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Está no ar o Gabinete de Guerra, um programa em que analisamos os conflitos em curso, com destaque claro para o conflito do Medio Oriente e o conflito na Ucrânia. Hoje para o comentário temos Bruno Cardoso Reis, historiador. Bruno, muito boa tarde. Vamos começar pelo Medio Oriente. Vamos começar pela questão do cessar-fogo. Parece que há solução à vista, o Hamas garante que vai libertar reféns como previsto e manter o acordo de cessar-fogo. Já há entendimento, sucesso nas negociações, mas ainda surgem algumas dúvidas se vai manter essa libertação de reféns na totalidade, de acordo com o que estava previsto. O que sabemos nesta altura e como é que se chegou a este entendimento?
Aparentemente, estas negociações em curso no Cairo, com a mediação do Egito e do Qatar, acabaram por resultar e levaram a que, para já, a expectativa seja que, ao contrário do que acontecia há 24 horas, o acordo continue a ser implementado. Agora, apesar de tudo, não estamos a falar de um avanço claro no sentido da segunda ou terceira fase, é simplesmente a manutenção desta primeira fase. E em todo caso, a própria existência destas dúvidas mostra que realmente o acordo está num estado um pouco periclitante. E, portanto, se houvesse dúvidas de que realmente é um acordo muito difícil, que há uma enorme desconfiança entre as partes e que a todo momento temos de perceber se a implementação continua ou não, se consegue passar pra fase seguinte ou não, isso fica bastante evidente com estes últimos dias.
Mas o que terá contribuído para chegar a este entendimento? Achas que foi a pressão norte-americana, foi apenas o Hamas perceber que não havia razões suficientes para cortar já com este cessar-fogo?
O Hamas está numa posição realmente de grande fragilidade, isso é bastante evidente. E como eu também tenho sublinhado muitas vezes, parece-me claro que em relação a um movimento como o Hamas, realmente a questão da força e da credibilidade à ameaça é bastante importante. E portanto, provavelmente aqui, no fundo, o peso das ameaças pesou mais. Agora, ao mesmo tempo, é verdade que também há muita pressão, nomeadamente à opinião pública árabe, no sentido de deixar claro o desagrado com estas últimas declarações, estas declarações mais recentes dos Estados Unidos e até de Israel, no sentido de colocar em cima da mesa esta ameaça de uma espécie de limpeza étnica de Gaza, e portanto, provavelmente isso também explica porque é que o Hamas fez aqui esta demonstração de alguma resistência, mesmo que aparentemente tenha acabado por recuar. Agora vamos ver realmente os próximos passos. Outra questão que também suscita dúvida é já exatamente o estado em que estão os reféns e se eventualmente muitos destes reféns também não estarão já mortos se isso acontecer, e será mais um problema em termos de implementação, se isso não colocará em questão a disponibilidade de Israel para continuar com as negociações.
Sendo que esse ponto de estado dos reféns, a última libertação mostrou que reféns já muito frágeis, muito pouco nutridos. Vamos ver o que acontece também ao longo desta troca que vamos tendo já há algumas semanas entre Israel e Hamas, reféns por prisioneiros. Vamos falar aqui também um pouquinho da Ucrânia. Donald Trump continua a dizer que há boas possibilidades de que a negociação em curso leve ao fim da guerra. Hoje disse isto mesmo: "A guerra não se terminou num dia", mas parece que está no centro da discussão presidencial norte-americana quase todos os dias. O que de facto podemos esperar deste papel de Donald Trump em tudo isto e da América em tudo isto, nesta semana em que tivemos pela primeira vez Zelensky a dizer que está disponível pra trocar território, ou seja, trocar o território que conquistou na Rússia por território ucraniano que a Rússia invadiu. Que papel é que os Estados Unidos vão ter em todo este processo?
O papel dos Estados Unidos é incontornável, porque são a maior potência militar a nível global, são o país que mais apoio militar forneceu à Ucrânia, embora seja muito importante sublinhar que não é toda verdade aquilo que diz Donald Trump, que os norte-americanos não deram mais apoio à Ucrânia que os europeus, deram menos, porque numa guerra não contam só as armas, que os europeus também dão, não na mesma quantidade que os Estados Unidos, porque isso seria impossível. Os Estados Unidos são de longe a maior potência militar a nível global, mas também é preciso dinheiro, também é preciso comida, também é preciso cuidar de refugiados, etc, coisas que os europeus fazem numa escala que é muito superior à dos norte-americanos. Mas a verdade é que o papel dos norte-americanos é crucial. Tem um papel também fundamental na própria NATO, embora em princípio, formalmente, cada país tenha um voto, e realmente cada país tem realmente um voto e um veto na NATO. É evidente que os Estados Unidos têm uma influência muito maior, por causa precisamente de serem a maior potência militar a nível global. Em termos da diferença que faz Donald Trump, cria aqui uma enorme incerteza, uma enorme propensão aparentemente pra fazer cedências à Rússia, sempre houve a desconfiança de que havia esse risco. Realmente Trump deu muitos sinais ao longo da sua carreira política de, por regra, ter grande simpatia por líderes autoritários, ditatoriais, inclusive Putin, e ter por regra grande antipatia, pouco respeito por líderes democráticos. Ele tende a ver como fracos, como por exemplo Os líderes europeus em geral ou o líder ucraniano. Para mim também parece evidente que ele não terá nunca desculpado Zelensky pelo fato de não lhe ter dado aquilo que ele pediu a certo momento, que era arranjar provas de que Joe Biden de alguma forma tinha estado envolvido em corrupção ou a sua família teria estado envolvida em corrupção na Ucrânia. Tanto quanto sabemos, essas provas não existem, porque essa corrupção não existiu, mas a verdade é que isso para Donald Trump, tipicamente não é algo que seja muito relevante. Aqui o grande paradoxo é que obviamente estamos a falar de cedências à partida, antes ainda das negociações formalmente começarem. Cedências e até aparentemente de garantias que envolvem países europeus sem envolvimento dos aliados europeus e de concessões a uma potência cujo objetivo declarado há muitos anos, com Putin no poder, é o mais possível enfraquecer a influência e o peso dos Estados Unidos a nível global.
Olhando aqui para a NATO também em tudo isto, a NATO veio dizer que não pode permitir que Putin conquiste mais território. Isto foi o que disse Mark Rutte. Já está aqui a pensar também nesta questão da negociação de paz, pode envolver esta questão de troca de território? E se de facto a Rússia conseguir conquistar mais território, deixa a Ucrânia numa posição mais frágil?
A posição crucial, mais do que do secretário-geral, que é suposto ser um pouco o representante do conjunto dos Estados e Mark Rutte assumiu o lugar muito com a agenda e com a garantia de que ele teria aqui uma espécie de receita para lidar bem com Donald Trump. Aparentemente, os resultados não estão a ser brilhantes até agora, mas é a posição dos Estados e dos principais Estados, nomeadamente europeus, membros da NATO, ou seja, aí já tivemos declarações bastante claras da Grã-Bretanha, da França, até da própria Alemanha, no sentido de se demarcarem e de criticarem esta posição norte-americana, ou seja, a ideia de que uma paz justa e duradoura tem de ser uma paz através da força e não da fraqueza, não de cedências antes das próprias negociações começarem, que à partida é uma questão de princípio, não deve haver aceitação de um regresso do direito de conquista, portanto, a Rússia não deve ser recompensada por ter ocupado território pela força. Agora, obviamente aqui também os europeus têm de fazer alguma autocrítica. Como é que se deixaram estar numa situação de tão grande dependência em relação aos Estados Unidos, em termos da sua defesa? É verdade que isso parecia fazer muito sentido há muitas décadas, mas com Donald Trump fazia cada vez menos sentido e também mesmo em termos do nível de apoio que deram aos Estados Unidos, aí pode-se também criticar a própria anterior administração, esta obsessão com evitar uma escalada, com evitar passar linhas vermelhas que seriam supostamente muito perigosas nas relações com a Rússia. É preciso recordar que, por exemplo, num país como a Alemanha, que está aqui numa posição de muito maior proximidade geográfica, da ameaça russa do que muitos outros países europeus ou que os Estados Unidos, continua a resistir a fornecer certo equipamento militar à Ucrânia. Portanto, se calhar os europeus também deviam ter feito mais há mais tempo.
Antes de terminarmos, aqui uma outra questão. Disse o ministro polaco, o ministro da Defesa da Polónia, que depois da reunião da NATO desta quinta-feira, foi acordado um plano para aumentar a força de resposta rápida da aliança. O que é isto? O que estamos aqui a falar? O que é esta força de resposta rápida e o que é que de facto os países podem fazer para aumentar essa força?
A NATO, ao contrário do que é normal numa aliança, não é apenas uma aliança, é uma organização político-militar. Portanto, tem estes mecanismos de consulta regulares entre os principais responsáveis, inclusive uma vez por ano ou mais se for necessário entre os chefes de Estado e de governo, mas tem também uma estrutura de comando integrada e tem uma espécie de reserva estratégica, ou seja, forças que sendo nacionais estão atribuídas à organização com graus diferentes de capacidade de mobilização e, portanto, esta força de reação rápida faz parte dessa estrutura e são à partida as forças mais capazes em termos de deslocação, mobilização e de mobilidade rápida e robusta de darem resposta a uma qualquer situação de crise ou ameaça. Isso fará algum sentido. Agora, o grande problema sempre que se coloca é se os Estados Unidos assumem este tipo de posições sem consultar, sem ter em conta os seus aliados europeus, nomeadamente aqueles mais ameaçados pela Rússia, que credibilidade é que tem depois vir anunciar forças que, em última análise, dependem sempre da decisão dos Estados. Ou seja, elas podem estar atribuídas no papel a esta estrutura de reação rápida, mas têm de ser sempre os Estados a dar o ok na hora-chave para elas poderem ser utilizadas e portanto será que isso acontecerá, nomeadamente com forças de um país-chave na estrutura militar da NATO, como é os Estados Unidos.
Nuno Cardoso Reis, muito obrigado por mais esta participação no nosso Gabinete de Guerra. Um abraço.
Obrigado. Bom dia.