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Gabinete de Guerra com especial destaque esta segunda-feira para esse memorando de entendimento alcançado por Estados Unidos e Irão, um primeiro passo para um acordo mais definitivo e que se espera duradouro para uma paz efetiva na região do Médio Oriente. Bruno Cardoso Reis, olá, boa tarde, bem-vindo. Ao longo das últimas semanas, desde o eclodir deste conflito que tens manifestado muitas reservas e cautelas relativamente à possibilidade de ser possível alcançar um entendimento que vá ao encontro daquelas que são as reivindicações dos Estados Unidos e também do Irão. Manténs essas reservas ou de facto estamos num caminho sem volta a dar para a paz?
A mim pareceu-me sempre que o cenário mais provável, mais racional e o melhor possível dentro da ideia de que não há bons cenários neste contexto, é sempre uma questão de mal menor, seria algo deste tipo, ou seja, um acordo mais limitado que permitisse reabrir o Estreito de Ormuz em condições de segurança e retirar esta pressão enorme sobre a economia mundial, que está a ter um efeito muito negativo, como estamos a ver a todos os níveis, começando com as bombas de gasolina, mas depois por via da inflação, tendo implicações também em termos de taxas de juro, etc. Portanto, sempre pareceu que este seria o cenário mais racional, porque de facto, para os Estados Unidos, para o líder americano, para Donald Trump, isto não é bom politicamente, está a ter custos muito elevados na sua popularidade num ano de eleições. O regime iraniano também precisa, a certa altura, de conseguir utilizar os seus portos, de conseguir exportar o seu petróleo sem condicionamentos. Não é propriamente porque o regime se preocupe muito com a população, mas apesar de tudo, o regime precisa de ter rendimentos. E, portanto, este sempre pareceu o cenário mais racional e o mais realista destas opções menos más. Agora, isto não significa que o acordo possa ser dado como fechado. Portanto, acho que temos de continuar a aplicar aqueles princípios de prudência, que pelo menos agora já temos os dois lados e os mediadores a dizerem que há um acordo, mas temos de esperar para ver exatamente que acordo é que é e, sobretudo, se realmente é assinado formalmente e na sexta-feira, como está previsto, e se começa a ser implementado efetivamente. Sendo que temos, por exemplo, esta questão que é Israel não faz formalmente parte do acordo. Exatamente.
E antecipas que Israel vá responder afirmativamente ao pedido de Donald Trump para que cesse as operações militares no Líbano ou não? E isso poderá ou não pôr em causa este memorando de entendimento, o início das negociações mais aprofundadas tendo em vista a paz no Médio Oriente?
O problema aqui é que acho que isso depende muito dos cálculos políticos internos, sobretudo da pessoa que controla realmente a política e a estratégia israelita, que é Benjamin Netanyahu. A mim parece-me que para ele seria muito conveniente ter o apoio de Donald Trump e, portanto, isso pode condicionar a sua liberdade de manobra. Pode obrigá-lo realmente a seguir mais de perto aquilo que são as exigências de Donald Trump. Independentemente da questão de Israel precisar dos Estados Unidos, Netanyahu precisa de Donald Trump politicamente. Agora, o problema é que o acordo com o Irão não é algo popular em Israel. A questão é perceber também se o Hezbollah, por exemplo, também se vai sentir obrigado por um acordo e se vai deixar de atacar o norte de Israel. Se não for assim, pode ser difícil realmente Netanyahu resistir à pressão para retaliar, até porque em termos políticos internos, isso também seria impopular. Portanto, acho que realmente vamos ter aqui um teste, ver o que pesa mais, se é esta aliança pessoal política entre Netanyahu e Trump, se é no fundo a impopularidade do acordo, tendo em conta que o regime iraniano continua a recusar reconhecer o direito do Estado de Israel existir. O Mufti Supremo voltou a repetir aquelas ameaças de exterminar o que eles chamam a entidade sionista.
Relativamente aos termos do memorando de entendimento que são conhecidos, o levantamento das sanções impostas aos portos iranianos por parte dos Estados Unidos, a garantia de navegabilidade no Estreito de Ormuz. Há aqui alguma novidade relativamente àquilo que vinha sendo discutido e que aparentemente estava a dificultar a obtenção de um consenso por parte das duas partes?
À partida, parece-me que aquilo que foi sendo anunciado é compatível com esta questão crucial, que é realmente a abertura e a garantia de segurança de navegação pelos dois lados. Eu volto a recordar, isso não só significa, no fundo, voltar à realidade antes do início deste conflito, mas foi algo que esteve em cima da mesa no início deste cessar-fogo bastante limitado e frágil no início de abril, ou seja, nessa altura pôs-se esta questão. Aparentemente, o Irão terá dito que sim, que iria de facto permitir a navegação no estreito, embora depois também viesse dizer que com algum tipo de controle por parte do Irão, isso obviamente seria inaceitável, mas por outro lado, e sobretudo, Donald Trump foi dizer: "Não, nós vamos manter o bloqueio aos portos e aos navios iranianos". E portanto, desde logo pareceu-me evidente que isso não seria aceitável do lado do Irão. Portanto, não só voltarmos ao status anterior ao conflito, mas até voltarmos àquilo que podia ter acontecido no início de abril. A mim parece-me que a chave para este compromisso é declarações relativamente vagas sobre o que será o acordo futuro. Portanto, não há nada aqui de muito sólido, muito concreto. O ponto que é crucial realmente é a questão de garantir-se a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz, enfim, porque neste momento é o grande problema para o resto do mundo, para o funcionamento normal da economia mundial e a ideia de que se poderia de facto começar a impor controlos e taxas em estreitos internacionais criaria aqui um precedente muito perigoso, muito custoso e muito arriscado para a liberdade de navegação, que tem sido um pilar da ordem internacional durante o último século.
Sendo que depois de Donald Trump ter dito que a navegação passaria a estar garantida hoje mesmo, J.D. Vance, o vice-presidente dos Estados Unidos, diz que essa parte do memorando de entendimento só vai ser efetivada na próxima sexta-feira, dia apontado para a assinatura deste memorando. Bruno Cardoso Reis, obrigado pela tua presença nesta edição de Gabinete de Guerra.