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É o último Gabinete de Guerra desta semana aqui na tarde, em direto. Estamos com o Bruno Cardoso Reis, mas também com a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz. Hoje temos um jogo de cartas, a Vanessa já vai explicar, mas primeiro os desenvolvimentos sobre este caso do jornalista do Wall Street Journal que está detido na Rússia.

Joe Biden pede à Rússia que liberte este jornalista acusado de espionagem. Bruno, começando por aqui, olá, como é que tens olhado para os desenvolvimentos deste caso e que repercussões é que podem ter? Pode vir a ser utilizado este jornalista, por exemplo, numa troca de prisioneiros?

Olá, boa tarde. Primeiro, tudo há que dizer que isto é absolutamente lamentável. Aliás, segui as reportagens dele no Wall Street Journal. Ele é um ótimo correspondente, alguém que tem uma ligação familiar à Rússia, os pais nasceram na Rússia e depois emigraram para os Estados Unidos, naquilo que era então a União Soviética, é um fluente falante de russo e caracterizava-se por tentar responder àquelas perguntas mais difíceis em sítios que não era Moscovo e que não correspondiam só às conferências de imprensa oficiais. Aparentemente, ele estava em Ecaterimburgo, que é uma cidade importante na zona dos Urais e que também tem alguma indústria militar, provavelmente a tentar perceber como é que estava a funcionar a indústria militar russa, e era obviamente um jornalista devidamente acreditado. É verdade que os serviços de espionagem, por vezes, utilizam pessoas que obviamente não se identificam como espiões, mas como diplomatas ou como empresários, como uma variedade de ocupações. Realmente, ser jornalista à partida não é a melhor cobertura para um espião, porque é alguém que é logo identificado pelas autoridades como uma pessoa de interesse e que deve ser seguida e acompanhada. Eu interpreto isto, obviamente, sem ter aqui nenhum tipo de informação e confiando naquilo que diz o Wall Street Journal, que é que ele realmente não é um espião. Se fosse realmente ocupava muito bem o seu tempo, conseguia fazer boas reportagens ao mesmo tempo. Mas aquilo que me parece mais credível é que se trate aqui, por um lado, de uma manobra para intimidar a imprensa estrangeira, para intimidar os correspondentes estrangeiros, para lhes dizer que se for para ir a conferências de imprensa no Kremlin, tudo bem, mas se for para fazer reportagens a sério, fora da caixa, que coloquem problemas à versão oficial russa, podem ter problemas sérios. A outra é que faz parte também de um padrão mais amplo que a China também já tem recorrido e que a Rússia já recorreu, por exemplo, com aquela basquetebolista, que é uma das facetas desta nova Guerra Fria, desta Segunda Guerra Fria, e que também já se verificou na Guerra Fria anterior. Aliás, o último caso de um jornalista americano detido com acusações de espionagem foi precisamente em 1985, 86. No fundo, é criar reféns, utilizar estas pessoas como instrumento de troca, de pressão sobre os Estados Unidos, troca por pessoas que são detidas por atividades criminosas, mas que estão ligados de alguma forma aos interesses do Estado russo. Aliás, aconteceu isso recentemente, há uns dias, nos Estados Unidos. É isso que me parece o mais provável, a combinação destas duas coisas, sendo que isto corresponde a um agravar muito significativo da dimensão repressiva e autoritária do Estado russo, a supressão de tudo o que eram espaços que ainda iam sobrevivendo, mesmo com algum risco de algum pluralismo, de alguma liberdade de expressão. Toda a imprensa russa minimamente independente desapareceu, ou melhor, só não desapareceu porque continua a tentar funcionar no exílio. Havia aqui a outra janela, que eram os correspondentes estrangeiros, que também está a ser altamente pressionada. E temos aquele caso, que é quase inqualificável, de um pai que é detido porque a filha desenhou um desenho em que se retratava a guerra na Ucrânia como ela é, ou seja, uma agressão russa. Se o nível de repressão já chega a esse ponto, de um pai ser preso porque a filha faz o desenho errado na escola, não é de espantar que jornalistas estrangeiros também tenham um tratamento deste tipo, como se fossem espiões.

Bruno, o presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, disse que está preocupado com o facto da Polónia poder querer invadir o seu país e diz que é por isso que precisa de ter armas nucleares russas na Bielorrússia. Isto faz algum sentido?

Não, não faz nenhum sentido. Vamos lá ver, isto não é uma questão de teses, ou de hipóteses, ou debate. O único país que neste contexto foi usado para invadir outro foi a Bielorrússia. Isso é factual. Em fevereiro de 2022, há um ano atrás, a Bielorrússia foi usada por tropas russas para invadir um outro Estado soberano, que é a Ucrânia. Essa é a única invasão a partir de outro país que se verificou nesta região. A Polónia não foi usada para invadir país nenhum há muitas décadas, pelo contrário, a última vez que houve uma invasão foi precisamente da Alemanha nazi à Polónia e da União Soviética à Polónia, porque convém recordar que em setembro de 1939, quando começou a Segunda Guerra Mundial, nós falamos sobretudo da invasão nazi da Polónia, mas ela foi uma invasão coordenada com uma invasão soviética da zona oriental da Polónia por Stalin depois daquele pacto Molotov-Ribbentrop, que era apresentado como um pacto de não agressão, mas que realmente tinha cláusulas secretas, que eram cláusulas de agressão e divisão da Polónia. Isso não faz nenhum sentido. Depois há quem utilize isto para vir falar de coisas como dilema de segurança, que sim, que a Bielorrússia e que a Rússia têm aqui um grande problema de um dilema de segurança, que têm a NATO às portas e a Polónia é um grande problema. A Rússia é uma potência nuclear, mas alguém invadiu a Rússia nas últimas décadas? A última invasão que eu saiba foi, mais uma vez, da Alemanha nazi. Nessa altura, a União Soviética não tinha armas nucleares. Tudo isto, de facto, é uma narrativa que não faz nenhum sentido. E se alguém tem razões no contexto de uma análise do ponto de vista do dilema de segurança para se sentir inseguro por causa do nível de investimento de armamento, por causa da quantidade de armamento São vizinhos da Rússia e também por causa da utilização agressiva desse armamento para invadir uma série de países vizinhos. Eventualmente, há uma resposta proporcional que seria da parte da Polônia vir pedir agora aos seus aliados, em particular aos Estados Unidos, para eles colocarem também armas nucleares táticas no seu território para se defenderem desta aproximação do arsenal nuclear soviético. Eu acho que, para já, os sinais não são esses e mesmo nos Estados Unidos o sinal foi de que não iriam entrar numa corrida armamentista com a Rússia a respeito disto, mas de facto não parece que isso faça nenhum sentido. A única coisa que faz sentido é que isto corresponde, e nesse aspecto Lukashenko terá alguma razão quando diz que isto é para o defender. Se for para defender o regime dele, realmente faz algum sentido, porque cria aqui uma espécie de um pretexto adicional para a presença militar russa na Bielorrússia. Um pretexto adicional para a Rússia poder dizer, se voltar a haver protestos massivos e uma ameaça ao regime de Lukashenko, como houve em 2020, poder dizer ainda mais: "Nós temos que intervir porque temos lá armamento nuclear e não podemos correr o risco de esse armamento nuclear cair nas mãos erradas." Há aqui uma espécie de chantagem nuclear adicional, uma ligação umbilical maior entre o regime bielorrusso e o regime russo.

Bruno, o Exército dos Estados Unidos produziu um baralho de 52 cartas para ajudar os militares a distinguir entre equipamento militar e armamento amigo e inimigo. A técnica não é nova, foi usada uma semelhante para ajudar a identificar Saddam Hussein e outros membros do regime iraquiano. Podes explicar-nos em que consiste? Tem que ver com a proliferação de armamento de países da NATO em países que não pertencem à NATO? E será que este baralho de cartas pode ajudar a virar o jogo na Ucrânia?

Sim, uma grande questão, um grande problema nas guerras é o que em inglês se chama de "blue on blue", a expressão em portuguesa, que é ainda mais irônica ou paradoxal, é o chamado fogo amigo. Mas é um problema muito real num conflito, que é as tropas não saberem identificar um avião, uma peça de artilharia, um tanque seu ou de um país aliado e atacarem esse avião, esse tanque, as tropas amigas, aliadas ou até do mesmo país matarem-se uns aos outros porque não conseguem identificar devidamente o equipamento. Obviamente, isso é muito mais assim quando, como é o caso na Ucrânia, grande parte do seu arsenal é um arsenal ainda de tipo soviético. Agora está a receber muito material, muito equipamento militar ocidental, com o padrão NATO, e muito desse material é novo para os militares ucranianos, mesmo os mais bem treinados, os mais veteranos. Há, de facto, essa necessidade de ajudar a identificar esse equipamento. Há mecanismos para evitar isso, este é um mecanismo bastante simples e bastante antigo, mas que eu acho que poderá ter a sua utilidade. Há de facto esse baralho de cartas do Saddam Hussein e dos seus principais homens de mão no contexto da ocupação americana do Iraque. Aliás, eu tenho esse baralho de cartas que depois foi vendido ao público nos Estados Unidos. Mas, por exemplo, isto começou, tanto quanto eu sei, na Segunda Guerra Mundial. Os norte-americanos criaram também baralhos de cartas, nomeadamente para identificar aviões alemães e aviões aliados, portanto americanos e britânicos, precisamente para evitar que as antiaéreas, as tropas no terreno, estivessem a abater aviões errados, aviões amigos ou da própria Força Aérea, e também, obviamente, conseguissem identificar os aviões inimigos. Eu acho que é um método simples, mas que não vejo razão para não continuar. Acho que poderá continuar certamente a ter alguma eficácia e neste contexto da Ucrânia realmente faz especial sentido, porque como referias, é um país que não pertence à NATO e portanto, de facto, não tem familiaridade com muito deste equipamento.

Bruno, só para terminarmos, foi conhecido há pouco um novo balanço das Nações Unidas, mais de 8 mil civis mortos na Ucrânia. Diz a ONU que é apenas a ponta do iceberg. Passou um ano e um mês desde o início deste conflito. Comparando até com outras guerras, se nos conseguires também aqui enquadrar, naturalmente que uma morte já é sempre demais, mas estamos perante, de facto, a ponta do iceberg?

Sim, em termos académicos, em termos das convenções de análise e codificação dos dados, uma guerra define-se por mais de mil mortos em combate por ano. E este número é relativamente baixo porque a maior parte das guerras desde 1945, realmente muitas vezes são guerras de relativa baixa intensidade. É preciso evitar aqui generalizações. Houve pelo menos mais 10 conflitos desde 1945 que tiveram mais de 1 milhão de mortos. Guerras como, por exemplo, a Guerra Civil Angolana ou o conflito no Vietname ou a Guerra Soviética no Afeganistão. Mas, em todo caso, e sobretudo no contexto europeu, realmente é um número que não tem precedentes, basicamente desde a Segunda Guerra Mundial, e portanto mostra que é realmente uma guerra com grande intensidade e obviamente aqui só estamos, obviamente entre aspas, a falar de mortes civis devidamente documentados, identificados, com nomes completos, com dados completos e, portanto, como as próprias Nações Unidas dizem, os números reais poderão ser duas ou três vezes isso. E obviamente, isso não inclui os mortos e feridos graves militares, ou seja, as baixas militares, que há as estimativas que apontam, quer num caso, quer noutro, para mais de 200 mil baixas e talvez, por exemplo, no caso da Rússia, talvez mais de 150 mil mortos. Portanto, isso seria, de facto, um número extraordinário e, por exemplo, muitíssimo superior ao que a Rússia sofreu no Afeganistão em 10 anos, que é o último grande conflito russo ou soviético. E portanto, isso dá bem uma ideia do grau de intensidade deste conflito e do seu impacto em termos de mortos civis e mortos militares, sendo que obviamente aqui os militares também podem ser vistos como, em certo sentido, vítimas deste conflito, sobretudo aqueles que são obrigados a combater, por exemplo, no caso da Rússia, com estas mobilizações parciais.

Bruno, ficamos por aqui hoje no Gabinete de Guerra. Estás, como sempre, de volta também ao fim de semana com o Cinco Continentes, depois das notícias das 11 h. Bom fim de semana.

Obrigado.