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Abrimos a porta mais um Gabinete de Guerra aqui na Rádio Observador. Todos os dias analisamos dois dos conflitos que mais preocupações continuam a inspirar, um no Médio Oriente, o outro na Ucrânia. E convidámos para esta edição de quinta-feira o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, bem-vindo à antena do Observador mais uma vez. Vamos começar com a guerra na Ucrânia e com uma notícia de há pouco. O governo russo ordenou um cessar-fogo, o calar de armas até às 18h na Ucrânia, para que jornalistas possam aceder a áreas bloqueadas. Uma informação que chega por parte do Ministério da Defesa, que recebeu uma ordem do comandante supremo chefe da Federação Russa. Que ilações tiras sobre esta decisão? Como é que interpretas?
Boa tarde a todos. Acho que isto não tem nada a ver com um real cessar-fogo ou com a ideia de que se pode estar a começar algum tipo de processo de paz ou de cessação das hostilidades. Parece ser parte de uma espécie de guerra de propaganda entre a Ucrânia e a Rússia em torno do que está a passar em Pokrovsk e em Kupiansk, que são estas zonas muito sensíveis do Donbass, onde o próprio Zelensky reconhece que há dificuldades, mas a Rússia basicamente diz que as tropas ucranianas estão cercadas. Enfim, aquilo que a maior parte dos analistas reconhecem é que realmente há dificuldades da Ucrânia, aí como noutras partes da frente ao longo dos últimos meses, mas sobretudo a própria natureza da frente também evoluiu, ou seja, temos, em vez de uma pura guerra de trincheiras que tivemos a certa altura, temos cada vez mais, por causa da omnipresença dos drones, uma espécie de kill zone, uma zona onde é muito difícil a qualquer dos lados agir, fazer operações, etc. E portanto, há aqui uma zona muitas vezes muito indefinida, com infiltrações de um lado e do outro, mas em que geralmente a Rússia tem tido alguma vantagem, mas sempre com enormes baixas. Mas parece basicamente que isto corresponde a esta ideia da Rússia, porque isto está associado à questão de que haverá uma pausa de umas horas nesta zona de Kupiansk ou Pokrovsk para que os jornalistas possam ir ver que as tropas ucranianas estão cercadas. Basicamente parece ser uma espécie de arma de propaganda, de uma iniciativa de propaganda russa, e não propriamente algo que seja levado muito a sério. Também não estou muito a ver a Ucrânia a concordar com o cessar-fogo nesses termos, mas veremos.
O tema da Ucrânia, da guerra da Ucrânia, foi um dos temas abordados no encontro que juntou Donald Trump e o presidente chinês Xi Jinping, com Trump já a bordo do avião presidencial, a dizer que ficou acordado um esforço conjunto dos Estados Unidos e da China, por forma a que se consiga pôr termo ao conflito na Ucrânia. Terá sido mesmo assim? Há mesmo esta manifestação de disponibilidade por parte das autoridades chinesas, do governo chinês, para se juntar aos esforços de mediação tendo em vista um cessar-fogo na Ucrânia?
Realmente isso é um dos aspetos que aparece destacado, em contraste com a ausência de referências à questão de Taiwan. Portanto, esta ideia de que haverá aqui um esforço para algum tipo de negociação, algum tipo de cessar-fogo, nisso, diga-se, a posição dos Estados Unidos com Donald Trump aproximou-se mais da China do que o contrário. A China, embora não seja realmente neutra no conflito, está claramente a ajudar e muito a Rússia, sobretudo em termos económicos. Se não fosse o investimento chinês, as importações chinesas, o efeito das sanções seria muitíssimo maior e a capacidade da Rússia de sustentar este esforço de guerra seria muito mais complicada, a par de questões de fornecimento de tecnologias, etc. Mas a China sempre tem dito que defende uma negociação e que defende um cessar-fogo. Portanto, desse ponto de vista, foram os Estados Unidos com Donald Trump que passaram a pôr muito mais ênfase nesse aspeto e não me espanta, em certo sentido, que haja aqui uma certa convergência nesse tema. Agora vamos ver se isso corresponde, do lado dos Estados Unidos e do lado da China, a fazerem real pressão sobre o lado que continua a apostar na guerra, que é sobretudo a Rússia. Do lado dos Estados Unidos, parece haver agora, momentaneamente, mais uma vez, alguma disponibilidade para haver mais pressão sobre a Rússia, mas já vimos muitas mudanças nisso da parte do Donald Trump. Não sabemos se isso vai durar. Veremos se da parte da China há alguma disponibilidade para fazer esse tipo de pressão. Eu não vejo nenhum sinal de que seja assim. Parece-me bastante evidente que a China vê o regime de Putin como um aliado muito conveniente, na medida em que é um aliado até enfraquecido, muito condicionado pela guerra, sem acesso aos mercados ocidentais e portanto, nesse sentido, muito mais dependente da China. Não vejo que a China esteja muito disposta a pôr isso em questão, fazendo grande pressão sobre a Rússia. A única pressão que vimos, e apesar de tudo foi importante, foi quando surgiram especulações que pareciam mais sérias sobre a utilização de armamento nuclear pela Rússia. Aí realmente a China e a Índia, que têm ajudado muito a Rússia neste contexto, sobretudo económico, foram bastante claros a dizer que isso não seria admissível, mas para já foi a única pressão séria que se viu em termos públicos.
Vamos também já falar sobre o acordo comercial, mas falavas do nuclear. É também notícia nas últimas horas a decisão de Donald Trump de dar início a testes com armas nucleares nos Estados Unidos da América. Que interpretação fazes desta decisão do presidente norte-americano?
É difícil fazer alguma interpretação porque tudo o que ele diz basicamente naquele tweet está errado. Ou seja, não é verdade que haja testes com nucleares com armas nucleares da parte da Rússia. Eu fui verificar e o último foi em 1990. Na verdade, nenhuma das principais potências, inclusive os Estados Unidos, fizeram testes nucleares nas últimas décadas. O último dos Estados Unidos é em 92, o da França é em 96, a China também em 96. Depois há testes da Índia e do Paquistão em 98 e os do Coreia do Norte em 2017. Mas realmente, o que parece é que Donald Trump confundiu estas ações de propaganda russa que falam do tal míssil Poseidon, que tem um motor nuclear e que pode ter ogivas nucleares, como se fossem uma espécie de teste nuclear. Ora, é o teste de um míssil que pode levar ogivas nucleares, mas obviamente não foi um teste com uma ogiva nuclear, foi um teste do míssil. Portanto, pode ser que isso simplesmente queira dizer que Donald Trump vai testar mais mísseis pra tentar mostrar que não se deixa intimidar ou que não se deixa ultrapassar por Putin nesta questão de quem é que tem mais mísseis mais poderosos. Se for isso, menos mal, se for um retomar realmente testes nucleares, seria uma péssima notícia e seria algo que realmente não faz nenhum sentido, porque realmente a Rússia tem feito coisas terríveis, mas uma das coisas que não tem feito realmente há bastantes décadas, desde 1990, é um teste nuclear. Portanto, tudo isto faz parte desta propaganda, desta guerra de propaganda e desinformação em que se acena muito com a chantagem do nuclear, mas pra já, sem nenhum sinal de que haja um uso do nuclear. Portanto, vamos ver se é apenas confusão da parte do Donald Trump e uma linguagem descuidada, se é realmente uma decisão de retomar testes nucleares por parte dos Estados Unidos. E como digo, se fosse assim, parece-me um erro, não há nada que justificasse isso.
Voltemos o nosso olhar para o Médio Oriente. O Hamas, é a notícia hoje, entregou mais dois corpos de reféns à Cruz Vermelha. Também hoje há a notícia de ataques esta madrugada por parte das forças militares israelitas, tendo como alvo a Faixa de Gaza. Que avaliação fazes do cumprimento do cessar-fogo? Em que ponto estamos mais próximos de quebrar esse cessar-fogo ou, pelo contrário, de darmos um passo em frente no roteiro da paz?
Para já o que temos é um pouquinho do modelo de cessar-fogo que existe, por exemplo, com o Líbano também, entre Israel e o Líbano. Ou seja, cessar-fogo no sentido que não há todos os dias atividade militar de elevada intensidade, mas há com alguma frequência, de facto, troca de fogo de um lado e do outro, com Israel a alegar que foi atacado. Neste caso, como sabemos, houve um soldado israelita que foi morto numa emboscada. Depois temos o Hamas, também como eu previ que poderia acontecer, a dizer "não fomos nós", mas não foram. Foi uma célula do Hamas que não está a obedecer às ordens, foi a Jihad Islâmica, que não é bem o Hamas. É tudo isso que me leva realmente a sublinhar este aspecto da fragilidade do cessar-fogo. Eu diria, menos mal, enquanto for assim, pelo menos, de facto, não há um retomar continuado das hostilidades dos ataques, continua a chegar ajuda humanitária, continua a haver a recuperação de alguns cadáveres dos reféns, que isso é muito importante pras famílias poderem no fundo fechar essa página. A questão dos desaparecidos, como sabemos, é uma coisa terrível, que os regimes autoritários ou grupos terroristas muitas vezes utilizam como uma forma de tortura psicológica permanentes dos familiares das vítimas, mas realmente menos mal. Mas ao mesmo tempo justifica todos os cuidados que fomos sempre sublinhando, que é um cessar-fogo frágil, há uma enorme desconfiança entre as partes, há muitos grupos armados em Gaza, mais ou menos sob controle do Hamas, e, portanto, a possibilidade de realmente o cessar-fogo ser quebrado mais a sério continua de facto a existir. Pra já ainda não aconteceu, mas é realmente um cessar-fogo frágil e com estes episódios realmente de retomar da violência.
Há pouco dava conta do encontro entre Donald Trump e Xi Jinping, que teve como decisão a suspensão da guerra comercial pelo período de 12 meses. Isto é um primeiro passo para o fim dessa guerra comercial entre estes dois importantes polos?
Vamos ver. Também eu acho que temos que ter alguma prudência. Eu acho que é verdade que a China mostrou que tinha armas muito poderosas de coerção econômica, de retaliação contra os Estados Unidos, mostrou que no fundo se Donald Trump acha que pode usando o enorme poder americano em termos tecnológicos e econômicos, fazer pressão sobre outros Estados, a China também pode fazer isso, de uma forma que não se via basicamente desde 1945, do meu ponto de vista. Esta guerra comercial mostra que realmente nós neste momento temos claramente duas grandes potências a nível global em todas as áreas relevantes e que a China é a primeira grande potência que tem realmente meios de coerção econômica equivalentes aos dos Estados Unidos. Portanto, isso, do meu ponto de vista, é algo que Donald Trump respeita e percebe, a linguagem da força, do poder. Isso apontaria no sentido realmente de haver aqui uma certa trégua, um certo atenuar das tensões. Trump está preocupado claramente com coisas que também apareceram aqui, como por exemplo o setor agrícola americano que está a ter prejuízos tremendos, nomeadamente, por exemplo, a questão da soja, porque deixou de exportar pra China, foi uma das retaliações que a China também utilizou a par das terras raras. Isso são incentivos pra que Donald Trump recue e haja aqui condições pra uma certa estabilização das relações. Agora, acho que também será sempre uma pausa ou uma trégua um pouco instável, porque Donald Trump por natureza é muito imprevisível. Ainda hoje, por exemplo, tivemos notícia de que os Estados Unidos se preparam também pra suspender a venda nos Estados Unidos de um router muito popular, que é de fabricação chinesa, com argumentos de segurança. E eu até acredito que possa haver argumentos de segurança, mas não estou seguro que a China ache que é isso ou não veja nisso uma violação desta trégua. Portanto, acho que provavelmente vamos voltar a ter episódios deste tipo que podem voltar a fazer perigar esta trégua. Acho que à partida é um bom sinal. Veremos se realmente o acordo mais ambicioso depois é consolidado na cimeira que está prevista pro início do ano em Pequim. Esse será pra já um teste importante, mas eu acho que temos que ter aqui algum cuidado em declarar a guerra já encerrada, porque aliás nos próprios termos dos líderes e dos comunicados, embora Donald Trump seja sempre muito hiperbólico, no fundo isto é apresentado como uma espécie de uma trégua e não realmente como um acordo já. O acordo ainda virá, supostamente, na tal cimeira de Pequim no início do próximo ano.
A ver vamos se esta suspensão da guerra comercial por 12 meses é ou não para manter, tendo em conta aquilo que também aqui punhas em evidência, Bruno Cardoso Reis, o caráter imprevisível do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Fica por aqui a edição de hoje do Gabinete de Guerra com o historiador Bruno Cardoso Reis. Amanhã estamos de regresso à mesma hora.