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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de casais em que um parece ter adotado o outro. Olá, Eduardo. Isto tem nome?

Olá, Judite. Tem, nós podemos pôr nome, sem dúvida nenhuma. Não é um nome muito comum, se calhar, é um nome que se pode trazer da psicologia para o senso comum, mas ainda assim, eu acho que pode ser didático. Eu costumo chamar a isso uma espécie de parentificação conjugal. O que isto quer dizer, Judite França? Que no final de contas, num casal, independentemente da cumplicidade e do cuidado que um tem em relação ao outro, às vezes há um que funciona como a "mãezinha" e outro que funciona como o "paizinho". Se me disser assim: "Eduardo, mas é pecado num casal os papéis se complementarem?" Eu digo: evidentemente que nunca. Mas aquilo que eu estou a dizer, Judite, é que há muitas relações onde os dados da realidade, vamos fazer contas e perceber até que ponto estamos a conseguir ter liquidez pra fazer face aos nossos compromissos ou não. Alguém tem que se zangar com o senhor das obras, porque promete vir e falta sistematicamente, etc. E muitas vezes esses dados são encaminhados para um homem e depois tudo o que tem a ver com a escola das crianças, os amigos das crianças, é preciso levar flauta amanhã e a educação física é à quinta ou à sexta e esse tipo de coisas, parece estar ali circunscrito ao papel da mãe. Quando é que é o lado escorregadio? Nada disto é trágico, como compreendo, mas às vezes o lado escorregadio é quando esta divisão de papéis se prolonga e cria, em cada um dos membros de um casal, um certo ressentimentozinho. Eu sinto-me um bocadinho super cá de casa, que é uma coisa de uma injustiça absoluta em relação a uma mãe, em relação a uma companheira que se tenha. Eu sinto-me o contabilista, o motorista e outras coisas cá de casa, e tudo o resto parece que é mais ou menos supérfluo. E isso também não é justo, como se compreende. Eu tenho que fazer o papel de chato, acho eu, pai, em relação às contas, eu sou o chato oficial no que diz respeito às regras e a outras coisas que inevitavelmente fazem parte da vida de uma família. E quando os papéis se calcificam um bocadinho desta maneira, por que é escorregadio? Judite, porque se vão acumulando ressentimentos, porque depois cada um dos dois, de certa forma, se vai acomodando a esse tipo de tarefas e quando se dá conta, cria-se ali uma divisão que às vezes contribui pra que as pessoas se sintam magoadas e depois distanciadas.

E como é que se chega aqui? Isto instala-se com os anos?

É a coisa mais fácil do mundo. Eu não acho que isto tenha nada de mal. Há sempre um que apanha o jeito e diz: "Pronto, eu agora..." E os homens têm, às vezes, muita mania de fazer isto. Digo: "Eu agora vou assumir este papel de contabilizar as coisas", e alguns que fazem folhas de Excel que nunca mais terminam e outro tipo de coisas. E a vida flui e tudo funciona e as mães passam diretamente do exercício dedicado de maternidade e vão chamando a si mais responsabilidades. E dá-se aquela situação em que há pais, que ainda assim são pais ótimos, que fique claro, mas que se nós lhes perguntarmos: como é que se chama a professora do teu filho? Ou diz-me aí dois amigos que eu possa ter, o embaraço é total, como se, no fundo, eles estivessem presentes e estão empenhados, mas ao mesmo tempo é como se muitas das coisas importantes da vida de uma família lhes passassem ao lado. E, portanto, eu tenho a ideia, Judite, que há três assuntos, e isto é uma abordagem sensível, e ainda bem que nós não estamos na rádio, estamos só os dois a falar, Judite. Mas eu acho que às vezes os casais têm muita dificuldade de falar de três coisas. Falar de dinheiro, mas que é importante. Onde é que nós vivemos de puxar pra que as coisas se possam compensar aqui ou ali. Porque às vezes os homens têm a ideia de que quando chamam uma mulher pra uma discussão dessas, é como se não fossem guerreiros suficientes e como se, no fundo, não fossem capazes de assumir a cota parte de responsabilidade que eles chamam a si próprios e que em muitas circunstâncias não é verdade. As relações familiares são sempre uma tensão terrível, porque evidentemente que há sogras e sogros que são super sensatos. Mas às vezes há pais, mães, sogros, irmãos, etc., que são difíceis e às vezes é muito difícil um casal ter o equilíbrio de pegar num conflito destes e dizer: "Como é que nós vamos gerir isto com parcimônia, bom senso, de maneira que não nos zanguemos todos?" E naturalmente, a sexualidade, que é uma coisa que os casais têm muita dificuldade em falar com toda a maturidade. Isto está a correr bem, isto está a correr mal. E fica ali uma bruma que faz com que muitas vezes as pessoas se afastem e de repente tenham a noção de que são um casal, mas às vezes não são tão casal em tudo, como deviam.

E por que ouvimos tantas mulheres dizerem que acabam por fazer de mãe do marido?

Porque há maridos que não são pessoas razoáveis.

Mas isto também não é uma questão de controle?

Às vezes é. E sejamos razoáveis, eu também acho que há muitos maridos que se põem neste papel, porque é razoavelmente cômodo. Porque, como deve imaginar, perguntarem o que nós havemos de fazer para o jantar, adiantarem o jantar, por hipótese, estraolarem um ovo, que é uma coisa dificílima, como sabes, entre outras coisas do gênero, parece estar fora do seu raio de alcance. E eu acho que eles se vão encolhendo. Mas atenção, é fácil um pai encolher-se no contexto de uma relação, a partir do momento em que nasce um bebê. Eu percebo que os pais se encolham um bocadinho e digam assim: "Mas e agora, qual é o meu papel? Eu estou ao nível daqueles dois ou sou uma espécie de terceiro? Sou importante, mas não tão importante." Isto acontece e é bondoso. É mesmo bondoso que um pai faça isso. Só que o problema é que não faz isso durante dois, três meses, um ano. Às vezes vai fazendo progressivamente e coloca-se como se, no fundo, quando é preciso fazer cara de mau, a mãe fizesse aquele papelão, que eu acho que é uma ternura. Agora vê lá se não ralhas ao teu filho, ao teu, ao de pai. Ao teu filho, mesmo que o pai não faça a mínima ideia do que se passa. E o pai lá vai para ralhar, e o filho, se for adolescente, habilidoso, diz assim: "Mas eu sei que sou sempre o culpado. O que eu fiz agora?" E o pai fica embaraçado e diz: "Olha, dá-me só um minuto que eu vou perguntar à mãe." E dá estas coisas um bocadinho caricaturais, mas acho que há muitos homens que se vão deixando infantilizar a ponto de se criar a ideia de que eles não são capazes nem de conjugar uma camisa com um suéter qualquer. E parecem ser adolescentes um bocadinho desmazelados, que precisam de ter alguém que cuide deles. Eu acho ótimo que tenhamos pessoas que nos amem, que cuidem de nós e que façam questão de o fazer, mas isto é um exercício de reciprocidade. E eu acho que muitas mulheres quando põem as coisas assim, é como se, no fundo, reconhecessem uma coisa que as magoa, compreensivelmente, quer dizer: "Eu não tenho dúvidas nenhumas que o meu marido gosta de mim à maneira dele, e gostará, sem dúvida", mas é como se dissessem: "Mas às vezes é tão sem jeito a manifestar aquilo que sente, que às vezes parece só um adolescente mais velho, em vez de ser um homem como deve ser." Às vezes há homens que são desmazelados neste tipo de coisas e se acomodam a um estado que os prejudica e que seguramente prejudica uma relação e uma família, claro.

Eduardo, o que diz a quem, estando a ouvir-nos, acabou por se reconhecer?

Digo: bem-vindos ao mundo das pessoas reais. Digo: mas digam, por favor, se conhecem alguém dos vossos filhos que não sejam um bocadinho mal-educados de vez em quando, eu não conheço. E já agora, não percam de vista que gostarmos muito de alguém é também contribuirmos para educar essa pessoa e por nos deixarmos educar por ela. E educar não significa criar constrangimentos, significa educar. Trocar dúvidas, pontos de vista, zangarmos de vez em quando, criarmos pontes e percebermos que se nos educarmos uns aos outros numa relação amorosa, na vida, na escola, no mundo, a vida é substancialmente mais simples.

Mas é possível fazer isso sem cair no resto?

Claro que é. A verdade é que quando nós queremos aprender, aprendemos. Ponto. Aquela ideia de que burro velho não aprende línguas é publicidade enganosa. E mais, e quando nós queremos aprender, porque a nossa aprendizagem vai ser preciosa para aquela pessoa, que por coincidência é só a pessoa mais importante da nossa vida, aprendermos por ela, por causa dela e para que ela beneficie das nossas aprendizagens, por favor, eu não acho que tenha que pagar imposto de luxo.

Eduardo, ficamos por aqui hoje. Amanhã voltamos com mais um tema. Até lá, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Eu é que lhe agradeço e até amanhã.