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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos os principais focos de conflito, tanto no Médio Oriente como também na Ucrânia. Conosco está o historiador Bruno Cardoso Reis. Muito obrigado por aceitar o nosso convite e também já é uma presença habitual aqui na rádio. Olá, bom dia.
Olá, obrigado.
Vamos começar pelo Médio Oriente, neste caso, vamos começar por Benjamin Netanyahu, que diz que o fim da ajuda militar dos Estados Unidos demonstra uma força da relação entre os dois países. Donald Trump já tinha dito depois do resultado das midterms, as eleições intercalares, que o financiamento para Israel ia ser cortado no final deste ano, uma decisão que foi vista com uma espécie de surpresa. Aparentemente, Donald Trump diz que foi combinado com Benjamin Netanyahu, mas foi visto com alguma surpresa e foi vista também como uma reação a essas midterms. Benjamin Netanyahu apresenta isto como uma espécie de sinal de maturidade, de força da aliança. Eu pergunto, Bruno, até que ponto é que esta narrativa não serve mais para mascarar uma espécie de ruptura diplomática ou uma mudança de prioridades em Washington, tendo em conta que é uma surpresa, não deixa de ser uma surpresa.
Olá a todos novamente. Sim, eu acho que aqui Netanyahu, no fundo, está a tentar apresentar da melhor maneira possível para ele, para Israel, mas também para ele, porque ele também está em circunstâncias políticas difíceis. É possível que não consiga manter-se à frente do governo israelita e, portanto, no fundo, não quer ficar aqui também com o ônus de ser responsável por haver uma crise na aliança mais importante para o Estado de Israel, para a segurança de Israel. É verdade que isto já tinha sido combinado, mas aquilo que também ouvimos logo a seguir a Trump anunciar isto, foi que seria a partir de 2028, até porque há uma série de encomendas já feitas, há um memorando de entendimento que prevê esse financiamento até essa altura. Portanto, se não renovar, isto não é exatamente a mesma coisa. No fundo, é acabar dois anos mais cedo. Acho que isto reflete, na verdade, uma alteração que é muito negativa para Israel, do meu ponto de vista, na opinião pública norte-americana, ou seja, pela primeira vez, a partir de 2024, nós temos tido forma consistente sondagens que mostram que Israel é menos popular do que os palestinianos, que Israel já não é o país mais valorizado pelos norte-americanos na zona do Médio Oriente. Netanyahu apostou tudo numa aproximação, numa colagem completa a Trump e ao trumpismo. Isso criou um nível de hostilidade crescente também e cada vez maior, que nunca se tinha visto no Partido Democrata, em muitos setores do Partido Democrata. Uma das questões-chave para Israel, para a solidez desta aliança, é que ela fosse relativamente consensual nos dois principais partidos que dominam a política americana e portanto, do meu ponto de vista, isso já não é verdade. E mesmo no Partido Republicano, há um setor MAGA, um setor importante do trumpismo, que é muito hostil à ajuda externa, às alianças, às guerras no exterior e que tem culpado Netanyahu e Israel pelo conflito no Irão, por exemplo, figuras como o Tucker Carlson. E portanto, mesmo no Partido Republicano e mesmo no trumpismo, toda esta colagem também de Netanyahu não parece ter dado exatamente o retorno que ele esperava. Portanto, acho que realmente isto é uma tentativa mal sucedida de disfarçar um problema sério nas relações entre Israel e os Estados Unidos.
Parece-lhe que, pelo menos, posso estar também a fazer aqui um entendimento errado destas palavras de Netanyahu, mas esta leveza para estar a pôr as coisas desta forma, de que é uma grande maturidade, é um grande sinal da relação entre os dois países, tem a ver com o facto de Netanyahu, portanto, ontem a lista conjunta disse que apoiaria Eisenkot, o que faria com que Netanyahu não tivesse a maioria parlamentar, Eisenkot tivesse essa maioria parlamentar no Knesset e, portanto, governasse com essa maioria minoritária, mas essa pequena maioria. Acha que esta leveza também de Netanyahu é uma leveza de que não sou eu que vou governar depois também, portanto, não há problema nenhum relativamente a este assunto.
Sim, eu percebo o ponto, ou seja, no fundo, em termos de Israel, para já, a primeira fase é haver uma maioria no Parlamento que apoie a nomeação de uma figura para tentar formar governo. Portanto, neste momento, quem tem claramente essa maioria é o general Eisenkot. Tem não só os 48 lugares da coligação da oposição a Netanyahu, de esquerda, de centro-direita, direita, mas tem os 19 partidos árabes, portanto, tem uma maioria de 103.
Sim, 101, acho que é.
Sessenta e um é a maioria, exatamente, portanto está para além desse número. Agora, vamos ver se ele consegue formar governo. Em todo caso, é verdade que não se perspectiva realmente que seja fácil a Netanyahu ficar no governo. A mim parece-me que, sobretudo, é importante para ele passar esta mensagem No fundo, marcar aqui uma certa leitura da história. Eu não daria por garantido que ele está convencido que não terá um papel importante na política israelita no futuro. Mas no caso de Netanyahu, como aliás Donald Trump, a questão é sempre uma gestão política de curto prazo. O que interessa é resolver o problema no curto prazo, é apresentar uma narrativa favorável e depois logo se vê. Portanto, vamos ver exatamente o que acontece no final do ano. Agora, há aqui um dado que vale a pena também sublinhar, que é: Donald Trump passa o tempo a falar do dinheiro que os Estados Unidos dão à Europa e aos seus aliados europeus. Isso é uma mentira descarada. Quer dizer, os europeus há muitas décadas, dos últimos países, aliás, europeus a beneficiar de ajuda militar importante americana foi Portugal, mas há muitas e muitas décadas que os europeus pagam o armamento americano que compram. Não recebem dinheiro pelas bases norte-americanas na Europa. Agora, onde os Estados Unidos realmente gastam milhares de milhões de dólares é realmente nos seus aliados no Médio Oriente, nomeadamente no caso de Israel, que de longe é o país que mais recebeu ajuda financeira, também para a dimensão militar.
Queria agora passar para a Europa, isto porque andamos a ter vários casos de ameaças de bombas, especialmente em aviões, mas já houve várias disrupções, desde supermercados, bancos de sangue também. Recentemente, hoje houve uma ameaça de bomba a uma estação de rádio, portanto também já está a afetar alguns jornalistas, foi em Dublin, na Irlanda. Estas ameaças de bomba, só hoje já foram mais de 17 ameaças de bomba. No total, na semana, penso que já anda por volta das 35 ameaças de bomba. A Comissão Europeia ontem tinha dito que ainda era cedo para dizer que há um culpado nestas ameaças de bomba, nestas disrupções que estão a acontecer. O que é verdade é que já há mais de um mês, diria, andamos nesta questão de se estamos numa guerra híbrida, ou efetivamente a Alemanha, por exemplo, já diz que estamos nessa guerra híbrida desde o acontecimento em Leipzig. Eu sei que é difícil de avaliar, sei que é difícil de afirmar, mas estas ameaças de bomba, estas disrupções que estão a existir, a Rússia já está aqui a bater à porta.
Bem, a natureza da guerra híbrida é de um conceito muito próximo, que é a guerra na zona cinzenta ou conflito na zona cinzenta. Eu prefiro usar conflito a guerra, porque acho que guerra se deve reservar realmente para conflitos abertos, mas conflitos híbridos, conflitos na zona cinzenta, no fundo, o que os caracterizam é a utilização de métodos não tradicionais, não convencionais, muitas vezes não violentos, ou seja, temos uma ameaça de bomba. No fundo, é uma espécie de guerra psicológica ou de guerrilha psicológica, mas até agora não se encontraram bombas, portanto, não há depois uma tradução numa ameaça de destruição, de mortos, de sabotagem. Mas uma das coisas que caracteriza esse tipo de conflito realmente é também a dificuldade de atribuição. Em muitos casos, o que a Rússia está a fazer, por exemplo, nos casos em que já se conseguiu perceber isso, é contratar criminosos, entrar em contato com, basicamente, contratar pessoas online. E portanto, tudo isso torna mais complicado, mais difícil, mais demorado fazer a atribuição. Enfim, não se pode excluir completamente que haja aqui algum tipo de fenômeno de contágio, portanto, ligado também a estes movimentos de descontentamento social. Agora, obviamente, a Rússia tem sempre de ser uma suspeita, porque em muitos outros casos tem provado que realmente está na origem deste tipo de ações, de ataques, nalguns casos mesmo ações de sabotagem, assassinatos, por exemplo, de dissidentes ou desertores russos. Portanto, realmente há aqui um padrão que se tem acentuado e claramente visa fazer passar a mensagem de que o apoio à Ucrânia, fazer frente à Rússia, fazer frente a esta guerra de conquista imperial russa, terá custos para a Europa, ainda assim, para já relativamente limitados. A grande questão que se tem discutido também é o que a Europa pode e deve fazer. E portanto, eu acho que claramente deve investir mais em tudo o que é mecanismos de segurança, de resiliência e infraestruturas críticas, investir mais também em capacidade de detecção precoce e identificação destas ameaças. Deve denunciar os casos em que há provas de que há envolvimento russo e sobretudo há esta questão sempre da retaliação. Mas também é preciso dizer que este tipo de ataques, este tipo de conflito na zona cinzenta, conflito híbrido, também está desenhado para dificultar a retaliação, para dificultar a resposta. Obviamente, os países da NATO não vão invocar o artigo quinto e não vão atacar militarmente a Rússia por causa deste tipo de situações. Agora, ao mesmo tempo, parece-me que tem havido talvez excessiva permissividade e excessiva contenção. Acho que se devia passar a mensagem que se calhar ações de tipo semelhante têm de começar a acontecer também na Rússia, para a Rússia perceber que não pode fazer isto impunemente.
Portanto, apesar de ainda não sabermos bem o que é, o Bruno acha...
Sim. Não, eu não sei se é a Rússia neste caso ou não. O que eu estou a dizer é que em relação aos ataques que já se confirmou que era a Rússia, não se percebe muito bem que tenha havido grande retaliação. E portanto, parece-me que esse déficit de retaliação em relação ao passado, provavelmente ajuda a que a Rússia continue a multiplicar este tipo de ações. Neste caso concreto, temos de aguardar, temos de esperar. Acho que é legítimo suspeitar da Rússia, acho que temos razões Para suspeitar da Rússia, tendo em conta estas atuações e este padrão do passado, não podemos ter a certeza. Às vezes acontece isso, haver aqui uma coincidência e simplesmente um fenómeno de contágio. De repente, percebe-se que isto está a acontecer, há mais pessoas que têm a ideia de fazer isso. Eu diria que não é a hipótese mais provável, até porque claramente há aqui uma dimensão já significativa que seja alguma coisa ligada a este esforço de guerra híbrida russa, mas não podemos ter a certeza, temos de aguardar.
Exato. E aguardaremos. Ainda falando sobre Europa e, neste caso, sobre a guerra na Ucrânia, o Trump diz que vai fazer um acordo ou que tem um futuro acordo muito grande que poderá abranger toda a Europa. Usa sempre estas palavras muito representativas do discurso de Trump. Será um acordo, um grande acordo, é o que diz Donald Trump. No entanto, não revelou quaisquer detalhes do encontro que teve com o Dmitriev. Donald Trump geralmente tem-nos habituado a uma espécie de para arranca. Diz que vai acontecer uma coisa, entretanto, já parou e depois volta outra vez e entretanto já não está. Estamos sempre nesta ambiguidade. Outrora já existiram acordos, depois a guerra ia acabar no primeiro dia que ele tomasse posse como presidente, entretanto não acabou. Estamos sempre neste para arranca. Acredita neste grande acordo?
Teria de ser uma espécie de fé cega em Donald Trump, como referiu, realmente não temos nenhuns dados sobre isso. E desde logo, isso é um mau sinal. Mas ele vem falar de um grande acordo sem dar nenhum tipo de detalhe. Não é assim que geralmente se faz as coisas. Sobretudo está a retirar, desde logo, margem de manobra a ele próprio. Está a entregar mais uma vez à Rússia cartas sem nada em troca. Ele diz que há um acordo, mas sem haver nenhum papel. Depois, sobretudo, tivemos este dado, que já foi referido, que é ele encontra-se com a delegação russa a respeito deste cessar-fogo, com o Dmitriev, o homem das negociatas de Putin, dos negócios escuros, e não se encontra com a delegação ucraniana. Que eu saiba, nenhum líder europeu, nenhum responsável europeu foi pra já consultado ou envolvido nesse tal grande acordo. Portanto, acho que até isso acontecer, não temos nenhumas razões para dar nenhum crédito a isto. No fundo, acho que é simplesmente Donald Trump a tentar distrair as atenções desta derrota esmagadora nas eleições intercalares, tentar mostrar que ainda continua a ter protagonismo no campo externo, mas com o habitual amadorismo que o tem caracterizado em tudo isto e que tem dado sempre péssimos resultados. Como eu digo, anunciar um acordo sem ter nada de concreto, sem nomeadamente os europeus, que aparentemente serão também envolvidos, sem os aliados europeus terem sido ouvidos, saberem exatamente do que é que se trata. Portanto, acho que não merece realmente nenhum crédito. É mais uma manobra de diversão neste contexto realmente politicamente complicado para Donald Trump.
Chegou ao fim o nosso Gabinete de Guerra. Hoje contámos com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Obrigado pela participação.
Obrigado. Boa tarde.
O Gabinete de Guerra está de regresso para a semana e fica disponível em podcast.