invadida, quer a proteger os palestinianos nesta fase, tal como protegeu Israel quando foi atacado. Isto é importante. Tem que haver coerência. E ele nesse sentido tem coerência. Ou seja, nós constatamos perfeitamente, e sobretudo depois desta operação na Cisjordânia, que Israel continua em pleno, estamos na guerra, mas simultaneamente temos um processo negocial em curso, que é importante, e nesse sentido Israel tem deliberadamente, não é só de agora, infringido o direito internacional. E para ser coerente quando está a ser entrevistado ou está a fazer uma comunicação, obviamente, no caso de Israel, tem que ter esta postura. Mas ele é coerente. Não quer dizer que também os outros 27 tenham o mesmo posicionamento, porque alguns obviamente estão mais próximos do posicionamento dos Estados Unidos, que é um posicionamento ligeiramente diferente, em que estas operações e outras são sempre justificadas, no sentido em que Israel precisa defender a sua segurança olhando para um território de Israel, que é mais ou menos a área do nosso Alentejo, cercada por todos os lados, com declarações também daqueles movimentos, uns terroristas, outros não, de que não pretendem ter dois Estados naquela região, pretendem ser só um e destruir o Estado de Israel. Esse é o argumento do outro lado, que também obviamente tem fundamento, qualquer dos dois tem fundamento, mas o direito internacional está lá e nesse sentido ele defende, tal como defende o secretário-geral das Nações Unidas, e penso que hoje, se não foi hoje, foi ontem, também ficou muito preocupado inclusive com o cessar imediato dos ataques de Israel à Cisjordânia, para além daqueles que vão tendo lugar em Gaza e para além de outras situações que estão a passar. Não sei se me vai questionar sobre as mesmas.

Deixe-me continuar aqui a olhar para o Médio Oriente. A ONU veio suspender hoje movimentos de funcionários depois de uma carrinha ter sido atingida por balas na Faixa de Gaza. Isto são funcionários do Programa Alimentar Mundial. Nem as agências humanitárias estão seguras no enclave palestiniano?

Não, já vimos que não. Inclusivamente, organizações internacionais, que não só ligadas às Nações Unidas, mas desde a Cruz Vermelha até outras organizações, obviamente correm riscos elevadíssimos, como temos visto. E temos visto também, sobretudo, porque é preciso olhar também para este conflito. Estamos em Gaza, estamos numa área muito reduzida, com muita gente, em que é muito difícil separar os terroristas dos seus escudos humanos. E obviamente, estas organizações têm que estar junto do povo que têm que proteger e, portanto, por vezes são alvo indireto. Certamente que não haverá premeditação da parte de Israel ou até, não sei, dos próprios combatentes do Hamas ou terroristas. Independentemente disso, são efeitos colaterais de uma guerra num determinado espaço que é muito diferente do que estávamos a falar da Ucrânia. E acontece menos, porque obviamente, o terreno ali, a dimensão é completamente diferente. O teatro de operações tem uma linha de combate fixa. Aqui não há linhas de combate. É todo um território que vai de sul a norte, é muito complicado. E portanto, isto acontece pontualmente e eu acho, sinceramente, na minha opinião, independentemente destas situações que devem ser denunciadas, o trabalho dos Médicos Sem Fronteiras, das organizações ligadas às Nações Unidas, deve continuar. São homens a quem os fracos muito devem, seja em que teatro de operações for, têm feito um trabalho que a história nos conta. Nós olhamos para essas pessoas com grande respeito e uma grande consideração. Eu acho que não devem ser situações conjunturais que afetam aquilo que é estrutural dessas organizações, que é o bem comum e proteger aqueles que estão a ser atacados e que estão a ser espoliados. E isso é muito importante, que eles continuem o seu trabalho.

Agradeço ao major-general Vieira Bora, esteve conosco no Gabinete de Guerra a analisar os dois conflitos em curso, um na Ucrânia, outro no Médio Oriente. Major-general, muito obrigado. Nós estamos de regresso já amanhã.